sábado, 30 de março de 2013

Chuva



Rodo o copo que ergo da mesa.
Com ele rodam três pedrinhas de gelo
que tilintam em tremuras de virgem
naquele fluido esbranquiçado que as afoga.
Lá fora busco uma sugestão de azul,
de amarelo ou de rosa que me perfumem a alma.
Porém, não azul, não amarelo, não rosa.
Apenas um quadro desbotado,
uma silhueta de angústias que se acinzenta
sob a surdez escarninha do ruído da chuva.
Baixo lentamente as pálpebras
numa tentativa de limitar esse mar
que se avoluma, se pregueia
e finalmente escorre lento
e mergulha no meu corpo,
líquido… 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sons de echarpe




Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda, 
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo  
que me trouxeste não me lembro bem de onde,
lamento…
mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos,
esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,
suspiros que repuxam a alma 
e a silhueta de todas as coisas.

sábado, 9 de março de 2013


Hoje, na baixa do Porto, comemora-se Manuel António Pina.

Também lá estarei.

Entretanto deixo aqui um humilde contributo para que nunca se apague a sua memória

http://dl.dropbox.com/u/62231909/A%20Poesia%20vai%20acabar%20de%20Manuel%20Ant%C3%B3nio%20Pina.m4a


A Poesia Vai Acabar 


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


Manuel António Pina

sábado, 2 de março de 2013

A Ana




A Ana É.
A Ana é exactamente aquilo que é preciso para se Ser.
É a rigorosa medida de tudo o que faz dela…
a Ana.

A Ana tem um aroma macio que sabe bem.

A Ana é um rio de águas revoltas,
de um azul manso porque
se aquieta na doçura das margens,
na brandura dos limos do leito.

Quando a Ana ri a minha alma enche
e abre-se numa sinfonia de cores.

A Ana dá beijos cor de amora
que deliciam e me fazem bem,
que me fazem querer ser pequenina
e neles arrumar todas as memórias boas;
todas as que cabem numa criança.

A Ana é …  apenas a Ana.

2013-03-02