quarta-feira, 30 de setembro de 2009

E, novamente, lhe saiu o pezinho do sapato...


"La modéle rouge" de René Magritte

Pois é, duas vezes num tão curto espaço de tempo é algo que nunca julguei fazer tal é o resguardo que procuro ter em falar de assuntos deste jaez.
E o assunto é, como certamente já imaginaram, a comunicação do Sr. Presidente da República que, além de extemporânea , veio apenas aprofundar o buraco em que, no meu ponto de vista, já se havia enfiado e, do qual, terá grandes dificuldades em sair incólume.

É verdade Sr. Presidente de todos os portugueses. Tal como disse (e ouvi a comunicação várias vezes), foram, de facto, ultrapassados todos os limites do tolerável e da decência. Mas por si, Sr. Presidente da República!

Julgo estarem há muito ultrapassados os tempos do PREC e vivermos, de momento, num Estado de direito em que vigora uma democracia estabilizada há muitos anos. Assim sendo, o Presidente de uma República com as características que a nossa tem, não se pode dar ao impudor de emitir (tarde e a más horas), uma comunicação dúbia, demagógica, sem qualquer conteúdo, cujo objectivo além de estar longe de tentar esclarecer coisa nenhuma, ainda se enreda em insinuações não se sabe muito bem de quê ou relativas a quem, mas que contribuirão apenas para piorar o que já estava mal; as relações institucionais entre os dois órgãos de soberania: a presidência e o governo.
E isso, Sr. Presidente, preocupa-me. Como já disse sou uma cidadã atenta e, como tal, julgo que as energias de todos os responsáveis se deviam canalizar para a governação, sobretudo atendendo ao momento difícil que se vive em todo o mundo do ponto de vista financeiro e, consequentemente económico, tornando muito mais difícil o acto de governar..

Mais uma vez, Sr. Presidente, saiu-lhe o pezinho do sapato…

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rádio nostalgia apresenta....





Os meus agradecimentos ao Carlos Romão que tornou esta rubrica possível. Bem-hajas, Carlos.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mas que teia mal urdida!!!!


(Imagem: Fotografia de Ana Sofia Pereira)

Para quem aqui vem com alguma frequência sentirá, no mínimo alguma estranheza, ao ler este post por causa do tema que vou abordar. É que, não é de todo meu hábito, comentar assuntos que se prendem com política. Não pelo facto de achar que não tenho nada a ver com “essas coisas”. Muito pelo contrário, é minha opinião que todos temos o dever de interferir e de ser activos em relação às opções que queremos para o nosso país; à escolha das pessoas pelas quais queremos ser conduzidos desde que utilizemos todos os meios democráticos que estão ao nosso alcance.

O problema reside aí mesmo, nos meios. É que apesar da grande bandalheira em que se têm vindo a tornar as campanhas eleitorais nas quais, na minha perspectiva, tudo é mais importante (a ofensa pessoal, o ataque público despudorado, a mentira, a fuga airosa a compromissos anteriormente assumidos) do que o projecto que este ou aquele candidato apresenta para resolver os problemas do país, não contava com alguns extremos…

Pois, sou ingénua. Eu sei. Já o disse aqui diversas vezes e, já diz o povo: “Quem não usa não cuida”.

É que esta história das escutas ao Sr. Presidente da República já me anda a irritar há uns bons tempos. A bem dizer desde que começou.

Eu bem tentei não mexer no assunto mas, após ter ouvido e lido tanto contra-senso e tanta “informação” que não consigo encaixar de maneira nenhuma, restou-me fazer um apanhado de tudo o que havia lido e escutado e tirar as minhas conclusões.

Assustaram-me, devo dizer. Mais propriamente incomodaram-me e deixaram-me apreensiva. Pois, dê as voltas que der às peças do puzzle não consigo chegar a nenhuma conclusão que isente o Sr. Presidente da República portuguesa (!!!).

Se não sabia de nada, porque não se pronunciou atempadamente?

Se sabia e não se quis pronunciar, porque não seguiu com queixa pelas vias devidas, com maior ou menor discrição?

Sendo Fernando Lima um colaborador de Cavaco Silva de há tanto tempo (e pelo que eu li provindo dos mais variados quadrantes políticos, pessoa considerada de grande lisura e correcção nas suas atitudes) porque carga de água é que resolveu, justamente agora, estar-se nas tintas para o Sr. Presidente e emanar tal informação sem lhe dar conhecimento?

E, já agora, porquê ao Público?

E este, não tem por obrigação, que mais não seja em prol da mais básica ética, investigar os “furos” que lhe chegam à redacção?

Tantas perguntas!!!!

E sabem que mais? Para mim, repito, para mim, simples cidadã embora atenta, apenas uma resposta lógica:

Tudo isto não passou de uma teia (mal) urdida pelo próprio Presidente da República, pasme-se (eu, tristemente, pasmo), com vista a, em período eleitoral, dar uma mãozinha à sua amiga Drª Manuela já que a sua “bandeira” de campanha se centrava na “asfixia democrática”, “ no ambiente de medo”…

Mas, e agora pergunto eu, que credibilidade poderá ter o senhor, depois de uma atitude destas, como Presidente da República?

Será que o senhor pensa que os portugueses não têm capacidade de raciocínio? Não cogitam? Não se preocupam com a fragilidade institucional por ele comprada com esta atitude que, inevitavelmente, terá consequências funestas para o país seja qual for o partido ganhador?

Oh Sr. Presidente! Saiba "Vossa Excelência(?)"que até para se tecerem teias bem feitas é necessário ser-se aranha…

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Aquela gaivota


A Gaivota

Aquela gaivota ali.
Sim, aquela mesmo,
pousada altaneira no topo do rochedo,
olha-me!
Observa-me provocadora!
Com aquele olhar redondo, frio, directo,
diz-me,
sem margem para hesitações ou perplexidades:
este é o seu território!
O seu, não o meu.
O Mar…
A espuma…
A areia…
As algas…
As conchas…
… E eu.

domingo, 20 de setembro de 2009

Soube-me bem!



Hoje tive oportunidade de dizer o poema que se segue com este belíssimo som de fundo.

Não foi tocado por Astor Piazzolla, é certo, nem acompanhado de uma orquestra. Mas, a Fátima Santos arrancou do seu acordeão, de forma belíssima, este ritmo fremente que tão bem acompanhou o poema que, como poderão apreciar, também é, ele próprio, um grito da alma.



Rasgos de loucura

Apetece-me correr. Correr, num grito desvairado.
Assustar medos.
Não parar. Castigar o corpo. Martirizá-lo, até à exaustão.
Apetece-me correr, correr, correr...
acabaria num choro, prostrada no chão. Sem forças.
Cada passada seria um grito mudo... porque me apetece gritar.
Cada passada seria um desabafo... porque me apetece desabafar.
Deste fogo... que não consigo apagar.
Tu. Que me queimas.
Importa se não é o que queres?! É o que sinto.
Como esta vontade enorme de gritar.
A noite não me traz a calma do sono.
O descanso dos pensamentos.

A noite nada me traz a não ser eu mesma... outra vez!
Num corrupio de ideias sem nexo. Electrizantes.
Uma mistura de frases incompreensíveis. Como tu!
Um desassossego que acabaria no fundo de um abismo.
Numa opção de paz eterna.
Eu corro. Desmedidamente, desvairadamente, ofegantemente, exaustivamente, loucamente, arrebatadamente... para calar os gritos.
E não calo!
O nó que trago na garganta não se desaperta. Prende-se, a cada grito. Mais!
Afogo-me no ar que respiro. Sufoco no excesso de luz que me persegue.
Apetece-me correr. Correr, correr, correr... apetece-me não parar até o meu corpo rebentar...

Luísa Azevedo (In "pin uma explicação de ternura", da Edita-me)

É hoje...


É hoje!!!

Às 16 horas no Ateneu Comercial do Porto.

Vejam lá! Se falharem que não seja por se terem esquecido! É que vai valer mesmo a pena!


Os poemas são lindos , as/os "diseurs" (eu incluída), bom, nem é bom falar, e a música...


Pronto. Não digam depois que não foram avisados.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

“o fato cinzento” de Andrea Camilleri


Comprei e li no mesmo dia este romance, pequeno (123 páginas), pois não conhecia nada do autor e tinha alguma curiosidade a seu respeito, dadas as várias e boas críticas que sobre si tenho lido em jornais e revistas que me merecem credibilidade.

Como romance achei-o algo, talvez, insólito pela forma como o autor resolveu escrevê-lo. Tudo nos é contado pelo protagonista, um homem que acaba de se reformar e se vê agora em casa com tempo para algumas reflexões as quais partem da observação de umas cartas anónimas que havia guardado…

O insólito da situação é que é através do homem que a personagem feminina, Adele, a sua belíssima e fogosa esposa, se vai revelando perante o leitor. E é essa forma rara e profunda do homem escalpelizar de maneira tão perspicaz a natureza feminina que eu acho que torna o romance incomum.

Essa personagem que ele, aos poucos, vai desvendando no pouco tempo que lhe resta de vida (adoece, entretanto, fatalmente), vai sofrendo variações constantes. Ora é a “femme fatale” que a própria sinopse nos faz crer, insensível, insaciável no amor carnal, que trai o marido de forma anunciada mas sempre mantendo as aparências; Ora é a esposa extremosa, cheia de cuidados e sempre um passo à frente em relação às necessidades do marido.

Nem ele, nem nós, leitores, ficaremos seguros de quem é Adele.

Uma coisa, apenas, sabemos ou, pelo menos, intuímos: o valor simbólico do fato cinzento…

Escrita excelente embora sem grandes arabescos literários, vai-nos levando pela mão do personagem masculino, o qual, ao pretender entender a esposa, nos vai revelando de forma surda mas pungente, a sua própria solidão, o vazio, a doença e, por fim…

Foi, como já disse, a minha primeira abordagem a este autor. Repeti-la-ei, seguramente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Cumprimento de uma (quase) promessa – Marc Chagal


"Fenêtre sur Paris"

Há já alguns dias, ainda aquando daqueles textos soberbamente inspirados (pelo ócio, diga-se, que é sempre uma excelente fonte de inspiração), “Vozes do Aquém”, ficou quase (quase!) implícito que eu pretenderia elevar o nível cultural deste espaço.

Uma vez que já não iria falar das desventuras de ir à praia dado que alguém me havia, da forma mais torpe, sacado a ideia, tinha decidido falar de Marc Chagal.

E porquê Chagal? Perguntará toda e qualquer pessoa com um pingo de curiosidade.

É simples. Chagal desenvolveu uma abundante obra não só na pintura como no mosaico, no vitral, na encenação, na gravura, na escrita, e sei lá que mais o senhor fez… Era um pocinho sem fundo.

"Above the town"

Era comum, nas suas pinturas, de grande multiplicidade cromática, de cariz algo surrealista, subjectivo, onírico, enfim, muito próprio pois não se insere inteiramente, tanto quanto eu percebi, em nenhum dos movimentos vanguardistas da época, aparecerem figuras (algumas vezes noivos (?)) a voar. Mais propriamente a sobrevoar uma aldeia, provavelmente reminiscências da sua juventude, uma cidade (Paris, por exemplo). Por vezes essas figuras esvoaçantes pairam completamente no ar, mas noutras, há algo que as liga a terra.

"Bride and Groom of the Eifel Tower"

Ora como no lugar onde me encontrava a jiboiar apanhei noites, só noites, de grandes ventanias em que era triste olhar para os pequenos caniches que passeavam os donos no passeio marítimo (isto era uma piada! O passeio marítimo. Não havia embora houvesse mar. E acho que também havia um passeio… Não tenho a certeza) que tentavam manter as quatro patitas no chão quando estas insistiam em elevar-se tomando o rumo que as orelhitas e os caracolitos do seu pelo (agora desfrisados, claro) já haviam tomado.

"La marriée"

Embora sem querer comparar noivos a caniches, não sei como, vieram-me à ideia os ditos quadros de Chagal, dos quais eu até gosto, e ponderei por largo tempo a hipótese de tão dotado senhor ter passado ali, naquele local, alguns momentos de ócio ou, quiçá, de inspiração até porque já vimos que uma coisa leva à outra…

"Lovers in a red sky"

Quem sabe se alguma daquelas povoaçõezitas que se vêem sob os elementos voadores não será aquela em que me encontrava e que, sem saber, está lindamente imortalizada, embora sob disfarce, nalguma daquelas belas composições?

Pois que não sei.

Eu sei que na Rússia, terra natal do pintor, há regiões muito ventosinhas, que sei. Poderiam, portanto, essas representações, serem meras recordações da sua vida aí, na sua terra, seria até normal.

Em Paris, cidade para onde foi em 1910, às vezes também faz um ventito jeitoso, que faz.

E até nos Estados Unidos, local onde viveu durante a II Guerra Mundial, há locais em que o vento sopra enfurecido. Embora nunca tenha estado nos States bem vejo, em muitos filmes com que Holywood nos brinda, o vento e a neve com que os pobres actores têm que lutar em situações completamente desesperadas. Aliás, eu até acho que eles não ganham para isso. Bem, mas isto sou eu, como habitualmente, a desviar-me da questão.

"Flying carriage"

Porém, os pacientes leitores que me desculpem, mas eu continuo a ter para mim que foi ali, naquela vila piscatória, pequenina, picaresca e ventosa que só visto, que o senhor Marc Chagal se inspirou.

E mais não digo porque mais não sei e além disso já foi um enorme abuso para convosco atirar-vos com um texto desta extensão, só para mostrar que neste blogue não se tratam apenas coisas de baixo nível.

Dado que os elementos em que coloco a tónica são voadores, o nível não poderia ser mais elevado. Não é verdade?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"amor em minúsculas" Francesc Miralles


Como já devem ter percebido, aqueles que me vão lendo, os motivos para comprar um livro são os mais variados e nem sempre de explicação muito lógica. Eu preciso apenas de um pretexto por pequeno que seja. Às vezes compro mesmo sem pretexto nenhum; apenas porque sim.

O livro “amor em minúsculas” foi comprado assim num acto de grande arrebatamento (até porque estava com alguma pressa, a qual, o meu marido me ia recordado sem qualquer parcimónia). Assim, tive apenas tempo de ler de forma algo enviesada a sinopse, a qual me pareceu promissora e, “ créme de la creme”, não só falava de um gato como a capa exibia um exemplar belíssimo desses cativantes seres. Portanto, não há que pensar muito. Tem gato? Deve ser aceitável.

Daí até o ler foi um instantinho, até porque aquele que estava na calha foi-me arrebatado com a maior desvergonha pela minha filha.

Lê-se muito rapidamente pois é constituído por pequenos capítulos e escrito numa linguagem fácil, despretensiosa.

Contudo devo dizer que as imprudências…pagam-se!

Pois é. Para grande pena minha, pois tinha criado uma expectativa diferente, o livro não correspondeu minimamente ao que eu imaginava.

Baseado num “leitmotif” (para utilizar uma palavra do livro) muito interessante que seria a influência positiva que a entrada de um gato na vida de uma pessoa só e solitária poderia trazer, não teve, todavia, no meu ponto de vista, o desenvolvimento que a ideia em si poderia proporcionar. Penso que o autor não conseguiu tirar dela o melhor partido.

Li um livro morno, pouco exigente, de personagens pouco delineadas (estariam bem para uma novela, um conto…), de enredo enrolado, no qual, o aparecimento do gato, razão de todas as alterações, acabou por não ter a mínima importância.

É verdade que a vida sensaborona, isolada e sem outro interesse que não as suas aulas de filologia germânica na Universidade de Barcelona se modifica a partir desse início de ano.
É verdade que há um gato que, estranhamente, resolve fazer da casa de Samuel o seu lar o que provoca uma ou outra situação capaz de alterar a rotina de Samuel e de o fazer interagir com pessoas, o que não era habitual.

Porém, é a forma como decorrem essas interacções, esses encontros, as personagens com quem interage, estranhas e mal acabadas, o “amor” de infância reencontrado (um amor um tanto estranho, forçado, para não dizer extravagante), os encontros quase todos estorvados, sem dar tempo ao sentimento, à emoção, ao envolvimento do leitor, a sua própria indeterminação…

Enfim, se a tudo isto ainda adicionarmos um exagero de citações de diversos autores, por vezes com os mais prosaicos lugares-comuns, para ilustrar muitas das vezes não se sabe bem que ideia, que acontecimento, que expectativa…

Resta-nos como já disse uma prosa simples, de fácil leitura, com alguma ternura à mistura e… um fim à maneira, “feliz”.