domingo, 4 de maio de 2008

Poema à Mãe

(Imagem: "Mother nursing her child" by Pierre Auguste Renoir 1886)

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

4 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Lindíssimo poema, lindíssimo.

Donagata disse...

Eu também acho...

Anónimo disse...

LINDO LINDO LINDO !!!
Ola Sra Donagata :)
Mais uma vez aqui andam os meus Olhos , tantas e tantas vezes turvos com tamanha Maravilha de Textos por si Postados !!! Muito Obrigado :)
Este LINDO e Maravilhoso Texto eu Dedico-o a Minha Mae !!!...

Tem um Gosto Maravilhoso , Obrigado !!!

Beijo , A.B.

Donagata disse...

Obrigado A.B. reparei que hoje fez um périplo razoável através do meu blog. Espero que entre umas coisas e outras lhe possa ter dado algum prazer. A mim, sinceramente, dá-me imenso gosto receber as suas visitas bem como ler os seus comentários sempre estimulantes.
Beijos e bom fim de semana.