sábado, 12 de setembro de 2009

“A Procura de Sana” de Richard Zimler

“A Procura de Sana” de Richard Zimler

Confesso que hesitei durante bastante tempo antes de comprar o livro citado. A razão desta indecisão (muito estranha em mim dado que sou uma compradora de livros quase tão compulsiva quanto leitora) a qual, se calhar, poderei até apelidar de relutância, julgo que adviria do facto de uma leitura atenta da sinopse me ter feito antever um livro que não se parecia em nada com os registos literários habituais do autor, sobretudo de todos aqueles que dizem respeito ao périplo que a família Zarco iniciou no “Último Cabalista de Lisboa” e que, para já termina na “Sétima Porta”. Mas, não só, pois li toda a obra do autor (julgo eu) editada em português.

Já deu para perceber que sou fã quase incondicional (não sou, não consigo ser, incondicional de nada nem de ninguém…) do autor.

Bom, a verdade é que o tempo ia passando e eu não me decidia a comprá-lo embora tivesse estado diversas vezes com ele na mão para o fazer. De facto, o problema estava na possibilidade de ficar desiludida com alguém de quem tanto gostava. Não me parecia que iria ali encontrar os enredos prodigiosos e as descrições magistrais de diversas épocas históricas e de diversos locais que havia encontrado noutros; nem tampouco lides psicológicas internas de uma sensibilidade incrível e excepcionalmente bem contadas que também já havia descoberto…

Na última Feira do Livro do Porto, regressada à Avenida dos Aliados, acabou por se dar uma coincidência interessante. Pois, num domingo de tarde, fui fazer uma apresentação de um livro para a qual tinha sido convidada para dizer os poemas, mesmo ali no Café Guarany.

Terminada a sessão é claro que fui de imediato revisitar a feira e, eis que deparo com Richard Zimler, mesmo ali na minha frente, ao vivo e a cores, com o propósito de autografar os seus livros.

Ora bem, como sua fã, há muito que havia desenvolvido uma enorme curiosidade acerca dele enquanto pessoa. Pois ali estava a minha oportunidade! Fui muito rapidamente comprar o livro “À Procura de Sana” (o único que ainda não tinha e que, por acaso, só se vendia lá mesmo na pontinha da feira), e pronto: aqui estava o meu pretexto para tentar entabular umas palavras com o senhor!!!

Ainda dizem que não há coincidências?! Há-as, claro que sim, mesmo das felizes. Em primeiro lugar achei o senhor de uma simpatia e de uma simplicidade inauditas para quem escreve da forma que escreve; simplesmente encantador! Depois porque, mesmo que indirectamente, me obrigou a comprar o livro que agora vou passar a comentar como habitualmente faço com outros.

Pois bem, aqui vou tentar deixar as impressões que o livro me causou e, direis vós, já não era sem tempo.

Confesso que a leitura deste livro não teve em mim o mesmo efeito arrasador que teve a leitura de todos os que se referem à saga da Família Zarco. Desde “Goa, ou o Guardião da Aurora”, o primeiro que li, que fiquei irremediavelmente presa àquela forma belíssima de contar histórias. E que histórias! A saga conclui-se (para já) com “A Sétima Porta”. Comprei e li tudo o que vi do autor (excepto este com o qual embirrei) com a mesma vontade e com resultados semelhantes em termos de gosto, embora nem todos obedeçam àquele registo e àquela forma. Até ontem que comprei “Os Anagramas de Varsóvia”(o qual ainda não li, está bom de ver!).

Bom, mas continuemos. Tenho o péssimo hábito de me dispersar…

Apesar de não ter sentido, como já disse, aquele impacto avassalador, mesmo assim, gostei de o ler.

Num registo literário totalmente diferente de tudo aquilo que havia lido de Zimler, considero este livro mais do que um romance sobre a força da amizade, da tolerância mas também da traição, da desilusão, do embuste, uma investigação de cariz jornalístico (até no tipo de escrita, mais simples, mais directo, mais pragmático).

Uma investigação obstinada, incessante, acerca de um acontecimento que marcou de forma indelével o autor. Quiçá, não andará por aí subjacente, nessa persistência, um inconsciente (ou não) complexo de culpa? Não evitou uma situação! Não entendeu a profundidade do sentimento…

Ao longo da narrativa vamos sendo conduzidos pelas palavras de Zimler, autor e personagem, através de diversos ambientes que nos dizem muito sobre várias coisas. Quanto a mim, e é apenas a minha opinião pessoal, a mais importante de todas é a evolução negativa que se verifica no que diz respeito à coexistência de israelitas e árabes. Provavelmente, aquela ligação das duas famílias em Haifa nos anos 50, que levou à amizade quase sem limites que ligava as duas raparigas, seria absolutamente impensável actualmente.

Desde Haifa de 1950, à Austrália a Paris, a Bolonha e mesmo a Portugal actuais, vamos acompanhando a investigação e o seu desenrolar. Por vezes espantados com o imprevisto, outras até com um friozinho dado o assustador de certas situações, vamo-nos ligando a Helena, sofrendo com ela, vivendo também os seus melhores momentos, sempre transmitidos com enorme respeito e sensibilidade, à medida que desvendamos Sana.

Mesmo as personagens mais obscuras, as acções que nos surpreendem e nos chocam (a guerrilha, os atentados), nos são mostradas, algumas, numa “zona cinzenta” se me é permitida a expressão. É que não há verdades absolutas… Ninguém é absolutamente perverso nem ninguém é totalmente inocente…

Para concluir, este livro não é, como já suspeitava, o meu favorito deste autor. Não posso porém dizer que tivesse razões para me mostrar tão renitente à sua leitura.

É que, na verdade, nem sequer posso dizer que me senti defraudada…

Apesar de tudo, se vai ler Zimler pela primeira vez, um conselho: não comece por este. Guarde-o para quando já conhecer melhor o autor.

8 comentários:

wallper.lima disse...

Olá!Tdo bem?
Muito bem definido, vc é precisa e clara, onde nos dá um apanhado resumido do livro. Ainda não li nada desse escritor.
Fiquei feliz em saber que vc foi a exposição de Frida Kahlo, eu ainda não tive esse privilégio! Postei, acho tanto sua história emocionante, como suas obras, onde deixa bem claro tudo que ela quis passar em cada quadro pintado. E o que mais me aproxima dessa artista é a determinação, coragem, força de buscar vida, mesmo nos momentos mais sofridos, e ter encontrado na pintura um meio de colocar toda sua angústia, medos, revoltas para fora, e passar "talvez" para outras pessoas, que vale a pena viver, e lutar pra continuar vivo!
Mta coisa deixei de falar, vc irá constatar no livro, mas fiz um resumo daquilo que achei mais precioso, dando apenas algumas pinceladas.
Sobre o livro que eu falei com vc que não acho por aqui, (está esgotado), é do artísta - Salvador Dali - Título: Diário de um Gênio".
Obrigada pelo comentário, espero vê-la sempre por lá...
Bjos.
Waleria Lima.

Donagata disse...

Eu é que agradeço. E, em relação ao livro, eu sabia que era de dali, mas, na pressa, troquei-lhe o nome.

Beijos.

Fátima disse...

Eu li "Os Anagramas de Varsóvia" em duas noites: recebi-o na quinta, comecei a lê-lo à noite, idem na sexta, e acabei a obra às 3:00h.

Simplesmente adorei.

Foi a primeira vez que li zimmler, agora tenho ali "O último Cabalista" para ler a seguir.

B'jinhos,

Fátima

Donagata disse...

Deixou-me curiosa. mas, como previa, foi disputado pela minha filha que está a le-lo.
De resto, acho que faz muito bem em continuar a ler obras do autor. São, realmente, muito boas.
Começar pelo "Último Cabalista" parece-me ser o sentido certo pois é o primeiro, em termos cronológicos, da saga de uma família.

Penso que vai gostar. Depois me dirá.

Beijos

Ezul disse...

Muito interessante, este texto. Gosto muito da obra de Zimler, há muito tempo que não lia um autor que me motivasse tanto, quer pela qualidade da sua escita,quer pelos valores que transparecessem na sua obra e em todas as entrevistas que pude ler. Considero que "O Último Cabalista de Lisboa" e "A Sétima Porta" são livros absolutamente extraordináios. Curiosamente, quando li "À Procura de Sana" também fiquei com a sensação que esse livro não estava à "altura" dos que lera anteriormente. Depois, o que ficou dessa leitura obrigou-me a reflectir, como se o texto começasse a ganhar sentido e a trazer à superfície muitas razões para me obrigarem a recordá-lo. Estou prestes a reler o livro, pois a sugestão que apresentei no grupo de leitura de que faço parte foi aceite. Será interessante conhecer outras perspectivas da obra.
:)
Boa semana!

cris disse...

Em meu blog tenho um link directo para o seu, sobre o comentário do livro "À procura de Sana". Espero que não se importe.
http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.com
Boas leituras
Cris

Donagata disse...

Claro que não, Cris. Até estou a ser divulgada....

LuA58 disse...

Ontem estive na apresentação do livro Ilha Teresa, (El Corte Inglés Lisboa).Rudo o que escreveu sobre a "A procura de Sana" poderia ter sido escrito por mim, só que eu não comprei o livro, passado muito de tempo de ele ter saído, emprestaram-mo. Gostei mas a história dos Zarco marcou a minha vida e a paixão pelo Richard. Espero que goste da Ilha Teresa , Já comecei a ler é um registo totalmente diferente mas a alma do Richard está lá. Ele é na realidade um grande escritor.