quarta-feira, 17 de julho de 2013

Verões da minha infância

Chaves. Verão de 1958

Recordo os verões da minha infância.

Eram verões em que o tempo era enorme e as brisas nos penteavam sorrisos grandes.

Verões que carregavam muitos perfumes bons e muito maduros. Traziam também as libelinhas, as andorinhas, muitas andorinhas nos beirais com ovinhos e filhos pequenos de bico muito aberto. E eu podia brincar ao ar livre até ao pousar da noite que era muito à noite mesmo. Traziam as papoilas, as talhadas de melancia, os figos e os pêssegos, as abelhas, as cobras, os sardões… O medo que a minha mãe tinha das cobras!!!! E dos sardões. Não tanto mas também tinha. Quando precisava de sair, nas tardes desses verões, chamava-se o caseiro que vinha com uma enxada afugentar as que se estendiam sobre o muro, ao sol. Só depois a minha mãe ia até ao portão.

Havia pintainhos pequeninos, amarelos e às cores, que eu gostava de ver correr com passinhos miudinhos atrás da mãe gorda e de penas tufadas.

Havia muito feno que eu adorava cheirar e palheiros onde ia escorregar e buscar comichões incómodas e persistentes. E ralhos de mãe e banhos e roupa fresquinha. E havia ervas muito verdes que eu colhia para brincar às casinhas, E eram o arroz, os bifes, as saladas… havia ervas e vontades para tudo.

Havia passeios à azenha, ou ao açude, mais raramente, onde tomávamos banho no rio de águas muito frias e muito limpas com maillots que a minha mãe tinha tricotado e que ficavam muito duros e muito tesos. E lanches que comia sentada no liteiro com a pele muito arrepiada e muito fresca depois desses banhos que tentava fazer durar por todos os tempos do mundo.

Havia ainda as longas tardes com o avô. Sentados numa fraga aprendi que o granito era bordado com grandes pontos de quartzo, de feldspato e fios brilhantes de mica. Aprendi a reconhecer o xisto, o calcário, o basalto e a desenhar nas pedras. Aprendi a gostar muito dos malmequeres e de papoilas. A separar as pétalas das sépalas e a passar os dedos nos estames para ficar com eles pintados de pólen.  Aprendi a assobiar em palheiras, a apanhar grilos a reconhecer poupas e cucos e melros e pardais, são lindos os pardais, e ouriços-cacheiros e toupeiras.

À noite adorava esticar muito o pescoço e alargar o olhar para um céu muito grande que costumava haver nesses verões e, ainda com o meu avô, tratar pelo nome a Ursa Maior, a Menor, a Cassiopeia, a Orion… E depois, pendurada nas estrelas, adormecer ao seu colo.


Tenho saudades dos verões da minha infância. É que as noites, agora, não são tão demoradas, o céu é bem mais pequeno e já não encontro estrelas onde
me pendurar.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Por do sol na Foz


Deslizo lentamente para esta varanda emprestada.
Estendo a pele e busco uma sombra de arrepio.
Encontro um ar parado, denso e quieto, enfermo de calor.
E, ao longe uma nesga de mar sem rumores.
Por sobre esse mar estende-se o sol
que resvala langoroso e gordo por sobre as águas
bêbado de sono e de abundâncias de laranja, vermelho, azul…
E, serenamente, quase sem dar conta,
instalam-se as cores da noite, os seus enigmas, os seus cicios,
os seus silêncios que apenas os poetas e as gaivotas
e as andorinhas sabem respirar.
E cobrem então essa nesga de mar
e esta varanda que alguém hoje me emprestou.


"Obviamente ...Gata"




Pois é, há já muito tempo que deveria aqui ter deixado este registo mas as solicitações são muitas e o tempo vai passando...

A verdade é que publiquei o meu novo livro de poesia "Obviamente... Gata"!

O seu lançamento foi no dia 22 do mês de Junho numa festa muito bonita no auditório da Casa do Infante.
Os amigos, os conhecidos, pessoas que de uma forma ou de outra se cruzaram comigo algum dia compunham uma belíssima (e grande) moldura humana.

O João Gesta e o General Loureiro dos Santos juntaram à sua generosidade as suas imensas competências e fizeram intervenções carinhosas e brilhantes na sua acutilância, na sua clareza.

Fiquei comovida facto que ainda hoje me paralisa um pouco as palavras quando falo destes momentos bonitos.

A Ana Celeste Ferreira e a Ana Afonso vestiram os meus poemas de intenções lindas, de subtilezas que eu própria lhes desconhecia.

O Ensemble Minnessang encantou todos com a sua música.

E o resto da noite, bom, o resto da noite foi de festa e de afectos.

Muito obrigada a todos