sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Isto


(Imagem:fotografia de Alva Luna)


Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Carlota Joaquina

(Imagem: Carlota Joaquina após uma sessão de escrita...)

Carlota Joaquina, minha gata, minha musa...

Estou a olhá-la da janela
à Carlota, linda gata!
Estica-se, lambe a pata,
cerra os olhos com preguiça,
arqueia o dorso, roliça,
e solta uma miadela.
É minha musa, a gatinha,
companheira de alguns anos,
adoptou-me, é muito minha
e as duas, como em sonhos,
percorremos oceanos,
ora alegres, ora medonhos,
à procura de uma rima,
daquela palavra que anima
o poema incompleto.
Quando, por fim, aparece
é vê-la compenetrada,
olha para mim, aquiesce,
e adormece encantada.
Rola pra cá e pra lá,
a barriga oferece à brisa
neste bailado, indecisa
que não é bem próprio dela.
Joaquina é também seu nome,
e só isso diz já tudo,
é decidida a bichana
age como uma soberana.
Olho-a, parece um veludo,
uma doçura, um encanto,
uma ternura e, no entanto
se algum gato abelhudo
pensar só em a perturbar...
basta apenas um olhar,
uma frincha de esmeralda,
qual ameaça velada,
para afastar o infeliz.
É que a minha Carlota
É aspirante a imperatriz.

Donagata em 2008-02-15

Reflexões em torno de um livro

(Imagem: Nicolau Copérnico)

Estou a ler e já em fase bastante adiantada um livro que me está a dar uma enorme luta: “A revolução copernicana” de Thomas Kuhn.
Abordando, entre outras mais do meu conhecimento, áreas científicas bastante específicas das quais eu não tenho o domínio adequado, já para não falar de outras que não só conheço mal como não faço questão de conhecer melhor (ressalvando, claro, aquilo que é do conhecimento generalizado do comum dos mortais), tem-me obrigado a um trabalho de pesquisa aturado e sistemático, para que dele possa tirar o melhor partido.

É que o livro é mesmo interessante e, mesmo considerando as sucessivas interrupções com vista a esclarecer as dúvidas que me surgem, tem-se revelado uma leitura agradável e estimulante.

Um dos aspectos que mais me impressionou foi o facto de ter tomado verdadeira consciência de como estamos ainda tão pouco distantes nós, os da era das tecnologias de ponta, dos tempos em que o mundo acreditava que a Terra era o centro do Universo.
Também não me tinha apercebido (eu sabia, mas não tinha disso consciência) que os nossos navegantes e heróis descobridores dos finais do sec. XV e início do XVI, galgaram oceanos, “deram novos mundos ao mundo”, orientaram-se pelas estrelas, construíram instrumentos de navegação tendo por base os movimentos dos astros, desenharam cartas pormenorizadas, provaram a esfericidade da Terra e, tudo isto, julgando sempre estar no centro do Universo…
É que Copérnico só publicou o seu “De Revolutionibus Orbium Coelestium” em 1543 (que abanou a comunidade científica mas não apresentou provas concludentes) e, só mais tarde, já no sec.XVII, Galileu apresentou provas aceitáveis em relação à teoria heliocêntrica uma vez que tendo melhorado o telescópio refractor, foi o primeiro a conseguir fazer observações astronómicas válidas.
Algum de nós, ao ler a gesta dos descobrimentos teve realmente a noção dos verdadeiros constrangimentos científicos que tinham além das frágeis embarcações em que se deslocavam? Eu, confesso que não.

E esta é apenas uma das muitas reflexões que este livro me tem suscitado. Outra é o incontornável papel negativo da igreja em relação às evoluções científicas (atente-se a obrigatoriedade de Galileu se retratar em relação às suas descobertas). Da igreja católica, papel mais determinante por ser maior a sua influência, mas também da luterana e da calvinista.
Mas como se trata de uma questão muito mais profunda e complexa e não apenas de reflexões pessoais ficará, se assim calhar, para desenvolver noutra altura. Agora vou continuar a minha leitura.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Ainda sobre o poste anterior

Ao ler os comentários que me fizeram ao poste anterior, os quais aproveito para agradecer, houve um que teve o condão de me deixar a pensar. Dizia apenas: “E arejaste bem as ideias”.
E não é, Sofia, que tens razão, que definitivamente cheguei a casa com as ideias bem arejadas!
Para longe os barzinhos junto à praia onde em belíssimas tardes soalheiras sabe bem pousar.

Para longe os horizontes sem fim, de mares revoltos ou calmos, que eu adoro, mas sempre misteriosos e insondáveis.

Para longe o rumorejar das ondas, os agudos vagidos das gaivotas, o negro das rochas onde as ondas se desfazem em espuma.

Para longe também horizontes verdes, de vegetação variada onde as copas das árvores me protegem e me aconchegam.

Para longe o canto do melro atrevido, aquele que gosta de debicar o açúcar que não ponho no café.

São tudo coisas que amo profundamente e entendia serem extraordinariamente relaxantes e inspiradoras. Tudo isto, julgava eu, era a mezinha milagrosa que, quando necessário, me provocava um verdadeiro vendaval nas ideias.

Afinal, como estava equivocada! Quão vãos e infrutíferos se terão revelado os dias gastos junto ao mar ou em um qualquer parque de ambiente mais bucólico! Quão nostálgicos! Que desperdício de tempo!

Agora sim, tudo faz sentido. Finalmente descobri que não há nada melhor do que um café limpinho nas imediações de uma estação de caminhos-de-ferro ou até talvez, quem sabe, de um porto marítimo ou fluvial que seja para, aí sim, arejar as ideias e criar em mim disposições que não levava.
(Imagem da net)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um café e uma natinha...

Estava naqueles dias completamente embirrentos em que tudo parece correr mal sem que de facto corra pior do que é habitual e tudo o que me apetece é nada. Absolutamente nada.
Como este meu lado “lunar” me é, por si só, particularmente irritante, tomei a decisão (muito difícil nestes dias) de me enfiar no Metro, sair na estação que mais me apetecesse, tomar um café e, regressar. Podia ser, pensava eu, que me arejasse as ideias.

Assim fiz. Peguei na mala, no casaco e tratei de apanhar o Metro. À medida que fui andando fui olhando atentamente para ver se decidia qual o local que me parecia mais convidativo para sair. Como nenhum me pareceu particularmente interessante e até acabei por me esquecer que queria sair num local giro, dei por mim no terminal da linha, em Campanhã.
Ora, para quem é do Porto não será necessário explicar que Campanhã não é propriamente a melhor zona para uma Sôdonagata que se preze estar mais descontraída a tomar o seu cimbalino. É que, como em qualquer cidade, as zonas que se encontram muito próximas das grandes estações de caminho de ferro, estão eivadas por um tipo de “cafés” muito específico, onde pululam as mais variadas e interessantes espécies da fauna humana.
Mas como o objectivo era tomar café lá escolhi um com um aspecto bastante normal e que, aparentemente, não servia bifanas nem moelas e também não me pareceu que alugasse quartos. Sentei-me, pedi o cafezinho e estava ainda a ponderar se devia ou não comer uma natinha com um ar extraordinariamente convidativo quando a conversa que se desenrolava na única mesa que também estava ocupada me fez arrebitar as orelhas embora mantivesse os olhos recatadamente no livro que levava para ler (num café em frente à estação de Campanhã, lindo!)
Vou tentar reproduzir de forma minimamente fiel o que ouvi. Claro que tomei algumas notas nas costas de uma receita que trago na carteira há uns tempos e que, naturalmente, já não irei aviar. Não produzirei propriamente diálogos, pois não me era possível ver quem estava a falar. Contudo, se me chegar o engenho, espero que se divirtam como eu me diverti. Achei delicioso. O grupo de pessoas que assim falava era composto só por homens de idades compreendidas entre os 35/36 anos e talvez os 60.
Uma sugestão: tentem ler o que aqui vai com sotaque do Porto bem cerrado. E também, claro, com a devida entoação. Se assim não for, perde metade da graça.

- Olha, olha, já bistes aquele? É pá, o gajo (leia-se gaijo, não se esqueçam) é que tem sorte. É milhor ir pa isto do que pa trolha!!! Num fazem nada! E quando dá merda (desculpem, tem de ser) puxam do apito e já tá. Olha pó gaijo, carago. Andam sempre limpinhos…
- Olhe lá, eu inda acho quisso le faz mal (o outro estava a tomar chá)! Tanto chá, tanto chá… é quisso pracendo que não é muito ácido! Ponha-se masé fino!
Olhe que deve ganhar praí 600 contos. Num ganha? Num ganha? Olhe pás divisas. Bocê num percebe, num andou na tropa, mas se são uma atrabessada e outra ao contrário, é uma coisa. Agora assim…
E parece um gajo novo mas tem praí 40 anos! Ai não, ai não. Bou-le masé perguntar. Aquilo é já de sargento pra cima o que é que julga? É praí alferes, bocê num andou na tropa, é como le digo homem!
Olha, olha, o Zé bai lá mesmo! Olha, bai-lhe perguntar! E so gaijo tem mau feitio?

Neste ponto, não pude deixar de me virar para ver a pessoa a quem se estavam a referir tão interessadamente e avistei então um jovem, fardado que se encontrava na paragem de um qualquer transporte, autocarro, camioneta, sei lá. Mas continuemos.

Tu bais ber a notícia que bai trazer, vais ber que o gaijo ainda é bombeiro. E as estrelas, pá. O gaijo tem estrelas!
Olha, o Zé já bem. Bais ber que já sabe tudo.Atão, ó Zé?!
- É da GNR, tem 23 anos (risos), está a tirar o curso e aquelas dibisas num querem dizer nada!
-Nem alferes? Oh! Então pra qué que o gaijo anda com aquilo?

E a conversa retomou novamente o assunto da acidez do chá, eu paguei o meu café (e a natinha, é verdade) e regressei muito mais animada com a frescura e a ingenuidade desta conversa de homens adultos, numa tarde, num café de Campanhã.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

EU,COBAIA (ADENDA) Capítulo II e Final


Boas notícias!

Afinal a saga termina mesmo aqui. Depois de verificar os dados já obtidos, a Inês constatou para meu enorme gáudio que, afinal, não tinha sido o meu zeringatelho (frequencímetro em bonito) que tinha desistido de fazer registos, mas sim o de uma outra qualquer cobaia que terá, essa sim, de entrar novamente em “manobras” (termo militar que utilizo apenas para patentear a extensão dos meus conhecimentos).

Que alívio!
Digo eu já mais animada sabendo que, de facto, dei por encerrado este capítulo de “piloto de ensaios”.

Que alívio!
Dirão todos os que tropeçavam incautamente nestas palermices e caíam na tentação de as ler. Claro que terminavam (quando terminavam) a leitura arrependidos para todo o sempre mas, já estava.

Que alívio!
Dirão os elementos constituintes da equipa que pôs em prática os testes: a aluna/professora, a orientadora, as enfermeiras, os operadores de câmara e todo o restante staf, que de uma vez por todas se vão ver livres da minha total incapacidade de estar calada.
Enfim, já que estamos todos aliviados, dou por findos estes episódios que, embora possa não parecer, me deram imenso prazer quer pelo facto de neles ter participado, quer por tê-lo aqui escrito.

Agradecimentos
Como qualquer autor que se preze não posso, nem quero, terminar sem deixar alguns agradecimentos a pessoas sem as quais o “Eu, Cobaia” não teria sido possível.
Ao meu marido que, porque tem um tempo muito escasso, desconhece quase inteiramente o que aqui escrevi (julgo eu), mas me daria a maior força e sentir-se-ia ufano de orgulho se fosse disso conhecedor (quero acreditar).
Aos meus filhos, dois queridos que, suspeito eu, nem visitam o meu blogue e, se o fazem, têm o bom senso de fingir que não me conhecem poupando-me assim aos chorudos honorários do psiquiatra relativos aos tratamentos das suas inibições, fobias, problemas de relacionamento social e outras patologias que daí pudessem advir.
Aos meus gatos que sempre me acompanham activamente nestas minhas incursões pela escrita sendo eles que, muitas vezes, avançam com sugestões que vêm a revelar-se soluções literárias de rara excelência
E por fim, last but not the least, ao Staf que dinamizou os testes, os únicos, creio eu, que leram (e apenas alguns, os mais corajosos) o que para aqui fui escrevendo.

Pena foi que esta saga tenha toda ela girado em volta (mais propriamente, dentro) da água que é límpida e transparente não tendo, por isso, proporcionado episódios tórridos, ou dúbios tão favorecedores de best-sellers, como é o caso de outros que giram em torno de bolas e de quem as manipula (salvo seja!).

Donagata em 2008-02-21

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Andam palavras pelo ar

(Imagem de Maggie Taylor "Poet's house")
Ao visitar, como habitualmente, este espaço, deparei-me com mais uma cadeia que me pareceu gira e, sobretudo, desafiadora.
Não é que me tenha sido passada especificamente a mim mas, uma vez que a Sofia acabou por lançar o repto a quem quisesse, aqui estou a tentar, mais uma vez, “brincar com palavras”.


A proposta era escolher
Doze palavras, bem contadas,
Para tentar descrever
Definições sussurradas.

O sussurro, é sibilante,
melodioso, agradável
muito íntimo, insinuante,
atraente e insondável.
O insondável é um enigma,
misterioso, arcano,
é oculto, um paradigma,
um exemplar engano.
Por palavras serpenteio,
qual indómito gatito.
e termino o devaneio,
pois vai já longo o escrito.

Donagata em 2008-02-20

Provavelmente, não seria bem isto que se pretendia, mas tenham paciência, foi o que se conseguiu.
Faço minhas as palavras da Sofia (desculpa o abuso) e não vou reencaminhar o desafio para doze blogues como seria suposto. O desafio vai para quem o quiser apanhar.
Contudo, não posso deixar de dizer que tinha especial curiosidade de o ver “trabalhado” nos seguintes blogues:

E, já agora, porque não “sussurrar” palavras com imagens?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Estou em silêncio

Estou em silêncio, perdida,
revoltada, desiludida,
bem no fundo do meu ser.
Estou tão só, tão magoada,
tão incrédula e desalentada
que tudo em mim está a doer.
Doem-me aquelas palavras
Que urgem mas ficam presas
e não consigo dizer.
sufocam-me e, sem as soltar
só me apetece gritar, gritar e gritar...
Mas mantenho este mutismo
e um certo fatalismo,
que tardo em reconhecer!
Temo o que está por surgir,
não sei como reagir:
se calar, se acusar,
se esquecer, se perdoar...
Estou só, estou cansada,
sem reagir, magoada,
será assim que vou ficar?

Donagata em 2008-02-18
(Imagem de Leila Zotz)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

"As velas ardem até ao fim" de Sándor Márai

Entusiasmada que fiquei com a “descoberta” deste autor, iniciei de imediato a leitura de mais um dos seus romances; “As velas ardem até ao fim” a qual também já terminei.

Romance muito interessante, de escrita muito poética, simples mas de grande riqueza. Mais uma vez explora sentimentos como o amor, a paixão, a fidelidade, a traição mas, essencialmente a amizade, sentimento que descreve com enorme profundidade e lucidez.

Dois amigos inseparáveis na sua juventude, reencontram-se após quarenta anos de completo afastamento durante os quais cada um segue intencionalmente um percurso distinto.
Ambos viveram esse distanciamento aguardando este reencontro, tão fundamental para exorcizar os fantasmas que se adivinham existir. Contudo, o desvendar destes, deixa a dado momento de ser fundamental tal é a intensidade do que se lê.

Estes dois amigos, agora dois velhos, são os narradores do romance e, ao mesmo tempo, as personagens principais.
Ao longo de um jantar de reencontro, à luz das velas, cabe a um deles, ao anfitrião, ir reconstituindo o passado, numa tentativa de decifrar os tais comportamentos inexplicáveis (já entrevistos pelo leitor, a sua existência, não a sua essência), tidos há quarenta anos. Tudo isto se vai passando perante o quase mutismo do seu convidado o que faz com que a intervenção do anfitrião se aproxime um pouco de uma reflexão introspectiva.

Recomendo vivamente.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Gostaria de te oferecer, amor...


Gostaria de te oferecer, amor
Palavras que tu sentisses
Sem equívocos, sem dúvidas,
Poderem apenas ser minhas.

Gostaria de saber, amor
Embrulhar-te no meu abraço
Incendiar-te com este fogo
Que, embora sereno,
Arde ainda com fulgor.

Gostaria de te mostrar, amor
Esta pessoa que te chama,
Este coração que te ama
E esta alma despida
Por ti, para ti,
Amor da minha vida.

Donagata em 2008-02-14 (Imagem: True Love by Sorin)

Todas as cartas de amor...

(Imagem: Love letter by Frank Morrison)
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Álvaro de Campos, 21/10/1935
Fernando Pessoa(Poesias de Álvaro de Campos)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Poesia


(Imagem: "I am" by Joel Harris)

Palavras nocturnas
murmuradas
palavras como borboletas
ofuscadas
palavras de amor
afogadas
na madrugada nascente

Isabel Meyrelles in "Poesia"

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

"A mulher certa" de Sándor Márai

Um livro, três personagens, três longos monólogos os quais contam uma história que se vai tecendo de amores, enganos, vinganças, ciúme, solidão, desejos, relações falhadas, ilusões inalcansáveis, esquadrinhando as almas, descobrindo-as nos seus mais íntimos recantos. Um epílogo, também ele um monólogo, ajuda a fechar o círculo da história.

Escrito com inusitada mestria, interliga sabiamente as três versões, de forma dinâmica, sem repetições desnecessárias, avançando, cada uma, para um patamar diferente da história.
Fabuloso. De leitura verdadeiramente viciante.


Como já se percebeu, acabei de ler “A mulher certa” livro de um autor que me era desconhecido até há bem pouco tempo. Foi numa das minhas habituais incursões pelo mundo da blogosfera que li uma crítica a este romance, de tal modo empolgante, que me despertou uma vontade inultrapassável de o ler. O mesmo poste fazia também uma referência muito interessante ao seu autor, à sua vida conturbada bem como a outras obras suas.
Quem estiver interessado em ler um comentário realmente interessante relativo a este romance e ao seu autor, pode e deve fazê-lo aqui, procurando “Sándor Márai”.

Já comecei a ler “As velas ardem até ao fim”. Estou quase no início. Vamos ver se corresponde à expectativa (elevadíssima) que dele tenho.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sátira (ou talvez não...)


(Imagem da net)


Espanador na mão e calça arregaçada,
em fúrias dou a volta à casa toda
com o balde e a esfregona a andar à roda,
estou cansada, suja e desgrenhada.

O pó, esse pesadelo omnipresente
vou tentando a muito custo afugentar
espano, esfrego e aspiro, a disfarçar
numa luta que sempre perco, impotente.

É que, para falar com franqueza
eu não sou dona de casa por opção
e manejar os instrumentos de limpeza
cria em mim uma enorme irritação.

Tudo aquilo que hoje faço com desvelo,
amanhã estará de novo desfeito
e em boa verdade até suspeito
que será tema de um enorme pesadelo.

Está doente a senhora que aqui vem
normalmente desempenhar estas funções.
É sofrivel, não se empenha, não faz bem,
mas afasta-me destas grandes provações

A doença já se arrasta há mês e meio
e eu já estou mesmo a “estriquinar”,
estou cansada do difícil que é o asseio,
tão inglória esta mania de limpar...

Ocupada como ando à vassourada,
pouco tempo já encontro para as letras,
as “alfaias” da limpeza são grilhetas,
que me afastam dessa miragem dourada.

Mas, enfim, lá arranjei um bocadinho
em que a casa até parece arrumada
para chegar aqui, de mansinho
e escrevinhar esta grande patacoada.

Melhor fora que o não tivesses feito!
Direis vós, leitores, e com razão.
Mas também creio que alguns compreenderão:
É apenas um desabafo ao meu jeito!

Donagata em 2008/02/09

EU; COBAIA (ADENDA) Capítulo I


Afinal, é bem verdade o ditado que diz: “nunca digas nunca”. No último episódio da saga “Eu, cobaia”, afirmei convictamente que tinha terminado a minha incursão pela vida atribulada das cobaias. Aliás era até a única certeza que eu tinha.

Pois bem, se calhar essa certeza não era tão certa como eu gostaria e terei de dar o dito por não dito e, novamente graças ao meu esforço titânico, a muito sofrimento e, porque não dizê-lo, ao meu enorme altruismo que só se ofusca com a minha modéstia, naturalmente voltarei a ter matéria para mais um capitulozinho desta, já longa, saga.

Estou um pouco preocupada com a minha credibilidade embora a culpa deste recuo não seja, de todo, minha. Ao que parece, o frequencímetro com que me "armadilharam" no último teste (o dos “piquinhos” de 30 segundos se ainda se lembram), não efectuou o registo esperado dando como única leitura um traço plano sem qualquer oscilação. Das duas uma; ou deixou de registar, ainda por cima na fase crucial, ou eu morri por um bocadinho e ninguém deu por isso.

Assim, lá terei de repetir toda essa sessão para que haja valores de referência.

Agora, que reflicto um pouco sobre o assunto, eis que uma suspeita me assola: Será que o frequencímetro não registou mesmo, ou esta repetição é fruto de um bem urdido plano que se insere naquela teoria que eu tenho que os profs. da área de desporto têm de desenvolver uma significativa componente sádica?!!!
Hummm... O melhor é esta donagata que agora virou cobaia estar atenta e ir contando o "n.s.m." (número de sorrisos por minuto) que o professor evidenciar durante a sessão. Não é assim?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Estou encantada com o livro que estou a ler!

(Imagem de Eduard Munch "Jealousy"

"...E o ciúme? Que sentido tem?... O que esconde? Vaidade, naturalmente. O corpo humano é composto de setenta por cento de líquidos e só os restantes trinta por cento são matéria sólida. Do mesmo modo, o carácter de um ser humano compõe-se de setenta por cento de vaidade: o resto é uma mescla de desejos, generosidade, medo da morte e sentido de honra."



Pequeno excerto do livro que estou a ler e de que estou a gostar mesmo muito. É de Sándor Márai "A mulher certa"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Poesia

(Imagem de Joana Almeida, Bodrum)
Os meus passos de criança não deixavam pegadas,
a tua mão de areia e de espuma
atraía-me para o teu seio
e eu partia numa braçada confiante
em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,
esse azul reluzente ao nível dos olhos
que me chamava sempre mais longe
em busca da vaga que seria enfim minha.
Hoje olho-te, mar,
e lembro-me das lágrimas vertidas,
do sal amargo do regresso,
da tua cor cambiante
que me traz o esquecimento
e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,
a olhar a maré do presente
que já não é para mim o chamamento
da tua mortal imensidão.

Isabel Meyrelles, Maio de 1997

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

ACRÓSTICO

(Imagem: máscara renascentista)
Cada vez que, em cada ano, regressa esta
Alegria imposta e aprazada, cresce em mim uma
Revolta, uma vontade de mostrar a
Náusea que me provoca toda esta
Alegria fabricada, encomendada por medida
Vestida sobre a mágoa, a desilusão,
A rotina da vida que se escoa
Lenta e implacável...



Donagata em 2008/02/05

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

EU; COBAIA (CapítuloVII)


Capítulo VII

E lá cheguei finalmente ao último teste! Hoje sim, hoje estou verdadeiramente satisfeita. Por um lado porque os picos de hoje são diferentes: Não são bem picos, são “piquinhos”. Duram apenas 30 segundos cada e são repetidos por três vezes. Mas esses 30 segundos, cuidado, são verdadeiramente intensos. Destinam-se a testar menos o esforço cárdio e mais o esforço muscular (espero não estar a dizer um imenso disparate mas, se estiver, a culpa é, obviamente, das... endorfinas, claro, e não da minha ignorância acerca destes assuntos.). Assim, estou convencida que se ultrapassei o anterior, neste “I will survive as well”!

Cheguei à piscina agindo já como uma profissional destas andanças que, afinal de contas, já sou.
Depois das medições, das picadelas, da colocação do frequencímetro, do seu ajuste e de todas aquelas actividades iniciais, lá fui eu mais a outra vítima que actuava comigo para a água para darmos o nosso melhor.

Começou a aula. A música era boa, a batida era convidativa e a professora é francamente estimulante. Tudo correu muito agradavelmente até aos...”piquinhos”. Pois foi. Aí a música continuou boa, a batida excelente a professora do mais estimulante que se pode imaginar, berrava que se fartava para não nos deixar “quebrar”e as minhas pernas, a dada altura, entraram em auto-gestão. Penso que continuava a batê-las mas, a verdade, é que já não as sentia lá muito bem o que devia ser bom, mas não era.

Nunca imaginei que 30 segundos pudessem demorar tanto tempo! Mas aguentei! Aguentei as três vezes.
No final, lá vieram rapidamente medir-me os valores necessários o mais próximo possível da tortura. Parece que correu bem. Pelo menos saí pelo meu pé e não vi ninguém com ar exageradamente preocupado quando apontou os valores. Penso que os saberei mais tarde quando devidamente analisados. Mas, para já, o que eu sei mesmo e disso tenho a certeza, é que dei por encerrada a minha incursão pela vida atribulada das cobaias.
Confesso que pensei que fosse mais simples e com uma menor carga de responsabilidade. O medo de estragar o trabalho à pequena é o pior de tudo. Contudo, apesar do esforço, diverti-me imenso. As pessoas envolvidas são todas excelentes. Jovens e alegres quase me "adoptaram" fazendo com que me sentisse sempre muito bem mesmo quando me sentia quase a morrer.
Valeu a experiência.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Mais um dia feliz


(Imagem de Louis Wain)
Ontem foi mais um daqueles dias em que uma mãe que se preze não cabe em si de tanto orgulho e alegria.
E, está claro que eu, como mãe, não fujo a essa regra. Não só não fujo como a levo ao seu expoente máximo.

É que o meu gatãozinho mais velho, o tal que já me tinha causado inesquecíveis momentos de emoção quando percebi que exercia a digníssima actividade de “Consultor de Software de Retalho” (seja lá isso o que for...) e a sua linda gatinha, passaram ontem de felizes “Promissores Compradores” de um já referido apartamento aqui das imediações a, ainda mais felizes PROPRIETÁRIOS do mesmo, de “papel passado” com toda a pompa e circunstância como manda o protocolo.

Portanto, meus amigos, ontem foi dia de grandes comemorações para estes lados.

"Afonso o Conquistador" de Maria Helena Ventura

Já o tinha em casa há bastante tempo mas só agora decidi ler o livro de Maria Helena Ventura “Afonso o Conquistador”.
Um livro sem grandes surpresas, bem escrito, fruto de uma pesquisa profunda (bem patente na bibliografia consultada que a autora nos apresenta no final), que nos dá aquilo que a sua sinopse promete.

A autora apresenta-nos numa mistura feliz da história real e de alguma ficção, um romance em que Afonso Henriques surge intrépido, fogoso, excelente estratega, quase invencível, líder incontestado, ambicioso, determinado, perseguindo os seus objectivos recorrendo, para tal, à força, à astúcia e, se necessário, mesmo à intriga.

Mas, por outro lado, mostra-nos o homem que sonhou um reino ao qual queria, a todo o custo, acrescentar “chão”, o homem amante da vida, leal para com os seus amigos, personagens da sua gesta, que soube “donear” como poucos, soube ser meigo, apaixonado, amar profunda e carinhosamente os seus filhos, naturais e legítimos, e também a sua “senhor”, Matilde de Saboia (para a maioria dos autores portugueses Mafalda), donzela que foi aprendendo a amar e a respeitar.

Dá-nos também conta do seu amadurecimento, de como foi refreando os seus impulsos de jovem, por vezes irreflectidos, frutos da sua ambição, de como foi cada vez mais ponderando as suas decisões, acatando conselhos dos seus, sempre fieis, companheiros os quais foi vendo desaparecer um a um, provocando-lhe grande tristeza e alguma solidão para o final da sua vida.

O romance finaliza envolto numa aura de ternura. Termina com uma carta que Afonso Henriques, já no final da sua longa vida recheada de vitórias, alguns desaires e um amontoado de perdas, fisicamente incapacitado e saudoso, envia à sua filha preferida, Teresa, agora na Flandres casada com Filipe de Alsácia. Nela dá-lhe conta da falta que sente das longas conversas de ambos, dos seus conselhos e de como vai prosseguindo a sua vida, a sua governação ainda plena de lucidez e a de seu filho, D.Sancho.
Cito apenas o trecho final:
“De todas as maravilhas que recordo, nenhuma mais grata do que a imaginação de uma criança como tu, capaz de fazer medrar a inteligência e o afecto nos intervalos da rispidez, transformando migalhas de amor ocasional de um pai quase sempre ausente, numa tessitura de livres horizontes.
De Coimbra para o longe que eu não sei, adorada e formosa Teresa, vai o barco desta imensa saudade numa folha de choupo amarela. A joaninha, minha filha mais querida, já voou”.

Livro muito interessante sobretudo para quem se interessa pela nossa história.