quinta-feira, 27 de maio de 2010

Como forma de te dar os parabéns, Miguel...


Eu tenho um segredo

Eu tenho um segredo.
É belíssimo esse segredo.
Tem a magia da intimidade,
a doçura do recato,
as cores do recolhimento,
num conjunto misterioso
que lhe confere sentimento.
Eu tenho um segredo.
É sublime, é um enigma,
que ora se avoluma, num dia,
ora se desvenda, ansioso,
em desejos de achamento,
para logo os recolher,
com recato e acanhamento.
Eu tenho um segredo
que, embora não tenha sido assim,
creio que foi feito só para mim.

(Baseado no quadro de Miguel Ministro “Segredo”)

(Imagem de Miguel Ministro, constante das ilustrações do livro "A Minha Nuvem" de Ruth Ministro)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Os melros



Escuto o cantar alegre dos melros,

(julgo que melros),

feito de agudas estridências.

Espreito-os da janela

(e sim, são melros)

em corridas negras e de ouro,

feitas de tantas urgências.

E busco em mim o eco dos seus cantares

o fulgor do seu viver,

de ser.

Encontro apenas os restos dos meus pesares.

domingo, 23 de maio de 2010

Homenagem ao Carlos e aos seus 40 anos


(Bom, agora que fizeste 40 aninhos já lá deves chegar sem escadote. Não?)

Bolas! Foi mesmo por pouco.

Não é que quase me esquecia de publicar esta homenagem, de tão fino recorte literário, que escrevi para ti!!!!

Mas como vale mais tarde do que nunca, aqui vai.


Carlos e os seus 40 anos

Por vezes, ao longo deste último ano, dou por mim embebida em reflexões filosóficas de carácter existencial.

E não. Não são daquelas de pacotilha, qual Paulo Coelho montado nas suas Valkírias ou sentado, chorando “À beira do rio de pedra”.

Nada disso que eu não sou para meias medidas. São reflexões das boas. Daquelas mesmo boas (que nem as outras, as de Ermesinde), equiparáveis apenas às de um Platão, de um Aristóteles, de um Santo Agostinho, até de um Abul-Waleed Muhammad Ibn Rushd, isto já para não falar de Descartes , Kant e Hegel ou então dos mais do que vulgares Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Karl Marx ou mesmo, vá lá, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Michel Foucault.

Bom e agora que já derramei aqui algum do meu conhecimento ao nível da filosofia (pelo menos demonstrei que conheço de nome muitos (bastantes, não poucos, vá), filósofos vou tentar explicar a razão de todo este meu arrazoado.

Em primeiro lugar acordei hoje com um torcicolo e um mau feitio indescritíveis.Uma vez que não me dava jeito, nem me apetecia fazer grande coisa, decidi escrever algo que fosse bem indigesto.

Em segundo lugar porque, efectivamente, sou um tanto dada a devaneios e, muitas vezes, dou por mim a conjecturar acerca dos mais variados assuntos. Uns mais pertinentes do que outros, é certo, mas todos merecedores da minha mais apurada atenção.

Aquele que ultimamente tem sido alvo da minha mais aprimorada reflexão é, nada mais nada menos, minhas senhoras e meus senhores, “A EXISTÊNCIA DO CARLOS NA MINHA VIDA”

Perante a premissa “será que poderia viver sem conhecer o Carlitos?” eis que me quedo arrebatada e sou forçada a responder :

- Lá poder podia que até vivia muito sossegada até há cerca de ano e meio atrás, mas que não era a mesma coisa, isso, não era. Que pena!

É que, queira eu ou não, já me habituei às ordens dadas de forma sub-reptícia com que o Carlos nos brinda, sempre com um sorriso deslumbrante nos lábios; às imposições dissimuladas da sua vontade sob a capa (elegante, diga-se) do respeito absoluto pela vontade do outro; às suas preparações cuidadas (sem ironia!) dez segundos antes do evento (tal como este texto, diga-se)…

Mas também me habituei, e não dispenso, à sua boa-disposição apenas ensombrada pelo seu dentinho maroto ou por umas vértebras, julgo eu, mal alinhadas; à sua força de vontade e determinação em perseguir os objectivos que traça e, quanto a mim, tender sempre a ultrapassá-los; à sua capacidade de ser amigo de todos, de estar presente quando necessário sem parecer estar a fazer um frete, de atender o telefone, sem insultos, as vezes todas que resolvemos moer-lhe o juízo e, last but not de least à sua capacidade alquímica de esticar o tempo. É que para o Carlos o dia não tem 24 horas. Tem, no mínimo, 48 mas, por vezes, estou em crer, que ainda consegue repetir essas mesmas 48 horas de modo a atender tudo e todos.

Portanto, Carlos, hoje que completas quarenta aninhos (tão querido), desilude-te. Se toda a vida procedeste como te vi fazer nestes último tempos, completas 40 anos, é certo mas, na verdade tens pelo menos 80 já para não ser exagerada e chegar mesmo aos 120…

Cuida-te, mas continua igual a ti próprio. E, já agora, desculpa-me esta parvoíce (ai de ti que o não faças) que mais não quis do que prestar-te a mais singela (e mais parva, também) homenagem neste dia.

Parabéns!


Para um amigo. Parabéns


Se eu tivesse o estro de um poeta e não apenas a alma.

Se eu tecesse com palavras véus de sentimento.

Se eu pegasse nas emoções e as usasse para me inspirar

Se eu fosse capaz de lembrar a importância de cada momento

Se eu versejasse e não lançasse apenas palavras ao vento,

então, talvez devesse parar um instante

apenas para te contar como tem sido importante

achar em ti a paciência, o sorriso, a calma

que me faz, ás vezes, rir sem parar, ser eu sem fingimento,

que afaga, conforta, aquece e abriga a alma

e a faz desaprender de lembrar o tempo.

Se eu soubesse, ainda que só um pouquinho,

escrever poesia com algum saber,

poder-te-ia contar com o maior carinho,

tudo isto sem, contudo, nada te dizer.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

“Nação Crioula” José Eduardo Agualusa


Acabei hoje de ler “Nação Crioula” de José Eduardo Agualusa. Não sendo propriamente uma “especialista” na obra deste autor, li já alguns títulos e todos eles me deixaram muito agradada.
Exprimindo-se em formas diferentes consegue, contudo, ser interessante em todas aquelas que conheço.

Neste, Agualusa retoma o personagem de Eça de Queirós, Fradique Mendes e, fazendo também recurso às cartas que este envia, vai-nos contando, através delas, um romance que ele próprio protagoniza.

Tudo se passa sobretudo na Angola do século XIX e também no Brasil e é-nos facultado a par da efabulação (e muito bem entrosado nesta) um relato de costumes da época muito curioso.
Aborda o ainda existente tráfico de escravos, clandestino embora do conhecimento de todos, e as condições de vida destes bem como da população em geral quer em Angola quer no Brasil. Alude também aos movimentos anti-esclavagistas e às perseguições que lhes eram movidas.

O “Nação Crioula” existiu de facto. Era um barco negreiro que transportava escravos de Angola para o Brasil, sobretudo para o nordeste, para os engenhos de açúcar.

Escrito, como é já hábito, numa linguagem simples, epistolar este, claro, mas muito bem conseguida.

Gostei

quarta-feira, 19 de maio de 2010

“Memória de Elefante” de António Lobo Antunes


Terminada a leitura do livro “Os Cus de Judas” e ainda um pouco sedenta de ALA, dei de imediato início a uma nova “releitura”.

Desta vez foi “Memória de Elefante” , livro que havia adquirido junto com o anterior apenas pela beleza desta “Edição Comemorativa”.
É que eu também sou apreciadora dos próprios livros como objectos. É evidente que a prioridade vai para o conteúdo. Mas, quando a um bom conteúdo ainda se junta um invólucro atractivo, considero então ter uma jóia nas mãos. Não exagero. É precisamente isso que sinto.

Bom, reler Lobo Antunes sobretudo quando se trata das suas primeiras obras (a primeira, neste caso) julgo poder ser um risco.
Em primeiro lugar porque a impressão que me havia deixado pode ser completamente destruída ou não tivessem passado quase trinta anos por mim e muitos livros lidos. Depois porque julgo que um autor que se mantém activo durante tanto tempo tem, necessariamente, que evoluir (resta saber em que sentido). E, por fim, juntas as condições anteriores, essa leitura pode levar-nos a uma desilusão…

Afinal nada disso aconteceu comigo. A verdade é que não sou possuidora de uma memória tão elefantina assim e, uma boa parte das deambulações, das considerações, das reflexões, das lembranças a que o personagem foi sujeito naquele dia ou dia e meio, já se me tinham apagado da mente.
Lembrava-me sim do fio do enredo; um psiquiatra que, em pleno pico de uma crise existencial (se isso existe, um pico…), faz um périplo pelas suas lembranças, sofrimentos, momentos de vida desde a infância até às suas experiências na guerra que nos vão revelando o personagem.

Devo dizer que me deu (voltou a dar) um prazer grande a sua leitura dado que, como já referi, havia esquecido os belíssimos momentos de prosa, por vezes simples e com linguagem do quotidiano (grosseira até), outras vezes num registo quase poético, com que o autor nos brinda. É precisamente o tipo de prosa, mais do que o enredo que, no meu ponto de vista, valoriza o livro.
Livro que julgo de pendor francamente auto-biográfico, tal como julgo também ser “Os Cus de Judas”, leva-nos pela mão ao âmago do personagem. É certo que ainda não da forma extraordinária que virá a fazê-lo nos seus livros mais recentes, muito mais burilada, mas dando já mostras inequívocas de um estilo muito próprio que virá a caracterizá-lo.

Enfim, de algum modo e passe o atrevimento da afirmação, senti-me espectadora atenta do despontar, se bem que em força já, de um génio da escrita.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Memórias



Odeio quando as memórias se prendem à ponta dos dedos
e insistem em ficar presas a uma qualquer folha de um qualquer caderno.
Não consigo contê-las.
Os dedos não me atendem e teimam em guardar o que não quero.
Olhando-as, tento expurgá-las cristalizando as lágrimas num sorriso.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Apenas para pensar



"Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí..."

Mario Quintana

domingo, 9 de maio de 2010

O meu vizinho piano


Sabem,
aqui ao lado vive um piano.
Não sei se é um piano de cauda
se dos outros, dos verticais.
Se adornado, se simples,
se daqueles colossais
que, sob lustres imponentes
do mais puro dos cristais,
deixam brilhar seus madeiros
para deleite dos demais.

Apenas vos sei dizer
que é um piano feliz.
Não é um piano de adorno,
estático e sem outro uso
que mostrar ao visitante
quão sensível é o amo
para as lides musicais.

Não.
Este é um piano que fala.
Reage como por magia
ao toque suave e leve
de uns dedos que, com mestria,
primem teclas impacientes,
que percutem martelinhos
que fazem vibrar as cordas em alegre sinfonia.

É um som sublime o que solta,
quase sempre ao entardecer
e docemente, a crescer
ocupa os espaços tristes,
acalma fúrias, desnortes,
até que esta casa vazia
não tem mais espaço para encher.

sábado, 8 de maio de 2010

Estão na FNAC, pois então!!!!


Cá estão eles tão lindos, perfiladinhos na prateleira da poesia junto com os companheiros de outras rimas...

E não é que já chegaram à FNAC????

Que bem lá ficam!

E não tenham medo de desilusões, são tão lindos por fora como por dentro. Digo-vos eu que já os li todos...

São os livros da Edita-me, pois então!

"A minha Nuvem", "Não acordes o gato", "Poemas suados a negro" "Pin , Uma explicação de ternura", "Luz Vertical" são alguns dos títulos que já estão disponíveis e a engrandecer as prateleiras da FNAC.

Estou certa que, em breve, outros os acompanharão.

Desfrutem-nos, os que gostarem de poesia!



quinta-feira, 6 de maio de 2010

"Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes


Há dias, na sequência da leitura dos comentários deixados no blogue de ALA num post que falava de uma das suas habituais crónicas na Visão, fiquei com uma vontade imensa de ler algo do autor. Tive saudades do espinhoso rendado com que define as suas personagens, dos seus momentos de imensa ternura, das suas solitárias reflexões, das suas saudades, das suas alegrias, das suas vidas…

Assim, logo que terminei a leitura que tinha em mãos (gosto de ler ALA sem ruído) decidi reler “Os cus de Judas” que havia lido há uns bons vinte anos e que tinha aqui, bem na minha frente, pois comprei a sua belíssima reedição.

Que posso dizer?

Claro que não foi uma surpresa.

Porém, se por um lado, uma vez que já o havia lido, nem o tema nem a sua personagem foram uma verdadeira novidade para mim, já a compreensão que tive dele foi algo surpreendente.

O livro fala-nos da experiência de um homem que faz a guerra em África, neste caso específico em Angola. Fala-nos dos horrores que protagonizou, de outros a que assistiu, da dor, da saudade, da revolta, da ausência de humanidade que se instalava bem como dos teimosos flashes da tomada de consciência da inutilidade de tudo aquilo, do sentimento de injustiça, da carência de amor que se pretende minimizar em relações furtivas e roubadas, em masturbações solitárias com sabor a amargo, das lembranças...

Fala-nos, enfim de uma guerra que é, no fundo, todas as guerras em todos os sítios em todos os tempos.

É o tipo de livro que me cria uma imensa ansiedade pois quero acabá-lo rapidamente e, por outro lado, uma enorme saudade mesmo ainda antes de ler a sua última página.

Esta leitura teve o condão de me fazer perceber muitas coisas de uma forma muito mais profunda. De ver para além do que é evidente, de intuir, de me envolver…

Agora, altura em que já se entrepôs a distância do tempo, vejo todos estas lembranças, estes relatos, de uma forma muito mais profunda. Consigo entender muito melhor a complexidade de algo que até poderá parecer linear.

É que da primeira vez que li o livro tudo era muito presente ainda, muito falado, muito explorado o que me terá levado a uma leitura (como muitas outras) mais superficial tal era a urgência do saber. A idade, por outro lado, talvez não me permitisse ainda a capacidade de compreensão e de reflexão muito para além da evidência…

Como comecei, termino.

Que posso dizer de um livro que apenas acabei e já pegaria novamente nele para ler?

Fabuloso.

Já agora um pequeno reparo. Esta edição comemorativa está lindíssima. O livro, enquanto objecto que se manuseia, que se aprecia, que se pega, que se olha, que se cheira é, pelo seu bom gosto, um verdadeiro convite à leitura.