quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Óscar Lopes 90 anos

Nem só àqueles que precocemente nos deixaram se devem dirigir os nossos tributos. Enalteçamos também aqueles que, ainda entre nós, são (e continuarão a ser) um marco importantíssimo da nossa cultura.

Refiro-me, neste caso, a Óscar Lopes, que festejou no passado dia 2, o seu nonagésimo aniversário.

Conheci-o casualmente, num café, quando era eu uma jovem estudante do antigo 6º ano de germânicas, no liceu Carolina Michaelis e tomava o meu primeiro contacto com a Literatura enquanto disciplina académica. Tentava estudar pela sua "História da literatura portuguesa" escrita em parceria com António José Saraiva, mas o meu nível de capacidade associado, provavelmente à falta dos pré-requisitos necessários, tornavam muito difícil a compreensão da obra. É claro que , na altura eu achava que entendia tudo perfeitamente e, permitia-me até dar sugestões e fazer críticas juntamente com os amigos e amigas que habitualmente se reuniam num determinado café do Porto para estudar.
Num dia de discussão mais acesa em que o chorrilho de disparates devia estar a ser superior ao suportável, levanta-se da mesa do lado, uma voz calma, suave mas assertiva que, rapidamente, repõe a razoabilidade dos factos e esclarece o que nos parecia terrivelmente nebuloso.

Olhei para a pessoa que assim discorria sobre matéria tão "erudita" e vi "apenas" um senhor, já de idade (do meu ponto de vista, claro, pois eu tinha 15 anos e ele devia ter aproximadamente a idade que tenho agora ), de estatura pequena, magro, aparentando até alguma ingenuidade que, embora não me fosse totalmente estranho, não fui capaz de reconhecer.

Já disposta a não dar muita importância ao caso e até um pouco aborrecida pela interrupção de tão elaboradas discussões culturais, eis que, um dos meus amigos que era aluno no liceu D.Manuel II (agora Rodrigues de Freitas) e, se calhar até aluno dele, me elucida acerca da identidade do senhor. Fiquei francamente envergonhada tendo em conta os disparates que aparentemente tinha proferido e ainda por cima com ares doutorais. Apressei-me a sair do café tendo terminado aí mesmo o meu contacto ao vivo e a cores com tão ilustre personagem por quem eu nutria (e ainda nutro) a maior das considerções.
Licenciado em Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, frequentou também o curso de Histórico-Filosóficas da Universidade de Coimbra, o Conservatório de Música do Porto e o Instituto Britânico. É indubitavelmente uma das figuras mais importantes do panorama cultural português do séc.XX. Para tal terá contribuído esta sua formação tão multifacetada.

Após ter dado aulas no ensino secundário, foi para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde foi Professor Catedrático.

Crítico literário, autor de diversos ensaios no domínio da literatura e da linguística, colaborou com vários jornais e revistas de grande impacto como por exemplo a "Seara Nova"e "O Mundo Literário". Publicou também obras de grande fôlego como a já referida "História da literatura portuguesa", "Entre Fialho e Nemésio" entre outros. Importantíssima também a sua vertente de investigação a qual culminou com um trabalho pioneiro em Portugal e de cariz inovador: "A gramática simbólica do português".
Militante comunista foi alvo de perseguições, proibições, discriminações tendo mesmo sido preso.

Sem pretender deixar aqui uma descrição exaustiva daquilo que tem sido o trabalho de Óscar Lopes (não o saberia fazer), não quis, nem pude, deixar de fazer uma referência, mesmo humilde como esta, a uma das pessoas que mais influência teve nas minhas opções académicas e que mais curiosidade me despertou em relação aos aspectos da literatura e da linguística.
Imagem: arquivo do DN, Úrsula Zangger

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