quinta-feira, 14 de julho de 2011

“A Biblioteca das Sombras” de Mikkel Birkegaard

Como já disse diversas vezes sou uma leitora bastante compulsiva de todos os géneros literários. Contudo, como é natural, há géneros que me suscitam mais curiosidade do que outros. Pois bem, gosto de ler um bom policial.

Quando li a sinopse deste”Biblioteca das Sombras” fiquei logo entusiasmadíssima.

Senão vejamos; Um livro inteiro sobre livros, livrarias, bibliotecas e bibliófilos (já promete!). Tudo isto embrulhando uma morte que se verifica ter sido um assassinato peculiar e que leva o filho do assassinado a encetar uma investigação que o arrastará por caminhos misteriosos…

Pois, não podia deixar de ler.

O livro começou a interessar-me logo às primeiras páginas. Luca Campelli o dono da prestigiada livraria “Libri di Luca” em pleno centro de Copenhaga, chega de uma viagem que o manteve ausente da sua adorada livraria por mais de uma semana.

Ao chegar, inala o odor dos seus adorados livros, serve-se de um cognac e dirige-se ao mezanino, local onde se encontram os exemplares mais ricos e mais invulgares da sua livraria a que muito poucos têm acesso dado o seu valor. Aí repara num exemplar que estranha e começa a lê-lo. À medida que se embrenha na leitura vamos acompanhando estranhos fenómenos ligados ao comportamento de Luca que culminam com o derrube da balaustrada do mezanino e consequente queda que lhe provoca a morte. Este processo de leitura e seus efeitos, embora não totalmente compreensível, ainda, para o leitor, está muito bem descrito e é deveras envolvente.

É que Luca, sabê-lo-emos entretanto, fazia parte de uma sociedade secreta, os Lectores, possuidores de dons excepcionais de leitura que lhes permitiam arrebatar o leitor levando-o a ler o que quisessem que lesse. Mais propriamente a enfatizar os aspectos da leitura que quisessem. Ora esse poder, como facilmente inferiremos, tem tanto de admirável como de perigoso.

Jon, filho de Luca e proeminente advogado, é, no rescaldo da morte do pai, apanhado no meio de todos estes mistérios e perigos que desconhecia completamente mas que tem de enfrentar para salvar a própria vida.

Claro que há espaço para o romance o qual acontece entre Katherina e Jon.

Com todos estes ingredientes e um começo interessante é certo que criei as minhas próprias expectativas que, infelizmente, acabaram por não corresponder à realidade.

O que acabei por ler foi um romance ao estilo Dan Brown, com muito ritmo mas pouca história. E, sobretudo, pouca consistência. Tudo, na minha opinião, é aflorado um tanto superficialmente. As personagens são pouco sólidas à excepção de Katherina que achei bem trabalhada e credível.

Também os sucessivos desfechos do enredo foram, para mim, demasiado previsíveis. Quase desde o início que foi evidente quem eram os “maus” e os “bons” da fita; quase desde início que soube quem eram os traidores e as consequentes vítimas. Enfim, quase desde o início que pude construir a história sem grandes desvios em relação ao que realmente aconteceu.

E para terminar… o fim. Pois, o fim , boring…. Um verdadeiro desconsolo.

Com tudo o que acabei de vos dizer e vale o que vale, é apenas a minha opinião, estamos em presença de um best seller…

Dizer que perdi tempo com a leitura do livro? Não posso, nunca considero uma leitura uma verdadeira perda de tempo. Além disso estamos em presença de uma escrita fluida, agradável, sem grandes pretensões literárias mas agradável mesmo assim.

Um livro a ler para quem gosta do género mas, continuo a achar, com muito pouca substância…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

“Jesusalém” de Mia Couto

Finalmente chegou a vez de ler este livro que há já algum tempo se perfilava num dos vários “montinhos” que tenho por ler(des)organizados à minha maneira. É certo, também, que embora tenham um lugar nessas “listas de espera” físicas (espalhadas por prateleiras, cestos, malas ou apenas empilhados no chão do escritório), a batota que faço é mais do que muita…

Enfim, em detrimento de outros que esperavam há mais tempo, acabou por ser este o seleccionado para ler pois era grande a curiosidade. É que embora não seja uma leitora muito assídua do autor, a verdade é que tenho gostado bastante daquilo que li. É o caso de “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, “A varanda do Frangipani” e, julgo que apenas mais o “Último Voo do Flamingo” e primeiro que li do autor.

Mas regressemos a este “Jesusalém”.

Jesusalém é uma terra há muito esquecida que vai ser agora reabitada e renomada por Silvestre Vitalício. Este, com os seus dois filhos, o seu cunhado, o Tio Aproximado e Zacaria Kalash, o guerreiro que sempre militou nas causas erradas, escolhe-a para se instalar quando foge da cidade exactamente pelo seu isolamento e esquecimento.

É lá, construindo um mundo apenas seu, que Silvestre Vitalício se esconde da vida com o intuito de fugir às recordações da morte. É também lá que Ntunzi sofre a ausência do mundo que era o seu e de onde foi arrancado e que Mwanito, o nosso narrador, se converte no afinador de silêncios.

Do Lado-de-Lá tudo se havia extinguido, até as almas penadas. Em Jesusalém tudo eram vivos. Sem saudade ou esperança mas vivos.

É uma história de homens em que a mulher é o detonador e a razão de todos os acontecimentos.

É uma subtil (ou não) história de amor e de amores. Mas também uma história de dor, de rumorosos silêncios, das muitas mortes de uma vida.

Se a história é lindíssima e nos transporta a uma terra sem passado e em que o presente e o futuro se desenham em torno da vontade de um, terra onde um dia Deus virá pedir desculpa, e Jesus se descrucificará, a linguagem que a desenvolve é belíssima. Mia Couto consegue juntar à candura da narrativa de uma criança, ou das falas das gentes do interior moçambicano, a poesia complexa das coisas simples.

O resultado é muito bom.

Nota: Só para que conste; o livro é bom. Tão bom que despertou a cobiça de alguém que se apropriou indevidamente dele e o levou de cima de uma arca frigorífica de um pequeno mercadinho onde o havia pousado enquanto escolhia umas cerejas brilhantes e carnudas que, da montra, chamaram por mim.

Realmente eram boas, as cerejas, mas lá que ficaram caras, também é um facto. É que me custaram o preço delas mais o de outro exemplar do livro pois fiquei irritada e impaciente a escassas 17 páginas do final.

Ao menos que quem o levou se console com a sua leitura…. Eu consolei-me, com ele e com as cerejas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Deslizando

(escultura de Camille Claudel)

Caminho com mil cautelas.

Silêncio ante silêncio, cuidado ante cuidado,

apenas para te não acordar.

E com jeitinho, rotina ante rotina,

vou deslizando, sacudindo vésperas

de um dia que quer começar.

E de ti… apenas a tua ausência

para me embalar.