quarta-feira, 28 de maio de 2008

"Cal" de José Luís Peixoto


Cal é uma obra composta por 17 contos, 3 poemas e uma peça de teatro a qual foi efectivamente levada a cena no Teatro S. Luiz, em Lisboa, por Natália Luiza e Miguel Seabra em Janeiro de 2006 e reposta em 2007.

As histórias desenvolvem-se em ambientes rurais e o tema centra-se na velhice (ambiente e tema recorrentes nas obras de José Luís Peixoto que eu conheço). A velhice, sempre tratada com dignidade, com tudo o que tem de belo, a sua experiência, as suas memórias, os seus sonhos, mas também a melancolia, a solidão, o desalento, a loucura, a confusão dos tempos e a morte… a sempre presente morte, quiçá como redenção!?

Contudo não é um livro que trate da decadência física como ponto fulcral. Não, penso que nos leva exactamente noutra direcção e enaltece precisamente o seu contrário. Exemplo disso é a peça de teatro “À Manhã”.

Para quem conhece a obra do autor, este livro não surpreende, é igualmente bom. Utiliza de forma exímia palavras simples mas que nos prendem inteiramente e têm o condão de nos emocionar.

Se tivesse de seleccionar um dos contos, seleccionaria “A idade das mãos”. Um mimo do princípio ao fim. Se fosse uma poesia, seria a seguinte pela sua candura, talvez… ou pelo desconcerto que me provoca…

A gente corremos pelas ruas da vila

O céu das hortas é maior do que
o mundo.
A vila apresenta ruas calcetadas para
homens de sapatinho fino, mulheres
sozinhas e cachopos: eh, cachopo
de má raça.

Vamos aos figos e passamos
a vida:
a vila, às vezes, é desenhada
por esta aragem que é o lápis
de um carpinteiro. Quem é que é
o teu pai?, perguntam os velhos
sentados num banco de jardim.

A gente corremos pelas ruas da vila.

Eu já vi as laranjeiras e as janelas
abertas no verão. Pranta-te quedo,
dizem as velhas de olhos pretos.

Vamos fazer um mandado, vamos dizer
o tempo:
porque a gente corremos pelas ruas da vila
e sabemos quem é a Ti Rosa do Queimado
e ainda não temos cegueira de ser grandes.

Já agora, para quem gosta de poesia, recomendo do mesmo autor, para ir lendo, “A Criança em Ruínas” e a “Gaveta de Papeis”.

2 comentários:

nuvem disse...

Realmente, tinha razão, este poema merece ser lido :)

Beijinhos e um excelente fim de semana!

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Também acho este escritor é muitíssimo bom.