sábado, 15 de setembro de 2007

Vou a banhos mas... I' ll be back...

Por alguns dias, aqui a Sôdonagata vai interromper as suas actividades “bloguísticas” dando a todos aqueles que por aqui passam um merecido período de descanso.
É que vou de férias (finalmente, dirão vocês)!
Comigo, como companhia, irão: o meu “muso” (desculpa Tó, se leres isto, é mesmo plágio…), alguns livros que seleccionei, os meus miados errantes e muita, muita vontade de usufruir por inteiro estes esperados dias. Aguardo um mar formidável, um sol piedoso, boas sombras e horizontes cheios de magia. Tudo isto porque… eu mereço.
Entretanto, a todos os que por aqui passarem, dou um conselho: não exagerem na alegria perante a minha ausência, porque...

"I'll be back!... soon!"

Entretanto façam o favor de ser felizes!


Livros que me acompanharão:

“Daqui a nada” de Rodrigo Guedes de Carvalho
“O anjo da tempestade” de Nuno Júdice
“Combateremos a sombra” de Lídia Jorge
“As pequenas memórias” de José Saramago
“Autobiografia de Mário Cesariny” por Mário Gonçalves Mendes


Vamos a ver se a escolha se vai revelar acertada. Depois o direi.
Fiquem bem!
Imagem. Bathers at Asnieres de Georges Seurat

"As mulheres do meu pai"

Acabei de ler o livro de José Eduardo Agualusa “As mulheres do meu pai”. Gostei embora, se calhar tivesse uma expectativa um pouco diferente dado que o último que tinha lido do autor tinha sido “O vendedor de passados” de que gostei mesmo muito. De comum, o facto de ambos voltearem em torno de memórias. Será, possivelmente, um tema recorrente nos livros do autor.
Este, desenvolve-se em dois planos distintos e paralelos. Um é real e funciona como uma espécie de preparação/estudo para o outro, o fictício. Quer o real quer a ficção desenvolvem-se nos mesmos locais. As personagens vão percorrendo a África austral, desde Angola a Moçambique, passando pela Namíbia e pela África do Sul, numa demanda das próprias raízes, numa procura da sua identidade.
Os planos (real e ficção), vão-se desenvolvendo em simultâneo, entrecruzando-se as respectivas narrativas, tornando por vezes muito ténue a fronteira entre um e outro. Num ou noutro momento, parece até deixar a ideia de a parte ficcionada ser mais real do que a própria realidade.
O romance vai sendo narrado aleatoriamente pelas diferentes personagens, apresentando assim diversas perspectivas de um mesmo acontecimento. Por vezes não é fácil identificar de imediato o narrador daquele fragmento.
Quanto a mim um romance sobre mulheres, música e a magia de África. Aliás, África é-nos aqui apresentada de uma forma inédita, interessante mas surpreendentemente inesperada; não a África das selvas, das paisagens luxuriantes, das cores feéricas, dos cheiros intensos mas a outra, a África urbana, a das pessoas, a da música, a da poesia.
Muito bem escrito, aliás como sempre nos habituou o autor.
Romance que, na minha opinião, vale a pena ler.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Atrás da sombra

Imagem: Fotografia de Vihuol - Sombra

Atrás da sombra na praia correremos
atrás da sombra
atrás do sol ardendo nos sentidos
do cheiro a sal e a areia atrás da espuma
atrás do tempo correremos
atrás do amor e do verão
atrás da sombra agora
atrás da sombra correremos

Lisboa 24-4-2002

Manuel Alegre em Doze Naus

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Outra vez o Mar


Imagem : Rocha de Júlia Novais

Hoje o meu mar estava cinzento, taciturno, talvez triste. As águas inquietas revolteavam nervosamente em largos remoinhos que se soltavam impiedosamente sobre as altivas rochas, antes de desmaiarem exaustas na areia. A espuma branca rolava sobre as águas lembrando fragmentos de finíssimos vestidos de noiva, despedaçados por Megera, resultado de um qualquer castigo por ciúme, infidelidade, ou até adultério, quem sabe.
E as águas, hoje mais cinzentas, recuam e avançam numa expiação constante pela sua inevitável indecisão; amam furiosa e apaixonadamente as rochas mas... entregam-se calmamente ao amor doce e sereno quando se enroscam nas suaves areias da praia e estas as sorvem por inteiro.
O nevoeiro cobre o horizonte escondendo o sol que, envergonhadamente, mostra apenas o seu contorno circular, difuso, sem ânimo para, com os seus raios, desafiar aquela nuvem pegajosa e húmida que se instalou na minha praia.
Hoje, não no bar da praia, mas sentada na areia, entre dois rochedos, isolada de tudo, tento, neste relativo conforto, terminar a leitura do livro que me acompanha, “As mulheres de meu pai” de José Eduardo Agualusa.
Contudo, à medida que o tempo vai passando, as personagens ganham outras vidas, vogam através do nevoeiro, perdendo-se no cinzento das águas. Esquecem as paisagens de Africa, e escolhem um argumento diferente. Vestem-se de espuma branca, enleiam-se nas grandes algas carnudas, voam com as gaivotas, provam o sal das rochas, rolam lubricamente pela areia fina, oferecendo-se aos desmandos da água. E eu, personagem do mesmo conto, deixo escorregar devagarinho o livro que repousa esquecido na areia enquanto me aconchego nos braços de Morfeu.

Praia do Marreco 10-09-2007

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Irresistível

Tentei.
Acreditem que tentei mesmo muito mas não fui capaz de resistir a mais uma parvoíce. É certo que esta não é da minha autoria, não a saberia escrever,confesso, apenas a vou reproduzir.
Em relação a uma alegada orgia que terá tido lugar em casa de Cristiano Ronaldo, em Manchester e que terá chegado prontamente aos tablóides (sempre apostados na divulgação de informação de qualidade) através das boquinhas recatadas das cinco meninas participantes, as quais relataram pormenorizadamente os acontecimentos, de resto acompanhados de fotografias elucidativas que tiraram aos participantes com os seus telemóveis, li o seguinte comentário no Expresso do dia 8 que passo a reproduzir exactamente:

“Essas ‘vacas’ deviam era estar caladas porque ‘comem’ esses meninos maravilhosos e depois ainda vêm dizer cá para fora.
Grandes porcas, pindéricas!
Desgraçadas, ganham uns trocos e, em vez de ficarem caladinhas, vêm atirar postas de pescada”.
José Castelo Branco

Desculpem. Não quero emitir nenhum juízo de valor em relação ao acontecimento em si; não me interessa minimamente.

Mas o comentário...Esse, desculpem lá, achei-o absolutamente irresistível!
Enfim, fala quem sabe!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

E ainda mais alguns comentários de autores acerca dos livros


“O bem de um livro reside em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem olhos que o leiam, um livro é portador de signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo.”
Umberto Eco


“Devo horas preciosas ao universo dos livros […]; são oásis num mundo de destruição.”
Ernst Jünger


“Saibam que o ler dos bons livros e boa conversação faz acrescentar o saber e virtudes como cresce o corpo, que nunca se conhece senão passando por tempo: de pequeno que era, se acha grande, e o delgado fornido.”
D. Duarte


“O livro, tal como a sensitiva, cerra as suas folhas ao tacto impertinente. Há que chegar até ele sem ser sentido. Exercício, quase, de faquir. Há que fazer calar previamente no nosso espírito todos os ruídos parasitários que trazemos da rua, dos negócios e das ocupações, e até a ânsia excessiva de informação literária. Então, no silêncio, começa a escutar-se a voz do livro; porventura medrosa, pronta a desaparecer se lhe dão prazo com qualquer suspeita solicitação. Por isso, Sir Walter Raleigh pensava que, em cada época, só havia dois ou três leitores verdadeiros.”
Alfonso Reyes


“Cada homem é um mundo, por isso mesmo, cada homem que se sabe contar é um livro nunca igual a outro livro. O princípio da originalidade está no partido que se tira de tal circunstância.”
Aquilino Ribeiro


"O milagre de uma página é o de vos atrair amigos invisíveis.”
Michel Déon


“Que é um livro? Uma sucessão de pequenos sinais. Apenas isso. Compete ao leitor extrair por si próprio as formas, as cores e os sentimentos a que esses sinais correspondem.”
Anatole France



“O pouco que sabemos de nós próprios é por vezes a personagem de um livro quem no-lo sugere em voz baixa.”
François Mauriac


“É só quando de nós nos esquecemos
e com a alma toda mergulhamos
no abismo de um livro, seduzidos
pelo sal da beleza e da verdade,
que dele todo o bem nós retiramos…”
Elizabeth Barret Browning

sábado, 8 de setembro de 2007

A propósito de livros

Imagem: Livros de Van Gogh

Tenho verificado que em vários blogues, os seus autores vão partilhando impressões e marcas que a leitura de alguns livros lhes deixaram. Positivas umas, negativas outras e ainda aqueles cuja leitura, aparentemente, não acrescentou absolutamente nada à pessoa que os leu (o que , na minha opinião, é bem pior do que deixar uma marca negativa).

Achei o assunto interessante e, dado que me considero uma leitora compulsiva e não sendo já, propriamente, uma jovem, possuo um vasto campo de análise.

Depois de alguma reflexão e da consulta de alguns, breves, comentários que, geralmente, deixo no início de cada livro depois de o ler, concluí o seguinte: Li livros de que gostei muito e que foram, de facto, marcantes numa determinada fase da minha vida (alguns dos quais não voltaria a ler agora sob pretexto nenhum); Li livros cuja leitura me deu um prazer imenso sem que me tenham acrescentado mais nada além do próprio prazer do acto de os ler; Li livros que detestei e, apesar disso, me marcaram profundamente (também não os releria); Li livros que me foram quase indiferentes e, esses, são os que considero de leitura menos proveitosa embora, apesar disso, não possa dizer que não me tenham acrescentado absolutamente nada; E finalmente, li aqueles que me preencheram, me deram prazer, me fizeram esquecer o mundo e que, volta não volta, vou reler, nem que sejam apenas alguns excertos (é verdade, eu sublinho passagens, faço comentários na margem, colo postits enfim, uma vergonha!), para avivar a memória.

Resta-me dizer que sou uma leitora ecléctica e que, para mim, tanto pode ser "classificado" nesta última categoria (os que gosto muito), um policial, como um romance, um ensaio, uma biografia, um livro de poemas ou outro. Só não suporto, mas é que não suporto mesmo, ler mau português.


E ainda a respeito dos livros, vejamos o que sobre eles dizem alguns autores:

“Um livro é um animal vivo”
Aristóteles

“É preciso olhar os livros por cima do ombro do autor”
Paul Valéry

“Já que não podemos ler tantos livros como os que podemos ter, basta que tenhamos tantos quantos possamos ler”
Séneca

“Pode-se avaliar a beleza de um livro pelo vigor dos safanões que ele nos deu e pelo tempo que levamos depois a recompor-nos.”
Gustave Flaubert

“Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo…”
Fernando Pessoa

“A título de consolação, como sempre, restam os livros, navios ligeiros e seguros, preparados para as errâncias através do tempo e do espaço, ou mesmo para além deles.
Desde que se tenha um livro à mão e o ócio da leitura, nenhuma situação pode ser desesperada nem completamente desprovida de liberdade.”
Ernst Jünger

“Não existe uma lista de livros que seja absolutamente necessário ter lido e sem os quais não haverá salvação nem cultura. O que existe, para cada homem, é um determinado número de livros nos quais só ele, esse homem singular, pode ir encontrando satisfação e prazer. Descobrir pouco a pouco esses livros, estabelecer com eles uma relação duradoura […] constitui para cada indivíduo tarefa pessoal e particular.”
Herman Hesse

“Os livros encantam-nos até à medula, falam-nos, dão-nos conselhos e ficam unidos a nós por uma espécie de familiaridade viva e harmoniosa.”
Francesco Petrarca

“Tenho muitas vezes observado este facto curioso: um livro, tomado ao acaso, traz-me sempre ecos das minhas actuais preocupações. Será que tudo existe num livro, mesmo num mau livro? Ou então que o acaso não existe e a nossa escolha, sem que o saibamos, é afinal guiada?”
Claude Mauriac

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Luto



O mundo da música em particular e o da cultura de uma forma mais abrangente ficou hoje drasticamente empobrecido com a morte de Luciano Pavarotti, uma das maiores referências da música lírica de sempre.
O tenor, artista de excepcional talento ao qual associava um extraordinário carisma, era amado pelo público e querido pela imprensa.
Detém o record do artista com maior número de chamadas ao palco (165) e, o disco que gravou com Plácido Domingo e José Carreras (outros dois tenores de grande vulto do nosso tempo), acompanhados pelo maestro Zubin Mehta, "Os três tenores", continua a ser o álbum de música clássica mais vendido de sempre.
Pioneiro na forma como ultrapassou o âmbito da música lírica para compartilhar grandes espectáculos com músicos das áreas do rock e do pop, nem por isso saiu minimamente beliscado no seu esplendor. Pelo contrário, ao "popularizar" (não vulgarizar) um género musical tradicionalmente reservado a alguns, mais eruditos, só pôde ter saído engrandecido.
Alvo de homenagens por todo mundo em que vozes consternadas enaltecem não só o extraordinário cantor, mas também o Homem carismático, divertido, apreciador das artes gastronómicas, amigo e solidário com as grandes causas.
Estamos todos de luto.

Fotografia do site oficial de Luciano Pavarotti acompanhada da seguinte frase do tenor:
"Penso che una vita per la musica sia una vita spesa bene ed è a questo che mi sono dedicato"
"Penso que uma vida pela música é uma vida bem empregue e é a esta que eu me tenho dedicado"

Pôr do Sol no bar da praia

Já é Setembro.
Mais uma vez me encontro no bar da praia. É fim de tarde de um dia em que o calor nos faz recordar que ainda é Verão. O sol, agora quase no seu ocaso, vai abrandando a intensidade do seu brilho perdendo um pouco da inclemência com que nos afogueou todo o dia. Parece até corar um pouco envergonhado pela sua rudeza, tingindo de tons rosados o horizonte à medida que se vai escondendo. O mar, hoje de águas excepcionalmente mansas, parece um espelho em que a prata da superfície reflecte o azul do céu, já com alguns matizes de cinza num prenúncio inequívoco da noite que se aproxima. Lá ao longe, na linha do horizonte, os últimos raios de sol teimam em salpicar de reflexos rosados esse espelho, dando os retoques finais de cor, pinceladas de verdadeira mestria, no quadro belíssimo que se estende à minha frente. Ao longe vislumbram-se, ainda hesitantes, pouco nítidas, as luzes de pequenas embarcações pesqueiras que iniciam agora a sua faina.
No vasto areal que antecede e completa esta preciosa paisagem, vêem-se ainda uns quantos retardatários que, muito preguiçosamente, se vão retirando talvez com pena de deixarem de ser protagonistas de tão belo cenário. Junto da água, um cocker spaniel dourado corre incessantemente para um lado e para o outro, feliz na sua liberdade, sem ouvir (ou fingindo não ouvir) os, também um pouco dolentes, chamamentos do seu dono para regressarem.
As gaivotas, sempre presentes, espalham-se; umas pela areia dourada debicando aqui e ali e outras vogando ao sabor da água aproveitando esse doce embalo.
Hoje não peço café. Hoje janto aqui. Vou usufruir do luxo de dois prazeres simultâneos; uma refeição agradável contemplando uma paisagem indescritível.
Também hoje não preciso de um livro. Hoje não irei perder-me nas descrições de nenhum local maravilhoso que alguém visitou e onde viveu momentos de intensa felicidade, ou dor, ou emoção, ou medo, ou mera contemplação. Não irei apreciar a prosa mais ou menos real, mais ou menos filosófica, mais ou menos pragmática, mais ou menos bem escrita de um qualquer autor.
Hoje não preciso de nada que tenha surgido da imaginação de outros, porque hoje sinto-me personagem de algo grandioso. Hoje, também eu faço parte deste poema.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A um livro

Imagem: "Pillow book" de Vladimir Kush

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!...Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...


Florbela Espanca - Sonetos

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ausência


Imagem: Ausência xxi 2006 - Paul Ruiz

Não sabes como me dói a tua ausência!
Não sabes como desejo que chegues,
Que me olhes e me ames com urgência.
Não sabes as vezes que não me vês chorar
Saudosa da tua presença, da tua voz,
Do teu calor, do teu cheiro, do teu olhar,
Não sabes o medo que tenho
De que esta dor que cresce
Me faça esquecer de te amar.

Donagata em 29-08-2007