terça-feira, 29 de janeiro de 2013

“Claraboia” de José Saramago



Estava na pilha de livros alinhados, por ordem, para eu ler mas há já muito que ia sendo sistematicamente preterido por outros que iam chegando. Vá-se lá entender os desígnios da vontade…
Bem, mas finalmente lá chegou a sua vez.
É sempre interessante, se bem que também possa ser traiçoeiro, ler um dos primeiros romances de um autor (o primeiro mesmo, sob pseudónimo, segundo parece) de quem se conhece a maior parte da obra. Talvez tenha sido essa a razão que me levou a postergá-lo tantas vezes.
As expectativas são grandes e daí haver algum receio de desapontamento. Parvoíce, eu sei. Cada livro vale o que vale de per si.

E este vale a pena ler.
Passado em meados do século passado (XX), numa rua esconsa de Lisboa, leva-nos, por um período de tempo, a viver as vidas de um grupo de pessoas que constituem as famílias que habitam um determinado prédio.
São pessoas diversas, com vidas diversas as quais, por vezes, ocultam sob de um véu de dignidade, pensamentos, anseios e atitudes menos dizíeis. É sempre assim.

E temos o sapateiro e a sua mulher, que decidem admitir um hóspede, para equilibrar o orçamento. Caetano e Justina, casal improvável que perdeu uma filha. Emílio Fonseca, casado com D. Carmen uma galega saudosa e inconformada, com o seu filho Henriquinho. D. Lídia, a que “está por conta”… Anselmo, Rosália e Maria Cláudia uma moça bonita, no viço dos seus dezanove anos. E as irmãs Adriana e Isaura, solteiras desesperançadas que vivem com a mãe, Cândida e a irmã desta, a Tia Amélia ambas viúvas.

E de casa em casa, de sobrado em sobrado, vamos sendo levados a viver todas as tramas, as esperanças, os desgostos, os pensamentos mais profundos, as estratégias mais duvidosas. Vamos conhecendo os segredos que se querem esconder, os sonhos que não se ousam ter, as verdades que não se ousam enfrentar, enfim, a vida de todos e de cada um desta pequena comunidade bem como o entrosamento possível das várias vidas.

É um livro de leitura agradável, simples, denotando até, a meu ver, uma certa ingenuidade.
Não contém ainda a sofisticação literária de futuros romances do autor mas é genuíno e bem escrito.
Contudo, encontro já aqui, nos diálogos entre Silvestre e Abel Nogueira (o sapateiro e o seu hóspede que escolheu nada fazer da vida, sobreviver, apenas), o nascer do que serão as diatribes filosóficas, os embriões das elucubrações que pejarão, por exemplo, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A ler sim. Até pela curiosidade da percepção da evolução.

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