quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Poema inacabado


Outra noite, outra praia, outro bar, eu, não outra,
e o abismo de um poema inacabado... 
a mesma respiração, o mesmo apelo forte do mar,
o mesmo fragor, mais sereno, talvez, mais prenhe de mistério.
As mesmas cores mais outras, menos outras…
Outras gaivotas, as mesmas, outros sopros,
a lua, o mesmo paradoxo, outros muitos paradoxos,
o suave embalo da noite e o perfume denso das coisas densas de Verão.
As sombras menos sombras, menos tristes, outras sombras, música nas sombras…
e o mesmo abismo do mesmo poema inacabado…

sábado, 3 de agosto de 2013

O Medo



O medo começa num ponto frio no centro da barriga
e cresce em ondas de fogo e gelo
criando côncavos profundos
e esquinas vivas  onde me sento e espero.
Insinua-se nas mais recônditas sinapses e veste-se de cinzas
e roxos e castanhos muito feios e muito baços.
Por vezes, o medo, torna o ar duro, denso e ácido
e fá-lo crescer demais na garganta e impede-me de gritar.
E mastigo-o, mastigo-o sem parar e sem me dar conta que o faço…
O medo faz-me pesar as pálpebras e fecho-as
com muita força porque não posso com elas.
E elas tombam quase até aos pés.
E as lágrimas não têm por onde sair e secam.
Sem lágrimas tenho os olhos baços e secos e redondos e em fogo.
O medo começa num ponto muito frio no centro da barriga
e não termina nunca.

Nem quando se incendeiam os olhos…

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Verões da minha infância

Chaves. Verão de 1958

Recordo os verões da minha infância.

Eram verões em que o tempo era enorme e as brisas nos penteavam sorrisos grandes.

Verões que carregavam muitos perfumes bons e muito maduros. Traziam também as libelinhas, as andorinhas, muitas andorinhas nos beirais com ovinhos e filhos pequenos de bico muito aberto. E eu podia brincar ao ar livre até ao pousar da noite que era muito à noite mesmo. Traziam as papoilas, as talhadas de melancia, os figos e os pêssegos, as abelhas, as cobras, os sardões… O medo que a minha mãe tinha das cobras!!!! E dos sardões. Não tanto mas também tinha. Quando precisava de sair, nas tardes desses verões, chamava-se o caseiro que vinha com uma enxada afugentar as que se estendiam sobre o muro, ao sol. Só depois a minha mãe ia até ao portão.

Havia pintainhos pequeninos, amarelos e às cores, que eu gostava de ver correr com passinhos miudinhos atrás da mãe gorda e de penas tufadas.

Havia muito feno que eu adorava cheirar e palheiros onde ia escorregar e buscar comichões incómodas e persistentes. E ralhos de mãe e banhos e roupa fresquinha. E havia ervas muito verdes que eu colhia para brincar às casinhas, E eram o arroz, os bifes, as saladas… havia ervas e vontades para tudo.

Havia passeios à azenha, ou ao açude, mais raramente, onde tomávamos banho no rio de águas muito frias e muito limpas com maillots que a minha mãe tinha tricotado e que ficavam muito duros e muito tesos. E lanches que comia sentada no liteiro com a pele muito arrepiada e muito fresca depois desses banhos que tentava fazer durar por todos os tempos do mundo.

Havia ainda as longas tardes com o avô. Sentados numa fraga aprendi que o granito era bordado com grandes pontos de quartzo, de feldspato e fios brilhantes de mica. Aprendi a reconhecer o xisto, o calcário, o basalto e a desenhar nas pedras. Aprendi a gostar muito dos malmequeres e de papoilas. A separar as pétalas das sépalas e a passar os dedos nos estames para ficar com eles pintados de pólen.  Aprendi a assobiar em palheiras, a apanhar grilos a reconhecer poupas e cucos e melros e pardais, são lindos os pardais, e ouriços-cacheiros e toupeiras.

À noite adorava esticar muito o pescoço e alargar o olhar para um céu muito grande que costumava haver nesses verões e, ainda com o meu avô, tratar pelo nome a Ursa Maior, a Menor, a Cassiopeia, a Orion… E depois, pendurada nas estrelas, adormecer ao seu colo.


Tenho saudades dos verões da minha infância. É que as noites, agora, não são tão demoradas, o céu é bem mais pequeno e já não encontro estrelas onde
me pendurar.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Por do sol na Foz


Deslizo lentamente para esta varanda emprestada.
Estendo a pele e busco uma sombra de arrepio.
Encontro um ar parado, denso e quieto, enfermo de calor.
E, ao longe uma nesga de mar sem rumores.
Por sobre esse mar estende-se o sol
que resvala langoroso e gordo por sobre as águas
bêbado de sono e de abundâncias de laranja, vermelho, azul…
E, serenamente, quase sem dar conta,
instalam-se as cores da noite, os seus enigmas, os seus cicios,
os seus silêncios que apenas os poetas e as gaivotas
e as andorinhas sabem respirar.
E cobrem então essa nesga de mar
e esta varanda que alguém hoje me emprestou.


"Obviamente ...Gata"




Pois é, há já muito tempo que deveria aqui ter deixado este registo mas as solicitações são muitas e o tempo vai passando...

A verdade é que publiquei o meu novo livro de poesia "Obviamente... Gata"!

O seu lançamento foi no dia 22 do mês de Junho numa festa muito bonita no auditório da Casa do Infante.
Os amigos, os conhecidos, pessoas que de uma forma ou de outra se cruzaram comigo algum dia compunham uma belíssima (e grande) moldura humana.

O João Gesta e o General Loureiro dos Santos juntaram à sua generosidade as suas imensas competências e fizeram intervenções carinhosas e brilhantes na sua acutilância, na sua clareza.

Fiquei comovida facto que ainda hoje me paralisa um pouco as palavras quando falo destes momentos bonitos.

A Ana Celeste Ferreira e a Ana Afonso vestiram os meus poemas de intenções lindas, de subtilezas que eu própria lhes desconhecia.

O Ensemble Minnessang encantou todos com a sua música.

E o resto da noite, bom, o resto da noite foi de festa e de afectos.

Muito obrigada a todos

quinta-feira, 20 de junho de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

Sal nos olhos



Gosto muito dos Domingos.
Os Domingos são, definitivamente, uma coisa boa!
São aqueles dias em que acordamos com uma, mais adivinhada do que presente, sensação de resiliência.
Experimentamos aquela estranha compulsão de sermos mais felizes do que habitualmente, de estarmos mais contentes do que habitualmente, mais soltos do que habitualmente, de fazermos coisas mais divertidas, mais estimulantes, mais relaxantes, mais … do que habitualmente.
De sermos, mais do que habitualmente, aquilo que supomos mais nós.
É o dia em que nos apetece o azul, o amarelo ou até o lilás. Apetece-nos um sol que não seja apenas uma metáfora e que os pássaros, as flores, as borboletas não sejam apenas a métrica de uma saudade.

Mas, às vezes, nos Domingos, vivem-se devagarinho os minutos, um de cada vez, com sabor a horas que sabem a dias, que sabem a anos que, afinal, se esgotaram em meros segundos.
Às vezes, nos Domingos, derivamos assustados e sem pé por entre a escassez das rotinas; por entre o pó de uma fantasia que se esfumou e se perdeu na realidade suja de silêncios, de ausências, de estorvos, de palavras frouxas, ou azedas, ou azedas e frouxas…
Por vezes, nos Domingos, não conseguimos mais do que um cinzento que nos obscurece todas as flores, todas as borboletas, todos os pássaros, os rios, os sonhos… e mesmo as metáforas de todos os sóis e de todas as luas…
E aos Domingos estamos mais atentos e sentimos mais…

Os Domingos, às vezes…

Às vezes nos domingos tenho sal nos olhos e choro.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Abril



Todos deveriam conhecer Abril!
Abril é mesmo bonito sobretudo quando Abril é em Portugal.
Abril cheira ao sal das lágrimas que se penduram pelos bicos, nas pontas das folhas ébrias de verde e brincam ao sabor das diabruras da brisa.
Cheira ao som das cores de todas as borboletas que pousam em todas as flores que cheiram ao seu próprio voo.
Abril sabe bem.
Sabe a chilreios de aves livres que se passeiam livres por céus de um azul muito livre e muito límpido e muito fresco.
Abril tem muitas imagens de guardar memórias.
Imagens lindas como cravos vermelhos, rostos felizes, dedos em “vê”, pessoas na praça, muitas pessoas na praça, olhares de esperança, sorrisos de quem confia…
Mas Abril, às vezes, cada vez mais vezes, também tem chuva, dias tristes, cores de desesperança, cravos de fazer de conta, “grândolas” desafinadas, olhares cinzentos, bocas sem sorrisos, ou se sorrisos, de esguelha, não sorrisos, crispações, mãos erguidas em punhos bem cheios de revolta e dor.
E passeiam na praça eunucos incompetentes, muito bem vestidos, muito bem falantes, de sorrisos resplandecentes que estragam Abril. Que lhe tiram o viço, o cheiro bom das coisas boas. Que calcam as flores no minuto antes de voarem e assustam as aves e matam as borboletas porque, sem o voo das flores, já não vale a pena viver.
E há menos pessoas nessa praça onde sobejam os tais eunucos inábeis, muito menos pessoas na praça e muito mais desalento, muita, mas muita saudade da cor da voz das pessoas que afinavam cantando a “Grândola” quando a Grândola tinha o sabor, a frescura e a limpidez do azul da Liberdade.

sábado, 30 de março de 2013

Chuva



Rodo o copo que ergo da mesa.
Com ele rodam três pedrinhas de gelo
que tilintam em tremuras de virgem
naquele fluido esbranquiçado que as afoga.
Lá fora busco uma sugestão de azul,
de amarelo ou de rosa que me perfumem a alma.
Porém, não azul, não amarelo, não rosa.
Apenas um quadro desbotado,
uma silhueta de angústias que se acinzenta
sob a surdez escarninha do ruído da chuva.
Baixo lentamente as pálpebras
numa tentativa de limitar esse mar
que se avoluma, se pregueia
e finalmente escorre lento
e mergulha no meu corpo,
líquido… 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sons de echarpe




Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda, 
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo  
que me trouxeste não me lembro bem de onde,
lamento…
mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos,
esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,
suspiros que repuxam a alma 
e a silhueta de todas as coisas.

sábado, 9 de março de 2013


Hoje, na baixa do Porto, comemora-se Manuel António Pina.

Também lá estarei.

Entretanto deixo aqui um humilde contributo para que nunca se apague a sua memória

http://dl.dropbox.com/u/62231909/A%20Poesia%20vai%20acabar%20de%20Manuel%20Ant%C3%B3nio%20Pina.m4a


A Poesia Vai Acabar 


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


Manuel António Pina

sábado, 2 de março de 2013

A Ana




A Ana É.
A Ana é exactamente aquilo que é preciso para se Ser.
É a rigorosa medida de tudo o que faz dela…
a Ana.

A Ana tem um aroma macio que sabe bem.

A Ana é um rio de águas revoltas,
de um azul manso porque
se aquieta na doçura das margens,
na brandura dos limos do leito.

Quando a Ana ri a minha alma enche
e abre-se numa sinfonia de cores.

A Ana dá beijos cor de amora
que deliciam e me fazem bem,
que me fazem querer ser pequenina
e neles arrumar todas as memórias boas;
todas as que cabem numa criança.

A Ana é …  apenas a Ana.

2013-03-02 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Coisas de pensar


"...e ajusto os cantos do sentir"

Estou tão triste hoje!

E doí-me sobretudo porque não vislumbro nenhuma razão mais especial para esta pena que se instalou em mim.

Não. São estas coisas apenas de pensar que chegam de mansinho e se arrumam nas nossas cabeças…
São lembranças de cores sombrias que se arrastam até encontrarem o lugar certo na memória. E doem. 

É aquela ponta pequenina de saudade que, como um afiado aguilhão, se me encosta à ilharga da lembrança. 

É aquele fragmento tão minúsculo de um tempo que não vivi mas no qual não me encontrarei mais.

É a sugestão da desilusão, do fim de um ciclo, de uma era que o não foi. Um relógio que parou antes mesmo de ter tempo para o tempo.

Hoje, saio de mansinho com os olhos pela janela, penduro-me na laranjeira do jardim, aconchego-me nas folhas verdes e ajusto apenas cantos de sentir…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma história de amor


"A Love Story" de Louis Wain

Eu acreditava na perenidade do amor.
Não da paixão.
A paixão consome-se no seu próprio ardor.
Mas no amor eu cria.
Eu julgava que ia amar e ser amada
com a mesma intensidade, a mesma força cega,
a mesma entrega despojada dos primeiros tempos.
Eu cuidava que o amor era assim.
Unicamente amar e ser amada.
Serenamente amada.
Seguramente amada.
Sempre.
Amar.
Unicamente.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013



Sentei-me aqui, em frente ao computador, com a ideia de que seria capaz de escrever alguma coisa interessante neste dia em que, nem sei bem porquê, me dou conta, de forma inequívoca, do quão rapidamente me aproximo do Outono da minha vida.

Não é hoje, eu sei.

É um pouquinho hoje, foi um pouquinho ontem mais um pouco anteontem e assim sempre. Todos os dias vamos sendo varridos pela inexorabilidade do tempo.

Seria motivo, talvez, para entristecer… perceber a minha própria caducidade. Tomar dela uma maior consciência, acabrunha. E, se bem que o tempo se arraste sempre à mesma velocidade, é apenas em dias pontuais, como o de hoje, que tenho a consciência da sua passagem e do rasto de destroços que vai deixando pelo caminho. É também nestes dias que estou mais atenta às marcas que esses estragos imprimem na minha carne, na minha alma, no meu ser. Essas mesmas que, distraidamente, tenho desvalorizado, considerado pífias, ou nem considerado de todo.

E depois é aquela foto de há tão poucos anos que a amiga me mandou. E não acredito que seja eu, ali, assim, tão jovem ainda… Isto foi pouco antes de ontem!!!! E eu já não sou eu… Bolas! Como o raio do tempo nos finta; nos deixa ir vivendo nesta suave dormência para, de repente, nestes dias assim, nos acordar se supetão.

E é difícil acreditar nas rugas que começaram imperceptíveis e insidiosas e se instalaram para ficar. E são as comissuras dos lábios que já não são bem as que recordo e ensombram o meu sorriso. Os cantos dos olhos que, tombando, vão colocando uma pincelada de cinzento no olhar. As mãos que de repente pergaminham e se fecham crispadas por pudor.

E há ainda os cabelos brancos. Confesso que de início até lhe encontrava uma certa graça, um charme subtil, mas que agora já não tanto.

E é o desacomodar do corpo que cria novos volumes que não reconheço e que estranho porque não os vi chegar.
E são algumas, já notórias, partidas da memória que teimo em desvalorizar.
Mas, sobretudo, é este desacelerar involuntário, este desapego que, traiçoeiro, se vai instalando.

Começa pelas mais recentes mudanças as quais, se calhar, já não cabem na realidade que construo agora para mim. Depois, nem acho já tão agradável aquilo que ainda ontem mesmo me fazia correr. Estranho-o até… Depois… Depois ver-se-á…

Sei que já escrevi coisas. Sei que não gostaria de as ter escrito. Sei que assim não posso mais alhear-me delas. Ficam aqui registadas de forma quase tão vincada quanto esta ruga por onde desliza uma lágrima salgada e quente.

Continuo aqui sentada a tentar dizer alguma coisa.

É já noite. O sono não chega, e hoje… hoje não sou capaz.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

“Claraboia” de José Saramago



Estava na pilha de livros alinhados, por ordem, para eu ler mas há já muito que ia sendo sistematicamente preterido por outros que iam chegando. Vá-se lá entender os desígnios da vontade…
Bem, mas finalmente lá chegou a sua vez.
É sempre interessante, se bem que também possa ser traiçoeiro, ler um dos primeiros romances de um autor (o primeiro mesmo, sob pseudónimo, segundo parece) de quem se conhece a maior parte da obra. Talvez tenha sido essa a razão que me levou a postergá-lo tantas vezes.
As expectativas são grandes e daí haver algum receio de desapontamento. Parvoíce, eu sei. Cada livro vale o que vale de per si.

E este vale a pena ler.
Passado em meados do século passado (XX), numa rua esconsa de Lisboa, leva-nos, por um período de tempo, a viver as vidas de um grupo de pessoas que constituem as famílias que habitam um determinado prédio.
São pessoas diversas, com vidas diversas as quais, por vezes, ocultam sob de um véu de dignidade, pensamentos, anseios e atitudes menos dizíeis. É sempre assim.

E temos o sapateiro e a sua mulher, que decidem admitir um hóspede, para equilibrar o orçamento. Caetano e Justina, casal improvável que perdeu uma filha. Emílio Fonseca, casado com D. Carmen uma galega saudosa e inconformada, com o seu filho Henriquinho. D. Lídia, a que “está por conta”… Anselmo, Rosália e Maria Cláudia uma moça bonita, no viço dos seus dezanove anos. E as irmãs Adriana e Isaura, solteiras desesperançadas que vivem com a mãe, Cândida e a irmã desta, a Tia Amélia ambas viúvas.

E de casa em casa, de sobrado em sobrado, vamos sendo levados a viver todas as tramas, as esperanças, os desgostos, os pensamentos mais profundos, as estratégias mais duvidosas. Vamos conhecendo os segredos que se querem esconder, os sonhos que não se ousam ter, as verdades que não se ousam enfrentar, enfim, a vida de todos e de cada um desta pequena comunidade bem como o entrosamento possível das várias vidas.

É um livro de leitura agradável, simples, denotando até, a meu ver, uma certa ingenuidade.
Não contém ainda a sofisticação literária de futuros romances do autor mas é genuíno e bem escrito.
Contudo, encontro já aqui, nos diálogos entre Silvestre e Abel Nogueira (o sapateiro e o seu hóspede que escolheu nada fazer da vida, sobreviver, apenas), o nascer do que serão as diatribes filosóficas, os embriões das elucubrações que pejarão, por exemplo, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A ler sim. Até pela curiosidade da percepção da evolução.

domingo, 27 de janeiro de 2013



Sempre só.
Dias e horas enormes
cercada apenas por uma solidão espessa,
cinza, deserta de emoções.

Apenas experimento ausências,
vacuidades que se adensam em torno de mim
e me impedem de respirar fundo,
de prolongar um grito no tempo.

Só.
Sempre.
Tão multiplicadamente só! 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“Se eu Fechar os Olhos Agora” de Edney Silvestre



Este foi dos que entrou directo, não passou pela fila de espera. É, uma das muitas aldrabices com que vou mimoseando os livros que, ordeiramente, aguardam perfilados na minha pilha de próximas leituras.
Este foi-me sugerido pela minha filha. É dela e tinha-o acabado de ler.

 É Abril de 1961 e tudo se passa numa velha cidade outrora importante devido ao cultivo do café.

Tudo começa com um menino comprido, magro e claro e um menino moreno, ambos de doze anos que escapam de um castigo da escola e aproveitam para ir nadar num lago que era o seu paraíso escondido.
Nesse dia farão uma descoberta macabra que terá como consequência o fim abrupto da sua infância.
Descobrem o cadáver de uma linda mulher, jovem, barbaramente assassinada e mutilada.

Insatisfeitos com as explicações ilógicas das autoridades quanto ao confesso assassino bem como com o desinteresse das mesmas em clarificar o assunto, lançam-se, eles próprios, em investigações furtivas com vista a darem soluções cabais ao imenso monte de questões a que não conseguiam responder.
A este duo vem a juntar-se um velho residente no asilo que tinha por hábito saltar o muro e deambular, de noite, pela cidade. É um ex-preso político da ditadura de Getúlio Vargas.

Reúnem esforços e valências e, de descoberta em descoberta, vão-se embrenhando num vórtice de mistérios em que nada nem ninguém é exactamente o que parece ser.
São confrontados com a força do poder e com a hipocrisia da sociedade local que encobre e branqueia os crimes mais hediondos envolvendo violência sexual, violação, corrupção e racismo, entre outros.

É o fim da sua infância. É o desenvolvimento emocional acelerado destas duas crianças que nunca mais o serão.  É uma forma difícil e abrupta de entrarem na vida adulta. Será inconsequente?

Gostei também muito da escrita do autor. Com o pretexto de um policial, desenvolve uma diegese coerente que vai muito além disso. É um retrato de época, uma época conturbada da história recente do Brasil em que a prepotência e o caciquismo locais eram uma constante. O velho poderio dos coronéis. A narrativa é agradável e surpreendente. Gostei particularmente dos diálogos vivíssimos com que o autor salpica o texto tornando-o ainda mais interessante.

Um primeiro romance que deixa muitas expectativas.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Um vento demasiado gelado



Hoje um vento gelado passou à minha porta e não parou.
Entrou por outra bem igual, bem perto da minha.
Aí, colheu cerce as cores, os cheiros, os sons
os sonhos, os silêncios, as dores, as esperanças de toda uma vida
num último sopro de alguém que não eu.
Hoje, penso,
poderiam ter sido todas as flores que eu vi florir
em todas as Primaveras que já vivi
a serem-me sugadas cobiçosamente por esse mesmo vento…

Se se tivesse enganado na porta.  

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

“Os teclados e Três histórias com anjos” de Teolinda Gersão



Um livro que reúne em si dois dos mais louvados livros da autora. Uma novela, “Os teclados” e “O mensageiro e outras histórias com anjos”.

O primeiro, “Os teclados” conta-nos uma história em que estão patentes duas visões bem diferentes do mundo. A de uma escritora, de meia-idade, de certa maneira já desencantada com a vida e a de uma jovem pianista ainda cheia de esperanças. Têm em comum os teclados do computador ou da máquina de escrever e o do piano mas, acima de tudo a arte; a escrita e a música em que ambas, se bem que de formas diferentes, encontram justificação para serem.

Em “O mensageiro” encontrei uma versão bastante diferente da “anunciação”. Toda ela centrada na mulher. Uma perspectiva, no mínimo, interessante.
Quer neste quer nos outros dois outros contos o que podemos encontrar são situações que, julgo poder considerar, se situam no limite para a transcendência, para a descoberta de outros mundos, mas sem o ultrapassar.

Os anjos são belíssimas metáforas para a vida, o amor, a morte. Muitas vezes as pessoas não se dão conta desses “anjos”, não os interpretam na sua dimensão real, não os entendem, não os valorizam e não os encontram nas suas vidas. E porquê? Pela incapacidade que advém da pouca idade, pela ignorância, pela cegueira ou apenas porque não querem sair do conforto do real, do conhecido.

A ler, sem dúvida a ler.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ensaio sobre as rabanadas.




Adoro rabanadas. São o meu doce de Natal por excelência. E gosto delas sobretudo depois das confusões das festas, ao pequeno-almoço, com um cimbalino bem tirado.

Como se impunha, achava eu, sabia tudo quanto havia para saber acerca de tão apreciado acepipe natalício. Já tinha visto (e mesmo experimentado) rabanadas de leite, de leite com água, de calda de açúcar, de calda de açúcar com canela, de vinho do Porto, de leite de coco, de sumo de laranja, com passas, com pinhões, com passas e pinhões, com molho, sem molho, polvilhadas com açúcar e canela, com açúcar mascavado, com tirinhas finíssimas de casca de laranja ou de limão (a gosto). Ah, isto para já não falar nas rabanadas douradas autêntico manjar dos deuses que, segundo se consta, sempre gostaram de se tratar muito bem.

Pois é. Considerava-me uma das pessoas mais conhecedoras, pelo menos dentro de um círculo relativamente alargado de ignorantes da culinária, acerca da rabanada. Era uma mulher feliz. Tinha a auto-estima bem lá para os décimos andares de um edifício relativamente baixo.
Mas eis que ontem, sexta-feira, ao final da tarde, me vejo confrontada com um novo tipo de rabanada que um amigo, sabendo desta minha particularidade no que concerne à gulodice, fez o favor de me enviar; a rabanada poveira. Melhor: a Rabanada Poveira!

Confesso que, quando abri a caixa em que se encontravam, as olhei com uma relativa desconfiança e tive ainda, mea culpa, aquele momento desdenhoso de quem quer comprar mas não muito. E pensei então para os meus botões (que não tinha mas a verdade é que tinha de pensar para alguma coisa e a único fecho que tinha assim mais à mão era… bom, não tinha nenhum!): tão grossas…. vão ser maçudas… ou então, estou mesmo a ver, estão impregnadas de colesterol  do mau até mais não… enfim, se eu não conhecia estas por alguma razão haveria de ser.

Pronto. E aqui estou eu a dar a mão (não confundir com estendê-la, isso poderia parecer pedir mais) à palmatória. São excelentes! São cá um pedaço de mau caminho que nem dá para acreditar.
Uma delas (tenho de ser parcimoniosa) constituiu hoje o meu café da manhã juntamente com o imprescindível cimbalino (Nespresso, de facto. Evolução dos tempos. Nem sei se ainda há máquinas da la Cimballi). E, acreditem, não sei se têm leite, se calda de açúcar, se vinho do Porto ou de qualquer outra proveniência, se banha de cobra ou baba de caracol.

As Rabanadas Poveiras são do melhor que já comi.

Muito obrigada Paula e Luís. Baixaram a minha auto-estima mas nem imaginam como me amaciaram o palato.

Um beijo.

“Sangue Vermelho Em Campo De Neve” de Mons Kallentoft



Cada vez me agradam mais os policiais ou thrillers suecos.

Há já muitos anos que leio Henning Mankell e o seu incontornável inspector Kurt Wallander que, aliás, deu já origem a uma série televisiva aparentemente com muito boa qualidade.
Contudo, ultimamente, despertada talvez pelo estrondoso sucesso da trilogia Millennium de Stieg Larson, tenho experimentado outros autores que, uns mais outros menos, satisfazem o meu gosto por este género literário muitas vezes tão maltratado. E quando me refiro a maltratado tenho em conta dois aspectos. Por um lado acontece ser considerado por alguns um género literário menor quando, a meu ver, há policiais literariamente excelentes. Por outro há, de facto, muita coisa editada (como certamente de outros géneros) que dificilmente poderá merecer o nome de literatura. Alguns até têm história, outros têm personagens consistentes mas falta-lhes a qualidade da escrita. Outros ainda não têm absolutamente nada.

Mas vamos ao que aqui interessa. A verdade é que uma mão-cheia de autores nórdicos (conheço mais suecos) desenvolveu um estilo próprio de criar histórias. Muito do género do policial negro. Baseia-se em narrativas interessantes, complexas sem serem exageradamente complicadas ao ponto de se tornarem incompreensíveis ou ilógicas, bem estruturadas, com personagens comuns mas fortes, consistentes, possíveis. Além disso conseguem manter um interesse narrativo quase constante.

Foi isto que encontrei noutros autores e foi também isto que me agradou em “Sangue Vermelho Em Campo De Neve”
A inspectora Malin Fors vê-se a braços com a investigação de um crime hediondo, numa pequena comunidade de província que a vai abalar. A par das investigações e do frio intenso, e à medida que vão desfilando as personagens mais estranhas e se vão revelando os segredos mais sórdidos, vai tendo, naturalmente, que gerir a sua vida pessoal; a sua relação com a filha recém-chegada à adolescência, as recordações que mantém dos seus pais actualmente a viverem em Tenerife mas com os quais sempre teve um relacionamento pouco caloroso, o tipo de ligação que mantém com o seu ex-marido, etc, etc, etc. Enfim, uma pessoa normal.
O processo de escrita é curioso pois surgem de onde em onde pequenos trechos assim numa espécie de voz-off que ajudam não só a situar o leitor bem como conferem alguma originalidade à escrita.

Sem ser o meu autor favorito, devo dizer que gostei e estou pronta para dar oportunidade a um segundo livro.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ano Velho/Ano Novo


Era um ano velho. Mesmo muito velho. Tão velho quanto um ano pode ser. De tão velho estava gasto, irritadiço, agressivo e à medida que ia percorrendo os seus dias, horas e minutos quase finais, já em esforço, notava-se que ia provocando nas pessoas uma relativa ambiguidade de sentires.

Por um lado era manifestamente grande a vontade de se livrarem das suas rabugices, dos esforços que exigiu, das dificuldades que impôs, das incompetências que deixou (ajudou até a) medrar, da vassalagem a que obrigou, do relativo estado de depressão generalizada que provocou nas gentes daquele tempo, daquele ano muito velho. Tão velho quanto um ano pode ser.

As pessoas estavam mesmo fartas. Amargas e fartas. Teria sido um ano de características burlescas não fora o facto de o sentido de humor de todos não ter já mais por onde esticar; era um elástico estafado.
Por outro lado era assustador o legado que esse velho, decrépito e de má memória iria deixar ao seu jovem sucessor. Estremeceriam aterrorizados os segundos iniciais do recém-nascido. E, convenhamos, que, dada a sua mocidade extrema, não tinha entendido da missa a metade.

E o tempo seria atrasado ou abreviado tal era a perplexidade inicial do novo ano. E os segundos requerem tanta precisão!!! Tudo seria imperceptível para os homens que apenas sentem o tempo das horas. Quando muito dos minutos… Os segundos são vagos. Os segundos podem ser eternos ou, então, podem apenas não ser.

E as pessoas saudaram o ano que nascia com festejos de desesperança regados pelo orvalho do espumante barato que, por segundos (aqueles que surgiram baralhados e hesitantes, como quem não quer vir), os fariam esquecer as inaptidões de um tempo novo que, afinal, não é mais do que o perpetuar ritmado, insidioso e inexorável das aflições do passado.