quinta-feira, 6 de maio de 2010

"Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes


Há dias, na sequência da leitura dos comentários deixados no blogue de ALA num post que falava de uma das suas habituais crónicas na Visão, fiquei com uma vontade imensa de ler algo do autor. Tive saudades do espinhoso rendado com que define as suas personagens, dos seus momentos de imensa ternura, das suas solitárias reflexões, das suas saudades, das suas alegrias, das suas vidas…

Assim, logo que terminei a leitura que tinha em mãos (gosto de ler ALA sem ruído) decidi reler “Os cus de Judas” que havia lido há uns bons vinte anos e que tinha aqui, bem na minha frente, pois comprei a sua belíssima reedição.

Que posso dizer?

Claro que não foi uma surpresa.

Porém, se por um lado, uma vez que já o havia lido, nem o tema nem a sua personagem foram uma verdadeira novidade para mim, já a compreensão que tive dele foi algo surpreendente.

O livro fala-nos da experiência de um homem que faz a guerra em África, neste caso específico em Angola. Fala-nos dos horrores que protagonizou, de outros a que assistiu, da dor, da saudade, da revolta, da ausência de humanidade que se instalava bem como dos teimosos flashes da tomada de consciência da inutilidade de tudo aquilo, do sentimento de injustiça, da carência de amor que se pretende minimizar em relações furtivas e roubadas, em masturbações solitárias com sabor a amargo, das lembranças...

Fala-nos, enfim de uma guerra que é, no fundo, todas as guerras em todos os sítios em todos os tempos.

É o tipo de livro que me cria uma imensa ansiedade pois quero acabá-lo rapidamente e, por outro lado, uma enorme saudade mesmo ainda antes de ler a sua última página.

Esta leitura teve o condão de me fazer perceber muitas coisas de uma forma muito mais profunda. De ver para além do que é evidente, de intuir, de me envolver…

Agora, altura em que já se entrepôs a distância do tempo, vejo todos estas lembranças, estes relatos, de uma forma muito mais profunda. Consigo entender muito melhor a complexidade de algo que até poderá parecer linear.

É que da primeira vez que li o livro tudo era muito presente ainda, muito falado, muito explorado o que me terá levado a uma leitura (como muitas outras) mais superficial tal era a urgência do saber. A idade, por outro lado, talvez não me permitisse ainda a capacidade de compreensão e de reflexão muito para além da evidência…

Como comecei, termino.

Que posso dizer de um livro que apenas acabei e já pegaria novamente nele para ler?

Fabuloso.

Já agora um pequeno reparo. Esta edição comemorativa está lindíssima. O livro, enquanto objecto que se manuseia, que se aprecia, que se pega, que se olha, que se cheira é, pelo seu bom gosto, um verdadeiro convite à leitura.

7 comentários:

José Alexandre Ramos disse...

Um bom livro, quando relido depois de um certo tempo, diz-nos sempre coisas novas. Mas eu acho que deixei de gostar tanto dos primeiros livros do ALA... ainda não sei explicar muito bem, talvez um dia me debruce sobre isso.

Donagata disse...

Será talvez porque estes primeiros livros não exigem tanto do leitor quanto os últimos?

Comigo também se dá um fenómeno semelhante embora a leitura deste tenha sido uma surpresa.

Julgo que é como habituar o paladar a sabores cada vez mais invulgares mais elaborados mais refinados. Quando regressamos aos sabores que anteriormente nos eram muito agradáveis ficamos defraudados... Já não nos satisfazem.

O mesmo se passa com a escrita de ALA. Refinou, requintou-se, exige mais de nós. Por isso, quando regressamos aos iniciais fica-nos a saber a pouco. Será?

Mesmo assim adorei reler.

Moon disse...

Lobo Antunes. Lá voltarei, mas não já...

Donagata disse...

Este, julgo que iria gostar, Moon.

Moon disse...

Eu também não disse que não gostei do outro. Digamos que foi um livro difícil. ;)

Vitor Hugo Martins disse...

Oi, leitores de ALA, em especial de OS CUS DE JUDAS, aqui vão meus pitacos, se me permitem.
Venho relendo o romance há mais de 20 anos, e a cada leitura, considero-o uma pequena obra-prima da literatura contemporânea. Por quê? Primeiro, porque é revisionista (quanto ao colonialismo português); segundo, por causa de sua admirável fragmentação narrativa; terceiro, em razão de sua linguagem, de altíssima voltagem poética (quando a linguagem técnica, científica, médica, torna-se poética); quarto, em virtude de seu estilo cirúrgico,nem por isso menos literário.
Chega, não é verdade?
Sim, sou professor de literatura portuguesa. Vocês que me leem inferiram corretamente.
De cor.
VH

Vitor Hugo Martins disse...

Oi, leitores de ALA, em especial de OS CUS DE JUDAS, aqui vão meus pitacos, se me permitem.
Venho relendo o romance há mais de 20 anos, e a cada leitura, considero-o uma pequena obra-prima da literatura contemporânea. Por quê? Primeiro, porque é revisionista (quanto ao colonialismo português); segundo, por causa de sua admirável fragmentação narrativa; terceiro, em razão de sua linguagem, de altíssima voltagem poética (quando a linguagem técnica, científica, médica, torna-se poética); quarto, em virtude de seu estilo cirúrgico,nem por isso menos literário.
Chega, não é verdade?
Sim, sou professor de literatura portuguesa. Vocês que me leem inferiram corretamente.
De cor.
VH