sexta-feira, 25 de abril de 2014

De novo Abril

Fotografia de Maria Manuela Silva

E de novo Abril.
E de novo o céu muito azul, o brilho dos sons, as cores dos silêncios, as madrugadas serenas e os cheiros doces do espanto que apenas o tempo desmedido nos traz.

E de novo Abril.
E os verdes, tantos verdes, verdes fininhos como cordéis de amarrar quimeras, com brilhos de assombro e sopros de memórias desarranjadas pelas brisas.

E de novo Abril
E os restos de restos de sonhos. E muitas ilusões perdidas numa penumbra baça apenas com rascunhos de liberdade. E memórias incómodas que desarrumam o absurdo dos poemas e lhes reorganizam o paradigma. E muitas vontades amarrotadas.

E de novo Abril
E muitos políticos de plástico com gravatas de plástico, sorrisos de plástico e palavras medíocres de chumbo muito negro e muito pesado. Palavras sem som mas com muito frio. E inamovíveis porque cuspidas por lábios muito frios empurradas por dentes muito brancos e muito perfeitos, também eles plásticos. Palavras que doem na alma e embrulham as esperanças em cinzas. E matam as ilusões.

E de novo Abril
Feito quase só de escombros.
Procuro os ténues resíduos de esperança por entre os verdes fininhos e discretos, os sons coloridos, o frescor das antemanhãs serenas, os sons cintilantes dos muitos azuis que pintam a primavera.
E enxergo a dignidade na revolta branda, o absoluto das vontades, o poema sujo de cóleras, o desassossego das metáforas.

É de novo Abril!


2014-04-25