terça-feira, 6 de novembro de 2007

Uma tarde bem passada

Imagem - Cat Reading da net
Hoje decidi que ia reservar uma boa parte da minha tarde a ler alguns dos meus poetas preferidos.

Sentei-me confortavelmente no sofá, rodeei-me de uns quantos livrinhos e toca de saborear alguns dos poemas que selecciono calmamente. Digo- os em voz alta, sempre, pois gosto de sentir as palavras a rolarem atrevidas umas, tímidas ou ingénuas outras, de encontro ao meu palato. Algumas são tão fortes que quase ferem, outras, as mais delicadas deixam-nos a ligeira impressão do roçagar de uma pena.

Ao meu lado, também confortavelmente sentadas, de preferência até em cima do livro que estou a ler, a Utopia, a Luna, A Tracy , a Carlota e o Envy, aproveitam para apanhar os agradáveis raios de sol que nos aquecem ao mesmo tempo que vão lançando expressivos olhares de verde aprovação. É que os meus gatos também são apreciadores de poesia...

E se, porque o poema o pede, ou porque assim me dita a vontade, me entusiasmo e ergo um pouco mais a voz, logo a Carlota, sempre a mais crítica, solta um ligeiro “arrulhar” de advertência, ao mesmo tempo que me contempla com aquele seu olhar pleno de luz.

Agora vou apenas aqui partilhar um ou dois dos “bombons” que saboreei só para vos deixar de água na boca...




Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu’ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escuta é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen em “Livro Sexto”




A rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar,
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não sei como os juntar,
e convidar para o chá
na casa breve do poema.
O melhor é não falar
sorrir-lhes só da janela.

Eugénio de Andrade




AMIZADE

Desfiz os teus nós
com os meus dedos.
Escrevi os meus sonhos
na tua pele.
Deitei nas tuas mãos
a minha cabeça.
Vi nos teus olhos
a minha censura.
Atei os meus laços
na tua ternura.
Moldei o meu barro
com a tua vontade.

Já não sei o que é meu,
que me deste tanto,
nem sei se é teu
este medo, este espanto.
Dói-me o teu muro,
a barragem de silêncio,
este frio que me tolhe,
este corpo que me encolhe.

Desfaz os meus nós
com os teus dedos…

Maria Sofia Magalhães em “A luz que se esconde”

3 comentários:

DuSinho disse...

Olá!!

Achei um piadão aos nomes das gatas!!!!

E adorei o último poema, o da Amizade!

Beijinhos

Donagata disse...

Eu também. Por norma gosto muito da poesia desta poetisa. Identifico-me muito com ela. É grande!

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Dona Gata, obrigada, obrigada, obrigada.