quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Quando eu fui criança


(Imagem: a Donagata com a sua boneca Inglesa no dia em que lhe pode pegar.)

Ora cá vai mais um texto a puxar para o nostálgico. Mas, desta vez, a culpa é toda tua, Sofia!
É que ao desafiares-me para relembrar as minhas brincadeiras de infância estás a fazer-me recuar a um tempo do qual guardo tantas memórias....

Vivi toda a minha infância em grandes espaços, grandes quintas, e, de início, bastante isolada no que diz respeito à companhia de outras crianças. Comecei então por me entreter sozinha. E como? Corria livremente por espaços abertos; descobria esconderijos onde organizava e montava as minhas casinhas; apanhava toda a espécie de plantas que cresciam nos muros para fazerem de arroz, de bifes, da salada etc. Reconhecia, sem grandes pavores, os animais mais assustadores que costumavam aparecer nos muros em dias quentes de verão como cobras, sardões, sardaniscas, sapos ouriços cacheiros, e sei lá que mais.
Lavava a roupa das minhas bonecas em grandes tanques de água onde enfiava os braços bem até aos cotovelos. Ajudei a quebrar a casca dos ovos quando os pintainhos queriam sair. Assisti ao nascimento de várias ninhadas de gatos os quais, misteriosamente, desapareciam...
E tinha sempre um cão! O último foi o Marquês que era tão grande como eu.

Foi também nessa época que dei longos passeios com o meu avô materno, homem muito culto e recém aposentado que me ensinou imensas coisas: a distinguir os diferentes tipos de rochas e as suas composições colhendo as respectivas amostras; o que era a erosão razão pela qual algumas pedras do caminho estavam tão lisinhas que não incomodavam quando nos sentávamos para descansar; a identificar algumas das constelações que povoavam os céus dessa altura e obviamente a reconhecer a estrela polar e, em consequência, os pontos cardeais; a distinguir diversos tipos de aves, pelo porte, pelo tamanho, pelo canto; os seus ninhos…
Enfim, era uma criança entre adultos. Mas sem a vigilância opressiva destes.

Mais tarde, já não tão só pois já contava com algumas colegas da escola e minhas amigas, adorava escorregar pelos palheiros ou medas de palha o que nos deixava cheias de comichões ao mesmo tempo que desfazia o trabalho cuidadoso do caseiro.
Além disso, saltávamos à corda alegremente a tarde inteira, jogávamos à bola, às escondidas (e escondíamo-nos nos locais mais incríveis, desde adegas escuras, poeirentas e com cheiro a bafio, até a caves também bafientas onde nem se descortinavam bem os objectos que para lá se amontoavam), jogávamos à macaca, ou patela como se diz por aqui, com uma pedra muito lisinha (a tal patela) e éramos muito, mas muito felizes.

Brincávamos junto ao rio (o Tâmega) que limitava os terrenos da casa onde vivia na altura. Lá fazíamos também as nossas casinhas que atapetávamos com os limos macios que arrancávamos do fundo do leito do rio. Lavávamos as roupas das bonecas e até as próprias donas das roupas que passavam a não ter grande futuro uma vez que na sua maioria ainda eram de papelão.
Algumas dessas roupinhas de boneca haviam sido costuradas por nós, nos dias que não convidavam à escapadela, utilizando para tal agulhas, tesouras, linhas, enfim tudo aquilo que, nessa altura, não constituía um risco reconhecido. Devo confessar que esta não era seguramente uma das minhas actividades favoritas e, já aí, era muito claro que nunca deveria enveredar por uma carreira ligada à moda… O que acontecia quase sempre e juro que não sei porquê era terminar estas sessões com as minhas bonecas completamente despidas e sem alternativas…
Ah! Mas houve uma que eu não despi nunca!...O que eu gostei dessa boneca! Foi a minha primeira boneca, julgo eu, com cabelo verdadeiro, sedoso e loiro como eu imaginava que se devia ser… Não era de papelão, tinha uma cara lindíssima, creio recordar que de porcelana e um vestido!!!… Foi o meu tio que ma trouxe de Inglaterra. Aliás nunca se chamou outra coisa que não fosse a “Inglesa”!
E é verdade que nunca a despi. Também nunca lhe peguei, não podia. Era só de “olhar”. Que me lembre apenas a manuseei uma vez e foi para a levar comigo ao fotógrafo onde tirei uma fotografia com ela, de adereço, e assim ficou nas minhas mãos para a posteridade.

Regras, havia apenas as que diziam respeito ao cumprimento das horas das refeições e de algumas, poucas, recomendações específicas.

Chegávamos à noite exaustas, sujas, predispostas a dormir bem, talvez a ler antes um bocadinho, mas pouco que o cansaço era, geralmente, muito.

Certamente corremos alguns riscos que hoje horrorizariam qualquer um, mas sabem uma coisa? Não demos por isso, ou melhor, se calhar aprendemos cedo a evitá-los, a maior parte das vezes por recomendações dos adultos é claro, mas muitas delas por puro instinto.
Foram tempos muito, mas muito felizes!


Desculpem a prosa tão longa mas é que as memórias são mesmo assim, enleiam-se umas nas outras e torna-se tão difícil separá-las!...

10 comentários:

A.Teixeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sofia Loureiro dos Santos disse...

Obrigada, Dona Gata. A fotografia está superior!

Anónimo disse...

Muito bem, a tua escrita não me surpreende, o conteúdo dele sim, esta parte referente às tuas vivências, talvez por serem bastante semelhantes às minhas, "toca-me" muito e gosto bastante de lê-la, a referente à tua passagem por Chaves, soube-me bem , a parte mais "erudita" é muito agradável. Continua ... Beijs
Isabel

Donagata disse...

Obrigada, Isabel pela sua visita bem como pelo seu comentário tão agradável. A minha infância foi toda ela em Chaves e mesmo assim como a descrevi. Agrada-me que a tenha tocado...

Donagata disse...

Sofia, não é para me gabar que eu nem sou dessas coisas mas a fotografia, que fui desencantar em casa da minha mãe, está mesmo um "must".
A boneca, essa estás mesmo a ver qual o tio que ma trouxe de Inglaterra...

Anónimo disse...

Achei muito bom o "obrigada pela sua visita" sou tão só a Isabel Vales, Beijos.

Donagata disse...

Olá Isabel. Estou tão contente. Não sabia que também aqui vinhas e, como sou uma pessoa educada, de fino trato, achei por bem algum comedimento.
Um beijo grande e volta sempre.

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Adorei o texto, também sei quem é o tio que foi a Inglaterra ;)

Mas a fotografia!!!
Tens que emoldurar e colocar em lugar de destaque! Está simplesmente sublime! Tu e a boneca em que pegaste ao colo para ser fotografada, que lindo...

Beijinhos :)

Mar Arável disse...

Gostava que falasse mais do marquês.
PorquÊ?
Contei a sua história aos meus
3 serra da estrêla
Se puder diga mais sobre o marquês

bjs

Donagata disse...

Mar Arável, boa noite.O Marquês era um belíssimo Lobo da Alsácia que foi meu companheiro de muitas brincadeiras. Até para a escola me acompanhava... Mas tem razão, merece que escreva mais alguma coisa sobre ele e também sobre a sua mãe que tem uma história curiosíssima. Se eu conseguir, é claro, os seus três serra da estrêla irão gostar!