sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sessão sobre a obra de Jorge de Sena

Participei ontem em mais uma sessão de poesia na Progresso, dinamizada pela Dina, “mãe” da, já incontornável, Livraria Poetria.

Esta que se destinava a divulgar e, desta forma, homenagear Jorge de Sena contou com a participação de brilhantes interpretações de poemas, cartas, excertos de textos, bem como da presença de pessoas que, de alguma forma, tiveram importância quer na sua vida, quer na divulgação da sua extensíssima ( e talvez mal conhecida) obra.

Estas, tiveram participações de grande interesse. Na introdução ao autor, à sua obra, ao seu percurso, enfim, à sua vida, Otília Lage, mulher das letras, licenciada em História, mestre em “História das populações, doutorada em História Moderna e Contemporânea, colaboradora em várias Universidades, bibliotecária, enfim, para enunciar apenas algumas das suas muitas valências, apresentou uma intervenção excelente que, embora um pouco extensa, foi de enorme importância para um melhor conhecimento do autor e, consequentemente, da sua obra.

Num outro momento, Sérgio Lopes, sobrinho do autor, apresentou-nos, de improviso, a sua visão do artista bem como a seu posicionamento perante a poesia, de algum modo semelhante ao do seu tio.

Finalmente, Rebordão Navarro, escritor português que dispensa apresentações (a sua obra fala por si), leu excertos de alguma correspondência que havia trocado com Jorge de Sena bem como nos brindou com episódios curiosos e divertidos que se tinham passado quando ambos participavam em sessões diversas aqui em Portugal.

Entretanto lá iam sendo, na maior parte das vezes, muitíssimo bem ditos os textos escolhidos que melhor ilustravam a obra do autor.

Dado que tinham ocorrido uns pequenos percalços no início da sessão (a tecnologia nem sempre está a nosso favor), começámos um pouco atrasados pelo que tudo terminou muito mais tarde do que deveria.

Contudo, a prova do interesse que o evento suscitou, é que era quase uma da manhã quando tudo acabou e a sala… estava ainda bem cheia!

Mais uma vez, Dina, uma grande sessão. Parabéns!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Não gosto do Outono

("Outono nos jardins do Palácio de Cristal" fotografia de Carlos Romão)

Não gosto do Outono.

Pelo destempero do tempo

que balança hesitante

entre os últimos calores de verão

e o vento cortante

que tudo arrasta

em revolutas estonteantes e frias.

Pela chuva que nos fustiga

deixando um brilho sinistro no chão

e um ar triste em quem passa.


Detesto o Outono!

Pelas folhas mortas que inundam as ruas

despindo as árvores,

deixando-as vulneráveis e tristes.

Pela luz que se vai tornado

cada vez mais exangue e desmaiada,

revestindo tudo de uma patine cinzenta, enevoada.


Porém, gosto do Outono.

Pelas tardes de calor que me fazem lembrar o Verão.

Pelo bailado das folhas levadas pelo vento,

que nos empurra, que nos gela,

e nos obriga a correr, a fugir dele sem tento.


Adoro o Outono!

Pelas cores com que se veste o horizonte,

com que se pintam as nuvens,

que espalha, generoso, o pôr-do-sol,

que adquirem as águas do mar.

Pelos matizes que tomam as folhas nas árvores.

Aquele vermelho, o laranja, o amarelo, o castanho…

aquela orgia de tons intensos e vivos.

E contudo, a pronunciar a morte…

Pelos ouriços que se espalham pelo chão

e se arreganham indulgentes

soltando as castanhas luzidias da sua prisão.

Pelo cheiro delas quando assadas

e pelo prazer de as comer,

tirando-as uma a uma, queimando a mão,

de um cartucho de jornal, enquanto quentes.


Afinal, acho que resisto ao Outono.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Amar de novo" de Doris Lessing


Este livro, muito bem escrito pela autora (acredito eu) mas muito descuidado pela editora uma vez que se encontra cheio de “gralhas” e até de óbvios erros de tradução, conta-nos as perturbações de uma mulher de 65 anos, viúva e mãe de filhos, ao lidar com o facto de se apaixonar de novo, algo que ela nem sequer julgava possível.

Passado num ambiente de teatro londrino, onde a protagonista é escritora/argumentista, vê-se, sem que nada o fizesse prever mergulhada num estado de espírito conturbado, tendo dificuldade em lidar com semelhante mistura de sentimentos e perturbações.

Como já é habitual, Doris Lessing, explora as emoções, por vezes contraditórias, perante um mesmo sentimento. Neste caso o amor. E aqui temos a protagonista a debater-se com o desejo, o ardor, a ansiedade, a saudade, a culpa, a depressão…

À medida que vamos avançando na leitura acabamos, na minha opinião, por entender que, neste percurso de paixões aos 65 anos, Sarah vai também revivendo e examinando as suas privações de infância e as marcas que retém delas na idade adulta.

Na minha opinião livro agradável de ler não fora as já expostas frequentíssimas “gralhas” e erros que complicam até, por vezes, a compreensão. É muito irritante, mas deve-se, naturalmente a uma edição descuidada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Descobertas as pegadas fósseis mais antigas até ao momento

Caption: Pictured below is the trackway of one of the earliest animals, a multilegged creature that walked over the bed of an ancient sea once covering Nevada. The animal left behind a pair of parallel impressions -- small, round dots in the silt that later became rock.

Credit: Photos by Kevin Fitzsimons, Ohio State University.



Há já uns dias largos que li um artigo, na France Press, que me chamou à atenção e me espevitou a curiosidade. Realmente tudo o que nós sabemos como certo, em termos de ciência, pode ser posto em causa num breve instante.

Cientistas norte-americanos encontraram, sobre uma camada de origem sedimentar no Nevada, pegadas fossilizadas de patas de um pequeno animal, com aí uns 570 milhões de anos!!!!

Ou seja havia já animais aquáticos, providos de patas, que caminhavam pelo nosso planeta 30 milhões de anos antes daquilo que se estimava. Julgava-se que, no período Pré-Câmbrico (que se inicia por volta dos -542 milhões de anos), a vida animal se resumiria apenas a micróbios e simples animais multicelulares.

Embora já se houvesse aventado a hipótese da existência de organismos mais complexos no período Ediacariano (o que antecede o Câmbrico) tais como corais moles, alguns artrópodes e alguns tipos de vermes chatos, nunca tinha sido possível confirmar tal suposição pois, pelos vestígios encontrados, terá sido o período Câmbrico aquele que marcou a aparição e a evolução da maioria dos grupos de animais.

Contudo, estas pequenas pegadas que se vêem como duas filas paralelas de pequenas marcas de uns dois milímetros de diâmetro, deixam-nos a pensar…

Esta descoberta faz parte de um estudo apresentado no dia 5 de Outubro, numa conferência organizada pela Geological Society of America em Houston, Texas, pelo seu principal autor, Loren Babcock, professor de biologia na Universidade de Ohio. Segundo o próprio poder-se-ia tratar de uma centopeia ou de um verme com patas, cujo corpo deveria medir de largura cerca de 1 cm.

Caption: Researcher Loren Babcock, professor of earth sciences at Ohio State University.

Credit: Photos by Kevin Fitzsimons, Ohio State University.

As investigações irão continuar e o cientista comunicou que haveria alguma possibilidade de descobertas semelhantes noutros locais tais como: o Mar Branco, na Rússia, o sul da Austrália e a Namíbia por possuírem condições favoráveis.

Prevê que a notícia possa ser recebida com algum cepticismo mas também que venha a provocar novas buscas mesmo em locais já estudados. Segundo Babcock “poderá ser apenas uma questão de olharem de outra forma o já encontrado”.