segunda-feira, 31 de março de 2008

"Rápida, a sombra" de Vergílio Ferreira

Enquanto tentava reorganizar algumas estantes do meu escritório para nelas conseguir arrumar uns quantos livros já lidos e que se iam amontoando desordenadamente em locais menos apropriados, encontrei, bem apertadinho no meio de outros, “Rápida, a sombra” de Vergílio Ferreira. Peguei nele, folheei-o, cheirei-o (tem já uns laivos do odor de livro antigo assim como as páginas ligeiramente amarelecidas), mas não me surgiu qualquer memória quanto ao seu conteúdo.

Então, resolvi lê-lo, ou relê-lo se dele viesse a encontrar memória.

Li-o ontem enquanto me resguardava do mau tempo à conta de uma estúpida constipação que tem tanto de desagradável como de inoportuna. E, seguramente, li-o pela primeira vez. Excelente! Não é um livro que se esqueça. É profundo, deixa marca, aliás como os outros que conheço do autor.

Muito centrado no eu e numa evidente obsessão do autor pela inevitável degradação física que culmina na própria morte cortando assim, de forma absurda, a promessa de imortalidade que sente; “a consciência da sua infinitude limitada”.

O livro desenrola-se em dois (talvez três) planos de ficção, em espaços distintos: a praia, o escritório e (talvez), a aldeia (a casa dos pais e a sua no monte). Iniciam-se separados mas vão-se interligando, entretecendo uma trama em que se fundem inteiramente e se tornam difíceis de distinguir as oscilações entre a imaginação e a recordação. Talvez a única coisa que nos ajude a distinguir o real do sonho seja a presença da figura da mulher; a sua, Helena, ou a sonhada, Hélia.

Ou então também pode ser que tudo não passe de um plano só em que só o sujeito se narre a si mesmo e tudo o resto seja apenas o intrincado dos seus sonhos, das suas realidades lembradas, das suas realidades sonhadas e, fundamentalmente, dos seus medos.

Seja como for, é um poema fantástico que se desenrola ao longo destas duzentas e quinze páginas de excelente prosa.

domingo, 30 de março de 2008

"Rio das Flores" de Miguel de Sousa Tavares

Depois de alguns meses a ser constantemente preterido por outros livros que se encontravam também em “lista de espera”, lá acabei por ler o “Rio das Flores” de Miguel de Sousa Tavares.


Mais um romance histórico, que me pareceu até mais interessante que o seu antecessor, o “Equador”. Centrando a acção e as personagens principais numa herdade alentejana, de onde saem para o Lisboa, Espanha, Brasil mas aonde sempre (ou quase) regressam. As suas vidas vão-se desenrolando com os seus encontros e desencontros, amores e desamores, ao longo de um tempo histórico que vai servindo de pano de fundo ao registo romanesco.

Assim, através da sua escrita elegante e fluida, vamos percorrendo os desnortes da Primeira República, o início do Estado Novo, a Guerra civil Espanhola a 2ª Guerra Mundial, a subida de Getúlio Vargas ao poder, sempre de mão dada com as personagens bem caracterizadas e fortes sobretudo as de Pedro e Diogo. Considero que as femininas estão talvez, um pouco mais presas a alguns estereótipos.


No que diz respeito à pesquisa histórica pareceu-me estar o livro suficientemente bem documentado para aquilo que se exige de uma obra de ficção.
Gostei particularmente: do perfil que traça de Salazar, um líder tacanho, mesquinho, fechado em si e ao mundo, ambíguo, gerando um país sem horizontes nem ambições; das vívidas descrições de cenas da guerra civil em Espanha, bem como de algumas curiosidades como a primeira travessia do Atlântico por um dirigível, o Hindenburg, que levou Diogo da Alemanha ao Rio de Janeiro.

Gostei.

sábado, 29 de março de 2008

A poesia é um paradoxo!

(Imagem daqui)

A poesia é um paradoxo!
É a minha opinião.
Fala de amores, de afeições,
de inconsequentes paixões,
de suspeita, de emoção,
tudo em verso, em harmonia,
em perfeita consonância
com alguma inspiração.
Ora se a alma, o alento
berço do meu sentimento,
é insegura, inconstante,
ora triste, ora exultante,
como posso num momento
versejar apaixonada,
sabendo que ao mesmo tempo,
me sinto infeliz, destroçada?
É um disparate, um absurdo
uma total contradição.
Será lógica a poesia?
Eu por mim, acho que não!

quarta-feira, 26 de março de 2008

Gato do Bolhão

(Imagem: "Gato do Bolhão" fotografia de Joana Almeida)

Olhas em frente,
tranquilo
e vês o tempo a passar.
Pousa uma pomba,
altiva,
que acompanhas com o olhar.
És calmo, de temperamento.
Fome? Nem em pensamento,
não sabes o que isso é,
pois desde que tens ideia,
que tens a barriga cheia.
Primeiro era só o leitinho.
Agora é a sardinha, o verdinho,
Por vezes a marmotinha,
que a senhora Matildinha,
não deixa de te chegar.
E quando o peixe, em demasia
já começa a enfastiar,
lá vem a carne, uma apara,
logo outra e outra ainda
que ali a ti’Adosinda,
não para de te lançar.
De afagos não sentes falta,
muitas mãos te acariciam.
Esses teus donos da praça
e os muitos visitantes
que te olham e acham graça
e com teu olhar se deliciam.

Olhas em frente e aprecias
esta tua condição.
És um gato afortunado!
És um gato do Bolhão!

terça-feira, 25 de março de 2008

Porto Sentido


(Imagem: "Quem vem e atravessa o rio" de Joana Almeida)

Adoro este poema bem como a música que lhe foi adaptada quase tanto quanto gosto do Porto... Consegue exprimir o sentimento reconfortante de quem chega a casa.

Composição: Carlos Tê / Rui Veloso

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

[refrão]
Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

sábado, 22 de março de 2008

"O Império dos Pardais" de João Paulo Oliveira e Costa

...”Ao contemplar as aves que esvoaçavam pelos cantos da praça voltou a lembrar-se de seu pai. Enquanto os pombos tinham o seu império no centro, os pardais continuavam a dominar as zonas periféricas da praça. Em sua circulação, carregando gravetos e migalhas, eram por vezes molestados, pelas aves maiores que até chegavam a tirar-lhes a comida que transportavam. Apesar disso, os pardais não desarmavam, e numa ruela contígua a S. Domingos, tinham-se aliado aos estorninhos contra os melros, e ganhavam território, enquanto nas imediações da Rua Nova d’el –Rei, juntavam-se aos rouxinóis para afrontarem os piscos e as incursões das gaivotas. Outros refaziam alianças com as andorinhas recém-chegadas e dominavam áreas que as pegas tinham por suas e que os pombos também cobiçavam”...


Belíssima metáfora que compara os portugueses, aos pardais. Os primeiros constroem o seu extenso império além-mar enquanto outros reinos maiores e mais poderosos se degladiam entre si. Os pardais, de uma forma semelhante, aproveitam a distracção das aves mais possantes para alargarem os seus espaços.

Extraordinária obra de ficção baseada na mais apurada realidade histórica do reinado de D. Manuel I.
Através de um romance suportado por personagens riquíssimas, leva-nos a conviver com um quotidiano possível na exótica Lisboa quinhentista. Cruzam-se sabiamente as personagens ficcionadas, apaixonantes, com outras que deveras existiram. Revela-nos os jogos de intriga, de conluio, de mentiras, de espionagem, de alianças que sempre envolveram a corte.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia Mundial da Poesia


(Imagem de : Imán Maleki)

Claro que não podia deixar passar este dia sem aqui colocar algumas das muitas poesias dos muitos poetas que me agradam.


A dificuldade consistiu apenas na selecção. Mas, afinal, como gosto de todas...

Aqui vão apenas algumas.


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
Barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


Este amor desarrumado
de olhos, beijos e cama,
jornais silêncios e drama,
filhos, quadros e comida,
encontros cinzas e vida,
não seria mais amado
se pintado e organizado
em contas, perdas e danos,
meu amor de tantos anos.

Maria Sofia Magalhães em “A luz que se esconde”


O Teu Riso

Tira-me o pão , se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Pablo Neruda em “Os Versos do Capitão”, tradução de Albano Martins


E, inevitavelmente...



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

terça-feira, 18 de março de 2008

Desagradecimento


Será que tu nem suspeitas
como magoa essa frieza,
essa altivez, essa certeza,
de quem tem sempre razão?
E toda a sensibilidade
Com que exiges ser tratada,
Ainda não te ensinou nada?
Não tem reciprocidade?
Abomino a intolerância
que mostras com frequência,
já tenho pouca paciência
para a tua grande importância!
Fico triste, desapontada
ao sentir a ingratidão.
Mas não me fiques obrigada,
não te quero essa atenção…
(Imagem: "Distância e distanciamento" de Peter Lanyon)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão
In Movimento Perpétuo, 1956
(Imagem: Pintura de Imán Maleky)

domingo, 16 de março de 2008

"Crimes Solitários" de Pedro G. Rosado

Como apreciadora de livros policiais e fã incondicional de alguns dos grandes mestres (Agatta Christie, Sir Arthur Conan Doyle, Erle Stanley Gardner, Rex Stout, Ruth Rendell, Geroge Simenon, Ellery Queen, Mary Higgings Clark, Patrícia D. Cornwell, Leonardo Padura, Pepetela com o seu “Jaime Bunda”… citando apenas alguns), comprei por me ter suscitado grande curiosidade, “Crimes solitários” de Pedro G. Rosado. Essa curiosidade advinha do facto de ser policial, por um lado e, por outro, de ser de um autor português dado termos muito poucos a dedicarem-se a este género literário.

Pois bem, acabei ontem a sua leitura e, embora possa considerá-lo razoavelmente interessante, não chegou para me convencer verdadeiramente.
Com um enredo que envolve muitos temas como o tráfico de droga, a corrupção, a ambição, a homossexualidade, a intriga, tudo assuntos passíveis de dar belíssimas teceduras, pareceu-me, no entanto, que foram pouco aproveitados, surgindo as situações aparentemente do acaso (intencional?), de forma bastante previsível e, talvez, pouco consistente. Rapidamente se descortina o sentido da trama e se subentende o seu final.

Tendo a seu favor o facto de se desenrolar em terras alentejanas, com personagens cujas atitudes compreendemos bem por se enquadrarem no tipo de pessoas que nos rodeiam e que se inserem no nosso panorama de criminalidade, creio que, foi um pouco exagerado na quantidade de situações em que os envolveu em detrimento da subtileza e do suspense bem como da solidez das personagens.

Reconheço que tenho, em relação à literatura policial, um grau de exigência maior do que em relação a qualquer outro género literário. Não posso dizer, e repito, que tenha ficado inteiramente convencida, contudo irei tentar uma segunda abordagem; tenho intenção de ler “Ulianov e o Diabo” e logo verei se é para manter ou se vou modificar a opinião que este livro me deixou em relação ao autor.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Sonho


(Imagem: The dream by Pablo Picasso)

Por vezes sinto-me num sonho,
solto-me, deixo-me voar
dispo esta pele que exponho,
escapo de mim e suponho,
poder não mais acordar…
E fico nesta ilusão,
nesta quimera, nesta ideia,
a minha alma devaneia,
num capricho de evasão.
Fantasio – me a acostar,
em porto de águas serenas,
onde escondo as minhas penas
e retomo o meu vogar.
Mas esta fantasia, esta cegueira,
este delírio algo insano,
não é mais que uma barreira,
uma mentira grosseira,
a criar meu próprio engano.

Donagata em 2008/03/13

quinta-feira, 13 de março de 2008

Estranhas associações de ideias...



Não sei porquê ao ver este vídeo vieram-me à ideia as nossas aulas de cárdio local. Será pela música (a qual também dançamos), ou pela figurinha que fazemos (embora com um pouco mais de roupinha e sem nada de censurável)!

quarta-feira, 12 de março de 2008

"Quem quer ser bilionário" de Vikas Swarup

Um pouco dando continuidade ao poste anterior, acabei hoje de ler um livro que me foi emprestado e proposto pelo meu professor de hidroginástica. O livro chama-se"Quem quer ser bilionário" e é de Vikas Swarup.
Quando me apercebi que era indiano, vieram-me imediatamente à ideia pequenos excertos de filmes musicais com que me tenho divertido no You Tube. E se a literatura for como o cinema? Confesso que me assaltaram muitas dúvidas antes de dar início à leitura do livro. Contudo, decidi ultrapassar os preconceitos e confiar no juízo do Pedro que é um rapaz inteligente e culto e lá procedi à sua leitura.

Devo dizer que se revelou uma agradável surpresa. É um livro de muito fácil leitura, divertido, embora comovente e até dramático. Revela-nos os aspectos mais sórdidos de uma Índia contemporânea cuja sociedade se bipolariza entre a grande riqueza e a extrema pobreza. É neste sector de população que deambula a nossa personagem.

A história tem por base um concurso televisivo que é ganho por um empregado de um bar, pouco mais do que analfabeto, que, contra todas as expectativas e estratégias de boicote, consegue acertar correctamente a todas as perguntas ganhando um prémio nunca antes ganho.
Cria-se um problema à empresa promotora do concurso que não tem dinheiro para pagar o prémio uma vez que o concorrente gorou todas as estratégias previstas para o concurso.
Na tentativa de evitarem o pagamento, o concorrente é preso e torturado a fim de se confessar autor de fraude. É aí que surge providencialmente uma advogada que se dispõe a defendê-lo, sendo para isso necessário ser conhecedora de toda a história.

A nossa personagem inicia aqui a narração dos momentos da sua atribulada vida desde que foi abandonado à nascença e vai desenrolando episódios que, de uma forma ou de outra o colocaram em contacto com situações que o tornaram conhecedor das respostas às doze perguntas que lhe foram feitas.

O autor, Vikas Swarup, mistura de forma agradável e inteligentemente desordenada, a ligeireza da comédia e os aspectos mais dramáticos e comoventes. Fala-nos de uma sorte que mais não é que o resultado fortuito dos muitos azares da vida de Ram Mohammad Thomas.

Valeu a pena confiar no Pedro.
Quinta-feira trocaremos impressões.

terça-feira, 11 de março de 2008

Um Health Club à minha medida


Como alguns que por aqui vão passando certamente já perceberam (se não andarem completamente distraídos), frequento um health club aqui das imediações com certa regularidade.
- Grande coisa! - Dirão vocês, Até parece que é única!
Claro que não; nem sou única nestas andanças de healthclub, nem tal facto é razão para um poste. Ainda não estou assim tão falha de ideias, bolas.

O que por lá se passa é que é, tanto quanto é do meu conhecimento, bastante diferente do que se passa habitualmente em espaços semelhantes.
Claro que vou lá para cuidar do corpo; é claro também que “em corpo são, mente sã” mas, não vá o diabo tecê-las, por lá tenho cuidado efectivamente também da mente.

É verdade, além das sessões de cardio, das aulas de hidroginástica, dos momentos de natação, dos banhos turcos, do jacuzzi, da sauna e das massagens acrescente-se-lhe, e agora pasmem, o ambiente familiar que nos envolve e que permite: os almoços acompanhados de vivas conversas sobre temas literários, científicos e até filosóficos, a troca de livros com outras/os frequentadoras/os e mesmo com os próprios professores e os comentários e trocas de impressões que daí advêm, a apreciação de poesia de autor e outra, as exposições de diversos tipos de arte com que somos mimados nos espaços comuns…
Vá lá, digam agora que não é grande coisa!
É um health club à minha medida!

domingo, 9 de março de 2008

Tracy e Envie, jardineiros por vocação...

Quem por aqui passa de vez em quando já deve, certamente, ter desconfiado que gosto muito de animais. E, sobretudo de gatos, animal com que, de algum modo, me identifico.
Mas hoje vou mesmo é falar de plantas. É que eu também gosto de plantas e aprecio vê-las luxuriantes, floridas ou não, cheias de vida, ora no jardim, ora dando cor e viço aos cantos da minha sala.

A verdade, porém, é que não sou tão habilidosa na aplicação dos cuidados que elas exigem quanto o sou naqueles que os animais requerem.
Então é vê-las ir definhando sob o meu olhar incrédulo e impotente, numa lenta e prolongada agonia que não há regas, adubos ou pulverizações específicas que tragam remédio à inevitável morte.

Ora, tendo por diversas vezes observado este constante assassinato vegetal (homicídio involuntário mas, mesmo assim, homicídio), o Envie e a Tracy, os meus hóspedes de estimação, deitaram patas ao caminho e lançaram-se na árdua tarefa de me ajudarem, talvez, quem sabe, ensinarem a cuidar das pobres plantas.

Então, afanosamente e sem cansaços aparentes ou desmotivações, escavam, mastigam, cortam (presumo que para replantar…) e sei lá que mais num tratamento sem igual às massacradas plantas.
A verdade é que são praticamente tão mal sucedidos quanto eu tenho sido. Contudo, proporcionam às pobres plantas uma morte menos lenta e muito mais eficaz.
São apologistas de metodologias mais radicais: ou sobrevivem mais robustas do que nunca, ou morrem de vez sem direito a agonias prolongadas.

São assim estes bichanos com vocação para a jardinagem e sempre prontos a dar uma "patinha" para me ajudar…

sábado, 8 de março de 2008

"o remorso de baltazar serapião" de Valter Hugo Mãe

Porque tenho sempre alguma curiosidade em conhecer novos escritores, sobretudo nacionais, tinha há já algum tempo em “lista de espera” o livro de Valter Hugo Mãe, prémio literário José Saramago 2007 “o remorso de baltazar serapião”.
Confesso que a sua leitura constituiu para mim uma surpresa enorme; foi quase como se tivesse, de repente, levado um murro no estômago. Perdoem-me a metáfora deselegante mas na verdade não me ocorre nada que melhor reflicta o que senti ao lê-lo.
Não julguem que quero dizer com isto que não gostei do que li. Não, muito pelo contrário, gostei muito. Só que se trata de um livro forte e despudorado sobretudo no que concerne à condição da mulher.

O romance passa-se algures numa idade média, indefinida e é protagonizado por uma família muito pobre na qual a condição da mulher se iguala e, em alguns casos, até se apouca em relação à dos seus animais, sobretudo à de sarga a vaca da família.
Baltazar, o filho mais velho, vem a casar com uma bela donzela que cedo vê compartilhada com o seu senhor de uma forma que nunca chega a entender. Possuído pelo ciúme, também ele, Baltazar, tal como seu pai havia já feito com sua mãe, sujeita a sua mulher às maiores sevícias, estropiando-a com o objectivo de a “educar”. Acaba por se enredar em bruxarias e, finalmente, quando já nada lhe resta, surge o remorso.

É um livro que retrata uma realidade extremamente dura expressa num tipo de linguagem que o autor pretende ser uma reprodução da linguagem arcaica utilizada pelo povo.
Abre-nos uma janela para um novo modelo de escrita ao mesmo tempo que, na minha opinião, poderemos considerá-lo também uma metáfora em relação aos mais diversos tipos de violência que, ainda hoje, é exercida sobre a Mulher.

Forte motivo para reflectirmos uma vez que se celebra hoje o “Dia Internacional da Mulher” e há, por esse mundo fora situações em que as mulheres vivem numa condição tão ou mais humilhante quanto aquela a que este romance nos transporta.

sexta-feira, 7 de março de 2008

A palavra

Com a palavra comunico
apalavrando o sentido,
sentindo o significado,
Traduzindo o sentimento.
Com a palavra transmito
palavreado sem tento
num fraseado bonito
num arroubo do momento.
A palavra, o verbo, a voz,
com ela me apraz jogar.
A ela lhe empresto o sentir,
a ela lho volto a tirar.

Donagata em
2008-03-06


(Imagem: "Words are sweetsounds for objects unreal" de Justin Simoni)

quinta-feira, 6 de março de 2008

"A herança de Eszter" de Sándor Márai

Pois é, não resisti. Uma vez terminado um livro que me deu muito prazer mas também muito trabalho em termos de pesquisa para que pudesse ser convenientemente compreendido, eis que lá regressei eu a Sándor Márai e ao livro da sua autoria que ainda tinha para ler, “A herança de Eszter”.

E, mais uma vez me senti intensamente agarrada e enredada na complexidade de sentimentos que o autor tão facilmente controla. Leva-nos a entrar na alma das personagens, põe-nos a pensar como e com elas e, em tantos momentos, quase nos faz tentar mudar o rumo da história…

Mais uma vez gostei muito. Um pouco diferente, em termos estruturais, dos dois que havia lido anteriormente “A mulher certa” e “As velas ardem até ao fim” uma vez que aqui, as personagens interagem um pouco mais. Mantêm todavia, a sua riqueza (personagens muito trabalhadas), e o seu pendor intimista. É espantosa a forma como vai bem ao fundo das suas almas e as escalpeliza pondo a nu os sentimentos e as emoções mais recônditas, as desembrulha sem que, por isso a história cesse de prosseguir, fatalista; sem que todo este aprofundar de sentimentos e a tomada plena da sua consciência consiga inverter o rumo de um destino traçado há vinte anos atrás.

É, quanto a mim, absolutamente imperdível.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Palestra sobre o "síndrome de Aspergen"

Sexta-feira passada fui assistir a mais uma palestra daquelas que vou tendo conhecimento relativas à problemática do “Síndrome do espectro do Autismo”.Esta teve por tema o “AUTISMO A realidade vista do Exterior”, e referiu-se essencialmente ao síndrome de Aspergen, a forma mais ligeira desta patologia. Esteve a cargo do Dr. Nuno Lobo Antunes ilustre especialista da área de neurologia pediátrica e, entre outras coisas, ligado ao CADin instituição que estuda as perturbações do desenvolvimento infantil e juvenil e visa a integração social de crianças e jovens que evidenciam estes problemas.

Confesso que é uma temática que me diz muito dado que estive ligada, num dado momento da minha vida profissional, à criação das primeiras UIEAs (Unidades de Intervenção do Espectro do Autismo). Travou-se uma grande luta mas, no momento. as salas existem e funcionam proporcionando, apesar das alterações ultimamente verificadas ao nível do ensino especial (que, na minha opinião complicaram muitíssimo o apoio a dar às crianças portadoras de deficiência, numa perspectiva de integração, claro), o melhor que pode ser dado a estas crianças na escola pública.

Foi portanto com enorme expectativa que fui assistir à já referida palestra. Foi fantástica. O Dr. Nuno Lobo Antunes faz jus ao apelido que usa e revelou-se, além de um expert no assunto, o que não foi surpresa nenhuma, um comunicador agradável, acessível, com um imenso sentido de humor tendo optado pelo recurso a algumas metáforas interessantíssimas de forma a aligeirar o tratamento de aspectos muito delicados.

Expôs, de forma simples e perfeitamente clara, os traços mais determinantes que podem levar a suspeitar e a diagnosticar um síndrome de Aspergen nas várias idades tendo sempre em conta os aspectos comportamentais. Sobretudo, como é amplamente sabido, aqueles que se referem à interacção social.

Ao fim de algum tempo a ouvi-lo referir-se aos aspectos mais comuns dos comportamentos típicos do síndrome do espectro do autismo, até eu já estava convencida que sofria do síndrome de Aspergen pois, a verdade é que todos temos um pouco de algumas das características que o definem. Contudo, o Dr. Nuno aplicou uma metáfora que eu achei interessantíssima para explicar isso mesmo:
“O síndrome do Autismo é como uma constelação que é formada por várias estrelas. No autismo, cada estrela, cada ponto da constelação, é um sintoma e apenas quando se reúne um determinado conjunto de pontos é que podemos dizer com a certeza possível que estamos perante um caso de autismo. Da mesma forma que só podemos dizer que é uma determinada constelação quando identificamos todas as estrelas que a compõem. “

Aparentemente, o síndrome do espectro do autismo é de origem genética e é frequente, ao diagnosticar uma criança, verificar um conjunto de sintomas comuns ao pai (é muito mais frequente no homem), alguns dos quais ele foi aprendendo a criar estratégias para ultrapassar e, outros, até não terá ultrapassado ainda.
Claro que se trata do síndrome de Aspergen sem ter associado outras deficiências mentais.
Enquanto alunos podem revelar competências excepcionais em termos das aprendizagens académicas mas, como são de alguma forma limitados nas suas competências sociais, torna-se difícil interagir com eles de modo a explorar todo o seu potencial sendo necessário para tal técnicas específicas e muita paciência. Aliás, mais uma vez achei muito engraçada a frase com que ilustrou a forma como muitas vezes essas crianças são vistas na escola e que, segundo ele, foi amplamente utilizada pela sua mãe referindo-se quer a si próprio quer aos irmãos:
- “Tão espertinho para umas coisas e tão burrinho para outras!”

Enfim, não me alongo mais embora me apetecesse. Aprendi algumas coisas que não sabia de todo, relembrei outras que já tinha sabido e constatei que o interesse por estes assuntos não se confina à meia dúzia de professores e de pais que tem que lidar com esta problemática, mas a toda a comunidade em geral. A sala, embora grande, estava bem cheia.
Parabéns à Associação de pais e encarregados de educação da Escola Básica do 1º Ciclo pela ideia, pela forma como dinamizou o evento e pelo excelente convidado que escolheu.
(Imagem: Dr. Nuno Lobo Antunes retirada de www.cadin.net)

segunda-feira, 3 de março de 2008

"A Revolução Copernicana" de Thomas Kuhn

Como já tinha aqui referido, decidi fazer um intervalo na leitura de Sándor Márai e li um livro que me havia sido emprestado com excelentes recomendações: “A Revolução Copernicana” de Thomas Kuhn. Já num poste anterior fiz a seu respeito uma breve abordagem escrevendo acerca de alguns temas de reflexão que a sua leitura me induziu. Contudo, uma vez que já acabei a sua leitura não quero deixar de escrever aqui as impressões que ela me suscitou.

Sendo completamente diferente dos géneros que tenho vindo a ler, considerando-o talvez mais um livro de pesquisa e mesmo de estudo do que meramente recreativo é, contudo, um ensaio excelente que nos dá pistas para melhor entendermos, entre outras coisas, o pensamento moderno.

Kuhn leva-nos através do tempo, desde as antiguidades pré-clássicas (Egipto, Babilónia…), passando pela Grécia e Roma e vai-nos contando a história da evolução conceptual da astronomia (tão importante para todos os povos) e, consequentemente da evolução das outras áreas que lhe estão inevitavelmente associadas: a Filosofia, a Cosmologia e a Física. E assim, de mansinho vamos passando por Anaximandro de Mileto para quem “ as estrelas são porções comprimidas de ar, com forma de rodas cheias de fogo e emitem chamas a partir de pequenas aberturas…”, por Platão e a sua alegoria da criação: “Timeu”, por Pitágoras e pelos seus seguidores, os pitagóricos que “colocaram as estrelas numa esfera gigante, única…”, por Aristarco de Samos considerado o Copérnico da Antiguidade uma vez que para ele “…o Sol era o centro de uma imensa esfera de estrelas, e a Terra movia-se num círculo à volta do Sol…”, por Ptolomeu e o seu “Almagesto”, por Aristóteles, cujas opiniões foram o ponto de partida para a maior parte do pensamento medieval e renascentista, até que, para citar apenas alguns tentando evitar tornar-me excessivamente maçadora, chegamos a Copérnico e à sua “De Revolutionibus Orbium Caelestium”.

É claro que Copérnico, influenciado na sua pesquisa (de acordo com Kuhn) por factores que lhe eram externos como: o retomar renascentista da visão do Sol como a imagem de Deus; as viagens marítimas que alargaram os horizontes terrestres e a mudança verificada na análise da queda dos meteoros, foi só o iniciador de uma teoria que viria a ser continuada e comprovada por Galileu Galilei a partir das observações astronómicas directas efectuadas através do telescópio refractor por ele melhorado e que terá sido o primeiro a utilizar, tendo sido finalmente consolidada por Kepler e por Newton.
Mas esse início sem apresentação de provas, inseguro e, por vezes até, um pouco contraditório foi o que levou Copérnico a ser considerado por muitos o precursor das transformações que conduziriam à Ciência e à Filosofia modernas.

Como não sou, nem por formação nem por inclinação própria, muito ligada à área das ciências, receei, ao ler a breve sinopse, que esta leitura me viesse a causar algum aborrecimento.
Engano meu. Se é certo que as ciências, na sua globalidade, não são áreas que despertem o meu maior interesse, já os aspectos da evolução histórica e do pensamento filosófico bem ainda como a forma como todo este conjunto interfere na mundividência de uma época e condiciona as épocas subsequentes me deixam completamente fascinada.
E, no fundo, é isso (julgo eu, foi pelo menos essa a minha interpretação) que Thomas Kuhn nos pretende transmitir.

Fui galardoada!



Foi com alguma surpresa mas com imenso agrado que constatei que a-minha-nuvem,blospot.com, muito gentilmente, me havia premiado com um miminho o qual muito lhe agradeço.

Já agora, devo dizer que não podia ser mais adequado, tem um gato...

Um grande beijo de agradecimento.



Já agora, reencaminho este mesmo mimo, para um daqueles blogues que fazem parte do meu percurso habitual e no qual tenho aprendido imenso.



And the winner is:

Herdeiro de Aécio

domingo, 2 de março de 2008

Talvez nunca te tenha dito...


Talvez nunca te tenha dito, mas já o adivinhaste um milhão de vezes, como me senti a mulher mais afortunada do mundo, quando me colocaram aquele “embrulhinho” branco, com uma nuvem doirada no peito, no meu colo ainda dorido, e os teus olhos se fixaram nos meus selando um sentimento que nasce não se sabe bem onde e não acaba nunca.

Provavelmente já to disse um milhão de vezes ou talvez o tenhas tu adivinhado, como impava de orgulho quando passeava contigo e ainda procuravas o conforto da minha mão. Sentia os olhares de outras pessoas que passavam e te olhavam com admiração: esses olhos de um azul líquido, surpreendente, esse rosto de boneca emoldurado por um cabelo de caracóis tão escuros que se estranhavam…

Certamente também te sugeri algumas vezes e outras adivinhaste tu, como acompanhei vaidosa os teus sucessos académicos (e foram tantos…) e pessoais, como me afligi com as tuas inquietações, como exultei com as tuas alegrias…

Vou repetir-te mais uma vez, não vás tu não ter presente, a imodéstia com que eu aprecio os teus trabalhos. O que me comovem, perturbam e, ao mesmo tempo, me alegram numa confusão de sentimentos que não consigo desenrodilhar. Como os apregoo aos quatro ventos, sentindo-me realmente importante por ser tua mãe.

Naturalmente também já sabes ou, pelo menos suspeitas como te estou grata por permitires que eu seja mais uma das tuas amigas (tanto quanto uma mãe pode esperar ser).

Estou tremendamente emocionada, mas feliz, hoje, dia do teu vigésimo quinto aniversário, ao constatar a grande mulher que és: inteligente, sensível, íntegra, competente…
Obrigada por seres tu, assim, tal como és!
PARABÉNS!