quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Delicada textura de seda


(Imagem da autoria de Miguel Ministro que faz parte da ilustração do livro "Bordar a Vida")

Acordo inquieta.
Ajoujada sob o peso de culpas ignotas,
transida por medos que me calcam o peito
e transformam num acto crítico
o mero exercício de respirar.
E, à medida que abro os olhos, devagar,
e acordo para a lisa transparência da manhã,
tomo consciência de uma delicada textura de seda
que me afaga os dedos, o rosto…

E acordo,
agora já sem medos,
com as culpas banhadas pela claridade,
ainda que envergonhada,
que lhes confere indulto imediato,
feliz pelo afago doce dos meus gatos
a quem acaricio suave e lentamente enquanto sonho.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010




É já esta sexta-feira!!!!!

Se puderem, não percam. O livro é uma pequena jóia. E a apresentação será como só pode ser, excelente.

Eu terei a meu cargo as leituras.

“O Tigre Branco” de Aravind Adiga


Pois bem, mais um livro que comprei por indicação de Valter Hugo Mãe e que faz parte de uma lista de obras a debater nos encontros da Comunidade de Leitores da Biblioteca Almeida Garrett.
Se, de uma forma geral, como já disse, não sou grande apreciadora de orientações em relação ao que devo ler – gosto de escolher e decidir o que leio – a verdade é que me vou afeiçoando à ideia de não ter que pensar no assunto e ir a reboque de outros. Estou a ficar uma preguiçosa!!!!
Bem, pelo menos posso sempre responsabilizar outros se achar que foi tempo perdido.

A verdade, porém, é que isso ainda não aconteceu.
Desta vez li “O Tigre Branco” de Aravind Adiga que foi Man Booker Prize 2008. E gostei muito.

Sob a forma de carta endereçada ao primeiro ministro chinês (está tão na moda, a China…), um “empresário” indiano vivendo em Bangalor faz um relato impressionante da sua vida que mais não é que a vida de um lado da Índia que nada tem a ver com o brilho do desenvolvimento de tecnologias de ponta que é bandeira dessa cidade. Aquilo que o autor chama de “escuridão”. A Índia rural, miserável, paupérrima, das castas, da sordidez mas também a de Deli, não menos miserável, não menos sórdida, de uma classe dominante rica e profundamente corrupta e do abismo profundo que separa estas duas “Índias”.

Sob uma forma irónica por vezes aparentando ingenuidade assistimos a uma análise profundamente mordaz da sociedade indiana.
Sem grandes subterfúgios literários, escrito com aparente simplicidade, não deixa, contudo, de impressionar o leitor e de o obrigar a um exercício de reflexão acerca do que são, ainda hoje, sobretudo hoje, as profundas assimetrias sociais que grassam por todo o mundo. Provavelmente mais evidentes nuns poucos países em grande desenvolvimento(?) que correm o risco de ser as grandes potências mundiais (económica e financeiramente falando) dentro de muito pouco tempo.
Dá que pensar.

domingo, 7 de novembro de 2010

À mesa éramos tantos!


("La conspiration des chats" de Louis Wain)

À mesa éramos três.
Três e um silêncio que cobria tudo
e nos ensurdecia com a sua estridência.

À mesa éramos só três
e os pratos e os talheres e os copos e…
Éramos três mas em cada cadeira se sentia ausência.

À mesa éramos ainda três
e o cansaço, o esquecimento, a fadiga,
o tédio, o desamor, a descomunal impaciência.

À mesa éramos tantos...