quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"A Sétima Porta" de Richard Zimler

Terminei finalmente a leitura do livro, do qual já aqui havia falado, “A sétima porta”. É o quarto em que vai contando a saga de uma família judaica cujas acções vão decorrendo em locais e épocas diferentes:

Em Lisboa, quando do “progrom”em que a família Zarco se vê envolvida, e surge Berequias Zarco, o “O último cabalista de Lisboa”;

Em Goa, colónia portuguesa, no séc. XVI, onde uma nova geração dos Zarco, ao tentar manter as suas crenças judaico-cristãs é envolvida nas teias da Inquisição, então em pleno apogeu: “Goa ou o guardião da aurora”;

No Porto, no início do séc XIX terminando nos Estados Unidos, focando o choque de valores entre uma família de origem judaica e com um nível de desenvolvimento cultural e humanista elevado e os traços fundamentalmente ultra-conservadores da mentalidade da época (afinal a inquisição só é oficialmente extinta em 1921!): “Meia noite ou o princípio do mundo”.

No livro “A sétima porta” Richard Zimler volta a partir dos sete manuscritos do séc. XVI que encontra em Istambul, numa cave, escritos por um cabalista de nome Berequias Zarco. Estes manuscritos que já tinham dado origem ao “Último cabalista de Lisboa”, são aqui retomados dando origem a este magnífico romance histórico que recupera alguns factos perdidos em Berlim dos anos 30/40. Isaac Zarco, na posse dos já referidos documentos cabalísticos, está convencido que, descodificando-os poderá salvar o mundo.
É, apesar de tudo, um grande romance de amor que se desenvolve apesar dos movimentos que os nazis movem contra os deficientes, incapacitados, débeis e judeus e outros grupos étnicos: as esterilizações forçadas, as perseguições, os crimes, as deportações para campos de concentração e de extermínio, enfim, tudo o que a história se encarregou de nos mostrar.
As personagens, enredadas e, por vezes, surpreendidas, com o crescendo de horrores e atrocidades que as envolvem, têm de lutar com todas as suas forças para manter a esperança no amor.
Na minha opinião, livro a ler até porque o autor tem uma forma de escrita bastante poética como já demonstrei ao transcrever alguns, poucos, excertos do livro, o que a torna muito agradável.
Ainda alguns excertos:
"Contudo, uma rapariga como eu já sabe, por esta altura, que as lágrimas são fáceis. Até o Hitler e o Goebbels devem chorar de vez em quando. E tenho quase a certeza de que Werner Catel, Max de Crinis, Julius Hallervorden, Hans Heinze, Werner Heyde, e todos os outros médicos nazis qu assassinaram rapazes como o Hansi também choram quando ouvem falar na morte de alguém que amavam."
"Depois da guerra, dúzias de americanos hão-de dizer-me daquela maneira tão séria que eles têm, que nunca compreen derão como é que os judeus e seu apoiantes não fugiram a tempo. Tínhamos gente que dependia de nós, apetece-me sempre gritar. Será assim tão difícil de entender? (...) Estávamos à espera que um país inteiro acordasse. Estávamos ofendidos e queríamos um pedido de desculpas. Achámos que lhes iríamos sobreviver. Não queríamos largar o romance a meio."

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