segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

FELIZ ANO NOVO

(Imagem: Vocal)

Aproveitem este "magnífico" coro e tenham uma excelente passagem para 2008.


(Imagem: Fireworks Finale)

Que o próximo ano vos traga, em dobro, tudo aquilo porque anseiam.


(Imagem: Happy New Year)

Beijos para todos.
Divirtam-se

domingo, 30 de dezembro de 2007

"A casa da paixão" de Nélida Piñon

Foi por mero acaso que me chegou às mãos o livro “A casa da paixão”. Ao ler as referências feitas à autora e sabendo-a pioneira, como mulher e escritora de língua portuguesa, na atribuição de alguns prémios bem como no exercício de cargos de grande destaque (primeira mulher a presidir a Academia brasileira de letras), foi com curiosidade e expectativa que dei início à sua leitura.

De início não me foi totalmente agradável, o que acontece sempre que leio livros em português do Brasil; levo sempre algum tempo a habituar-me àquelas pequenas nuances na língua que não parecem “encaixar” bem.

Ultrapassado esse aspecto comecei a apreciar devidamente o que lia.
Livro muito denso, pejado de mudanças abruptas quer ao nível da construção frásica quer ao nível da própria narrativa, extremamente metafórico, em que a linguagem assume um papel preponderante. As palavras ultrapassam a sua relação entre significado e significante, indo muito além disso, reinventando sentidos, ultrapassando as limitações que lhe são historicamente inerentes.
A linguagem utilizada é eminentemente poética, de cariz erótico e muito trabalhada ao nível psicológico.

De agradável leitura embora não fácil. Exige do leitor tanto quanto lhe consegue proporcionar.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Divagações em torno de um presente de Natal

(Imagem da net)
Devo dizer que o Pai Natal cá de casa foi deveras generoso comigo em relação aos presentes que recebi. Aliás é já um hábito, sou uma Gata muito mimada!
Mas, é em relação a um destes presentes que me apetece divagar um pouco apenas pela razão de ter sido causador de um momento de raríssima elegância protagonizado por mim.

O presente em questão trata-se de um par de sapatilhas ou ténis (1) especialíssimas para “woman training” que me foram oferecidas com o propósito específico de aligeirar as longas agruras das minhas manhãs no ginásio.

Que gentileza! Que atenção! E que lindas são as ditas sapatilhas!

Terminados que estão os festejos natalícios, há que regressar ao healthclube e retomar todas aquelas actividades deprimentes com vista a perder os milhões de calorias ingeridas em tão curto espaço de tempo.

Como o que tem de ser tem muita força, lá fui eu a uma aula de cardiofitness, orgulhosamente calçada com as ditas sapatilhas, reluzentes e prontas a ajudar-me (assim era esperado).

Começa a aula e há que, ao som de uma música de forte batida, saltitar, balançar, cruzar a perna pela frente, cruzá-la agora por trás, flectir, distender, bater palmas, eu sei lá!... Enfim uma coreografia digna de atletas olímpicos. E lá estava eu mais as minhas novas sapatilhas a dar o nosso melhor num esforço conjunto digno de nota.
Tudo parecia correr mais ou menos bem embora já quase não tivesse bem a consciência do que estava a fazer (dada a falta de oxigenação no cérebro, nada de novo), quando, de repente, eis que entorto um pé e me sinto a cair abaixo das sapatilhas!
Para não fazer uma entorse que poderia ser desagradável, num acto reflexo, deixei-me tombar executando um elegante voo digno, quiçá, de uma Margot Fontaine, aterrando de forma ainda mais elegante com os joelhos a bater estrondosamente no chão do ginásio.

A Prof, assustada, com o barulho, suponho e intrigada com o meu desaparecimento do seu campo visual, lança-se em corrida julgando que, finalmente, havia conseguido o seu objectivo oculto: que uma de nós estriquinasse (palavra fabulosa que a minha filha me ensinou, tinha que a usar embora não tenha a mais pequena ideia de qual seja a sua grafia).

E lá estava eu, agarrada às fabulosas sapatilhas, desapertando os cordões, ou atacadores (2), magoada, sobretudo no meu ego embora os meus joelhos não se deixassem também ignorar, ao mesmo tempo que me indagava das verdadeiras razões da oferta das mesmas: seriam elas para me facilitar o workout ou exterminadoras implacáveis?!
Estaria eu envolvida numa maquinação maléfica cujo objectivo seria fazer-me estriquinar (cá está novamente, simplesmente fantástica!)? É que as sapatilhas têm um piso ainda bem altinho, sei lá, aí uns 3 cm! Dá uma valente queda!

Pelo sim e pelo não continuei a aula descalça tendo-as colocado a uma distância confortável dos meus pés. É que o seguro morreu de velho!!!


Notas

1) Interessante esta forma de dar nome de modalidade desportiva a um tipo de calçado. Quase tão bom como chamar cimbalino ou bica ao cafézinho delicioso coberto daquela espuminha... ou picheleiro ao homem que trabalha nas canalizações...
2) Tão interessante como os exemplos anteriores e tão a propósito: atacadores ou cordões? Seguramente atacadores neste caso específico, sapatilhas não fiáveis...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

História antiga

(Imagem: Fuga para o Egipto de Paula Rego)
Era uma vez, lá na Judeia, um rei,
Feio bicho, de resto:
Um cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E na verdade, assim acontecia,
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Ou não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga, Antologia Poética

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Este já passou!

(Imagem: Tudo pronto para receber a família.)
(Imagem: Pormenor do centro de mesa)

Finalmente acabou o Natal!
Desiluda-se quem possa pensar que tenho alguma coisa contra o nascimento do tal Menino (ou de outro qualquer). Não, não tenho.
Simplesmente, uma vez que não vivo a quadra com o espírito religioso que ela pressupõe e, precisamente por ser supostamente esse o espírito que deveria estar subjacente a tudo o resto e, na maioria das vezes não está, desagrada-me profundamente o carácter absurdamente consumista que tomou e com que eu inevitavelmente pactuo embora contrariada. A verdade, porém, é que não consigo deixar de o fazer; a tradição é um forte poder!

Todavia, devo dizer, que hoje, dia 27, um pouco mais relaxada, até já nem acho a quadra assim tão deprimente!
Consegui juntar cá em casa toda a família. Éramos 21. Consegui o ânimo necessário para a alindar de modo a que todos sentissemos a festa e, mais importante (não é certamente o mais importante, mas sim o que mais me preocupava), consegui cozinhar aceitavelmente para esta gente toda de modo a ficarem razoavelmente satisfeitos. Enfim, pelo menos ninguém aparentou um ar suficientemente nauseado para me criar traumatismos psicológicos relativos ao meu desempenho culinário. Mas também são todos tão queridos....

A mesa era grande e reinou a animação própria das reuniões familiares. Estavam presentes quatro gerações! É que eu já tenho uma sobrinha neta...
As Avós encabeçavam a mesa mas, os mais animados, eram os seis sobrinhos adolescentes com quem fui entabulando conversas, tipo, refrescantes, tipo acerca de cenas totil fixes, ou então, tipo aquelas cenas das notas, tipo assim muito injustas, até porque, tipo a prof. era totil chata, pá.
Á meia-noite abriram-se os presentes com a confusão habitual de papéis rasgados, fitas arrancadas, embrulhos trocados e exclamações mais ou menos entusiasmadas.
Os mais novos foram novamente os mais animados até porque são os únicos alvoroçados quanto aos presentes de Natal.

Por fim, regressaram às suas casas, deixando para trás os despojos da festa. E nós, os da casa, depois de recompormos a sala e concluirmos os preparativos necessários para voltar a receber as mesmas pessoas no dia seguinte para o almoço do Dia de Natal, colocámos os nossos sapatos (já/ainda não há sapatinhos) junto à árvore e fomos dormir sonhando, se calhar, com as surpresas que lá iríamos encontrar de manhã.

É que para nós, cá os da casa, o Pai Natal ainda existe...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Boas Festas felinas



Como não podia deixar de ser aqui vão as boas festas da minha grande família de quatro patas.
Puurrrrrr....

Boas Festas

(Imagem: Cat's corous by Louis Wain)
Apenas umas palavrinhas que pretendem ser assim uma espécie de mensagem de Natal.

Desejo a todos os que por aqui costumam passar um excelente Natal, com tudo aquilo a que cada um considerar ter direito.

Desejo que tenham animadas reuniões de família e, sobretudo, reuniões em que o mais importante não sejam os presentes que se recebem ou se dão mas sim o prazer de estarem juntos.

Consigamos todos usufruir da alegria que é termos uma família que amamos, pequena ou grande, de alguns amigos com quem possamos realmente contar e da tranquilidade de vivermos em paz.

Sejam felizes!!!

domingo, 23 de dezembro de 2007

NATAL

(Imagem: Loneliness de Chagal)
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?
Sidónio Muralha
Obras Completas do Poeta
Lisboa, Universitária Editora, 2002

Recordar

sábado, 22 de dezembro de 2007

"Akhenaton o Rei Herege" de Naguib Mahfouz

Dei início à leitura deste livro do qual tomei conhecimento através do blogue “O Enigma e o Espelho”exactamente por aí ser recomendado e também por um conjunto de outras razões que o tornavam imperdível a meu ver.

Em primeiro lugar porque trata de um tema que sempre me fascinou uma vez que, em termos de formação, tenho também uma “costelinha” na área da História. Tenho uma enorme curiosidade pela história do Egipto desde os seus primórdios, sendo este período um dos que me suscita maior interesse.

Depois, por ter como autor um escritor árabe, galardoado com o Nobel da Literatura em 1988 e que, além disso, foi perseguido e considerado herege (que interessante coincidência) devido aos seus livros, tendo até sofrido um atentado perpetrado por fundamentalistas islâmicos.

Ainda por, na sinopse, ser descrito com a estrutura de um romance policial, género que, quando bem escrito, aprecio bastante.

Finalmente por ser também referido como “uma espécie de expedição arqueológica”. Quem é que não gostaria de participar numa expedição às areias do Egipto confortavelmente sentada no seu sofá?

Bom, terminei a sua leitura e devo dizer que foi uma enorme desilusão.
O autor enveredou por um tipo de narrativa em que vários depoentes falam de um mesmo assunto. É uma forma de escrita ambiciosa mas de difícil gestão em que é necessário um grande esforço para se conseguir a interligação perfeita entre as várias narrativas, recorrendo a estratégias diversas como, por exemplo, o contraste, para que resulte em algo com interesse.

Não me pareceu ter sido o caso. O livro acabou por se tornar uma sucessão de narrativas insípidas e desinteressantes, mesmo do ponto de vista literário, que se distinguem apenas pelo facto de serem a favor ou contra o Faraó.
Não me pareceu tampouco que as referidas narrativas/depoimentos revelem da parte do autor um conhecimento suficientemente aprofundado do período histórico em questão; finais da XVIII dinastia, Séc. XIV a.C., período também conhecido como de Amarna.

É certo que se trata de uma época em relação à qual são tantas as as dúvidas quanto as certezas. É um período além de enigmático, um tanto obscuro ainda para os historiadores e nem sempre alvo de opiniões consensuais no seio dos egiptólogos mais proeminentes. O material de estudo é relativamente escasso, ao contrário do que acontece em outros períodos mesmo mais remotos, uma vez que tendo sido considerado herege pelos faraós seus sucessores, todos os vestígios do curto e controverso reinado de Akhenaton, foram criteriosamente destruídos. Todas as inscrições foram apagadas e o seu nome banido da lista de Faraós que governaram o Egipto.

Contudo, penso que apesar dos constrangimentos que resultam do que acabei de expor, o autor poderia ter sido mais empenhado em termos de investigação histórica, tendo podido, na minha opinião, criar um livro um pouco mais audacioso.

Poemas de Natal


NATAL

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.


E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.


Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.


A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

Poemas de Natal


(Imagem: Aldeia de Natal, da net)
Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor
Há neve que faz mal
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar
Chove no Natal presente
Antes isso que
nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Vela


Mais uma vez rendida à evidência das estatísticas!
Ora aqui vai mais um gráfico para ponto de cruz com o qual poderão executar até um pequeno presente de Natal.
Pequeno, claro, porque o tempo também já escasseia...

Poemas de Natal

(Imagem da net)

Este é seguramente um dos meus preferidos. Apreciem-no! Vale a pena!

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta

De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinhamesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinhodo Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

"O Traficante de Armas" de Hugh Laurie

Acabei de ler o livro que havia iniciado com imensa curiosidade dado que sou fã do seu autor. Não enquanto escritor, não lhe conheço outras publicações, mas na sua qualidade de actor cujo desempenho me encantou desde a sua participação em Blackadder em que protagoniza o príncipe George (ao lado de Rowan Atkinson enquando ainda lhe achava piada), até ao actualíssimo Dr. House.

Com “O Traficante de Armas”, Hugh Laurie, criou um romance interessante, de leitura agradável, contendo um tipo de humor cáustico e contundente, muito ao jeito do que esperaríamos ouvir da boca do Dr. House.

Dá para pensar quanto daquela personagem rabugenta, politicamente incorrecta, irascível e terrivelmente irritante, não reflectirá também um pouco da personalidade do actor que lhe dá vida, Hugh Laurie...

O enredo é tremendo se considerarmos o número de voltas que dá, bem como o número de situações arriscadas em que coloca o protagonista.

Julgo que a intenção terá sido também a de satirizar um pouco os romances deste género. Contudo, ao fazê-lo, criou ele próprio um livro que, sendo um misto de suspense e de comédia cuja escrita denota grande inteligência é, ele próprio, um exemplo do género satirizado.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Domingo à tarde

Encolhida no sofá,
Envolta em mantas fofas,
Em gatos que se enroscam em mim
Ronronantes de mimo
E em folhas de jornais esquecidas,
Gozo o fugaz prazer da inacção.
Tento esvaziar a mente!
Tento parar o fluxo constante
De pensamentos inquietos
Que teimam em manter-se.
Em acordar-me
Para o que quero estar adormecida.
Em lembrar-me
O que pretendo esquecer.
As chamas, na lareira,
Devoram a madeira crepitante
Elevando-se em orgias de cor.
Quem me dera
Poder elevar-me com elas
E dissolver-me, lentamente, em fumo!
Apesar de desligada,
A televisão mostra-me imagens
Que eu não quero ver,
Emite sons que eu não quero ouvir.
Quero estar vazia, oca.
Receptáculo de outro eu,
Que não este
Que mal reconheço.
E de quem não sei se gosto.

Donagata em 9/12/2007

(Imagem: "Dimanche Aprés-midi (1980) de Leonor Fini)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Motivos fantásticos para comemorar!

(Imagem da net)
Ainda acerca do poste anterior. Realmente ontem foi dia de todas as comemorações!
Vejam só:
Não só festejei o centésimo poste como também, ao mesmo tempo e, muito mais importante, atingi o patamar de proficiência que me permitiu concluir com sucesso um link para o You Tube sem que desse erro!!!

É mesmo verdade! É espantoso!
Na base da tentativa e erro (de um número infindável de tentativas e de consequentes erros), estou a ficar um ás nisto das TIC. E quando digo um ás, é mesmo um ás dos bons.

Julgo não estar a exagerar se disser que penso ter já atingido, em termos de utilização das novas tecnologias, claro, o grau de competência de um indivíduo, vá lá, de ... doze anos. Bom, mais realisticamente e sem falsas modéstias, de treze, pronto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Finalmente o centésimo poste!


(Imagem: Threatning Skies de Van Gogh)

Pois é, já escrevi cem! Tudo começou a brincar, a experimentar, a tactear e já lá vão cem postes.
E sabem que mais, continuo a brincar, a experimentar, a tactear e, sobretudo, a aprender. E que prazer me dá!
Claro que para alguns é uma ridícula ninharia mas, para mim, é um feito; dos pequeninos, é certo, mas um feito!

E para comemorar, nada melhor do que as palavras de um poema que Louis Armstrog imortalizou com a sua inconfundível voz: "What a wonderful world"

Hoje é assim que quero ver o mundo. Amanhã se verá!

What a wonderful world de Louis Armstrog

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself what a wonderful world.

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself what a wonderful world.

The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands saying how do you do
They're really saying I love you.

I hear babies crying, I watch them grow
They'll learn much more than I'll never know
And I think to myself what a wonderful world
Yes I think to myself what a wonderful world.

domingo, 16 de dezembro de 2007

"O estranho caso do cão morto" de Mark Haddon

Recomendo vivamente!

Não, desta vez não vou comentar, descansem.
Não tenho a mínima intenção de transformar este bogue num espaço dedicado à crítica literária. Não possuo a formação ou as capacidades de análise e de síntese que mo permitam fazer com o mínimo de propriedade. O que tenho feito em relação às minhas leituras tem-se limitado à simples expressão das opiniões que delas formo, mais ou menos fundamentadas.

Hoje vou apenas recomendar a leitura de um livro “O estranho caso do cão morto” de Mark Haddon.
Li-o quando da sua edição, nas férias de 2003, e foi fantástico. Por um lado porque é lindíssimo, por outro porque me ajudou a perceber algumas das atitudes das pessoas (no meu caso, das crianças) que sofrem do “síndrome do espectro do autismo” e, assim, melhor as poder ajudar.

Como pessoa ligada à Educação e ultimamente à área mais específica da gestão escolar, liguei-me muito à procura das formas mais adequadas de dar resposta a crianças com este tipo de problemática.
E, talvez por isso, por me encontrar muito sensibilizada para este problema, a leitura deste livro, escrito supostamente por um autista de quinze anos, fez-me mergulhar na sua mente, na sua percepção do mundo “exterior”, na sua lógica própria, na sua lucidez, pondo até, por vezes em causa o conceito de “normalidade”

O autor, psicólogo e professor de crianças autistas, leva-nos ao longo deste romance, através do humor e de muita sensibilidade a mergulhar neste mundo próprio, de difícil acesso, de difícil compreensão e de, ainda mais difícil abordagem.

A não perder. Está outra vez nas bancas.
Ideal para presente de Natal.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Árvore de Natal

(Imagem: a dita- cuja árvore de Natal. A gatinha que se vê (mal) à direita, na imagem, não é adereço, é a Utopia, um doce de gata que, obviamente, ajudou nas decorações e agora está a descansar.)

Finalmente lá me consegui deixar de “panunfices” (desculpem, mas aprendi esta palavra com um amigo e andava à procura de pretexto para a utilizar. É encantadora...), dei um pontapé no desinteresse e outro na inércia, deitei mãos à obra e dei início às decorações de Natal cá de casa.

Não julguem que é tarefa fácil! A casa é grandinha e, a verdade, é que sou bastante esquisitinha nestas coisas. É que, tenho para mim que as pessoas que comigo irão partilhar esta festa, merecem muito mais que a simples refeição tradicional. Merecem que tente proporcionar-lhes um ambiente festivo, acolhedor e, se possível, de bom gosto.

A decoração natalícia é uma tarefa que considero de família, portanto escolhemos, sempre que possível, um dia em que estejamos todos em casa para dar início ao processo.
Então lá fomos ao sótão buscar as caixas (cinco e grandes) que contêm os enfeites acumulados ao longo dos anos. Há que tirar tudo cá para fora, escolher o que vai ser utilizado este ano e rearrumar o que resta.

Depois foi só ir colocando os enfeites de acordo com o plano previamente estabelecido o qual havia já sido acordado de forma consensual. Normalmente tenho direito a voto de desempate (embora as más línguas lhe chamem “veto” mas eu nem sei o que isso é).

E com tudo isto lá deixámos a árvore de Natal feita assim como alguns, poucos, arranjos.
Agora é só ir continuando...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

"O Sétimo Selo" de José Rodrigues dos Santos

Ao terminar a leitura deste último romance de José Rodrigues dos Santos ficou-me uma sensação de desconsolo e, até de desconcerto.
Sou apreciadora do autor enquanto jornalista e mesmo enquanto romancista. Tenho um grande apreço pelo seu apurado trabalho de investigação actualizada acerca dos temas que escolhe. Acho oportuno e de grande interesse actual o tema que aborda neste romance. Contudo, fiquei com a sensação estranha de que algo não tinha funcionado.

Em termos da estrutura formal do enredo, José Rodrigues dos Santos faz, quanto a mim, uma abordagem demasiado próxima daquela que utilizou em “A Formula de Deus”.
Vejamos:
A mesma personagem principal Tomás, historiador, criptologista e professor na Universidade é contratado por “alguém” para desvendar um enigma e encontrar um amigo seu desaparecido; tal como no anterior, só que o amigo era do pai e não seu...
Depois de aceite o desafio, Tomás vê-se envolvido numa sucessão alucinante de peripécias e aventuras, envolvendo risco da própria vida; tal como no anterior...
A acompanhá-lo nessas aventuras, pelo menos em parte, está uma beldade arrebatadora; desta vez é russa, da outra era iraniana...
Depois desse imenso périplo de situações perigosas, tudo termina mais ou menos bem embora “in extremis”; tal como no outro...
No anterior Tomás tinha que gerir um grave problema pessoal no meio de toda a confusão, a doença terminal de seu pai e a sua impossibilidade em estar presente. Neste tem também de lidar com a perda progressiva de faculdades da sua mãe, incapaz de viver sozinha, levando-o a ter de tomar a opção dolorosa de a colocar numa casa de repouso.

Enquanto decorre a acção, este livro, tal como o anterior, está pejado de conversas entre personagens cujo objectivo é, quase podemos dizer, meramente didáctico, com longas e repetidas explicações acerca de temas como o aquecimento global e suas causas, a posição dos diversos países e a escassez dos combustíveis fósseis. Pese embora a pertinência e importância inquestionável e incontornável dos assuntos em causa, essas explicações, do meu ponto de vista exageradas (não é um assunto tão difícil de entender e, supostamente, o interlocutor é professor numa Universidade...) fazem com que o livro sofra quebras importantes no seu ritmo. Também isto já havia acontecido em “A fórmula de Deus” mas como as explicações aí se referiam a assuntos pouco próximos do domínio comum tal como a teoria da relatividade e outros conceitos desenvolvidos por Einstein e noções de física quântica, estas explicações eram imprescindíveis tornando-se parte integrante do enredo não parecendo maçadoras. Sem elas o romance tornar-se-ia incompreensível para uma parte razoável dos seus possíveis leitores.

Porém, apesar de parecer que, a meu ver, claro, tem alguns pontos menos positivos, recomendo, repito, recomendo a sua leitura.
Apesar de tudo é um livro que nos acorda, bruscamente, devo dizer, para problemas que, na maioria das vezes preferimos ignorar e fazer de conta que não é nada connosco.
Fazer-nos encarar de frente a perenidade de coisas que tomamos como certas e eternas é francamente assustador. Contudo é necessário. É que essa escassez, esse fim anunciado, não é algo fruto da imaginação de alguém a dar conteúdo a um qualquer livro de ficção científica.
Não, é algo realmente próximo e que poderá ainda afectar-nos a nós, estes que aqui andamos agora.
Isso já é outra conversa, não é?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Há coisas fantásticas não há?


(Amizade, imagem da net)

Isto da Internet tem coisas fantásticas não tem?

Aconteceu há uns dia atrás!
Estava eu a fazer aminha ronda habitual pelos blogues do costume ao mesmo tempo que, clicando aqui e acolá, quase ao acaso, ia dando espreitadelas, mais ou menos atentas, aos blogues em que entrava. Até que de repente um deles me despertou uma atenção muito especial:
Por um lado porque, tratando-se de um blogue essencialmente dedicado à fotografia, revelava imagens de excelente qualidade e focavam eventos e assuntos que vinham de encontro aos meus gostos e interesses pessoais;
Por outro lado porque essas fotografias retratavam todas elas aspectos do Porto a minha cidade do coração.

Tive curiosidade em verificar quem era o autor de tão agradável blogue e, surpresa das surpresas, deparei-me com o nome de uma pessoa de quem, em tempos, tinha sido muito amiga mas a quem as voltas da vida me haviam feito perder o rasto.
Seria a mesma pessoa? Seria apenas seu homónimo? Parecia-me grande a coincidência dado que, já na altura em que eramos amigos bem chegados (há já trinta e qualquer coisa anos), o hobby desse meu amigo era a fotografia para o que tinha de facto uma enorme sensibilidade.

Foi ele quem fotografou o meu casamento! É que eu detestava aquelas fotografias tradicionais de poses previamente estudadas e completamente antinaturais além de parvas. E ele, esse meu amigo, já nessa altura embora amador estava muito à frente...

Tirei-me dos meus cuidados e, uma vez que o blogue fazia referência ao seu E-mail, enviei-lhe uma mensagem na qual lhe fornecia alguns elementos que poderiam determinar se se tratava ou não do meu amigo “escondido” há tantos anos.

No próprio dia tive a confirmação. Era mesmo ele, o tal amigo do qual há tanto tempo desconhecia o paradeiro. Para mim foi uma grande alegria e, para ele, penso que também não tenha sido uma coisa muito desagradável.
Tenciono reatar esse contacto perdido e talvez, quem sabe, um pouco dessa amizade que em tempos nos uniu.

domingo, 9 de dezembro de 2007

A Flor

(Imagem: Flower, da net)

Estive hoje a ler e resolvi partlhar um pouco. Desfrutem.



A flor

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-le papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala, onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas linhas com que deus faz uma flor!

José de Almada Negreiros

"Uma mulher não chora" de Rita Ferro

Não sou uma grande apreciadora de um tipo de literatura actual que algumas autoras portuguesas actuais têm vindo a desenvolver. Considero que abordam temas de grande futilidade, geralmente ligados à condição da mulher moderna e emancipada, sem profundidade e de qualidade literária sofrível.
Apesar disso, é já o terceiro livro que leio de Rita Ferro e, mais uma vez, distancio esta autora do grupo das chamadas escritoras de literatura light, seja lá isso o que for.

Livro sobre mulheres na casa dos quarenta, divorciadas, modernas, descomplexadas, independentes e sexualmente desinibidas.
Muito introspectivo, desmontando constantemente (ou pelo menos tentando) os sentimentos mais íntimos de uma mulher dividida entre a incerteza do que é amor ou simples relação sexual, surgida do impulso carnal, perene e, contudo, absolutamente prevalecente.

Cheia de dúvidas acerca da dispensabilidade do homem na vida da mulher, revela alguns medos, esconde outros de si própria sem conseguir fugir ao sonho romântico. Esta clivagem traz-lhe momentos de infelicidade, sentindo uma grande insegurança em relação a si própria e cito:

“Ou começava a ser normal conceber o paradoxo de que a felicidade me poderia tornar deslocada, perdida, infeliz.”

Ou:

“O que haveria de medonho no cumprimento de mim mesma? De sinistro, na virtude? De monótono, na sabedoria? De perverso, na graça?”

De qualidade literária quer na forma quer no vocabulário escolhido que é cuidado não cedendo à vulgaridade.

(Imagem: fotografia da autora)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

As compras de Natal

(Imagem da net)
Hoje foi dia de Centro Comercial.
Aproveitei ter a companhia da filha e lá fomos as duas numa tentativa de despachar pelo menos uma parte das compras de Natal. Completamente gorada, devo dizer, a referida tentativa, claro, mas absolutamente conseguida uma enorme irritação, frustração, revolta ou algo que nem consigo muito bem definir.

“Compras de Natal”! Já o conceito de “compras de Natal” tal como actualmente o entendemos me irrita. Ou seja uma orgia desenfreada de compras e mais compras de objectos de utilidade no mínimo duvidosa que escolhemos, embrulhamos, carregamos e colocamos, reluzentes, junto à árvore de Natal, ou Presépio, ou ambos.
Quanto mais embrulhos e mais coloridos lá colocarmos melhor será o Natal!

É claro que após o cerimonial da abertura com o desembaraçar das fitas, o rasgar dos papeis, o abrir as caixas, os sorrisos resplandecentes, as expressões de surpresa comovida, nada daquilo vai fazer verdadeiramente jeito a ninguém (ou teriamos de gastar fortunas) e, em alguns casos, os presentes poderão ainda acarretar o seguinte problema adicional: e-agora-o-que-é-que-eu-vou-fazer-com-isto?

São as malhas eficazes do consumismo desenfreado às quais, embora contrariada e muito, muito irritada, não sou capaz de fugir.

Até porque, em boa verdade, não imagino sequer um Natal em que não tenha um presentinho para cada uma das pessoas que cá vêm (e são sempre muitas). O que eu abomino mesmo é o acto de comprar; de inventar necessidades, de decidir qual o presente perfeito (que nunca é) para cada um, de gerir racionalmente um orçamento pré-definido (o qual nunca cumpro), de não esquecer a lembrancinha de ninguém...

Enfim, uma canseira estéril para a qual já não tenho a mínima paciência.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Anoitecer com chuva

(Imagem da net)
Imersa numa densa escuridão
Que teima em envolver-me
Vestindo-me o corpo e a alma,
Escuto:
As gotas de chuva tombam,
Pesadas,
Intensas,
Ritmadas,
Nas folhas das árvores do jardim,
Que gemem baixinho
Num sussurro.
Pelos vidros da ampla janela,
Através da qual
Não vislumbro senão sombras,
Deslizam fios de água
Que suportam lágrimas azuis.
Lágrimas de um choro
De quem já foi perdoado,
Ou lágrimas de perdão
De quem nunca havia chorado.


Donagata em 30/11/2007

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

"A vida aventurosa de Sparrow Drinkwater" de Trevor Ferguson

Recomendo vivamente.
É um livro desconcertante. Balança constantemente entre o real e o imaginário num “bailado” de grande beleza em que o fio ténue que separa um do outro é, muitas vezes, indetectável.

História complexa em que a quantidade de situações insólitas se vão sucedendo transmitindo sempre um misto de ternura e beleza das quais temos dificuldade de nos soltar interrompendo a leitura.

Conta uma história plena de magia, de um rapaz que, tendo nascido num manicómio onde a sua mãe se encontrava, vai acabar por atravessar ao longo de uma vida atribulada, todo o continente americano em busca do pai (um corvo, segundo a sua mãe), da mãe de quem entretanto se perde, de si próprio largado no mundo real.

Belíssimo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Fui galardoada!!!


Foi com surpresa que verifiquei que tinha sido "galardoada" com o prémio "Até que não é um mau blog".
Expresso, desde já, o meu agradecimento à Sofia por algo que, em boa verdade, não mereço assim tanto. Mas lá que não me calo, isso é verdade.
Só não sei se será uma virtude...
Agora, não posso deixar de considerar que o blogue que me atribuiu semelhante prémio, esse sim, é dele inteiramente merecedor. É, para mim como para muitos outros, um blogue de referência. Parabéns.
E para que a cadeia não se quebre, passo a apresentar as regras para a sua continuidade:

1- Este prémio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons, entende-se como bom os blogs que costumas visitar regularmente e onde deixas comentários.

2- Só e somente se recebeste o prémio “Diz que até não é um mau blog”, deves escrever um post:- Indicando a pessoa que te deu o prémio com um link para o respectivo blog;- A tag do prémio;- As regras;- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio.

3- Deves exibir orgulhosamente a tag do prémio no teu blog, de preferência com um link para o post em que falas dele.

4- (Opcional) Se quiseres fazer publicidade ao blogger que teve a ideia de inventar este prémio, ou seja – Skynet - podes fazê-lo no post).

E os premiados são:

O enigma e o espelho

Cidade Surpreendente

Mar Arável

Poesia à solta

Monitores e colunas

Caixa de costura

Poesia portuguesa

"Sem Perdão" de Julie Garwood

Comprei este livro porque, ao ler a sua sinopse, me pareceu que poderia ser uma boa aposta num género que eu aprecio bastante, o policial/suspense. Além disso, li em alguns blogues de pessoas cujas opiniões considero, referências bastante abonatórias à obra.

Devo todavia dizer que fiquei bastante desiludida com a sua leitura. Embora seja um livro que se lê bem, não aborrece, não é daqueles que apetece pousar quase de imediato, apresenta, na minha modestíssima opinião, diversos senãos.

A autora tenta, numa só história, conciliar o suspense/policial, com o thriller, com o romance. Não é impossível, claro, e geralmente é até uma receita de sucesso.
Contudo pareceu-me que o romance era demasiado cor-de-rosa, o enredo, supostamente de suspense, demasiado previsível e, portanto, pouco empolgante e, as personagens exageradamente estereotipadas.

Senão vejamos:
a beldade de cortar a respiração (claro), em risco;
o polícia protector (também ele um “pão" perdoem a liberdade de linguagem) e amigo do irmão da “beldade”, que, obviamente, se apaixona perdidamente e à primeira vista (que realismo!) pela sua protegida;
o irmão da “beldade”, padre e um verdadeiro desperdício se considerarmos que também ele é de cortar a respiração;
as vizinhas velhotas, com a sua coscuvilhice habitual, atentas a tudo o que se passa à volta e, certamente, com boas probabilidades logo à partida de constituírem um elemento determinante para o desenrolar do clímax do enredo.
Enfim, desculpem-me mas… uma chatice!

Como comecei por referir, até sou uma boa apreciadora do género policial (como de quase todos os géneros, confesso) e, talvez por isso mesmo, custa-me muito usar o meu tempo a ler vulgaridades e estereótipos embora de leitura fácil.
Tenho lido muito bons policiais e não me refiro apenas aos “clássicos”, pois há uma série de autores actuais, de muita qualidade, os quais me têm proporcionado momentos de grande emoção.
Não foi, seguramente, o caso deste; absolutamente previsível!

É, quanto a mim, um daqueles livros feitos para serem garantidamente um best seller sem que, de facto, contenha nada de realmente muito bom.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Gráfico em ponto de cruz - É verdade!


Aviso importante!

Ao consultar as estatísticas do sitemeter tentando ver quais os assuntos mais apelativos para as pessoas que visitam este blogue, constatei que #&$#% das pessoas (desculpem, não sei calcular exactamente a percentagem, eu sou mais das letras, mas parece-me que se situa acima dos 65% das buscas através do Google) se dirige a este espaço na expectativa de encontrar lindos motivos com cãezinhos, gatinhos, anjinhos, passarinhos, sininhos e muitos outros “inhos” para bordar em ponto de cruz.

Não consigo perceber lá muito bem a razão por que tal acontece!...
Agora, o que eu entendo muito bem é a frustração dessas pessoas, coitadas, ao darem de caras com estes assuntos apalermados, que nada têm a ver com os mimosos bordadinhos que procuram. Enfim, deve ser perfeitamente arrasador.

Ora, como fazer ponto de cruz, desse bom, do genuíno, aquele dos quadrinhos, das toalhinhas e dos paninhos com diversos fins é também um dos meus (poucos) predicados embora não um complemento directo; ou seja é uma daquelas coisas que sei fazer mas que procuro não exercer.

Como, por outro lado não gosto de defraudar ninguém; acho uma coisa mesmo muito inadequada para uma Donagata de refinado pedigree. Além de que devo confessar que passei a entender melhor esse espinho da desilusão quando consultei o referido sitemeter e verifiquei que muito poucos pesquisam assuntos de interesse menor tais como: poesia, crítica literária, cultura, etc. Enfim, todos esses disparates em que eu aposto.

Decidi então, como consequência de tal constatação, aligeirar a arrelia de quem cá vem ter e, de vez em quando, postar alguns gráficos que irei, obviamente, buscar a outros blogues de pessoas que percebam mais do assunto do que eu.

Espero que façam bom uso deles.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"As Healthclubíadas" (conclusão)

(Imagem da net)
Finalmente aquilo por que todos ansiavam: o final das "Healthclubíadas". É mesmo verdade, não é sonho, acabaram. É que por um lado já me escasseava a inspiração e as rimas e por outro também já começo a recear pela minha integridade física...

Portanto, achei por bem pôr um ponto final nesta epopeia completamente parva, e assim dar descanso a todos quantos ainda arranjam coragem para abrir este blogue. Bem hajam esses pela paciência demonstrada. Já ganharam a sua nesguinha de céu!



23
Do step não vos quero nem falar
É tão duro que nos deixa sem conserto.
No princípio nem é mau, dá pr’aguentar
Mas depois dá-nos cá um tal aperto,
Uma náusea, uma vontade de parar,
Que já sem fôlego bebo água e, bem decerto,
Para que não seja mui grande a trapalhada,
Aproveito o “banquinho” e aguento...sentada.


24
E depois de tratadas desta sorte,
De tudo quanto a aula pede e manda
Preparamos a alma para a morte,
Que sempre dos incautos perto anda.
E às deusas que na sua etérea corte
Vigiam com a vista veneranda,
Implorámos favor, que nos ajudassem
E que por melhores caminhos nos guiassem.


25
Do ginásio vou sair enquanto posso
Devagar subo a escada, em tal torpor!
Para trás vou deixando o alvoroço
Do: estica a perna, flecte a perna arrasador
Com um jugo colocado no pescoço.
Estou desfeita, em estado de estupor,
Ver-me a andar dá até mágoa, triste nojo
Já não sou a Donagata, sou um despojo!


26
Estando sossegado já o tumulto
Dos Profs. com o seu arrebatamento
Começo a desnudar o corpo oculto,
E no turco entro em recolhimento
E lá dentro não sou já eu, sou só um vulto,
Que descansa e tenta ganhar novo alento.
Finalmente, após tão torpes exercícios,
Já posso ir almoçar, um dos meus vícios!


27
É um vício, mas daqueles educados:
De algo muito leve me irei servir
Umas folhinhas de alface aos bocados
O tomate e a cenourinha a colorir.
Os docinhos, esses manjares adorados,
Que com o café tanto gosto de fruir,
Serão momentos bons pra recordar
Embora pouco, não vão as memórias engordar!...


28
Depois de tanta desgraça descrever
É já tempo de vos estardes a indagar:
Pois se é tudo mau, se é só sofrer
E é tão pouco aquilo que exaltar
Pois então que vimos nós aqui fazer?
O que é que nos leva a cá voltar?
Tudo isto nos dá prazer: o chalacear,
O estarmos bem, o conviver a trabalhar.


29
Vou contar-vos quase como confidência:
Como aluna sou difícil de aturar,
Os Profs., coitaditos, que paciência,
Já suspiram quando me vêem entrar.
Mas ser chata é somente a aparência,
Se resmungo é apenas a brincar.
Apesar deste modo irreverente
Gosto deles, são amigos, boa gente!


30
E há dias em que o treino corre bem
Em que o Prof. está calmo e comedido,
Dá-se ao pedal e à língua com alguém,
Como um prémio que nos seja concedido
Até ele para o nosso lado vem,
Para ouvir qual o assunto discutido.
É um esforço duplo, o que fazemos,
Mas é este à-vontade o que queremos.


31
É importante do nosso corpo tratar
Estar em forma, e mostrar agilidade,
Andar ligeiro sem ficar a sufocar,
Ter orgulho em poder dizer a idade.
Mas o mais importante é encontrar
Um ambiente que nos traga felicidade.
Onde além dos esforços detestáveis
Passemos uns momentos agradáveis!

sábado, 24 de novembro de 2007

O Marquês

(Imagem: Girl with a dog de Karen L. Gore)

Mais uma vez, Mar Arável, aceitando um desafio seu, vou tentar escrever algo, com alguma coerência, acerca do Marquês, o meu último cão em Chaves. Como sabe, as recordações são, na maior parte das vezes, bastante indomáveis…
Espero que depois possa falar do Marquês aos seus serras da estrela e que eles o oiçam com agrado…


O Marquês era um lindo cão (o mais bonito para mim), arraçado de lobo de Alsácia, como se designava então o pastor alemão (por razões que dariam outro post), que nasceu lá na quinta onde eu vivia de uma mãe que se chamava Layca.
Desde muito cedo, ainda no “ninho”, me adoptou como sua companheira privilegiada (ou eu a ele, não sei…) e, ainda trémulo de patas, vinha atrás de mim quando das minhas constantes visitas, deixando o conforto da sua mãe.

Confesso que o visitava com exagerada frequência, por um lado porque adorava aquela bolinha como só as crianças sabem adorar e por outro, porque tinha receio que desaparecesse misteriosamente como aconteceu a tantas ninhadas de gatos que vi nascer e, provavelmente, aos outros cachorros que eventualmente nasceram com ele. Não me lembro se os houve ou se soube sequer que os tenha havido. Como sabem há muita coisa que a criança não sabe mas intui…

Como já referi e certamente ainda se recordam, andava quase sempre sozinha. Não por opção minha, claro, mas por falta mesmo de outras crianças que me acompanhassem em brincadeiras. Tinha já dois irmãos mas dada a diferença de idades, muito mais novos do que eu, não me acompanhavam nas brincadeiras. Por vezes aproveitava a companhia de alguma amiga da escola que entretanto aparecesse por lá, mas a minha mãe era um pouco esquisita em relação às minhas amizades e eu tinha o condão de escolher invariavelmente as menos “desejáveis”…

Foi então aí que o Marquês, com o seu sorriso de orelha a orelha e andar saltitante, veio suprir (quase) essa falta de companhia. Era como uma sombra. Encostava-se a mim e olhava-me com aqueles olhos castanhos, tão ternurentos, que me deixavam completamente rendida.
De manhã, acompanhava-me à escola (na época era hábito os meninos irem à escola sozinhos e a pé) e aguardava deitado encostado ao portão que chegasse a hora do recreio.
Era nessa hora que eu vinha junto dele e repartia invariavelmente o meu lanche com ele. Creio que ficávamos ambos com fome mas isso não tinha interesse nenhum.

Era inteligente, creio. Sabia perfeitamente que não lhe era permitido entrar no pátio do recreio pelo que aguardava pacientemente da parte de fora, junto ao portão o final das aulas. Ou então iria dar os seus passeios, não sei. O que sei é que quando, depois das aulas, chegava ao portão, aí estava ele à minha espera para regressarmos juntos a casa aceitando, com ar feliz alguma festa que as minhas amigas (as que não lhe tinham medo), lhe faziam.

Os tempos passados a brincar e a explorar os cantos insuspeitáveis dessa quinta tiveram sempre a sua companhia. Descia comigo à mina (tínhamos uma mina de água bem quente na quinta, estávamos junto das “Caldas”de Chaves) quando eu ia baptizar as minhas bonecas e desfazer algumas, claro.
Nadava no rio enquanto eu lavava as roupinhas no lavadouro da margem, vindo depois sacudir-se energicamente para cima de mim. O que eu me ria!...

Nessa quinta havia patos que saíam de manhã da capoeira seguindo absolutamente sós, até ao rio onde passavam o dia. No final da tarde, numa hora que só eles sabiam, regressavam da mesma forma ao lugar onde se alimentariam e passariam a noite. Se algum mais inexperiente ou mais distraído se perdia da fila ou ficava para trás, era o Marquês que, com toques de focinho o reencaminhava para a fila.

Na ocasião todas estas coisas eram absolutamente banais para mim; faziam parte do meu quotidiano da mesma forma que o beber água das termas num copo achatadinho nas noites de verão, atravessar o rio para a quinta do meu tio saltando de pedra em pedra a que se chamavam poldras (que ainda existem mas que não sei se seria capaz de usar agora), correr com ou sem Marquês pelo jardim do Tabulado encontrando bons esconderijos, ir apanhar escaravelhos quando infestavam os batatais (talvez ainda não se usassem os insecticidas) e sei lá que mais…

Bom, mas tudo tem um fim e para mim, o fim desta vida solta e feliz, chegou quando o meu pai foi transferido para o Porto e com ele se deu a “transferência” de toda a família.
Eu tinha na altura nove anos e ia para o então primeiro ano do liceu.
Custou-me deixar tudo: os grandes espaços, os avós, com quem sempre tinha vivido, a minha tia que era mais irmã mais velha do que tia e, mais do que tudo, o Marquês…

Ainda hoje sofro a pungência da dor que senti quando o abracei para o deixar…

Voltei lá nas férias grandes do ano seguinte para passar lá uns tempos e para ir ao casamento da minha tia mas, do Marquês, nem sinal.
Nunca soube o que lhe aconteceu, nunca mo disseram. Mas ainda hoje, quando penso nos momentos que partilhámos, me dá uma imensa vontade de chorar de talforma consigo sentir ainda a saudade.

Hoje sou uma mulher mais de gatos. Embora tenha sempre cães de quem gosto muito. Mas o Marquês mantém ainda o seu lugar, absolutamente insubstituível, guardado bem fundo no meu coração de menina.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Mais uma corrente

(Imagem da net)

Com o post anterior tentei dar resposta ao desafio feito pela Sofia do blogue Defender o Quadrado no sentido de mostrar como se brincava antes da existência da Playstation (Com'eravamo, i giochi prima della Playstation).


Mais uma cadeia iniciada e mais uma em que fui apanhada. Chegou agora o momento da vingança e de ser eu a desafiar outros cinco blogues a dar seguimento a esta corrente.


Lanço então o repto a:

Clara Branco do O Enigma e o Espelho

A.Teixeira do Herdeiro de Aécio

Lúcia Costa do Quinta Fase da Lua

Zé Torres do Poesia à solta

No Lung do Pud in Japan

Quando eu fui criança


(Imagem: a Donagata com a sua boneca Inglesa no dia em que lhe pode pegar.)

Ora cá vai mais um texto a puxar para o nostálgico. Mas, desta vez, a culpa é toda tua, Sofia!
É que ao desafiares-me para relembrar as minhas brincadeiras de infância estás a fazer-me recuar a um tempo do qual guardo tantas memórias....

Vivi toda a minha infância em grandes espaços, grandes quintas, e, de início, bastante isolada no que diz respeito à companhia de outras crianças. Comecei então por me entreter sozinha. E como? Corria livremente por espaços abertos; descobria esconderijos onde organizava e montava as minhas casinhas; apanhava toda a espécie de plantas que cresciam nos muros para fazerem de arroz, de bifes, da salada etc. Reconhecia, sem grandes pavores, os animais mais assustadores que costumavam aparecer nos muros em dias quentes de verão como cobras, sardões, sardaniscas, sapos ouriços cacheiros, e sei lá que mais.
Lavava a roupa das minhas bonecas em grandes tanques de água onde enfiava os braços bem até aos cotovelos. Ajudei a quebrar a casca dos ovos quando os pintainhos queriam sair. Assisti ao nascimento de várias ninhadas de gatos os quais, misteriosamente, desapareciam...
E tinha sempre um cão! O último foi o Marquês que era tão grande como eu.

Foi também nessa época que dei longos passeios com o meu avô materno, homem muito culto e recém aposentado que me ensinou imensas coisas: a distinguir os diferentes tipos de rochas e as suas composições colhendo as respectivas amostras; o que era a erosão razão pela qual algumas pedras do caminho estavam tão lisinhas que não incomodavam quando nos sentávamos para descansar; a identificar algumas das constelações que povoavam os céus dessa altura e obviamente a reconhecer a estrela polar e, em consequência, os pontos cardeais; a distinguir diversos tipos de aves, pelo porte, pelo tamanho, pelo canto; os seus ninhos…
Enfim, era uma criança entre adultos. Mas sem a vigilância opressiva destes.

Mais tarde, já não tão só pois já contava com algumas colegas da escola e minhas amigas, adorava escorregar pelos palheiros ou medas de palha o que nos deixava cheias de comichões ao mesmo tempo que desfazia o trabalho cuidadoso do caseiro.
Além disso, saltávamos à corda alegremente a tarde inteira, jogávamos à bola, às escondidas (e escondíamo-nos nos locais mais incríveis, desde adegas escuras, poeirentas e com cheiro a bafio, até a caves também bafientas onde nem se descortinavam bem os objectos que para lá se amontoavam), jogávamos à macaca, ou patela como se diz por aqui, com uma pedra muito lisinha (a tal patela) e éramos muito, mas muito felizes.

Brincávamos junto ao rio (o Tâmega) que limitava os terrenos da casa onde vivia na altura. Lá fazíamos também as nossas casinhas que atapetávamos com os limos macios que arrancávamos do fundo do leito do rio. Lavávamos as roupas das bonecas e até as próprias donas das roupas que passavam a não ter grande futuro uma vez que na sua maioria ainda eram de papelão.
Algumas dessas roupinhas de boneca haviam sido costuradas por nós, nos dias que não convidavam à escapadela, utilizando para tal agulhas, tesouras, linhas, enfim tudo aquilo que, nessa altura, não constituía um risco reconhecido. Devo confessar que esta não era seguramente uma das minhas actividades favoritas e, já aí, era muito claro que nunca deveria enveredar por uma carreira ligada à moda… O que acontecia quase sempre e juro que não sei porquê era terminar estas sessões com as minhas bonecas completamente despidas e sem alternativas…
Ah! Mas houve uma que eu não despi nunca!...O que eu gostei dessa boneca! Foi a minha primeira boneca, julgo eu, com cabelo verdadeiro, sedoso e loiro como eu imaginava que se devia ser… Não era de papelão, tinha uma cara lindíssima, creio recordar que de porcelana e um vestido!!!… Foi o meu tio que ma trouxe de Inglaterra. Aliás nunca se chamou outra coisa que não fosse a “Inglesa”!
E é verdade que nunca a despi. Também nunca lhe peguei, não podia. Era só de “olhar”. Que me lembre apenas a manuseei uma vez e foi para a levar comigo ao fotógrafo onde tirei uma fotografia com ela, de adereço, e assim ficou nas minhas mãos para a posteridade.

Regras, havia apenas as que diziam respeito ao cumprimento das horas das refeições e de algumas, poucas, recomendações específicas.

Chegávamos à noite exaustas, sujas, predispostas a dormir bem, talvez a ler antes um bocadinho, mas pouco que o cansaço era, geralmente, muito.

Certamente corremos alguns riscos que hoje horrorizariam qualquer um, mas sabem uma coisa? Não demos por isso, ou melhor, se calhar aprendemos cedo a evitá-los, a maior parte das vezes por recomendações dos adultos é claro, mas muitas delas por puro instinto.
Foram tempos muito, mas muito felizes!


Desculpem a prosa tão longa mas é que as memórias são mesmo assim, enleiam-se umas nas outras e torna-se tão difícil separá-las!...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Dia de grandes comoções

(Imagem: "brought a tear to his (my, neste caso) life de Louis Wain)
Estou tão comovida!
Ontem foi um dia fantástico para mim. Por um lado tomei conhecimento que tenho um filho que exerce a actividade profissional de, atentem por favor, “Consultor de Software de Retalho”!!!
É ou não é de deixar qualquer mãe que se preze impante de orgulho! Isto porque até hoje eu julgava que o rapaz era meramente “Engenheiro Electrotécnico e de Computadores”. Como pode uma mãe estar tão equivocada acerca das verdadeiras capacidades dos seus rebentos; dos seus indescritíveis desempenhos que os levam a atingir tais patamares nas suas carreiras!
Enfim, já não me espanta que o mocinho não dê a ida pela volta: ora está na Índia, ora na Turquia, ora na República Checa…Eu sei lá! Mas agora compreendo muito melhor; trata-se, atenção, vou repetir, de um “Consultor de Software de Retalho”.
Estou em lágrimas…

Pois é, mas ainda as surpresas iam no adro (costumam ser as procissões mas aqui, uma procissão não fazia grande sentido e poderia ser até um imenso estorvo). É que não contente com esta verdadeira bomba, eis que, ao abrir o meu blogue como faço todas as noites para o aconchegar e lhe desejar uma boa noite de repouso, verifico que o sitemeter exibia (pareceu-me que orgulhosamente) o número 1000. É verdade, era mesmo um elegante 1 e três 0 redondinhos!!!
Que dia fantástico! Que emoção!
Significava isto que mil incautas criaturas, voluntária ou inadvertidamente, aqui vieram parar, desamparadas, a sangue frio, sem que nada as preparasse para o que as esperava.
Oxalá se tenham conseguido recompor sem grandes danos colaterais. E, confesso até, que tenho a secreta esperança de que a visita não tenha sido uma experiência muito traumatizante para alguns.
Esses, espero que voltem e que comentem. É sempre bom o feed-back pois, como normalmente cada um de nós é o crítico mais demolidor do seu próprio trabalho, é sempre bom ouvir (neste caso ler) segundas opiniões para colocar as coisas no seu devido lugar.
Obrigada a todos.

domingo, 18 de novembro de 2007

"Meu único grande amor: casei-me" romance de Manuela Gonzaga

Ao ler as primeiras páginas do livro referido fiquei completamente perplexa. Atendendo a que conheço Manuela Gonzaga como jornalista, historiadora, com uma tese de mestrado em desenvolvimento que trata da génese da expansão portuguesa se bem que também ficcionista, foi com absoluto espanto que fui lendo as primeiras páginas deste seu livro mais recente.

As personagens são do mais absurdo possível, retratando de forma também absurda estratos sociais bem definidos, muito superficiais e folhetinescas.
À medida que prosseguia na leitura, fui criando uma opinião um pouco diferente: penso que todo este absurdo a todos os níveis (até em termos de linguagem) tem como intenção satirizar a chamada literatura “light”, seja lá isso o que for.
Manuela Gonzaga, numa colagem ao modelo e aos parâmetros do romance cor-de-rosa, constrói uma crítica carregada de humor e de referências a lugares comuns de carácter social e cultural; uma sátira mordaz ao que de mais superficial e frívolo tem a nossa sociedade neste já Sec. XXI. Não falta a trintona de boas famílias, rica mas destravada, patrocinada para aparecer nas revistas cor-de-rosa, o editor de obras de referência desiludido e falido querendo um bestseller mesmo que de má qualidade literária, a mãe solteira, gira e culta, a empregada doméstica de leste que é médica, o escritor medíocre bem sucedido, o conde rico que se apaixona pela strip teaser, o fotógrafo gay... e mais não digo ou estragaria o gozo da descoberta.

Interessante a utilização de textos de introdução e de finalização em cada capítulo. Os primeiros fazem um resumo dos capítulos anteriores e os segundos destinam-se a levantar as várias hipóteses de prosseguimento da trama, procurando “prender” o leitor, bem à laia dos folhetins radiofónicos dos quais,confesso, já não me recordo muito bem, assim como das telenovelas (essas completamente actuais e em força) nas suas “cenas dos próximos capítulos”.

Enfim, vale pelo humor, pela ligeireza com que se lê e pela (espero eu que não apenas suposta) crítica à tal literatura ultra light mas de grande sucesso em termos de vendas que é , no final, o género em que o próprio livro se insere... Ou não?
Pequeno excerto que penso ser, de algum modo, elucidativo:

“...De resto, logo às primeiras linhas do romance (...) pensou filosoficamente: «Esta merda é uma bosta. E esta bosta cheira a dinheiro que tresanda. O enredo é mau, as personagens péssimas, os diálogos um desastre. Mete sexo página sim, página não. Fala de gente de política. Faz uma perninha com o futebol, aliás um belo empernanço. Temos hipótese de bestseller»”

Envy e Tracy em treinos

O Envy é mais dotado para a fase do relax...



Mas a Tracy, mais empenhada, experimenta alguns exercícios de bodybalance que eu lhe ensinei. Claro que em elasticidade não chega nem aos meus calcanhares mas, enfim, lá vai tentando.

sábado, 17 de novembro de 2007

Gosto de gatos, e pronto!

(Imagem: O meu líndíssimo e meiguíssimo Hans. Um orgulhoso exemplar de Bosques da Noruega)

Gosto de gatos, e pronto!
Gosto deles brancos, azuis, listados,
Tartaruga, laranja, ou malhados,
Siameses, persas, noruegueses,
Rafeiros, europeus ou balineses…
Gosto de gatos e pronto!
Gosto deles bem peludos,
Encantam-me os de pelo raso,
Gosto mesmo dos sisudos,
Mas são raros, um mero acaso.
Aprecio o seu andar,
Elástico e ondulante,
Muito fluido e provocante,
Exibem-se ao caminhar.
São donos do seu nariz,
Nunca se deixam comprar,
São dóceis, mas não servis,
Sabem deixar-se adorar!
São companhias incríveis,
São amigos assombrosos,
Possuem-nos, são terríveis,
Adoráveis e ardilosos…
Gosto de gatos, e pronto!
Sabem-se insinuar
Tornam-se os nossos amos,
Mas acham prazer em gostar,
Daquilo que nós gostamos.
E é assim que nós vemos
Gatos poetas, cantores,
Gatos que pintam e cremos,
Gatos que sofrem de amores!
Gosto de gatos, e pronto!

Donagata em 2007-11-16

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

"As Healthclubíadas" (continuação - 4)

(Imagem da net "Cancel moms healthclub membership!!!")
Mais umas aulitas e tenho a filha a berrar o mesmo...
Enfim, cá vão mais umas estrofesinhas, mas descansem pois estou mesmo a esgotar a inspiração (se considerarmos "isto" inspiração).


17
E depois, pra quem estiver só a ouvir;
Entre a música que é omnipresente,
E as palavras que nos fazem prosseguir:
E um e dois e três, prá frente,
E quatro e cinco toca a insistir,
Estica, estica, o esforço é aparente!
Acima, abaixo, agora não vai parar
Insiste, esforça, não deixemos afrouxar!


18
Essas pernas pra cima, bem puxadas
E abertas pra ser maior a tensão
Vamos lá, essas costas bem pousadas
Os descuidos podem provocar lesão.
É insistir, aguentar... já estão cansadas?
Não respondem? Afinal ainda não!
Ora então é oito tempos a aguentar
Que agora não podemos claudicar!


19
Vamos lá, não está nenhuma cansada!
(E a gente a transpirar e a esbaforir),
Meninas, agora em forma acelerada,
E não quero ver ninguém a desistir!
Que bonitas, que gente tão animada!
E o tal incauto que apenas está a ouvir
Que não vê o que estamos a passar
Vai feliz. Como estamos a adorar!


20
Vejam bem como é fácil enganar
Quem não vê e só ouve o aparato,
E então se nos ouve a suspirar
Juntamente com o restante espalhafato,
Imaginem que poderá até julgar
Testemunhar fogoso concubinato.
Mas só pode de tal forma discorrer
Quem só ouvir e não estiver a ver!


21
E os pesos, que nos causam tanta dor,
Infligida em músculos insuspeitados!
Quatro quilos, não parece arrasador!
Mas nos braços erguidos e bem esticados,
A movê-los bem firmes e sem tremor...
Bem, temos já os pecados expurgados!
Todos aqueles que outrora cometemos
Mais um crédito para os que ainda nos lembremos.


22
Do odor (pra ser ligeira) só agora vou falar
No entanto é um assunto pertinente
Está presente seja qual for o lugar
E há locais onde é de tal modo pungente
Que quase me abstenho de inspirar
Arquejando de uma forma deprimente.
E não comecem já para aí a desvairar,
Pois é mesmo de mim que vos estou a falar.



quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Acerca de gatos

(Imagem: Definições de um felino de Othello de Will Rafuse)
Mais uma vez com a aprovação dos meus felinos residentes, sobretudo do Envy que está sentado quase em cima do teclado observando atentamente o que vai surgindo no ecrã, aqui vos deixo um poema, de um dos grandes poetas portugueses, dedicado a estas pequenas feras carregadas de meiguice e que ele tão bem sabia amar.


Em Abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

Eugénio de Andrade em “Com o Sol em cada Sílaba”

terça-feira, 13 de novembro de 2007

"Canário" de Rodrigo Guedes de Carvalho

Mais um livro cuja leitura concluí e mais umas quantas horas realmente bem passadas.
Não faço questão de aqui comentar tudo o que leio mas, mesmo assim, à medida que vou lendo os comentários a algumas das obras que li e que fui colocando neste blogue só posso concluir uma de duas coisas:
- ou tenho uma sorte danada na selecção de livros que faço;
- ou então sou muito pouco exigente em relação àquilo que leio...
Isto porque, mais uma vez, gostei francamente do livro que li.

Já habituada ao tipo de escrita do autor, portanto já com uma determinada expectativa em relação à qualidade do “produto”, devo dizer que o dito não me defraudou minimamente.
Não sei se ultrapassou, na minha opinião, claro, o nível atingido em “Mulher em branco” pois a comparação se torna difícil dada a diferença grande entre os temas abordados, exigindo, portanto, diferentes linguagens. Contudo considero-os no mínimo equivalentes.

Livro de escrita intensa, reproduzindo de forma simples mas realística sentimentos, emoções e atitudes; tecnicamente (em termos literários) muito cuidado. Composto de poucas personagens mas todas elas muito bem trabalhadas sobretudo ao nível das emoções; realmente muito ricas.

Em termos de temática aborda essencialmente, quanto a mim, três problemáticas distintas se bem que magistralmente interligadas: a falta de liberdade (a prisão); o bloqueio do escritor bem sucedido, conceituado, mas nem sempre compreendido, e a (não) aceitação de um elemento com uma deficiência muito incapacitante ao nível dos afectos, o autismo, no seio familiar e respectivas consequências.
Como se pode imaginar, tudo assuntos de grande complexidade e, como tal, exigindo um enorme trabalho de investigação.

Não direi que é o livro da minha vida pois, como já tive oportunidade de dizer, não acredito num livro para uma vida. Todos os livros que leio com agrado são livros da minha vida. Este é, seguramente, um deles.

Vou acrescentar um pequeno excerto do livro.

“...nunca se sabe muito bem o que está a acontecer, quem é que está a falar, porque ele não escreve assim direitinho, a anunciar tipo: agora fala fulano e depois responde sicrano, a gente é que tem muitas vezes de adivinhar.
Mas se calhar é por estas e por outras que é conceituadíssimo, eu quer-me parecer que o padre também fica confundido com os livros dele, mas sabe-se, é daquelas coisas que toda a gente sabe, que são muito bons, muito inteligentes, mesmo que se calhar as pessoas leiam só as primeiras páginas e depois ponham de lado, mas isso não tira o valor ao homem, acontece que ele está num degrau que nós nem cheiramos.”

Dá que pensar, não dá?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

"As Healthclubíadas" (continuação - 3)


Aqui é como deveria ser....

e aqui é mais ou menos como algumas de nós vamos fazendo... É basicamente o mesmo!
(Imagens de Body balance da net)
(E lá continua a falta de juízo)

12
Há também as modalidades mais calmas
Preconizam um bem-estar mais geral:
O Yoga que nos alimenta as almas
Melhorando o nosso lado emocional,
Corpo e mente libertos dos seus traumas
Equilibra o aspecto físico e espiritual.
pilates investe mais na postura
Costas mais fortes e barriga lisa e dura.


13
Do bodybalance ainda não falei
Mas não porque possa ser esquecido
Apenas uma vez experimentei
E pouco faltou para ter morrido.
Os movimentos são calmos, bem sei,
O esquema é bonito, faz sentido,
Mas para certas posições manter
Nem imaginam quanto é preciso gemer.


14
A música está lá, pr’a disfarçar
Pode ser que ao ouvi-la nos esqueçamos
Que os músculos estão tensos, a esticar
E as articulações todas estalamos.
Só quando já a hora está a acabar
E, acreditem, já nem disso conta damos,
Já deitadas, só queremos é dormir
Com a tal música que continuamos a ouvir.


15
A cardio local é sempre a abrir
E começa por ser muito divertida
Salta à esquerda e à direita e a sorrir
Sempre atentas para seguir a batida
Desenganem-se, a alegria é a fingir,
Os sorrisos, são só esgares de fadiga.
Faço a aula com a plena consciência,
Que pequei. Esta é a minha penitência!


16
E também vos direi já, meus senhores
Que para clientela arranjar
Anda a Prof. por salas e corredores,
E deita a mão a quem pode arrebanhar.
É insistente e não se comove com dores
Ou desculpas que tentemos inventar,
E prá aulinha lá vamos sendo levadas
Quais sabinas p’los romanos raptadas.