segunda-feira, 31 de março de 2008

"Rápida, a sombra" de Vergílio Ferreira

Enquanto tentava reorganizar algumas estantes do meu escritório para nelas conseguir arrumar uns quantos livros já lidos e que se iam amontoando desordenadamente em locais menos apropriados, encontrei, bem apertadinho no meio de outros, “Rápida, a sombra” de Vergílio Ferreira. Peguei nele, folheei-o, cheirei-o (tem já uns laivos do odor de livro antigo assim como as páginas ligeiramente amarelecidas), mas não me surgiu qualquer memória quanto ao seu conteúdo.

Então, resolvi lê-lo, ou relê-lo se dele viesse a encontrar memória.

Li-o ontem enquanto me resguardava do mau tempo à conta de uma estúpida constipação que tem tanto de desagradável como de inoportuna. E, seguramente, li-o pela primeira vez. Excelente! Não é um livro que se esqueça. É profundo, deixa marca, aliás como os outros que conheço do autor.

Muito centrado no eu e numa evidente obsessão do autor pela inevitável degradação física que culmina na própria morte cortando assim, de forma absurda, a promessa de imortalidade que sente; “a consciência da sua infinitude limitada”.

O livro desenrola-se em dois (talvez três) planos de ficção, em espaços distintos: a praia, o escritório e (talvez), a aldeia (a casa dos pais e a sua no monte). Iniciam-se separados mas vão-se interligando, entretecendo uma trama em que se fundem inteiramente e se tornam difíceis de distinguir as oscilações entre a imaginação e a recordação. Talvez a única coisa que nos ajude a distinguir o real do sonho seja a presença da figura da mulher; a sua, Helena, ou a sonhada, Hélia.

Ou então também pode ser que tudo não passe de um plano só em que só o sujeito se narre a si mesmo e tudo o resto seja apenas o intrincado dos seus sonhos, das suas realidades lembradas, das suas realidades sonhadas e, fundamentalmente, dos seus medos.

Seja como for, é um poema fantástico que se desenrola ao longo destas duzentas e quinze páginas de excelente prosa.

4 comentários:

Mar Arável disse...

Realidade e ficção

podem ser

casamento de sonho

A.Teixeira disse...

Caramba, Donagata, isso está a ficar com o ritmo de um livro/dia, a que há que adicionar a devida recensão aqui no blogue!

Não é para todos!

Donagata disse...

Mar arável, esta realidade que não se sabe onde começa nem onde acaba associada à ficção ou à recordação é, sem dúvida, de sonho.

A.teixeira, não fique invejoso, isto é apenas a consequência (a boa) da indesejável constipação.
Por outro lado os dois sabemos que há quem leia muito mais depressa. Há quem leia um livro inteirinho de poesia, é importante dizê-lo, enquanto aguarda numa pequena fila a dedicatória do autor...
Ora eu ainda estou a milhas de tal proeza.

A.Teixeira disse...

Cá me constou essa proeza mas, para isso, é precisa uma certa diligência...