terça-feira, 8 de setembro de 2009

Regresso do Aquém e últimos comentários dos livros de férias


"Written Words" de Rob Gonsalves

E eis-me chegada do aquém! Agora, o além uma vez que o aquém é um local que fica, habitualmente, por cá. Ou seja, próximo de onde estamos.

Como já deve ter dado para perceber através desta nota introdutória (que, confesso, não sei ainda muito bem o que irá introduzir), a inspiração, essa, se alguma vez existiu, ficou no além (ex aquém) a banhos. Mais propriamente em banho-maria…

É que me deu para parar e ler esta arenga mais ou menos aparvalhada que soltei até aqui e pareceu-me um excelente exemplo de como se consegue não dizer absolutamente nada utilizando, contudo, um número razoável de palavras.

Será que ainda me vou dedicar à política? Ora aqui está algo que nunca tinha aventado como hipótese. Mas lá que tenho habilidade para falar (neste caso escrever) muito sem dizer nada que preste, isso, pelos vistos, até tenho que eu não sou para modéstias quando elas não se justificam.

Bom, mas avancemos pois não estou aqui para falar de desgraças.

Entre o além (ex-aquém) e o aquém (local onde agora me encontro), ficaram por comentar (oh!!! que pena!!! Direis vós. ) dois dos livros que li por lá (estavam à espera do aquém ou do além, não era?).

E sem mais palermices aqui ficam os devidos comentários com a vossa complacência.

Também, quem conseguiu chegar até aqui, lê só mais um bocadinho porque os livros até merecem e os seus autores não têm culpa…


A música da fome” de Le Clézio

Romance agradável de ler se bem que algo nostálgico. Muito bem escrito ou não fora o autor considerado um dos maiores ficcionistas franceses da actualidade e Prémio Nobel da Literatura em 2008…

Mais um livro que tem por pano de fundo a II Guerra Mundial, embora, desta vez, não seja a Guerra, ela própria, o fulcro da trama. É, sim, o enquadramento temporal bem como, obviamente, um importante contributo (pelas suas consequências económicas e sociais) para o declínio até ao limite da fome de uma família francesa mauriciana, residente em Paris.

O enredo, que se desenvolve em torno dessa família rica, poderosa e influente, que vai perdendo riqueza, influência e poder através dos desvarios do seu patriarca, tem como ponto crucial uma personagem feminina.

Extremamente bem construída, é ela, na minha opinião, que dá corpo e verdadeira consistência ao romance.

Desde os treze anos, altura em que se inicia o romance, que ela vai vivendo uma vida de adulta em criança. Vai-se apercebendo da decadência paulatina da família sem que nada possa fazer para a contrariar. Cedo é levada a tomar as rédeas do que resta do grupo familiar, em plena guerra, agora completamente pobre e refugiado em Nice.

Será sempre o esteio de uma família que se desmorona mas cujos sobreviventes, acabam por renascer. Como tudo no pós-guerra.

Ressurge também o seu romance antigo que é vivido vertiginosamente.



“Quatocentos mil sestércios” seguido de “O Conde Jano” de Mário de Carvalho

Livro pequeno (131 páginas), como de resto quase todos os do autor em referência, é composto de dois contos como se depreende pelo título.

O primeiro, passado no tempo da ocupação dos romanos, na zona de Salácia (Alcácer do Sal) e fazendo referência a outros locais de grande importância na ocupação romana como Miróbriga (próximo de Santiago do Cacém com ruínas muito bem conservadas de uma cidade romana), as minas de Vipasca (actualmente de Aljustrel onde já se explorava o cobre, à época, e com inequívoca rentabilidade), que nos transporta para o quotidiano das gentes, provavelmente a partir do século I D.C.

Contado com muito humor, como é próprio do autor, é uma pequena amostra da capacidade de desenrasque de um jovem, preguiçoso e pouco ajuizado, filho de um centurião que, encarregado pelo seu pai de um assunto de grande responsabilidade, falha.

O resto são os diversos subterfúgios que utiliza, nem todos com o melhor resultado e as aventuras que vive até conseguir recuperar o que havia perdido e, com muita sorte, mais alguma coisa, não perdendo assim a credibilidade perante o seu pai e a sociedade.

Claro que tudo isto é contado com requintes de imaginação e de humor associados ao grande conhecimento que o autor possui desta época histórica específica.

O segundo conto é mais uma forma de vermos reproduzido um romance popular já inserido nos “Romanceiros” de Almeida Garret e de Teófilo Braga embora com designações diversas.

Escrito num registo totalmente diferente, transporta-nos às noites de inverno, às lareiras, em que os mais velhos contavam histórias que se transmitiam oralmente, de pais para filhos, e eram ouvidas sempre com o mesmo encanto, a mesma tristeza, o mesmo suspense…

1 comentário:

Alien Taco disse...

o mesmo sono....zzzz...