sábado, 5 de setembro de 2009

Vozes do Aquém! 4 - Livros de Férias


“O Cego de Sevilha” de Robert Wilson

Não poderia vir de férias sem trazer comigo um policial. Nem as férias me pareceriam completas se não lesse pelo menos um (normalmente mais). Desta vez trouxe mesmo só um dado que só tive direito a umas férias curtinhas. Escolhi “O Cego de Sevilha”.

E que excelente escolha se revelou!

Somos introduzidos no livro em pleno acto de perpetração de um crime através do sentir do assassinado. Logo aí começa a adrenalina a dar sinais evidentes.

Compete ao Inspector-chefe Javier Falcán a investigação de tão hediondo crime, brevemente seguido por outros dois com contornos da mesma crueldade evidenciada no primeiro.

Entretanto, Javier vê-se pessoalmente envolvido, não sabe muito bem de que forma, quando o assassino vai enviando mensagens, algumas das quais lhe são expressamente dirigidas.

A partir daqui a investigação vai despoletando em Javier recordações, mais propriamente, impressões de recordações, que ele não consegue decifrar e que o levam à leitura dos diários de seu pai, um famoso pintor já falecido.

Através desses diários o Inspector é colocado perante um pai que desconhecia embrenhado, desde sempre, num mundo obscuro de corrupção, falsidade, assassinato, prostituição, contrabando, pedofilia… Desde logo lhe é evidente que esta vida do seu pai está intrinsecamente ligada aos assassinatos em investigação.

Desgasta-se psíquica e fisicamente e quase colapsa aquando da morte na arena de um toureiro seu protegido ocorrida durante as “Festas de Abril”.

É dispensado da investigação, temporariamente, mas ele continua-a, já num patamar pessoal, que o leva a Tânger.

Tudo isto é-nos servido num ritmo alucinante em que, para o leitor (pelo menos para mim), o crime já nem era o ponto fulcral. Importante mesmo era o drama psicológico e a expectativa ansiosa pelo seu desfecho.

Este, deveras incomum, vem a dar-se dentro da mesma toada e com o mesmo ritmo do resto da trama.

Muito bem contada esta história de grande imaginação e algumas surpresas. O autor utiliza uma linguagem precisa, sem acessórios supérfluos, numa narrativa factual em que não há tempo nem necessidade de arabescos literários.

A não menosprezar o envolvente da história em que Wilson nos embrenha numa Sevilha com as suas especificidades: a sua religiosidade (sobretudo o culto mariano) nas procissões da Semana Santa, o amor pela festa brava (numa descrição preciosa de uma tourada que eu detestei pois sou absolutamente contra semelhante barbárie, mas não posso deixar de reconhecer o brilho da descrição) e a festa, a alegria andaluza.

Deixou-me curiosa em relação a outros títulos bastante badalados que, se calhar por isso mesmo, ainda não li.

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