sexta-feira, 18 de setembro de 2009

“o fato cinzento” de Andrea Camilleri


Comprei e li no mesmo dia este romance, pequeno (123 páginas), pois não conhecia nada do autor e tinha alguma curiosidade a seu respeito, dadas as várias e boas críticas que sobre si tenho lido em jornais e revistas que me merecem credibilidade.

Como romance achei-o algo, talvez, insólito pela forma como o autor resolveu escrevê-lo. Tudo nos é contado pelo protagonista, um homem que acaba de se reformar e se vê agora em casa com tempo para algumas reflexões as quais partem da observação de umas cartas anónimas que havia guardado…

O insólito da situação é que é através do homem que a personagem feminina, Adele, a sua belíssima e fogosa esposa, se vai revelando perante o leitor. E é essa forma rara e profunda do homem escalpelizar de maneira tão perspicaz a natureza feminina que eu acho que torna o romance incomum.

Essa personagem que ele, aos poucos, vai desvendando no pouco tempo que lhe resta de vida (adoece, entretanto, fatalmente), vai sofrendo variações constantes. Ora é a “femme fatale” que a própria sinopse nos faz crer, insensível, insaciável no amor carnal, que trai o marido de forma anunciada mas sempre mantendo as aparências; Ora é a esposa extremosa, cheia de cuidados e sempre um passo à frente em relação às necessidades do marido.

Nem ele, nem nós, leitores, ficaremos seguros de quem é Adele.

Uma coisa, apenas, sabemos ou, pelo menos, intuímos: o valor simbólico do fato cinzento…

Escrita excelente embora sem grandes arabescos literários, vai-nos levando pela mão do personagem masculino, o qual, ao pretender entender a esposa, nos vai revelando de forma surda mas pungente, a sua própria solidão, o vazio, a doença e, por fim…

Foi, como já disse, a minha primeira abordagem a este autor. Repeti-la-ei, seguramente.

3 comentários:

Alien Taco disse...

quando fizer outra abordagem vire de bombordo, a seguir lance as ganchetas e tome a proa.
á abordageemmm!!!!!!!!

redonda disse...

Quando o li, fiquei com a ideia de que ela era extremamente egoista e calculista quando decide seduzi-lo, quando o manipula para que aceite a situação em que vivem e quando resolve representar a esposa extremosa para ficar bem na sociedade em que vivem.

Donagata disse...

É, efectivamente, a ideia preponderante em relação a Adele. É quase impossível não ter esse sentimento em relação à personagem. Contudo, em mim persistiu um ligeira dúvida que julgo que persistia também no marido. Julgo sentir alguma ambiguidade...