sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sobre o Palácio do Marquês de Valle Flor III ( O palácio)

Finalmente lá vai qualquer coisinha acerca do Palácio propriamente dito que, convenhamos, já tardava.

Pois como já referi o Palácio foi mandado construir para residência dos marqueses em Lisboa, nos finais do século XIX, início do XX, pelo então já possuidor de título de nobreza José Luís Constantino.

Num terreno de 2 quilómetros quadrados de superfície, situado no Alto de Santo Amaro, com amplas vistas para o Tejo, o marquês manda que se construa um enorme palácio, ao qual estavam anexos: um edifício magnífico que serviria como cavalariças e cocheiras, uma capela e ainda outras construções, mais pequenas, destinadas aos seus filhos. Todo o espaço se encontra imerso em extensos jardins, com espécies botânicas raras e diversificadas por entre as quais podemos ainda observar belas esculturas como é o caso de “Hermes”.Trata-se de um conjunto estilística e urbanisticamente harmonioso.

O projecto inicial é atribuído ao arquitecto italiano Bigaglia (residente, à época, em Portugal) e terá sido continuado, dentro do espírito inicial pelo arquitecto José Ferreira Costa. Ventura Terra terá sido também responsável por uma série de pormenores decorativos.

O edifício principal organiza-se em duas alas constituídas por amplos salões que ostentam peças artísticas de várias proveniências. Patenteiam, como já referi, uma mistura eclética de estilos decorativos, sobretudo de influência francesa. Podemos contemplar, nos tectos e nas paredes, arte de nomes como: Constantino Fernandes, Carlos Reis, Eugénio Contrim, entre outros, que tornam este palácio um testemunho único no panorama da arte nacional.

Do interior, todo ele belíssimo (refiro-me ao que me foi possível ver), destaco:

O átrio principal com a sua magnífica cúpula em vitral bem como os restantes vitrais que compõem a porta da entrada e decoram as paredes os quais ajudam a criar um ambiente de luz, um tanto mágico, que encanta quem sobe a ampla escadaria em pedra que se estende ao longo dos dois lados, em semi-circulo, para se encontrar em cima num belíssimo varandim.

Sala Luís XVI, assim conhecida por nela se encontrarem, como elementos decorativos predominantes, os bustos de Luís XVI e de Maria Antonieta em forma de medalhão ovalado envolvidos por folhagens e nós de fitas. De resto a sala manifesta sobriedade mostrando já uma notável influência do estilo neo-clássico. Ainda digno de nota nesta sala é a porta de correr que dá acesso ao corredor. Contem duas folhas compostas por painéis em vitral de grande beleza e, segundo apurei, executados num atelier em Lisboa. Tais como os da porta da sala renascença são da oficina de Cláudio Martins (1879-1819) na rua da escola Politécnica.

Sala Renascença. Nesta sala predominam os revestimentos em madeira trabalhada que adquirem uma luminosidade peculiar graças aos vitrais que a decoram. Estes, introduzem formas zoomórficas (o dragão, o golfinho, o carneiro) linguagem estilística do renascimento italiano. O tecto é rasgado por uma admirável tela a óleo representando o céu com rosas com uma moldura esplêndida que apresenta nos topos um remate decorativo com máscara, florões, folhas de acanto, volutas simétricas … Estes motivos, bem representativos da época renascentista, repetem-se no fogão de sala bem como em volta das telas ovais situadas sobre as portas representando animais de capoeira (da autoria de Domingos Costa). Podemos também aqui apreciar um conjunto de múltiplas ferragens, um pouco por todas as superfícies, as quais valorizam e completam os ornatos em madeira.

(continua)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

"Cal" de José Luís Peixoto


Cal é uma obra composta por 17 contos, 3 poemas e uma peça de teatro a qual foi efectivamente levada a cena no Teatro S. Luiz, em Lisboa, por Natália Luiza e Miguel Seabra em Janeiro de 2006 e reposta em 2007.

As histórias desenvolvem-se em ambientes rurais e o tema centra-se na velhice (ambiente e tema recorrentes nas obras de José Luís Peixoto que eu conheço). A velhice, sempre tratada com dignidade, com tudo o que tem de belo, a sua experiência, as suas memórias, os seus sonhos, mas também a melancolia, a solidão, o desalento, a loucura, a confusão dos tempos e a morte… a sempre presente morte, quiçá como redenção!?

Contudo não é um livro que trate da decadência física como ponto fulcral. Não, penso que nos leva exactamente noutra direcção e enaltece precisamente o seu contrário. Exemplo disso é a peça de teatro “À Manhã”.

Para quem conhece a obra do autor, este livro não surpreende, é igualmente bom. Utiliza de forma exímia palavras simples mas que nos prendem inteiramente e têm o condão de nos emocionar.

Se tivesse de seleccionar um dos contos, seleccionaria “A idade das mãos”. Um mimo do princípio ao fim. Se fosse uma poesia, seria a seguinte pela sua candura, talvez… ou pelo desconcerto que me provoca…

A gente corremos pelas ruas da vila

O céu das hortas é maior do que
o mundo.
A vila apresenta ruas calcetadas para
homens de sapatinho fino, mulheres
sozinhas e cachopos: eh, cachopo
de má raça.

Vamos aos figos e passamos
a vida:
a vila, às vezes, é desenhada
por esta aragem que é o lápis
de um carpinteiro. Quem é que é
o teu pai?, perguntam os velhos
sentados num banco de jardim.

A gente corremos pelas ruas da vila.

Eu já vi as laranjeiras e as janelas
abertas no verão. Pranta-te quedo,
dizem as velhas de olhos pretos.

Vamos fazer um mandado, vamos dizer
o tempo:
porque a gente corremos pelas ruas da vila
e sabemos quem é a Ti Rosa do Queimado
e ainda não temos cegueira de ser grandes.

Já agora, para quem gosta de poesia, recomendo do mesmo autor, para ir lendo, “A Criança em Ruínas” e a “Gaveta de Papeis”.

Sobre o Palácio do Marquês de Valle Flor II ( A Marquesa de Valle Flor)

E agora, ainda antes de falar acerca do palácio propriamente dito, irei dizer umas palavrinhas sobre a Marquesa de Valle Flor uma vez que se destacou com acções que prevalecem até hoje.

A Marquesa de Valle Flor, D. Maria do Carmo Constantino Ferreira Pinto, nasceu em 1872 e morreu em Lisboa em 1952 tendo sobrevivido quer ao marido quer aos filhos: José Luíz, 2º Marquês de Valle Flor e Jenny de Valle Flor . Residia habitualmente no seu palacete em Paris e era amiga dedicadíssima da Rainha D. Amélia tendo-a acompanhado mesmo no exílio.

Em homenagem aos seus dois filhos falecidos, cria a Fundação Valle Flor que se destinava a agraciar jovens pobres que se distingam quer pelo seu carácter quer pelos seus gestos de bondade ou coragem. A Fundação, que era gerida pelo Montepio Geral, atribuía a esses jovens prémios financeiros numa cerimónia que, durante o Estado Novo, era de grande pompa sendo os prémios mesmo entregues pelo Presidente da República.

Fundou também, em Agosto de 1951, o Instituto Marquês de Valle Flor o qual se destinava (e destina ainda) a desenvolver estudos e trabalhos científicos sobre as nossas ex-possessões ultramarinas que visavam melhorar as condições de vida das suas populações (com um ênfase especial, naturalmente, para a população de S. Tomé).

O Instituto foi dotado com dez mil contos e com a cedência do Tal palacete, residência dos marqueses em Portugal na Rua de Jau em Lisboa.

Este instituto, que actualmente é uma organização não governamental para o desenvolvimento (ONGD) continua muito activo tendo iniciado em 1985, com a entrada de Portugal para a CEE, uma nova etapa de actuação.

Estabelece parcerias alargando as suas actividades a áreas como a educação e a ajuda humanitária de emergência, consideradas actualmente as suas actividades principais. Actua, presentemente, em todos os países de língua oficial portuguesa.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sobre o Palácio do Marquês de Valle Flor I (O Marquês de Valle Flor)

Como havia prometido e porque acho que vale a pena vou contar-vos um pouco do que sei sobre o Palácio de Valle Flor.

Este magnífico edifício, situado no Monte de Santo Amaro em Lisboa (hoje convertido em hotel), foi mandado construir por José Luís Constantino.

Transmontano, de Murça, de família ligada à agricultura, parte para S. Tomé e Príncipe em 1871.

Começa por trabalhar num estabelecimento comercial, mas brevemente se dedica à agricultura até que em 1882 compra a roça “Boa Vista”.

Devido à sua tenacidade, espírito empreendedor e, naturalmente, jeito para negociar, torna-se no maior e mais rico agricultor de S. Tomé graças à produção de cacau que vendia aos ingleses. Colabora, juntamente com outros para a organização territorial de S. Tomé, conduzindo o arquipélago a um desenvolvimento sustentado que o tornou, entre 1912 e 1915 o primeiro produtor mundial de cacau. Torna-se Presidente da Câmara de S. Tomé e Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição. Consta-se que terá sido José Luís Constantino que terá recebido na sua roça da Bela Vista o Príncipe Luís Filipe na sua visita a S. Tomé. Esta, que se destinava a demonstrar a não existência de esclavagismo nessa colónia, de que era acusada pela comunidade internacional (especialmente pelos ingleses que cobiçavam a hegemonia da produção de cacau), inseriu-se no único feito digno de nota empreendido pelo Príncipe, que consistiu uma visita às colónias portuguesas de Angola, Moçambique, S. Tomé e Cabo Verde, bem como às inglesas Rodésia e África do Sul – estas, está bom de ver, para fomentar as boas relações com um velho aliado num período muito conturbado em que a cobiça pelas possessões ultramarinas estava ao rubro. Apenas como curiosidade refiro que o “África” navio que transportava o Príncipe Filipe e a comitiva, nunca chegou a aportar na ilha do Príncipe por aí ter rebentado, poucos dias antes uma revolta bem indicativa dos problemas que se viviam.

Muito prestigiado junto da realeza graças às suas fortes convicções monárquicas e colonialistas, foi agraciado por D. Carlos com os títulos de Visconde, mais tarde de Conde e, finalmente, Marquês de Valle Flor em 1907. Foi ainda nomeado Par do reino por D. Manuel II.

Como a família não era possuidora de brasão de armas, este foi-lhe concedido por D. Carlos: por alvará datado de 18 de Outubro de 1892 e por carta de 3 de Novembro de 1893.

Nos finais do século XIX, inícios do século vinte, constrói este magnífico palácio que além de uma localização privilegiada de amplas vistas para o Tejo, patenteia uma selecção de estilos e de opções decorativas onde não estarão ausentes as influências da ligação do marquês e da sua família a França possuindo até um palacete em Paris.

De forma ecléctica surgem-nos marcas de estilos que nos remetem para as épocas de Luís XIV, Regência, Luís XV e Luís XVI, espelhando um conjunto de vivências adquiridas em S. Tomé, Portugal e França. Reuniu uma das maiores colecções de pinturas dos finais do século XIX ( a qual ainda se mantém in loco)

Com a implantação da república perde-se grande parte da influência do Marquês e do seu prestígio embora mantenha intacta a sua fortuna.

O Marquês morreu em 1932 em Bad-Nauhein (Alemanha) e o espaço permaneceu esquecido até ter sido, passado quase um século, recuperado adquirindo o esplendor que perdera, agora como hotel.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Regresso ao bar da praia

(Imagem: "Meditation"de René Magritte)

Eis que regresso ao meu bar
à minha praia,
à minha areia,
ao meu mar!
Sentada na velha cadeira,
húmida,
impreparada ainda
para os dias de verão,
deixo que o vento me fustigue,
enquanto o sol ,
de raios tímidos,
tenta suavizar os meus arrepios.
Ao longe,
a paisagem de sempre:
a ampla vastidão do oceano,
as suas ondas orladas de espuma
afagando lúbricas
as rochas pintadas de negro,
brilhantes, imponentes,
trepando pelas areias brancas,
nuas de gente,
virgens de marcas.
Alongo o olhar.
Acompanho o movimento das ondas
E aquieto-me.


domingo, 25 de maio de 2008

"A sala magenta" de Mário de Carvalho


Nota prévia:
Arrolar logo assim dois seguidos, convenhamos que é uma grande maçada. Mas a verdade é que ninguém precisa de ler. Eu é que preciso de o escrever; faz-me bem!
Para mim, reflectir sobre um livro que acabei de ler, tentando sintetizar o mais possível aquilo que de bom (ou mau) me deixou, é quase tão estimulante como lê-lo (embora muito aborrecido, dirá quem lê).

Tive o primeiro contacto com Mário de Carvalho quando, porque achei o título sugestivo e a sinopse interessante, li o romance “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. Fiquei francamente rendida. Ao livro que é engraçadíssimo e, sobretudo, ao tipo de escrita que revelava o autor.
Depois desse li já vários que me puseram em contacto com diversos registos de escrita de Mário de Carvalho sem que alguma vez tenha ficado decepcionada.
Acabei agora de ler “A sala magenta”. Mais uma vez muito bom. Magistralmente escrito, como habitualmente. Prosa forte, quer pelas palavras usadas quer pelo ritmo, desta vez numa toada um pouco dramática. Romance que nos retrata os desencontros, os equívocos, as inquietações, as incertezas de um protagonista preso numa tecedura densa de ligações sentimentais que o aniquilam e o conduzem ao fracasso.
A não perder.

sábado, 24 de maio de 2008

"A vida secreta das abelhas" de Sue Monk Kidd


Há uns tempos atrás comprei uma série de livros pelo convidativo preço de 3,50€. Uns porque conhecia os autores, outros porque já havia ouvido falar na obra e outros apenas porque ao ler a sinopse me pareceu que poderiam ser agradáveis. E se não fossem, a verdade é que o prejuízo também não seria grande.

Foi o caso do último livro que li intitulado “A vida secreta das abelhas” de Sue Monk Kidd.

Agradável surpresa. Trata-se de um romance escrito com grande sensibilidade e um sentido de humor algo peculiar. Conta-nos a história de Lily, órfã de mãe desde os quatro anos que, vivendo com o pai repressivo e cruel, ao fazer catorze anos, reúne o pouco que conserva da sua mãe (mesmo as memórias) e parte em busca das suas origens.

Parte com a sua ama, negra, acabando por encontrar uma família, também de negras, apicultoras, que a acolhe e onde aprende a conhecer e a amar o mundo fascinante das abelhas. Aí descobre, ela própria, o calor de uma família bem como desvenda segredos insuspeitados.

A par surgem os problemas de segregação racial que se viviam na Carolina do Sul nos anos 60 e aquilo a que alguém chamou a faceta feminina de Deus.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sonhei contigo

Sonhei contigo.
E como estavas vaidosa
Dos êxitos da tua Inês!

Sonhei contigo.
E eu nervosa
Pois entre a minha alegria
Havia também porquês.
Tentavas tu explicar
Tentava eu entender
Como puderas não estar
O que te fizera reter.
O cabelo por lavar…
Mais um corte de corrente…
E eu calei-te friamente
Não podia acreditar.

Acordei!
Tão pesarosa, tão sentida!
Mas eras tu e tão viva,
Que eu nem sequer vacilei
E evoquei a razão.
E agora que acordei,
Só me posso desculpar.
Estiveste presente, eu sei.
E aquilo que eu dizia
Eras também tu a falar.

(Imagem: "Loosing your shape in dry air"by Mordiana)

terça-feira, 20 de maio de 2008

E enquanto tomava café...



Enquanto tomava o meu café da manhã e fazia uma pequena incursão por alguns blogues da minha predilecção, vi este pequeno documentário que me deu que pensar.
Resolvi então transmitir um pouco deste desassossego a mais alguns.

Se quiserem desassossegar um pouco mais e aprender muito, passem por aqui:
De Rerum Natura

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Desta janela

Abro a janela
deste quarto antigo
deste enorme casarão
que me recorda a infância.
Abro a janela
e espreito a manhã.
Desponta cinzenta e branda
Mas gorda de fragrância
a rosmaninho, hortelã,
flor de giesta, lavanda
tomilho e alecrim.
Inalo com força este festim
de lembranças já perdidas,
de memórias esquecidas
bem fundo, dentro de mim.

Ao longe verdeja a encosta
pincelada por mão de artista
de vermelho, de amarelo,
de roxo, de ametista…

E aqui, bem junto a mim,
uma simples oliveira,
singela mas altaneira,
nas rugas do seu madeiro,
na prata das suas folhas
com textura de cetim.


E no seu pé…
Uma papoila nascida só para mim!

(Imagem: "Gato à janela" de A. Hiroshige)

Grandes prazeres


(Imagem extraída do catálogo da exposição de Miguel Ministro)

Por vezes os dias trazem-nos presentes inesquecíveis quando nos proporcionam grandes prazeres com coisas simples.

Foi isso que me aconteceu na sexta-feira ao ter-me sido concedido o privilégio de, num grupo de amigos, ler um conjunto de belíssimas poesias da Ruth.

Tudo se passou no espaço onde se encontrava patente uma exposição de pintura do seu irmão (interessantíssima, aliás).

Num ambiente de grande informalidade mas também de grande beleza e requinte, alguns amigos foram-se juntando e, após apreciarem a arte do Miguel, exímio nas tintas, enquanto saboreavam um aromático chazinho e um irresistível bolo de chocolate, foram ouvindo alguns dos muitos poemas escritos pela Ruth.

Se o Miguel nos deleita com a imagem, nos acorda os sentidos através do olhar, a Ruth esgrime palavras que utiliza sabiamente para pintar sentimentos e emoções.

Foram momentos muito belos que criaram um ambiente caloroso, intimista e emotivo dada a formosura e a maturidade dos poemas lidos.

Enfim, todos merecemos um mimo de vez em quando. O meu foi, sem dúvida, ter tido a oportunidade de dar voz às palavras da Ruth sem a ter, aparentemente, defraudado.

Obrigada Ruth pela oportunidade de me deleitar; pelos momentos inacreditavelmente agradáveis que me permitiu passar e pela incrível companhia.


As palavras estão vivas.
Sinto-as palpitar,

Ávidas de ti...

De te chamar...


As palavras estão vivas.

Mas eu, morri

Ruth Ministro

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Danças e Contradanças" de Joanne Harris


É um livro bastante surpreendente para quem leu obras da autora como “Chocolate”, “Vinho Mágico” ou “Na corda Bamba”.

Trata-se de um conjunto algo ecléctico de contos nos quais a autora, dando largas à sua imaginação e aliando a sua bem patente capacidade de observação, nos confronta com situações enigmáticas, corrosivas, estranhas, perturbadoras, insólitas, inquietas, astuciosas e até perversas, algumas das quais revelam obsessões da humanidade.

Um livro de dicotomias em que o verso caminha de mãos dadas com o reverso: o imaginário versus real, o bem versus mal, o belo versus disforme, o vício versus virtude, o fascinante versus inquietante…

Um conjunto de contos também de afectos, de sentimentos. Contos que conduzem à reflexão e que surpreendem pelo insólito e pelo inesperado dos seus finais.

Gostaria de destacar os contos “Olá, Adeus!”, “o Gene G-Sus”, “A Pequena Sereia”, “O curso de 1981”, como poderia destacar ainda outros. Ao ler, talvez estejam também de acordo com o realce.

Aconselho. Julgo que poderá constituir uma agradável surpresa.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Le Cirque du Soleil

Que posso eu dizer do que vi neste fantástico espectáculo “Quidam” do Cirque du Soleil? Sejam quais forem as palavras que utilize, é certo que não conseguirei transmitir a magia a que somos transportados ao longo de duas horas de música encantadoramente original, de elegantes acrobacias que aliam a arte circense ao teatro, tudo embrulhado num guarda-roupa requintadíssimo, excêntrico, que nos transporta aonde nos permitamos acompanhar o nosso imaginário.

“Quidam” que em latim significa “alguém” ou “o caminhante anónimo”, conta-nos a história de Zoe e da sua viagem de descoberta de um outro mundo diferente do que ela conhecia. Este, cinzento, enfadonho e triste, vai sendo substituído por um outro, pleno de luz, cor e fantasia.

Esta metáfora que trata da descoberta do sentido da vida, do meu “Eu” interior tem, no meu ponto de vista, um pendor um tanto dramático; toca intencionalmente o sentimento do espectador, emociona-o.

E foi emocionada que me despedi dos mais de 50 artistas entre músicos, bailarinos, acrobatas, contorcionistas e comediantes e me fui afastando do impressionante grand chapiteau, em tons de azul e amarelo, das luzes que o envolvem e fui deixando para trás o sonho…

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fim de semana cultural

Eis-me chegada de um curtíssimo e atarefado fim-de-semana cultural. Sábado, eu mais o meu Gatão lá nos fizemos à estrada e rumámos à capital para assistir ao Cirque du Soleil*(aliás, como já aqui havia anunciado efusivamente).

O banho de cultura começou logo ali pelas bandas da Mealhada com um “culturalíssimo” almoço de leitão assado à moda da Bairrada que só não foi regado com um espumantezinho local (parece-me ter entendido que é o acompanhamento de eleição deste prato) porque eu não bebo e o Gatão ia conduzir. Mas um suminho de laranjas espremidas na hora foi um regalo.

Terminado o primeiro round, gastronómico, fomos prosseguindo viagem ao som de Luís Represas e, sob um céu que ora nos ameaçava carrancudo pejado de nuvens nos diversos matizes de cinzento, ora deixava entrever timidamente alguns raios de sol mais afoitos, chegámos ao destino, o hotel onde pernoitaríamos. E que hotel! É que o dito se situa, nada mais, nada menos, no Palácio do Marquês de Valle Flor*. Acreditem que o palácio constitui, só por si, já não apenas um singelo banho, mas um autêntico jacuzzi cultural. Um regalo!

Depois de umas voltas ao romântico jardim apreciando as suas belezas, naturais ou outras, refrescámo-nos e preparámo-nos para seguir para o espectáculo que cá nos tinha trazido.

Depois de algumas incríveis peripécias para encontrar, às 20h da “madrugada”, em Algés, uma pastelaria, um snack-bar ou algo semelhante que nos servisse alguma coisa muito ligeira (o almoço ainda pesava), seguimos para o recinto do circo. Este será alvo de um post. Merece-o.

No dia seguinte, após um pequeno-almoço muito contemplativo em que a arte e a beleza que nos rodeava eram impressionantes, seguimos para Belém. Objectivo: Museu de Arqueologia e revisitar o, sempre surpreendente, Mosteiro dos Jerónimos. Traduzindo: “Lá vais tu ver calhaus e coisas de defuntos…”

Depois de um bom passeio pelos jardins circundantes que nem a chuva miudinha que se fazia sentir, nem o vento conseguiram estragar, rumámos, como fiéis peregrinos, aos pastelinhos de Belém dando assim por concluída a já longa jornada cultural.

Depois, foi apenas o regresso às origens com a mente refrescada e ardentes propósitos de repetir o feito enquanto ouvíamos “Crosby Stills Nash and Young”.

*Quer em relação ao Cirque du Soleil quer ao Palácio do Marquês de Valle Flor tenho intenção de escrever postes mais pormenorizados pois julgo que são temas que merecem tal cuidado

(Imagem: Túmulo de Fernando Pessoa. Claustro do Mosteiro dos Jerónimos)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Noite de grande orgulho!



Ontem foi um dia muito especial para mim.

Fui convidada para um “Chá com poesia” que se destinava a homenagear dois poetas: um consagrado, Nuno Júdice e uma poetisa muito jovem mas muito promissora, Inês Torres.

O convite tinha “brinde”! Ou seja eu deveria fazer a apresentação da jovem poetisa uma vez que se trata da minha sobrinha além de afilhada.

Aceitei imediatamente, cheia de orgulho e incrivelmente vaidosa. Depois, veio o receio de não encontrar em mim o engenho requerido para exibir com o destaque que se impunha os seus inequívocos dotes para a poesia.

Enfim, seria o que teria de ser! Socorri-me então das palavras de poetas incontornáveis do nosso panorama literário para definir o conceito de poeta (se é que ser poeta pode ter definição). Disse então as palavras de Florbela Espanca no seu belíssimo soneto “Ser poeta” (não tão bem quanto o canta Luís Represas mas o meu cachet é também ligeiramente menor), continuei dizendo Nuno Júdice, como se impunha, o seu poema “O Poeta” e terminei com a “Autopsicografia” do nosso GRANDE Fernando Pessoa.

A ideia era que os presentes tomassem consciência das características que, segundo estes autores eram inerentes ao poeta: o manuseio da palavra, do sentimento, da emoção, da alegoria, da metáfora, do fingimento, eu sei lá… os presentes teriam a palavra; tirariam as suas conclusões.

Depois, li quatro pequenos poemas inéditos da Inês tentando demonstrar que estes evidenciavam tudo aquilo que tínhamos visto que poderia caracterizar a poesia.

Penso que consegui o objectivo e que todos ficamos com a certeza que, embora muito jovem, a Inês revela já o talento, a sensibilidade, a maturidade para manipular as palavras criando autênticas fatias de prazer.

Não posso terminar este post sem deixar um rasgado elogio aos professores que dinamizaram esta actividade que não só pretendeu dar a conhecer a poesia de dois autores como, pela forma elegante e cuidada com que a prepararam, estou certa que espevitou em muitos dos presentes a curiosidade por este género literário nem sempre de fácil adesão. O elogio é extensivo, claro, à direcção da escola – trata-se do Colégio Paulo VI – que proporcionou os meios, facilitou o evento e honrou professores e alunos com a sua presença.

Quando se procede desta forma na educação é porque se vai no bom caminho. Estou certa que veremos os frutos destas boas práticas.

"As Paixões de Júlia" de William Somerset Maugham

Acabei de ler “As paixões de Júlia” de Somerset Maugham, livro que já estava na minha longa “lista de espera” há uns bons aninhos (!?...)

Confesso que não sei porquê, mas por uma razão ou por outra ia sendo sempre preterido em função de outros que chegavam bem depois. (Será também assim no Serviço Nacional de Saúde?) Desculpem, mas não resisti.

Bom, vamos lá ao livro. É francamente bom. Muito bem escrito ou não estivéssemos a falar de um autor que, embora fora de moda, é um nome incontornável na literatura mundial.

A história concentra-se toda ela em torno de Júlia, uma actriz de grande sucesso, considerada mesmo a maior actriz inglesa do seu tempo.

Júlia é uma profissional excelente. Manipula com grande sagacidade as suas emoções em palco de modo a arrebatar incondicionalmente o público.

Na vida real é uma mulher inteligente, algo frívola, desiludida, embora acomodada com o seu casamento, obrigada a uma disciplina rígida e monótona de ensaios, dietas rigorosas, apresentações, jantares fastidiosos e, talvez por isso, disposta agora a correr riscos (dos quais sempre fugiu) que a façam sentir-se viva.

Julga poder controlar a sua vida pessoal da mesma forma que, em palco, domina as suas personagens. Mas, sem contemplações, é traída pelos seus próprios sentimentos.

Muito bem escrito ou não estejamos a falar de Somerset Maugham que aqui, ao abordar em romance o tema teatro (o nome original do livro é “Theatre”), revela bem o seu gosto pelo drama. Devemos ter em conta que o autor, embora mais conhecido como romancista, se iniciou como dramaturgo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Louis Wain Pequena Biografia


(Which do I love best?)
(The young coquette)
( progressão da esquizofrenia de Wain)

A imagem inserida no cabeçalho, bem como muitas outras que utilizo sempre com gatos antropomorfizados, é de Louis Wain pintor que aprecio pela originalidade dos seus trabalhos, os quais muitas vezes satirizam o comportamento humano, bem como como pela vida trágica mas fascinante que teve.
Pintor inglês, nascido em 1860 em Londres era o filho mais velho e o único rapaz de seis irmãos. A irmã mais nova enlouqueceu por volta dos trinta anos tendo sido internada num hospital psiquiátrico e as restantes, nunca tendo casado, passaram toda a sua vida em casa dos pais.

Louis Wain que nasceu com lábio leporino foi aconselhado pelos médicos a não frequentar a escola até aos dez anos.
Mais tarde estudou na West London School of art onde terá ainda sido professor.

Após a morte de seu pai teve de trabalhar para sustentar a família; mãe e irmãs. Teria 20 anos.
Deixou o ensino tendo passado a trabalhar como freelancer em diversas publicações. Pintava essencialmente animais, cenas campestres, tendo até, durante algum tempo, ganho a vida retratando cães.

Com 23 anos casou com Emily Richardson, dez anos mais velha do que ele o que para a época era considerado escandaloso.
Mudaram-se para Hampstead mas cedo a sua esposa adoeceu gravemente tendo contraído cancro de que veio a morrer apenas três anos após ter casado.

Durante a doença da sua esposa Emily, entreteve-se a desenhar o gato de casa, Peter, em diversas poses imitando atitudes de pessoas. Tais desenhos destinavam-se a distrair e animar Emily.
Mas foi exactamente a partir daqui que a sua carreira se definiu distinguindo-se com os desenhos antropomórficos de gatos.

Durante os trinta anos seguintes produziu em grande quantidade para todo o tipo de fins: ilustrações de livros infantis, jornais, revistas, cartões de boas festas, de aniversário.
Produzia por ano várias centenas de desenhos mas nunca foi rico. Por um lado porque mantinha a seu cargo a mãe e as irmãs, por outro lado porque não tinha habilidade para gerir as suas transacções e era facilmente enganado.

Empenhou-se em diversas associações de defesa dos direitos dos animais especialmente as que diziam respeito a gatos tais como “Society for the Protection of cats”, “National cat club”, Anti-Vivisection Society”… A partir de 1924 as suas atitudes que se vinham tornando cada vez mais erráticas e agressivas levaram a que a irmã o internasse num hospital psiquiátrico de muito má qualidade. Por intervenção do próprio Primeiro-ministro é mudado de hospital e vive os seus últimos quinze anos em St. Albans, onde convivia com uma colónia de gatos existente nos jardins. À medida que a doença progredia os seus desenhos foram-se transformando visivelmente tendo adquirido cores cada vez mais vivas, traços mais fortes e uma grande profusão de flores.

H. G. Wells, escritor inglês, disse de Louis Wain: "Ele apropriou-se do gato. Inventou um estilo, uma sociedade, todo um mundo do gato. Os gatos ingleses que não se pareçam e vivam como os gatos de Louis Wain, deveriam envergonhar-se de si próprios"

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Mais um miminho!


Mais uma vez fui contemplada com um intenso aguaceiro de mimo o qual não sei muito bem se mereço. Até é possível que por vezes faça mesmo pensar, só não tenho a certeza que isso seja sempre uma coisa muito boa...

O que eu tenho mesmo como certo é que, quer a pessoa que mo choveu quer aquela para quem o vou miar são, de facto MULHERES QUE FAZEM PENSAR! E, melhor ainda, MULHERES QUE PENSAM!

E, é claro, vai direitinho para ti Sofia.

domingo, 4 de maio de 2008

Cirque du Soleil, aí vou eu!



Isto de ser Dia da Mãe também traz algumas vantagens (para as mães, claro).

Os meus rebentos, além de me terem mimado com um extraordinário almoço na casa de um deles (que me forçará a ir amanhã para o ginásio logo às oito horas e a passar lá o dia), ofereceram-me entradas para o Cirque du Soleil.

É verdade, bilhetes VIP!
E eu que julgava que, mais uma vez, não conseguiria ir!...

Poema à Mãe

(Imagem: "Mother nursing her child" by Pierre Auguste Renoir 1886)

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

"Varjak" de S.F.Said


Livro para crianças mas que me vinha a interessar há já algum tempo. Pelas criticas que tinha lido a seu respeito, por ter sido ganhador do “Smarties Prize”, porque gosto de livros para crianças e, last but not the least, porque tem como protagonista, imagine-se… um gato.


Comprei-o na feira do livro do agrupamento, de que já vos falei e li-o hoje.

É mesmo muito giro.

Varjak Paw é um gato azul russo de refinado pedigree que vive com toda a sua família numa enorme mansão, de uma marquesa, da qual nunca nenhum saiu a não ser um seu ancestral legendário, Jalal que tinha vindo da Mesopotânea.

Tudo corre bem até à morte da condessa e à entrada em cena de um estranho homem acompanhado de dois, ainda mais estranhos, gatos pretos.

Pressentindo perigo, o avô de Varjak aconselha-o a sair dali e procurar ajuda recordando-lhe a sua herança genética e os feitos atribuídos a Jalal.

Varjak, muito receoso sai para o desconhecido e… e o resto é para lerem.

Contem com uma fábula pouco usual mas muito interessante. Que entrelaça os momentos reais com os sonhos durante os quais Varjak toma conhecimento de conceitos baseados em filosofias orientais cujas técnicas haviam conseguido tornar lendária a bravura do seu antepassado Jalal.

Grandemente valorizada pelas ilustrações de Dave Mckean que não necessita de apresentações.

Vou rapidamente ler a sequela que penso também já ter sido editada por cá.

sábado, 3 de maio de 2008

"Um Deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho

Há já algum tempo que vinha a procurar este livro pois me haviam sido feitas referências muito favoráveis a seu respeito. Finalmente lá consegui que mo encomendassem para a editora e terminei ontem a sua leitura.

Devo dizer que valeu a pena o empenho.

Trata-se de um livro em que a acção decorre em Tarcisis, uma cidade que, segundo o autor, nunca existiu e, como tal não é um romance histórico.

Tarcisis, ou mais propriamente o município de Fortunata Ara Tulia Tarcisis, situar-se-ia no sul da Hispânia, região da Lusitânia no século III dC, época em que o Império romano era governado pelo Imperador Marco Aurélio o Imperador filósofo.

Lúcio Valério Quíncio, único duúnviro e portanto magistrado supremo da cidade, vê-se a braços com os vários problemas que a assolam. Desde a ameaça de invasão pelos “bárbaros” do sul, ao aparecimento de uma estranha seita, os cristãos, que assustam e perturbam os cidadãos, à proliferação de intrigas, à inveja ditada pela ambição, tudo tem de enfrentar só.

Sem abdicar da prática do estoicismo (o completo domínio de si, o procurar atingir um estado de imperturbabilidade e o evitar a dor tudo para ganhar a tranquilidade da alma e a liberdade, características do sábio), filosofia com que Lúcio aparenta simpatizar, deixa para segundo plano o “sentir o povo”.

A tudo isto junta-se um amor que vai sentindo cada vez maior por Iunia Cantamber, uma patrícia convertida ao cristianismo.

O romance desenvolve-se num clima de decadência e desencanto que culmina com o seu exílio e retrata com uma mestria inusitada o contexto histórico da época.

É um verdadeiro tratado de cultura clássica.

Os (As) Algozes


É mais ou menos assim que eu fico depois da tortura!...
(Imagem recebida por e-mail)

De mãos nas costas e muito, muito dorida
com as pernas entorpecidas, embotadas,
para quedas não me sinto precavida
é com temor que me dirijo p'rás escadas.
E para elas olho, olho mas não avanço,
pois arrastar-me é já tudo quanto alcanço.

É que agora temos duas professoras.
Tão alegres! Tão jovens! Tão desvairadas!
E como lutam para que pobres amadoras
se comportem como atletas consumadas.
Vejam só se não é grande fortuna!
Dois algozes em acção em vez de uma!

Se uma salta, flecte e estica sem descanso
muito solta, sempre viva e em fragor,
a outra, de um jeito muito mais manso,
é com dança que nos leva ao estertor
E nós, pobres tolas, insensatas
perseveramos até nos rojarmos de gatas.

E com lisonjas e pródigas atenções,
lá nos levam oprimidas pelo cansaço
aos arquejos que são as respirações
de quem já troca a perna pelo braço.
Porém, após tão persistente dor
Só nos resta a apoteose, o clamor!