sexta-feira, 1 de maio de 2009

Viajando um pouco pela História...



(Imagem daqui)

Nestes tempos em que a memória das pessoas parece andar tão falhada e em que os direitos adquiridos com a democracia parecem ser algo que cada um utiliza e interpreta da forma que entende passando pelo “não tenho nada a ver com isto” até ao insulto curto e grosso a quem tiver a ousadia de manifestar pontos de vista diferentes do meu, entendi oportuno recordar, embora ao de leve, a razão porque se comemora hoje o Dia do Trabalhador. É que os acontecimentos foram já há tantos anos… E a memória, como já disse, anda tão curta…

Tudo começou, efectivamente, no dia 1 de Maio de 1886, em Chicago, cidade, como muito bem sabemos, norte-americana.

Nesse dia um conjunto de quinhentos mil trabalhadores saiu à rua em manifestação pacífica, reivindicando o limite máximo de 8 horas para os seus dias de trabalho. A manifestação foi dispersada violentamente pela polícia, tendo daí resultado dezenas de mortos e feridos entre os operários.

Mas quando a vontade é muita e o sofrimento também, a “derrota” não dissuade, dá novas forças. Assim aconteceu. No dia 5 de Maio, apenas quatro dias depois, os trabalhadores voltaram a sair à rua com a mesma reivindicação. Estas manifestações foram novamente reprimidas pela polícia, dando origem a oito líderes presos, quatro trabalhadores executados e três condenados a prisão perpétua.

Notícias da época: "a prisão e os trabalhos forçados são a única solução adequada para a questão social", escreveu o ‘Chicago Tribune'; "estes brutos só compreendem a força, uma força que possam recordar por várias gerações", escreveu o New York Tribune.

Contudo, o movimento aí iniciado deu origem a um maior, de solidariedade internacional, pressionando o governo americano a anular o falso julgamento e a organizar um novo com um júri adequado.

Tal julgamento teve lugar em 1888. Os novos jurados consideraram os trabalhadores inocentes, culparam o Estado e determinaram que este soltasse os três trabalhadores que se encontravam ainda presos.

O Congresso Operário Internacional (a Segunda Internacional Socialista), um ano mais tarde, em Paris, decreta o dia 1 de Maio como o Dia Internacional do Trabalhador, cito “um dia de luta e de luto”.

No ano seguinte, em 1890, finalmente, os operários americanos conquistam o direito ao dia de trabalho de 8 horas.

Antecedentes:

No final do século XIX, vivia-se o auge da Revolução Industrial quer na América quer na Europa. Os trabalhadores eram sujeitos a condições desumanas de trabalho em prol do máximo de produção ao mais baixo custo. Tanto fazia serem homens, mulheres, crianças ou velhos. O horário de trabalho ia, por vezes, até às 17 horas diárias, sobretudo em unidades fabris. E regalias como descanso semanal, férias ou reformas não existiam.

Foram criadas aquelas que viriam a ser os primeiros embriões dos sindicatos, as “Caixas de Auxílio Mútuo” para acautelar momentos mais difíceis dos trabalhadores. Mesmo assim, esses incipientes sindicatos que posteriormente se organizaram, tinham uma função muito ineficaz dadas as constantes perseguições da polícia.

Foram, portanto, estas condições insustentáveis as causas próximas dos movimentos operários que tiveram lugar, não apenas na América, mas também na Europa.

Como, de acordo com o que já referi, apenas três dos presos, das ocorrências em Chicago, beneficiaram do novo julgamento incitado pela comunidade internacional, todos os restantes ficaram conhecidos pela designação de “Os Mártires de Chicago”.

Foram mártires, sem dúvida, mas foram sobretudo um enorme exemplo de coragem o qual desencadeou uma onda de protestos e de melhoria de condições dos trabalhadores em todo mundo.

Também em Portugal se desencadeou uma onda de greves que ocorreram essencialmente entre 1852 e 1910 e que acabaram por ter como efeito uma efectiva melhoria das condições dos operários.

Durante a Primeira República festejava-se o 1º de Maio como o Dia do Trabalhador o que deixou de acontecer após o início da ditadura. Havia comemorações nesse dia, que deixou de ser feriado, mas apenas aquelas que eram simbolicamente organizadas pelo Estado.

O primeiro 1º de Maio a seguir ao dia 25 de Abril de 1974, foi a maior manifestação alguma vez organizada no país. Só na cidade de Lisboa manifestaram-se mais de meio milhão de pessoas, o mesmo acontecendo em todas as cidades do país (não com o mesmo número de pessoas, está visto).

Eu estive nesse 1º de Maio do Porto e, ainda hoje me sinto saudosa do ambiente que se viveu nesse dia. Não se questionavam cores, partidos, tendências, nada. Era aquela mole de gente que, com imensa alegria, dava as boas-vindas à democracia que, apenas uma semana antes, nos havia sido devolvida.

5 comentários:

Mar Arável disse...

Abril de novo

no Maio de sempre

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Excelente e oportuno texto, Donagata. Bjs.

Donagata disse...

Obrigada a ambos.

pin gente disse...

é verdade sim... foi um dia de unidade total. mais marcante até que o dia 25 de abril (talvez seja natural). eu era pequena mas recoedo bem a emoção dos meus pais quando falam nesse primeiro 1º de maio!

obrigada pelo belo texto
um beijo
luísa

Donagata disse...

Obrigada eu, por tê-lo achado suficientemente interessante para o ler.

E, de certa forma, concordo também consigo. Foi mais marcante do que o 25 de Abril pois aqui a alegria era mais solta, mais genuína. Não estava já velada pela incerteza e pelo quase desconhecimento do acontecido...
Um beijo e um bom fim-de-semana.