quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Acerca de gatos

(Imagem: Definições de um felino de Othello de Will Rafuse)
Mais uma vez com a aprovação dos meus felinos residentes, sobretudo do Envy que está sentado quase em cima do teclado observando atentamente o que vai surgindo no ecrã, aqui vos deixo um poema, de um dos grandes poetas portugueses, dedicado a estas pequenas feras carregadas de meiguice e que ele tão bem sabia amar.


Em Abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

Eugénio de Andrade em “Com o Sol em cada Sílaba”

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