quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"A Sétima Porta" de Richard Zimler

Terminei finalmente a leitura do livro, do qual já aqui havia falado, “A sétima porta”. É o quarto em que vai contando a saga de uma família judaica cujas acções vão decorrendo em locais e épocas diferentes:

Em Lisboa, quando do “progrom”em que a família Zarco se vê envolvida, e surge Berequias Zarco, o “O último cabalista de Lisboa”;

Em Goa, colónia portuguesa, no séc. XVI, onde uma nova geração dos Zarco, ao tentar manter as suas crenças judaico-cristãs é envolvida nas teias da Inquisição, então em pleno apogeu: “Goa ou o guardião da aurora”;

No Porto, no início do séc XIX terminando nos Estados Unidos, focando o choque de valores entre uma família de origem judaica e com um nível de desenvolvimento cultural e humanista elevado e os traços fundamentalmente ultra-conservadores da mentalidade da época (afinal a inquisição só é oficialmente extinta em 1921!): “Meia noite ou o princípio do mundo”.

No livro “A sétima porta” Richard Zimler volta a partir dos sete manuscritos do séc. XVI que encontra em Istambul, numa cave, escritos por um cabalista de nome Berequias Zarco. Estes manuscritos que já tinham dado origem ao “Último cabalista de Lisboa”, são aqui retomados dando origem a este magnífico romance histórico que recupera alguns factos perdidos em Berlim dos anos 30/40. Isaac Zarco, na posse dos já referidos documentos cabalísticos, está convencido que, descodificando-os poderá salvar o mundo.
É, apesar de tudo, um grande romance de amor que se desenvolve apesar dos movimentos que os nazis movem contra os deficientes, incapacitados, débeis e judeus e outros grupos étnicos: as esterilizações forçadas, as perseguições, os crimes, as deportações para campos de concentração e de extermínio, enfim, tudo o que a história se encarregou de nos mostrar.
As personagens, enredadas e, por vezes, surpreendidas, com o crescendo de horrores e atrocidades que as envolvem, têm de lutar com todas as suas forças para manter a esperança no amor.
Na minha opinião, livro a ler até porque o autor tem uma forma de escrita bastante poética como já demonstrei ao transcrever alguns, poucos, excertos do livro, o que a torna muito agradável.
Ainda alguns excertos:
"Contudo, uma rapariga como eu já sabe, por esta altura, que as lágrimas são fáceis. Até o Hitler e o Goebbels devem chorar de vez em quando. E tenho quase a certeza de que Werner Catel, Max de Crinis, Julius Hallervorden, Hans Heinze, Werner Heyde, e todos os outros médicos nazis qu assassinaram rapazes como o Hansi também choram quando ouvem falar na morte de alguém que amavam."
"Depois da guerra, dúzias de americanos hão-de dizer-me daquela maneira tão séria que eles têm, que nunca compreen derão como é que os judeus e seu apoiantes não fugiram a tempo. Tínhamos gente que dependia de nós, apetece-me sempre gritar. Será assim tão difícil de entender? (...) Estávamos à espera que um país inteiro acordasse. Estávamos ofendidos e queríamos um pedido de desculpas. Achámos que lhes iríamos sobreviver. Não queríamos largar o romance a meio."

Brincar com as palavras


O sobreiro

Além
Sobre aquele sobreiro
Na sobretarde
Paira só
Uma nuvem
Sombria
Uma só nuvem
Sóbria
Sobressorvida
Parada
Sobre o sobreiro
Donagata em 29/09/2007

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As Healthclubíadas (continuação)


(Imagem da net)
Afinal sempre continua!

3
Cessem do atleta russo e americano
Os treinos intensos que fizeram,
Cale-se de Rosa e de Agostinho
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu, ao ver tanto e bom esforço,
Tal labor e tanto corpo moidinho,
Canto os valores destas gentes corajosas
Ainda que outras haja audaciosas.

4
E tu, minha gata, minha musa,
Que sempre me encorajas com paciência
Quando a casa chego tão contusa,
E cansada de tamanha inclemência,
Dá-me agora uma ajuda, estou confusa,
Incapaz de usar a inteligência!
Se são manhãs inteiras a penar,
Porquê este teimoso porfiar?

5
Será fúria ou desejo de vingança,
Aquilo que me leva a prosseguir?!
Ou será apenas a esperança
De umas calças trinta e seis poder vestir?!
Será mesmo pela vontade de mudança,
Que pulo, e quase morro inda a sorrir?!
Diz-me Carlota, minha musa, linda gata,
Será que estou doida? E esta doidice, mata?


Donagata, em 28-10-2007
(Há-de continuar, se entretanto não ganhar juízo)

"As Healthclubíadas"

Inicio hoje a “publicação” aqui, neste blog, das Healthclubíadas, mas antes quero dexar bem claro alguns pontos:

- As Healthclubíadas são apenas uma brincadeira e, como tal, não pretente retratar nada nem ninguém, baseando-se apenas na minha experiência pessoal. Não se destina, portanto a ser minimamente ofensivo para quem quer que seja.

- O facto de, como irão verificar, o “poema” se apoiar na estrutura das estrofes dos Lusíadas, deve-se apenas à minha falta de “engenho e arte” não sendo, portanto, capaz de criar uma “epopeia” sem um grande suporte. Mesmo assim, não estejam os mais atentos à espera de ir encontrar oitavas de decassílabos heróicos com a rima a desenvolver-se cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos. Há-de ser como calhar!

- Considero os Lusíadas, e agora falo com grande seriedade, uma das GRANDES obras (se não a maior) da nossa literatura, não pretendendo de modo nenhum que, a mera utilização da sua estrutura, possa ser interpretada como um desrespeito.




As Healthclubíadas


1
Esta gentes satisfeitas e anafadas
Que confiantes aqui se vêm inscrever,
Em torturas nunca dantes suspeitadas,
Vão passar largas horas a sofrer.
E em pedaladas e corridas esforçadas,
Muito além do que permite a força humana
Por sádicos inumanos são levadas
Ao estado de “quase liquidadas”.

2
E ainda as memórias tenebrosas
Dos corpos já doridos esticando,
Dos pulos e das poses caprichosas,
Que as costas e os membros vão matando,
E aqueles que nas águas, mais sedosas,
Se vão das gordurinhas libertando:
- Falando aqui e ali com ligeireza
Vou tentar celebrá-los com destreza.

Donagata em 28/10/2007

(Continua, acho eu...)

domingo, 28 de outubro de 2007

Excertos do livro "A Sétima Porta" de Richard Zimler

Continuo a ler o livro “A sétima porta” de Richard Zimler. Está-me a levar um pouquinho de tempo pois é bastante extenso e eu gosto de saborear algumas partes mais do que uma vez; aquelas que me tocam mais fundo.

Alguns exemplos de excertos do livro que me fazem lê-lo com muita calma e provocam alguma reflexão:

“Se fosse a desenhar os meus sentimentos, eles seriam um rio luminoso a cair em cascata à minha volta, levando consigo a prova dos meus desejos, porque sou ainda nova de mais para me sentir assim.
Uma rapariga entrega-se a um rapaz porque quer acreditar que o amor deles vai fazer dela uma pessoa nova. Tudo aquilo que não me mude para sempre não merece ser chamado amor.”

“ Mais perto da janela encontro o desenho que passa a ser o meu favorito. É um retrato da autoria de Otto Dix que representa um cavalheiro magro e de ar afável, de pé junto de uma janela aberta, vestindo um casaco elegante mas no fio. O homem, dos seus sessenta e tal anos, sabe que está a ser desenhado e franze um pouco os lábios, com um ar amavelmente divertido. As suas longas mãos esguias são lindas, as mãos de um pai que escreve cartas semanais aos seus filhos distantes, com uma caneta antiga, ponho-me eu a fantasiar. Foi a sua bondade que o artista tentou captar, tenho a certeza. E coloco o nome dele num lugar especial na minha memória quando o Sr. Zarco mo diz uns dias mais tarde: Iwar von Lucken, poeta alemão e amigo do Sr. Dix.”

“ – Cada livro que compras por mim é mais um anjo que vai viver para lutar mais um dia – garante-me o Isaac, explicando que Berequias Zarco costumava referir-se aos livros como anjos a que fora dada forma terrestre.”

“ – Todos nós, ao longo da vida, damos uma mordida nessa mesma maçã no momento anterior àquele em que nos reconhecemos pela primeira vez no espelho. Todos somos Eva, tal como todos somos Adão. E, enquanto mastigamos a maçã, dizemos para nós próprios:
- Eu existo, e sou separado de Deus.
- Então a serpente não é o mal?
- Não, a serpente é a eternidade, a centelha de eternidade que tem origem na terra e que dá início ao fogo...ao incêndio dentro de cada um de nós. A serpente é a vida a reconhecer-se a si própria, (..........)
- Então por que é que as pessoas acham que a serpente é o mal?
- Porque acham que o mundo é feito de prosa , quando é feito de poesia.”
A imagem é a descrita no segundo excerto: retrato do poeta Iwar von Luken por Otto Dix

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Resultados dos exames nacionais de 2007


Como pessoa ligada desde sempre à educação, não pude ficar indiferente ao ranking, divulgado ontem, das escolas que obtiveram melhores resultados nos exames do 12º ano em 2007.Como já vem sendo habitual, há uma prevalência, ao nível dos primeiros lugares, do ensino privado em detrimento do público. Neste ano, por exemplo, nas primeiras dez, oito são particulares; cinco dessas oito são confessionárias e de orientação católica, três ligadas à Opus Dei...

Claro que, se em vez de considerarmos as primeiras dez considerarmos as primeiras cinquenta, as diferenças aparecem muito mais esbatidas pois aí já se encontram vinte e nove oficiais e as restantes é que são privadas. Portanto uma proporção muito diferente da anterior e que vai continuando a modificar-se à medida que se alarga o número de escolas observadas.

É também interessante referir que a diferença entre a média ponderada (a que entra em linha de conta não só com as notas mas também com o número de alunos que realizaram o teste, na minha perspectiva a única correcta e significativa) nas escolas privadas e nas públicas é apenas de 18 centésimas considerando as oito disciplinas com maior número de alunos inscritos.

Sempre tive uma certa aversão a estes rankings que, na minha opinião, servem para pouco mais do que enaltecer e elevar escolas que, na maioria dos casos, têm como maior mérito a qualidade de alunos que as frequenta à partida, ou seja perpetuar o privilégio. Senão vejamos:

Na maior parte destas escolas privadas, das tais que se encontram entre as primeiras dez, as mensalidades para lá manter um aluno, rondam entre os 400 e os 450 euros logo aí e não é necessário um grande esforço de inteligência ou de imaginação, percebemos que a selecção é grande. Famílias que podem dispor entre 4400 a 5000 euros por ano para a educação de cada filho são, normalmente famílias de condição sócio-económica e cultural privilegiada, ou não??

Por outro lado, essas escolas privadas têm o privilégio de poderem escolher os alunos que admitem (e fazem-no, posso dizê-lo com conhecimento de causa).
Quando os alunos não seguem as regras que são impostas pela escola, também aí, esta pode, simplesmente, "convidá-los a escolher" outro local para prosseguirem a sua escolaridade...

E na escola pública como é?
Pois é, a escola pública tem de assegurar o direito que TODOS os alunos têm à educação. São estas que recebem a grande massa heterogénea de alunos (não há lugar a qualquer tipo de selecção. Mesmo até em questões disciplinares por vezes bem graves, é dificil aconselhar o aluno a mudar de ambiente) e que, portanto, têm de organizar os seus Projectos Educativos de forma a poder dar resposta a todos seja qual for o seu nível(!!!)

Tem necessariamente de ser uma escola mais humanizada e consciente das diferenças o que por vezes se torna difícil dado o normalmente muito elevado número de alunos por turma.

Não sou contra a existência de escolas privadas, longe disso, sobretudo se forem de qualidade.
Todavia acho abusivo e de questionável bom senso classificar as privadas como melhores que as públicas pois as primeiras lidam, por sistema, com um mundo inquestionavelmente elitista a todos os níveis ao contrário das segundas que têm de receber e dar resposta a todos.

Atenção, não digo, nem defendo, que neglicenciemos os dados! Longe disso. Estes deverão servir, após uma análise criteriosa, para uma reflexão séria no sentido não de justificar as falhas mas de intervir para melhorar.

É preciso que não esqueçamos nunca que é o ensino público, melhor ou pior (esperemos que sempre melhor), o garante da igualdade de oportunidades. É portanto aí que é necessário centrar o investimento, a todos os níveis, para que possa melhorar. Só assim poderemos ter a pretensão de melhorar o nível das novas gerações de portugueses.
Imagem: Alunos em exame nacional, Portugal Diário

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Último dia em Lanzarote

Deito-me de bruços
e fecho os olhos.
Abandono o corpo
aos raios tímidos
que teimam em passar
a frágil cortina de nuvens brancas
e torna subtis os
beijos dourados com que
aquecem a minha pele.

Deito-me de bruços
e fecho os olhos.
Escuto o rumor das ondas,
O seu fragor,
quando quebram na rocha negra,
que se aquieta e se amacia
onde, um dia,
as águas lhe apagaram o fogo
e lamberam a ferida ardente.

Deito-me de bruços
e fecho os olhos,
enquanto ouço o suave roçagar
das asas das rolas.
Sobrevoam incansavelmente as águas,
transformando-se,
por breves momentos,
em belíssimas aves do paraíso,
ao vestirem os seus corpos
de inacreditáveis matizes de azul
que o reflexo das águas, lhes empresta.

Deitada de bruços e,
ainda de olhos fechados,
vou passando, erraticamente,
os dedos pelo chão colorido
desenhando obras primas
pejadas de sereias
que aguardam ainda,
os Ulisses mais incautos;
de “meninas do mar”bailando
fazendo rodopiar loucamente
os cabelos de algas finíssimas;
de rochedos no fundo do mar
acolhendo antigos galeões
que apenas deixam antever
os seus finos tesouros perdidos,
de civilizações esquecidas
nas profundezas das águas...

Abro os olhos lentamente,
contrariadamente...
Algo indefinível ainda,
me obriga a sair do doce torpor
em que havia mergulhado.
O sol,
talvez na sua persitência mansa,
havia diluído o manto de nuvens
que o cobria.
Procuro uma sombra.
Sento-me,
protegida de outros beijos
mais dolorosos, mais intensos,
que não desejo
e olho esse mar de frente.
Quero fixar os seus tons,
os seus movimentos,
os seus sons,
ora sussurrantes, ora fragorosos,
os seus cheiros, intensos e doces.
Quero colá-los à pele,
senti-los em mim,
fazer, também eu,
parte desse infinito.

Donagata
Lanzarote em 17-09-2007


Imagem: Olhar sobre as ondas de Angel Estevez

Óscar Lopes 90 anos

Nem só àqueles que precocemente nos deixaram se devem dirigir os nossos tributos. Enalteçamos também aqueles que, ainda entre nós, são (e continuarão a ser) um marco importantíssimo da nossa cultura.

Refiro-me, neste caso, a Óscar Lopes, que festejou no passado dia 2, o seu nonagésimo aniversário.

Conheci-o casualmente, num café, quando era eu uma jovem estudante do antigo 6º ano de germânicas, no liceu Carolina Michaelis e tomava o meu primeiro contacto com a Literatura enquanto disciplina académica. Tentava estudar pela sua "História da literatura portuguesa" escrita em parceria com António José Saraiva, mas o meu nível de capacidade associado, provavelmente à falta dos pré-requisitos necessários, tornavam muito difícil a compreensão da obra. É claro que , na altura eu achava que entendia tudo perfeitamente e, permitia-me até dar sugestões e fazer críticas juntamente com os amigos e amigas que habitualmente se reuniam num determinado café do Porto para estudar.
Num dia de discussão mais acesa em que o chorrilho de disparates devia estar a ser superior ao suportável, levanta-se da mesa do lado, uma voz calma, suave mas assertiva que, rapidamente, repõe a razoabilidade dos factos e esclarece o que nos parecia terrivelmente nebuloso.

Olhei para a pessoa que assim discorria sobre matéria tão "erudita" e vi "apenas" um senhor, já de idade (do meu ponto de vista, claro, pois eu tinha 15 anos e ele devia ter aproximadamente a idade que tenho agora ), de estatura pequena, magro, aparentando até alguma ingenuidade que, embora não me fosse totalmente estranho, não fui capaz de reconhecer.

Já disposta a não dar muita importância ao caso e até um pouco aborrecida pela interrupção de tão elaboradas discussões culturais, eis que, um dos meus amigos que era aluno no liceu D.Manuel II (agora Rodrigues de Freitas) e, se calhar até aluno dele, me elucida acerca da identidade do senhor. Fiquei francamente envergonhada tendo em conta os disparates que aparentemente tinha proferido e ainda por cima com ares doutorais. Apressei-me a sair do café tendo terminado aí mesmo o meu contacto ao vivo e a cores com tão ilustre personagem por quem eu nutria (e ainda nutro) a maior das considerções.
Licenciado em Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, frequentou também o curso de Histórico-Filosóficas da Universidade de Coimbra, o Conservatório de Música do Porto e o Instituto Britânico. É indubitavelmente uma das figuras mais importantes do panorama cultural português do séc.XX. Para tal terá contribuído esta sua formação tão multifacetada.

Após ter dado aulas no ensino secundário, foi para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde foi Professor Catedrático.

Crítico literário, autor de diversos ensaios no domínio da literatura e da linguística, colaborou com vários jornais e revistas de grande impacto como por exemplo a "Seara Nova"e "O Mundo Literário". Publicou também obras de grande fôlego como a já referida "História da literatura portuguesa", "Entre Fialho e Nemésio" entre outros. Importantíssima também a sua vertente de investigação a qual culminou com um trabalho pioneiro em Portugal e de cariz inovador: "A gramática simbólica do português".
Militante comunista foi alvo de perseguições, proibições, discriminações tendo mesmo sido preso.

Sem pretender deixar aqui uma descrição exaustiva daquilo que tem sido o trabalho de Óscar Lopes (não o saberia fazer), não quis, nem pude, deixar de fazer uma referência, mesmo humilde como esta, a uma das pessoas que mais influência teve nas minhas opções académicas e que mais curiosidade me despertou em relação aos aspectos da literatura e da linguística.
Imagem: arquivo do DN, Úrsula Zangger

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Gatos


Imagem: L'apotheose des chats de Theophile Alexandre Steinlen, 1905

Ninguém como os gatos
sabe contar as estrelas e os duendes
que se evadem do labirinto das fábulas
para desassossegarem as virgens
das aguarelas dos quadros interditos.
Os gatos lavam-se
para que nada do que é impuro
macule a santidade
dos instantes que a memória não retém,
por serem felinos como o reverbero das pedras
preciosas da noite dos alquimistas.

José Jorge Letria

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Ode" aos gémeos Afonso e Henrique

Imagem: Gravura de Mondigniani
Sois apenas crianças,
bem pequenas, é certo,
mas enormes no privilégio
do vosso mundo
de duendes, de fadas,
de sonhos, de fantasia,
de encantamento, de magia.

Sois apenas crianças,
Mas viveis o privilégio
do sorriso puro, ingénuo,
da verdade, do choro, do grito,
da graça, do espanto,
do carinho que nos prende,
e do pranto.

Sois o paradigma da verdade,
do abandono confiante,
do extravasar da sensibilidade,
do amor incondicional,
do abraço colossal,
que nos deixa eterna e irremediavelmente rendidos.
Sois crianças!


Para o Afonso e o Henrique no dia do seu primeiro aniversário.
Um enorme beijo.

Donagata em 21-10-2007

"A história de amor" de Nicole Krauss

Acabei hoje (este hoje, foi já no mês passado) de ler este livro que já me tinha sido oferecido pelo Natal. Como nem o título nem o nome da autora me diziam nada de especial, fui priorizando outras leituras e, só agora, já no rescaldo das férias é que decidi lê-lo.
- Que agradável surpresa!
Na minha opinião, é um livro original, escrito com gosto, de forma inteligente e um tanto misterioso na maneira como se desenvolve.
História contada a quatro tempos por quatro personagens.Estas, muito ricas na sua composição mas totalmente diferentes umas das outras, vão contando alternadamente as suas histórias que têm um elemento comum que as influencia a todas: um livro/um autor, Leopold Gursky.
Livro francamente cativante, que consegue misturar de forma muito feliz sentimentos de amor (paixão), humor e ternura.
História que é, só por si, uma homenagem à literatura e aos livros; o exemplo de como um livro pode influenciar, por vezes irremediavelmente, a vida das pessoas.
Aconselho.

"A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde"
André Maurois

sábado, 20 de outubro de 2007

Bolas, é demais!!!

Apenas alguns exemplos para nos ajudarem a não esquecer!

Estabelecimento prisional d Peniche
Estabelecimento prisional de Caxias

Tarrafal, cela, Campo da morte lenta

Tarrafal , colónia penal na ilha de Santiago, Cabo Verde

Estava eu confortavelmente sentada enquanto sorvia, paulatinamente, o meu “cimbalino” pós- prandial (lindo!) quando, a passar os olhos de forma bastante displicente, ensonada até, pela revista Tabu, li algo que, não só me despertou completamente como me indignou ao ponto de estar a escrever sobre um assunto que faz parte daqueles que costumo evitar aqui.

Tema que ocupava várias páginas era a notícia que dava conta da publicação de mais um livro sobre Salazar intitulado “Os meus 35 anos com Salazar”. Entre fotografias diversas e “caixas” realçando aspectos da personalidade do Sr. Doutor, a revista disponibiliza também, em pré-publicação excertos do primeiro capítulo intitulado, surpreendam-se, “A pupila do Sr. Doutor”.

Escrito por Maria da Conceição Rita e Joaquim Vieira, sendo a primeira uma (para mim completa desconhecida, confesso) protegida do ditador, segue, aparentemente e de acordo com a amostra a tendência que parece estar em voga do branqueamento da imagem de Salazar.

É verdade que o tempo se encarrega de “arrumar” a história; é verdade também (pelo menos eu acredito) que todos os homens, mesmo os mais perversos e retorcidos, têm uma faceta, por pequena que seja, melhor, mais humana.
Mas, lá porque o Sr. Dr. se deixava governar (em termos domésticos, claro) pela “tia Maria”, lá porque permitia que a sobrinha da dita tia lá permanecesse em casa e até lá porque lhe contava histórias ao deitar e nem era nada soturno, não podemos, não temos o direito, de esquecer que foi este “simpático” senhor o ditador com um enorme “currículo” de tristes responsabilidades.

Responsável

- pelo obscurantismo em que o país viveu mergulhado durante 40 anos (36 enquanto Presidente do Conselho) colocando-o na cauda da Europa;

- pelo corporativismo; pelo autoritarismo levado ao extremo, anti-democrático, repressivo;

- por um regime político que teve honras de nome próprio “Salazarismo”, fascista, colonialista que se apoia na censura, na propaganda, na ideologia católica (Deus , Pátria e Família);

- pela utilização da PIDE, mais tarde DGS para tentar neutralizar quem se lhe opunha, responsável por milhares de presos políticos, mantidos em condições infra-humanas (lembremos apenas o Tarrafal e Caxias), sujeitos a torturas absolutamente inconcebíveis se considerarmos que já não estávamos na Idade Média, que os levavam, em muitos casos, à morte;

- pelos processos eleitorais fraudulentos;

- pelo assassinato de Humberto Delgado e de outros eminentes anti-fascistas;

- por uma interminável guerra colonial condenada desde início;

Poderia continuar a lista, muito mais haveria a dizer, contudo eu não creio que seja necessário porque, muito simplesmente, me recuso a acreditar que a memória das pessoas seja tão curta que já tenha esquecido um período da história ainda tão próximo, tão presente, vivido por alguns de nós de forma mais ou menos consciente, mais ou menos interventiva mas vivido.

Permitam-me repetir: não temos o direito de esquecer a nossa História e, pior do que isso, não temos o direito de a distorcer ao sabor das modas.

Hoje foi dia de marmelada!


Calma, calma, não se precipitem, não vou tentar a veia erótica! Marmelada mas daquela que é feita com marmelos, açúcar, pauzinho de canela, etc., etc., etc.
Ao início da tarde lá vai a sôdonagata para a cozinha e desencanta de diversos armários toda a parafernália necessária para tão “interessante” ritual anual: a panela “king sise” usada apenas em situações muito especiais, as colheres de pau enormes, as taças da marmelada, o papel vegetal, a água-ardente, o açucar, a balança, o passevite, os marmelos, claro, e a paciência, sobretudo a paciência...

Enfim, cheia de coragem lá dou início à tarefa da única maneira que sei fazer, à boa, velha maneira portuguesa. É a única forma da qual tenho imagens, referências, e, além disso, a única que a minha mãe aprovará. Descasco e descaroço penosamente os marmelos, enquanto, cá para mim, vou insultando até à quinta geração a pessoa que inventou tal cozinhado.

Quando, após cozidos e escorridos, os trituro no passevite (assim é que deve ser), vou alargando o número de gerações insultadas à medida que vou reforçando os já inicialmente fortes epítetos. Penso em desistir e largar toda aquela pasta estranha e pegajosa num ecológico saquinho de lixo, colocá-lo no contentor e sentar-me a ler calmamente o livro que de momento me está a entusiasmar bastante, “A sétima porta” mas não posso fazê-lo, não saberia encarar tremendo falhanço perante a minha mãe; disse-lhe que este ano seria eu a fazer a marmelada e fá-la-ei!

Coloco o açucar com um pouco de água a ferver até ganhar ponto de rebuçado (sabem o que é?) e, quando tal acontece, junto-lhe o polme (até já sei os nomes técnicos) do marmelo e bato fortemente, com uma colher de pau até me doerem estupidamente os braços e as costas. As dores foram um bonus adicional pois o objectivo era tão só criar uma pasta o mais homogénea possível: a marmelada.

Concluída a execução e estive nisto a tarde inteirinha, passei à fase de a acondicionar. Fase mais simples mas também bem chatinha sobretudo para quem já tem a paciência bem posta à prova.
Penso que por esta altura já devem ter entendido que não sou propriamente uma apaixonada pela culinária, mas há alturas em que o nosso ego nos leva a fazer coisas verdadeiramente idiotas a troco de provarmos não sei muito bem o quê nem a quem.

Enfim, lá coloco a marmelada nas tacinhas e cubro-as com círculos de papel vegetal pincelado com água-ardente (não me perguntem porquê).

Coloco os tabuleiros com as taças na mesa da sala, devidamente cobertos com panos de cozinha, numa zona solheira para ir secando.
Nesta fase, está a ser preciosa a ajuda da Luna, da Utopia, da Tracy e do Envy os gatos que estão sempre comigo em casa e que de vez em quando, se me distraio, lá tentam colocar uma pata sobre o pano para irem verificando a consistência do doce.
Coitadinhas, querem ajudar!

Finalmente, tudo isto para nada, puro masoquismo. Pois, como muito bem sabe quem me conhece, eu só de cheirar tão opíparo doce, adquiro logo uns quantos quilinhos que depois levam meses a perder à custa de muita bicicleta, muito tapete, muita máquina distensora, contractora, hidroginástica, natação, bodybalance, cardiolocal e sei lá que mais...
Imagem da net

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Puro prazer


Imagem: Sombra (da net)
Li agora e apeteceu-me partilhar. Deleitem-se.


Há dias em que a sombra
engole a janela, a árvore, o céu.
Há dias de abandono e breu.

Há dias em que se senta, se espera,
se dorme,se respira o desarrumo,
o desaprumo,
o desnorte.

Poesia de Maria Sofia Magalhães , do livro "A sombra que somos"






Ainda as leituras de férias...


“Combateremos a sombra” de Lídia Jorge

De escrita forte, intensa, poderosa que, confesso, me agrada, a autora vai desenvolvendo o enredo (quase policial, quase espelho da sociedade corrupta em que vivemos), com subtileza, dando especial realce às personagens. A impressão que me deixa é que estas são construídas com paixão e que a autora é, ela própria arrebatada por elas e lhes vai seguindo o próprio curso de emoções e acções, indiferente aos diversos artifícios de escrita que qualquer autor conhece e, mais ou menos profusamente, utiliza com vista a prender o leitor.

É precisamente a complexidade e a riqueza das (poucas) personagens, o seu estatuto de pessoas comuns e como tal plenas de contrastes de fraquezas, de indecisões, mas também de certezas e de atitudes arriscadas e imprevisíveis, o fio que prende irremediavelmente o leitor o qual, por vezes, é até tentado a intervir tal é o seu grau de envolvimento.

Gostei e recomendo embora não possa dizer que é o livro (ou um dos livros) da minha vida. Mas vale a pena.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Histórias de família "A avó Alice"

Imagem: Great grandmother by Jessica Carper
Ao ser confrontada, no livro que acabei de ler, com referências a terras durienses como Sabrosa, Provesende, Gouvães, Santa Marta de Penaguião, local onde, aliás, nasceu a minha tia mais querida e onde a minha mãe e os restantes irmãos passaram uma boa parte da infância e adolescência, vêm-me à memória muitas histórias que eu cresci a ouvir ora contadas pela minha avó, ora pela minha mãe. Ouvidas vezes sem conta, ilustravam sempre, de forma mais ou menos colorida, mais ou menos rica em pormenores interessantes, o outro lado das vidas no Douro, fora das grandes casas solarengas. Contavam a vida dos assalariados dessas quintas, dos feitores, das mulheres e homens que trabalhavam à jorna, mas também das que serviam nas casas senhoriais, as internas e até as governantas que zelavam para que tudo se mantivesse muito bem quer na presença quer na ausência dos seus senhores.
Contavam as vidas daqueles que, embora assalariados dos grandes proprietários, eram eles próprios donos de terras, de animais, de vinha de “benefício”, onde trabalhavam arduamente, sem o brilho das mansões e dos “senhorios”
Ao recordar estas histórias, não posso deixar de imaginar, agora com outros olhos, o que foi a vida da minha Avó Alice.

A avó Alice nasceu e viveu em Matosinhos com seus pais e irmãos. Aí estudou até à quarta classe (num colégio de meninas?), tendo depois aprendido uma arte; era costureira mas “de alfaiate” assim me dizia com ares de importância. Exercia a sua arte no Porto para onde ia todos os dias. Conheceu o meu avô, um garboso militar das forças da G.N.R. com quem veio a casar tendo algum tempo depois nascido uma menina – a minha mãe.
Até aqui tudo foi normal, uma família normal, um emprego normal, um casamento normal, um marido normal, amigas normais passeios normais, os banhos das sete da manhã, no mar de Matosinhos também normais...

Até que,

em consequência do movimento militar e civil republicano contra a Ditadura militar, (Fevereiro de 1927), o meu avô é exonerado da Guarda Nacional Republicana e, sem outro modo de ganhar a vida, vê-se obrigado a regressar à sua terra, Vilela, onde possuía algumas propriedades que lhes poderiam garantir pelo menos alguns meios de subsistência. É aqui que a avó Alice, para acompanhar o marido, é arrancada a Matosinhos, ao mar (!) aos seus irmãos e pais, ao local onde trabalhava no Porto e, com uma filha acabada de nascer dá um imenso salto para o desconhecido e vê-se sozinha e desapoiada, completamente desterrada em Vilela.Rapidamente percebeu que era um local de pessoas duras (como dura era a sua vida), estranhas, de paisagens agrestes onde apenas o brilho do xisto nas tardes de canícula poderia, por vezes, muito fugazmente, trazer à lembrança um raio de sol a incidir nas ondas do seu mar. Longe do seu mundo, como peixe fora de água, lá foi tendo que se adaptar aquele lugar onde tudo faltava mesmo o mais elementar, onde tudo lhe era estranho e ela era estranha para todos, onde era a única mulher que sabia ler e escrever, que tinha hábitos de higiene pessoal… Chorou muito, dizia ela e, contudo, que coragem! Teve de executar tarefas que não sabia, sofrer durezas e agruras a que não estava habituada, aprender a lidar com a rudeza bem intencionada das pessoas, ser mãe por mais duas vezes…


Também, rapidamente se tornou a ajuda preciosa de todos aqueles, sobretudo de todas aquelas que tinham os seus familiares ausentes e que precisavam de enviar bem como de descodificar as notícias recebidas; era também aquela que sabia costurar as blusinhas melhores, confeccionadas naquela chita que compravam no Pinhão com as parquíssimas economias que tinham sobrado da venda dos queijinhos de cabra ou daqueles dois cabritinhos que já não contavam vender. Blusinhas mimosas, todas com aquelas golas redondinhas e que seriam escrupulosa e cuidadosamente guardadas, em caixas de pinho, para serem orgulhosamente exibidas na romaria mais próxima. Ou então para quando fossem ao Pinhão, a Provesende ou a Vila Real tratar de assuntos de grande importância.

Sem dinheiro e provavelmente sem grande ânimo, houve hábitos que nunca deixou morrer e que, no entanto, ali, eram luxos:
As prendinhas que o Menino Jesus trazia no Natal, ainda que fosse apenas uma mão cheia de confeitos;
O estrear algo novo, no dia um de Janeiro ainda que fossem apenas as meias;
A educação dos seus filhos embora tivessem de percorrer todos os dias seis quilómetros para cada lado para frequentarem a escola em Gouvães.

Que grande lição de vida! Que heroína!

A vida veio a melhorar. O meu avô foi reintegrado nas forças da G.N.R. e foi comandar o Posto em Santa Marta de Penaguião.
A partir daí a vida da avó tomou um rumo normal. Mas terá ela continuado a ser a mesma Alice? Aquela dos alegres banhos de mar às sete horas da manhã com as irmãs e as amigas? Teria ainda sonhos? Esperanças? Projectos?

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Poesias para crianças que encantam os adultos


Brinquedo

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga
Imagem: Obra de Albano Afonso da série "Fazendo Estrelas" - "noite estrelada após Van Gogh

terça-feira, 16 de outubro de 2007

"Por detrás da magnólia" de Vasco Graça Moura


Acabei ontem de ler o livro de Vasco Graça Moura “Por detrás da magnólia”. Achei-o muito interessante sobretudo porque retrata a vida de algumas gerações de uma família burguesa proveniente de uma determinada área geográfica, o Douro. Soou-me bastante familiar e fez acordar em mim algumas doces lembranças.

É também a região de origem do meu avô materno e cresci a ouvir referências aos mesmos locais bem como histórias com grandes semelhanças embora contadas de outra perspectiva, do outro lado; o do trabalhador assalariado embora (neste caso), também ele proprietário de terras, vinhedos, rebanhos e outros bens, mas sem o brilho do “senhorio”.

Com liberdades de ficcionista a que associa histórias da sua própria família, de forma ligeira e muito fluida embora de escrita refinada, faz, julgo eu, um excelente retrato de época, quer do ponto de vista dos usos e costumes quer das turbulências próprias da transição da monarquia para a república bem como dos subsequentes conturbados movimentos da primeira república e respectivas consequências económico-sociais numa região que, associava grande peso económico, a uma enorme vulnerabilidade.


Leitura muito refrescante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Citação


Natureza morta de Cézanne
Diz Cézanne:

“Os frutos gostam que lhes pintem o retrato. Parecem ficar ali, a pedir desculpa por irem secando. Os perfumes que exalam trazem-nos os seus pensamentos. Chegam-nos com todas as suas fragrâncias, falam-nos dos campos que deixaram para trás, da chuva que os alimentou, das alvoradas que testemunharam.”

Citação retirada do livro que me encontro a ler “A sétima porta” de Richard Zimler e que me apeteceu partilhar.

Se calhar passarei a olhar para as ditas “naturezas mortas” com outros olhos…

sábado, 13 de outubro de 2007

Mais um dos livros que escolhi para férias

“As pequenas memórias” de José Saramago

São, como o título do livro indica, um conjunto de memórias do que foram alguns episódios marcantes da infância e da adolescência ou pré-adolescência do autor passados entre as diversas casas (ou partes de casa) que habitou em Lisboa com os seus pais e a casa dos avós na aldeia de Azinhaga, banhada pelo Almonda que se encontra um pouco mais adiante com o Tejo.
Nele se descrevem vivências diversas: brincadeiras, trabalhos, desgostos, inquietações, vergonhas, sucessos, amizades, amores, desamores e outras emoções que têm em comum o facto de terem sido marcantes, se não determinantes, na vida de José Sousa (Saramago apenas por influências de Baco), enquanto escritor.
Escrito de forma simples, despretensiosa, fluída, sem os já habituais artifícios de pontuação, mas, obviamente, de excelente qualidade literária, vai-nos contando os vários episódios, eivados de candura, humor, realismo e ternura, sem lamechices ou nostalgias exageradas, com que nos conduz pelos diversos locais, acompanhando-o nas sucessivas experiências por ele vividas (sucessivas não do ponto de vista cronológico mas porque se sucedem na narrativa).
A meu ver, um defeito a apontar: o final. Deixou-me perplexa e insatisfeita; de água na boca. Então e o resto?
Porém, e sem retirar nada daquilo que disse, uma dúvida se me coloca: se este mesmo livro, com esta simplicidade (não confundir com simplismo), tivesse sido apresentado a um qualquer editor sem que exibisse este nome de autor, será que teria merecido da parte daquele a mesma atenção? Será que teria tido mesmo honras de publicação? E se as tivesse tido teria sido procurado e lido pelo mesmo número de pessoas que o fez? E na hipótese (remota, julgo eu) de ter tido os mesmos leitores, teria merecido o mesmo tipo de análise/crítica?
Da para pensar um pouco, ou não?

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Desculpem o "castelhanês"

Em relação ao poste anterior, talvez me deva desculpar pelo "castelhanês" nele utilizado ao tentar reproduzir algumas das frases que ouvi. Contudo, dado o contexto das mesmas, não será difícil para ninguém entender que me estou literalmente "nas tintas" para a sua correcção.

Estranhas peripécias em pleno voo


Imagem: "Munch cat" de Susan Herbert (paródia sobre o quadro "O grito" de Munch)
Cá vou eu, calma e relaxada, quase ronronando de prazer, no avião que me transportará ao destino escolhido para as férias tão desejadas e, diga-se, merecidas.

Mais para dar um esticãozinho às pernas do que por outra razão, decido levantar-me e empreender o longo percurso até à cauda da aeronave onde se encontram os sanitários.

Pelo caminho vou ouvindo a voz da hospedeira que, daquela forma quase totalmente incompreensível mas que penso ser de utilização obrigatória, anunciava a passagem dos produtos de free-shop. Ao mesmo tempo apercebi-me que já se encontrava um senhor aguardando a utilização do W.C.

Encostei-me o mais que pude dada a conhecida exiguidade dos espaços em questão quando, de repente, a porta do sanitário se abre de rompante e, do seu interior, desinveste rápida e atabalhoadamente um personagem, de ar bastante assustado que me pergunta ansiosamente o que é que a hospedeira havia dito. Embora estranhando seriamente quer a atitude quer a pergunta lá lhe fui dizendo que não tinha prestado grande atenção mas julgava ser o anúncio do início da venda dos produtos de free-shop. O outro senhor, entretanto, tinha entrado na sua vez pelo que nos mantivemos apenas os dois naquele pequeno espaço. Eu aguardava e, a criatura em questão, agora com um ar um pouco mais aliviado, explicou-me que tinha apanhado um grande susto pois como se encontrava a fumar no sanitário, o que sabia ser absolutamente proibido, julgou ter feito disparar algum alarme e que a voz que tinha ouvido lhe estaria a fazer algum tipo de intimação.

Claro está que, já com ar de poucos amigos, lhe respondi que, na minha opinião tinha feito um rematado disparate uma vez que fora bem avisado que se encontrava num voo de não fumadores (como creio serem todos agora, aliás), incluindo as casas de banho e que o não cumprimento deste preceito o sujeitava às sanções previstas pela lei do país para que viajávamos. Isto para não falar na total falta de respeito que manifestava pelos restantes passageiros utentes do W.C. que teriam de suportar o fumo intoxicante dado o reduzidíssimo espaço em questão.

A personagem olhou-me, agora com um ar de verdadeira estranheza e respondeu-me que não tinha jeito nenhum não se poder fumar, que era uma viagem longuíssima (2h e 10m) e que, pasme-se, iria voltar a entrar para acabar o que havia interrompido.

Sem resposta a dar-lhe e, sobretudo, sem qualquer vontade de prolongar tão absurdo diálogo, aproveitei o facto de o outro senhor estar a sair e entrei para a pequena cabina. Lá satisfiz as minhas necessidades (como já disse nada prementes) e quando me preparava para recompor as vestes e refrescar um pouco o rosto, eis que investem fortemente contra a porta, com berros de
“Abre!, Abre la puerta!”

Mais intrigada do que alarmada, consigo ainda com relativa calma responder “Está ocupada. Só um momento por favor!”.
Descarrego o autoclismo e é então que os encontrões à porta redobram de intensidade. Conseguem que a porta se abra (não sei bem como pois tinha corrido o fecho que a travava) no momento exacto em que eu, completamente atordoada, ofendida, irritada e sem perceber rigorosamente nada do que se estava a passar, lá consigo puxar o fecho das calças ficando com um ar minimamente composto e (julgo eu), digno. É claro que lavar mãos ou o que quer que fosse, nem pensar.

Porta escancarada deparo-me com três rostos de três zangadíssimas hospedeiras que vociferavam para cima de mim frases como “Usted estaba humando!” “Usted sabe que es prohibido!” “Usted está cometiendo un crimen e à llegada le entregaremos a la autoridad!”

Passado o primeiro momento de estupefacção e, confesso, de grande susto, apenas respondi, com ar muito calmo, “Não fui eu. Eu nem sequer fumo.”

Novamente os três rostos das três hospedeiras, ainda mais zangados, se dirigiram a mim invectivando-me com frases que já nem recordo inteiramente mas que não abonavam nada em relação à minha pessoa. Recordo-me de uma me ter dito que o sanitário cheirava a tabaco ao que eu respondi que efectivamente tinha constatado esse facto logo que entrei e que, francamente, me tinha incomodado até bastante. Outra, apontou-me um dedo bem junto do meu nariz e disse “Ay humado si, lo ay visto. Lo ay visto!”

Aí meus amigos, tendo em conta que não estou nem um pouco habituada a que, por um lado me apontem dedos em frente do meu nariz que gosto de manter bem empinado, por outro a que ponham minimamente em causa a minha palavra, apenas perguntei, com toda a calma que consegui reunir, o que é que exactamente a senhora tinha visto dado que nada havia para ver a não ser, talvez, as minhas partes pudibundas no caso de não ter sido suficientemente despachada a recompor o vestuário.
A senhora aparentou um ar ofendido mas, não tendo conseguido especificar o que viu, disse apenas “ay sido usted, ay sido usted”.

Foi aí que, de repente, a sôdonagata resolve virar as orelhas para trás, colocar as unhas em riste, soltar chispas paralisantes (pelo menos em intenção) dos olhos semicerrados à boa maneira dos meus companheiros felinos e, num sussurro quase sibilante, dizer apenas:
- "Os vossos nomes, por favor!...

Tinha ultrapassado a capacidade de aguentar o desrespeito, as atitudes intimidatórias além de ofensivas, a falta de bom senso e a inépcia de quem, apesar de tudo, tem outras obrigações.

Então, aparentemente surpreendida (?), uma delas, por sinal a de aspecto menos antipático e que até aí tinha sido um pouco mais comedida, deu indícios de alguma racionalidade, ou bom senso, ou fosse lá o que fosse (as outras calaram-se) e meio a perguntar meio a afirmar, disse-me:
- Não foi a senhora pois não? Foi alguém antes de si!

Surpreendida com tamanha sagacidade especialmente se associada às espantosas capacidades olfactivas destas meninas (sim, porque de meninas se tratava), surgidas não sei bem de onde, após terem sido "intimadas" a identificarem-se, e já sem vontade ou disposição para tão estúpido diálogo, ainda respondi com a paciência que consegui reunir:
- Penso que é algo absolutamente óbvio desde o início, desde que utilizassem um pouco da vossa perspicácia!

É preciso dizer que a criatura, o culpado, se encontrava postado ao meu lado, à minha frente, ou atrás de mim, conforme eu me ia movimentando, exalando, todo ele, um intensíssimo odor a tabaco, tremendamente encarnado não sei se de susto se de vergonha pela sua evidente covardia.

Estranhamente (pelo menos para mim), uma das senhoras ainda se virou para mim e disse, espante-se “Então diga-nos quem foi.”… Como se a minha função ali fosse saber quem fumava nos sanitários!!!
Pois é, aqui a sôdonagata deve ter ar de Miss. Marple, de Hercule Poirot, Sherlok Holmes, Nero Wolf e o seu fiel Archie Goodwin ou, mais provavelmente, de estúpida!...

Claro está que simplesmente lhes respondi que se não tinham algo de verdadeiramente relevante a perguntar ou a dizer e se não me iam prender já, mesmo que a intenção fosse de me entregar às autoridades à chegada, eu iria regressar ao meu lugar para prosseguir a viajem com o conforto que o seu preço me deveria estar a proporcionar. Mas, antes disso, iria tomar nota dos respectivos nomes.

O prevaricador, o covarde fumador, lá se mantinha, ombro com ombro com os intervenientes, dada a já referida exiguidade dos espaços em questão, calado, corado, com ar de querer desaparecer dali mas incapaz de ser homem.

Fitei-o longamente com o olhar mais desdenhoso que consegui, procurando nele reflectir todo o desprezo que me inspirava semelhante criatura. Triste personagem; não sei se algum dia será capaz de ter algum respeito por si próprio. Provavelmente nem saberá o que isso é.

Regressei ao meu lugar, sentei-me e prossegui a viagem disposta a lentamente, confesso, regressar à minha calma habitual, encolher as unhas, espetar as orelhas, arquear preguiçosamente o dorso e ronronar de antecipação pelos prazeres que as férias me iriam proporcionar.

Ah! É verdade, não fui presa à chegada!

Lanzarote em 18/09/2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Ainda as leituras de férias

“O anjo da tempestade” de Nuno Júdice

Logo como primeira impressão, sobressai a forma exímia que o autor revela no domínio das técnicas de bem escrever. Inquestionável, creio.
Contudo, à medida que se progride na leitura, o autor vai desenvolvendo uma trama de tal forma intrincada em que as ideias se enredam nas conjecturas, o passado se mistura com o presente e com outros passados e outros presentes; o deslindar de um hipotético homicídio (premissa inicial do livro) se interliga com as lutas de classes travadas em consequência de ideologias propagadas por livros como “O Capital” de Karl Marx (contemporâneo da personagem supostamente assassinada); a noiva “viúva” se confunde com a explicadora de francês, por sua vez, virtuosa tocadora de piano que pode muito bem ser também Isabelle d”Este de Ticiano ou a bela Rosina de Antoine Wiertz...
Enfim, torna-se um pouco difícil para o leitor (pelo menos para mim tornou-se), seguir o fio do raciocínio através da miríade de voltas e contra voltas do enredo, do autêntico tumulto de assuntos que o autor esgrime, com grande mestria, repita-se, sem nunca se perder naquele alucinante desencadear de ideias.
Dado que esta leitora não possui semelhante mestria, nem nada que se aproxime, decide deixar-se levar por esse nunca acabar de deambulações cujo ponto comum é, embora por vezes bem fugaz, esse antepassado assassinado, ou desaparecido, ou fugido; ou vítima da luta de classes, ou de um meteoro, ou da mão divina, quem sabe..., e consegue, por fim, usufruir do excelente texto e apreciar trechos de grande beleza em que a verdadeira personagem é o próprio autor.
Livro a ler, de mente completamente aberta, a acompanhar o autor/personagem enquanto este se compraz nas suas deambulações e vai evoluindo ao sabor da sua vontade, através dos espaços, do tempo, das emoções.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Mais um ano

Mais um ano!!!
Quantos dias
de jantares tardios,
de longos silêncios,
de telefonemas rápidos,
de partidas,
de chegadas,
de ausências dolorosas,
de solidão!
Mas tantos, também,
de cumplicidades,
de tardes serenas de leitura, juntos,
da oferta de uma flor,
sem outra intenção além da vontade,
de partilha de:
pequenas alegrias,
momentos de grande felicidade,
tristezas,
expectativas.
De pequenos-almoços na cama
em manhãs de preguiça,
de jornais espalhados,
de notícias comentadas,
de pequenas carícias,
de dedos entrelaçados,
de corpos encaixados.
De um enorme,
sereno, maduro,
intenso amor.


Embora triste e desinspirada, não posso, não quero, deixar passar este dia sem um agradecimento ao teu enorme contributo, por tudo o que de bom temos conseguido juntos; pela nossa vida.

Donagata em 09/10/2007
Imagem: El Beso de Elberto Pinto


terça-feira, 9 de outubro de 2007

Memória


Imagem de Maggie Taylor


"Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha. É porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.


Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.


Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso." *



Passaste na minha vida e partiste. Se levaste alguma coisa de mim, não sei. Mas, a mim, basta-me a tua memória e sentir-me-ei muito mais rica, uma mulher melhor.


* Citação atribuída a Charlie Chaplin bem como a Saint Exupéry, erradamente em ambos os casos. Portanto, citação de autor desconhecido.






sexta-feira, 5 de outubro de 2007

5 de Outubro de 1910

Governo provisório reunido (imagem da Wikipédia)
E foi com estas palavras que “O Século” anunciou a proclamação da República em seguida à vitória do movimento revolucionário, no dia 5 de Outubro de 1910 (3ª edição)


A PROCLAMAÇÃO DA REPUBLICA
A’s 8,30 da manhã passava pela rua do Ouro, em triumpho, a artilharia, que era delirantemente ovacionada pelo povo.
As ruas acham-se repletas de gente, que se abraça. O jubilo é indiscriptivel!
A essa hora, no Castello de S.Jorge, que tinha a bandeira azul e branca, foi içada a bandeira republicana.
O povo dirigiu-se para a Camara Municipal, dando muitos vivas à Republica, içando também a bandeira republicana.
O povo em massa dirigiu-se aos quarteis dos Paulistas, Carmo e rua da Estrella, onde foram içadas as bandeiras brancas, dando vivas à republica e à patria, que eram correspondidos enthusiasticamente pelos soldados. A’s 8,20 as forças que estavam no Rocio entregaram-se, acclamando-as o povo com delirio. À hora a que escrevemos, os navios estão salvando a bandeira republicana. O “S. Paulo”salvou egualmente.

Vê-se muita gente no Castello de S. Jorge acenando com lenços para o povo que anda na baixa. Os membros do directorio foram às 8,40 para a Camara Municipal, onde PROCLAMARAM A REPUBLICA com as acclamações enthusiasticas do povo.

O governo provisorio consta será assim constituido: presidente, Theophilo Braga; interior, Antonio José d’Almeida; guerra, coronel Barreto; marinha, Azevedo Gomes;obras publicas, Antonio Luiz Gomes; fazenda, Bazillio Telles; justiça Affonso Costa; estrangeiros, Bernardino Machado.
Governador civil, Eusebio Leão
Em quase todos os edificios publicos estão tremulando bandeiras. A policia fez causa commum com o povo que percorre as ruas conduzindo bandeiras e dando vivas à Republica.

Foi há 97 anos!

As leituras de férias



“Daqui a nada” de Rodrigo Guedes de Carvalho

É um livro interessante, viciante, que se lê facilmente de um fôlego. Bem escrito, utiliza uma estratégia complexa mas não complicada, que vai prendendo o leitor até à última página.
Documenta uma época histórica muito marcante, que não viveu directamente (é muito novo para isso), mas que retrata com inesperada exactidão. Muitas das histórias reais passadas junto de mim com pessoas que me são (ou foram) próximas, poder-se-iam ter contado desta forma.
Revela aqui muito mais do que uma promessa. Revela já a certeza do excelente escritor que se veio a tornar. Pelo menos nas outras duas obras que li suas: “A casa quieta” e “ Mulher em branco”, as quais considero excelentes, associa a facilidade , a destreza e a inteligência que demonstra, sem dúvidas, já neste livro no manejo da palavra escrita, à maturidade que os anos e, mais provavelmente, as suas experiências de vida lhe acrescentaram.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Talvez consiga sonhar


Anoitece lentamente.
Termina assim um dia
Tão bom, tão pleno e,
Por fim… tão triste!
Por momentos,
Procuro esquecer a angústia
E este sentimento de impotência
Que me assola,
E me subjuga.
Tento soltar a alma
Deste peso imenso e
Descanso o olhar no mar
(sempre o mar!).
Da janela não avisto praia
Apenas mar,
Esse mar inquieto,
Vasto,
Profundo,
Misterioso.
Esse mar infinito
Que se funde no infinito do céu.
Ao passear lentamente o olhar,
Paro-o.
Reparo e encanto-me:
No meio dessa vastidão,
Desse azul avassalador,
Dessa misteriosa inquietação,
Três barquinhos!
Três insignificantes barquinhos
Repousam,
Sozinhos, esquecidos,
Presos a coisa nenhuma,
Acomodados ao doce embalo
Do gigante.
Em seu redor
As sempre presentes gaivotas,
Apenas sombras fugidias,
Neste céu crepuscular
Soltam vagidos pungentes.
Mas os barquinhos
Tão pequenos
Tão serenos
Tão presentes
Quiçá esquecidos,
Mas tão grandes na sua pequenez
Dormem.
Talvez sonhem.
Talvez o sonho lhes confira essa imponência
Inexplicável mas inequívoca.
Talvez.
Talvez também eu possa sonhar.


Donagata em 25/09/2007

Acordar

Acordo.
Um pouco tarde
Talvez.
Espreito pela janela.
À minha esquerda,
O Sol,
Bem cheio,
Bem redondo,
Já bem destacado no horizonte,
Já com promessas de calor,
Espalha prodigamente
Os seus raios de ouro.
Sigo alguns, os mais atrevidos
Que, na minha frente,
Executam um bailado
Suave e belo
Por sobre as águas
Desse mar tão azul,
Tão intenso.
Mas, eis que de repente,
Pousam nos três barquinhos
Que dormem ainda.
E, cuidadosamente,
Agora em pontas,
Suavemente,
Pintam-nos de oiro.
Transportam-nos para o sonho,
Para a fantasia
Para a hipótese de serem galeões,
Caravelas ou naus,
De vogarem sobre outros mares,
De viverem outras vidas,
Outros mundos,
Outros sois.
E é com eles,
Que quero partir
E ser também
Outra Eu.

Donagata em 26/09/2007

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cumpro sempre as ameaças! Regressei!


Cheguei!
Melhor. Regressei!
Aliás como havia ameaçado.
Souberam bem “os banhos”. Retemperaram-me o corpo e a alma.
Gozei o mais que pude dos prazeres da água, desse doce sabor a sal, do seu rumorejar, da sua massagem forte, dos seus odores...
Saboreei, com prazer, as carícias dos raios de sol que me aqueciam a pele, enquanto lia esquecida de tudo completamente embrenhada nos enredos imaginados pelos autores.
Acariciei gatos (os meus amados gatos), gordos e bem tratados, que se passeavam à nossa volta com os seus eternos modos de donos do mundo e, de vez em quando, lá condescendiam em me dar a honra de os acariciar, de arquearem o dorso satisfeitos procurando ir de encontro à concavidade da minha mão, de me presentearem com um forte rom-rom de “estou satisfeito, não és má de todo a lidar connosco...”
Dei pedacinhos de pão a rolas, que pousavam com toda a desfaçatez na minha mesa, junto do meu prato, e mos tiravam calmamente de entre os dedos, onde os mantinha, convicta que as não convenceria a tamanhas intimidades. Eram supostamente rolas bravas! Contudo, julgo que ninguém as havia informado ainda dessa sua condição. Ainda bem.
Enfim, passeei muito, li muito, conversei muito, nadei muito, bronzeei-me muito, tive a minha quota de peripécias estranhas (talvez as conte mais tarde), tudo o que é suposto acontecer nas férias que havia programado.
Confesso, porém, que tive um pouquinho de saudades destes bocadinhos que passo aqui, neste meu retiro, a ser eu mesma, despida de tudo, só eu. Foi só um pouquinho, mas tive. E saudades, também, de visitar os outros “eus” que tanto me têm enriquecido e dado prazer.
Pois é, os vícios colam-se rápido e depois, custam, custam, a despegar...