sábado, 22 de dezembro de 2007

"Akhenaton o Rei Herege" de Naguib Mahfouz

Dei início à leitura deste livro do qual tomei conhecimento através do blogue “O Enigma e o Espelho”exactamente por aí ser recomendado e também por um conjunto de outras razões que o tornavam imperdível a meu ver.

Em primeiro lugar porque trata de um tema que sempre me fascinou uma vez que, em termos de formação, tenho também uma “costelinha” na área da História. Tenho uma enorme curiosidade pela história do Egipto desde os seus primórdios, sendo este período um dos que me suscita maior interesse.

Depois, por ter como autor um escritor árabe, galardoado com o Nobel da Literatura em 1988 e que, além disso, foi perseguido e considerado herege (que interessante coincidência) devido aos seus livros, tendo até sofrido um atentado perpetrado por fundamentalistas islâmicos.

Ainda por, na sinopse, ser descrito com a estrutura de um romance policial, género que, quando bem escrito, aprecio bastante.

Finalmente por ser também referido como “uma espécie de expedição arqueológica”. Quem é que não gostaria de participar numa expedição às areias do Egipto confortavelmente sentada no seu sofá?

Bom, terminei a sua leitura e devo dizer que foi uma enorme desilusão.
O autor enveredou por um tipo de narrativa em que vários depoentes falam de um mesmo assunto. É uma forma de escrita ambiciosa mas de difícil gestão em que é necessário um grande esforço para se conseguir a interligação perfeita entre as várias narrativas, recorrendo a estratégias diversas como, por exemplo, o contraste, para que resulte em algo com interesse.

Não me pareceu ter sido o caso. O livro acabou por se tornar uma sucessão de narrativas insípidas e desinteressantes, mesmo do ponto de vista literário, que se distinguem apenas pelo facto de serem a favor ou contra o Faraó.
Não me pareceu tampouco que as referidas narrativas/depoimentos revelem da parte do autor um conhecimento suficientemente aprofundado do período histórico em questão; finais da XVIII dinastia, Séc. XIV a.C., período também conhecido como de Amarna.

É certo que se trata de uma época em relação à qual são tantas as as dúvidas quanto as certezas. É um período além de enigmático, um tanto obscuro ainda para os historiadores e nem sempre alvo de opiniões consensuais no seio dos egiptólogos mais proeminentes. O material de estudo é relativamente escasso, ao contrário do que acontece em outros períodos mesmo mais remotos, uma vez que tendo sido considerado herege pelos faraós seus sucessores, todos os vestígios do curto e controverso reinado de Akhenaton, foram criteriosamente destruídos. Todas as inscrições foram apagadas e o seu nome banido da lista de Faraós que governaram o Egipto.

Contudo, penso que apesar dos constrangimentos que resultam do que acabei de expor, o autor poderia ter sido mais empenhado em termos de investigação histórica, tendo podido, na minha opinião, criar um livro um pouco mais audacioso.

3 comentários:

Clara Branco disse...

O livro é na verdade uma espécie de investigação criminal, quem terá morto o rei, e quem conspirava contra ele... talvez porque não exista de facto muita informação à cerca daquele período. Foi o meu esposo que o traduziu, e de facto, a escrita de Mahfouz não é de todo fácil, para não falar da diferença na expressão escrita que existe entre as duas línguas. É pena não ter gostado.
bj

Donagata disse...

O facto de não ter gostado não se prende, de todo, com a tradução do mesmo.Provavelmente o problema foi meu por ter criado expectativas elevadas que se deveram não só ao tema que estudo apaixonadamente, como também ao facto de o autor ser um Nobel da literatura. Acredito que a tradução não seja fácil dada à forma difícil(de acordo com aquilo que li sobre o autor)como ele escreve.
Mantenho contudo a opinião que manifestei e, repito, penso que não tem nada a ver com a tradução,mas é um livro muito morno que utilizou uma técnica que não surtiu efeito. É claro que tudo isto é apenas a minha opinião como leitora, não pretendo de modo nenhum fazer o papel de crítica literária, que não sou.
Todavia, espevitou-me a curiosidade acerca do autor e, além de ter lido umas coisas sobre ele, vou procurar ler pelo menos o livro que lhe deu o Nobel.

P.S.
Muito naturalmente continuarei a ler os livros que referir no seu blog pois penso que temos algumas afinidades em termos literários.
Um beijo. E parabéns ao marido pela tradução, não deve ter sido nada fácil.

Clara Branco disse...

Não encarei como uma crítica, essa, cabe aos críticos de facto! Quanto à tradução, essa, foi de facto muito extenuante (3 a 4meses), como as acompanhei ao vivo... as narrativas são como diz, muito mornas, e o final não é nada conclusivo.

Estou a ler outro livro, brevemente postarei no blog.

Um beijo!