sábado, 16 de maio de 2009

“o nosso reino” de Valter Hugo Mãe


Acabei de ler este livro, o que fiz com muita curiosidade, dado que já li os seus outros romances de que muito gostei.

Este é o seu primeiro romance. Provavelmente aquele porque eu deveria ter começado. Todavia, devo dizer, que apesar de ser o primeiro, já o escritor nos arrebata quer com o enredo quer com o tipo de escrita.

Esta, como habitualmente, é bastante crua, cruel até, mas que apesar disso, ou por isso, resulta numa grande beleza plástica. A sua dureza advém também do facto do enredo se passar numa aldeia pobre e atrasada em que as pessoas, para se protegerem da austeridade das suas vidas se refugiam em crenças que deambulam entre o sacro e o profano; o real e o fantástico. Aqui, tal como nos outros livros que li, já é notória a sua tendência para abordar os temas da ruralidade. Quer pelos lugares que tão bem descreve, quer pelos sentires das suas personagens.

Este livro começa como uma aventura de uma criança de oito anos, o narrador, que, com a sua candura se vê obcecado pela diferença entre o bem e o mal num mundo onde impera a malignidade o que o impele a “viajar” constantemente entre o céu e o inferno.

À medida que vamos progredindo na leitura (que se vai tornando quase compulsiva), as personagens vão oscilando aleatoriamente entre a loucura e a bondade, movendo-se através da realidade e da mais pura fantasia.

10 comentários:

A.Teixeira disse...

Não vou escrever sobre o livro, já que nunca li nada deste autor. Mas gostaria de realçar que, por vezes, há pormenores de forma que nos predispõem ou indispõem, como me acontece neste caso.

O autor, Walter Hugo Mãe, entendeu que o seu nome fosse escrito de forma não convencional, ou seja, usando exclusivamente as letras minúsculas e parecendo fazer questão até que isso seja escrupulosamente respeitado (veja-se aqui: http://cultura.fnac.pt/dossiers/o-prazer-da-leitura/o-prazer-da-leitura/image).

Nesta recensão, a autora do blogue, e muito bem, resolveu separar forma de conteúdo. Quanto ao segundo a sua opinião parece inequívoca quanto ele é excelente. Quanto ao primeiro, o conjunto das boas regras do português escrito recomendam que o nome do autor se deva escrever Walter Hugo Mãe e é isso que ela faz.

A isto se chama não embarcar em falsas sofisticações. Mais, o Mário Crespo chamaria a isto "desassombro", mas eu estou proibido, sob pena de ter de prestar explicações posteriores…

Donagata disse...

Pronto. Já percebi. Sou mesmo desassombrada.

Eu gosto do autor. Acho mesmo que escreve boa ficção. Temo é que tenha uns tantos daqueles tiques que alguns autores gostam de ter pois julgam-se, assim, mais distintos.

No caso de Walter Hugo Mãe, já o ouvi dizer num encontro de escritores que faz questão em não usar maiúsculas por considerar que não há palavras mais importantes e outras menos importantes. Assim, acha que as deve escrever todas em minúsculas.

No meu ponto de vista isto são mariquices utilizadas como estratégias de afirmação pessoal. É a minha opinião, pode haver outras. Contudo, também te digo que, embora goste, de facto, do que o autor escreve, este desrespeito pela língua (a que ele chamará, certamente, recriação), Também me faz uma certa comichão.

E se não tivesse gostado tanto do primeiro que li, se calhar, também o relegava um pouco mais para o fim da fila.

Aliás como faço com o António Lobo Antunes, não porque não gosto do que leio mas pela sua vaidade e mania de que é o maior escritor português.

Anónimo disse...

Que cabeças tão fechadas. Os artistas têm de ser livres e tomar essa liberdade como arrogância é muito triste. A opção de valter hugo mãe diz respeito unicamente ao seu trabalho e não pretende impor-se a ninguém. Se fosse um autor interessado num sucesso fácil certamente escreveria fácil. O problema não está em ter manias, está em ter convicções, mas é claro que os preconceitos abundam e é mais fácil ver as coisas pelo lado negativo. Trabalhei com o valter hugo mãe numa editora de poesia, e é o último dos autores no que diz respeito a manias e exercícios de ego. De facto, quando diz que as palavras em minúsculas adquirem todas a mesma dignidade é porque acredita nisso, e se não tiverem preconceitos não vejo porque não será mais lógico acreditar nele também. Se gostam ou não do livro, isso é outra coisa. Mas abater autores pelas suas convicções é ter palas nos olhos como alguns animais. Desculpem o desabafo, mas é algo que considero de uma injustiça tremenda para com um autor que simplesmente quer escrever como sente que o deve fazer. E as regras, na arte, vão muitas vezes ao ar, estão lá para isso. Ou, como já explicou o valter hugo mãe, "teríamos de ir explicar ao Picasso que as pessoas não têm olhos na testa, porque é possível que ele não tenha percebido isso".
Raquel M.

Donagata disse...

Caríssima Raquel M. Ficou, aparentemente, muito indignada pelas opiniões que quer eu quer o A.Teixeira expressamos em relação ás inobservâncias das regras da boa escrita da língua portuguesa por Walter Hugo Mãe.
Devo dizer-lhe que não tem razões para isso pelo menos no que me diz respeito, a mim, autora do comentário sobre o livro.
Eu digo que essas (e já agora muitas outras)são estratégias que alguns autores utilizam (e parece estar na moda) para se demarcarem colocando-se, assim, em evidência.
Confesso que não é o que mais aprecio neste autor, mas também não o desmerece. Não precisa rigorosamente nada disso pois é um escritor excelente.

Conheço razoavelmente bem a sua obra (penso que toda mesmo, em prosa e em poesia)e sou absolutamente fã dele.
Adorei este livro como todos os outros que li dele tendo hoje mesmo acabado de ler um pequeno conto inserido numa colectânea que a FNAC publicou para comemorar o dia mundial do livro e posso apenas dizer que é uma pequena pérola.

Não contesto as razões do autor para adoptar a forma de escrita que adoptou e estou absolutamente segura que, no seu caso, não tem nada a ver com as razões erradas. Contudo, chame-me cabeça fechada, velha do Restelo ou qualquer outro epíteto que considere adequado. Mas quando se fala em arte literária, gosto de respeitar e ver respeitadas as boas regras da Língua. Manias!

Anónimo disse...

"boas regras da Língua"
a senhora não faz a mínima ideia do que é a literatura.
:)

Donagata disse...

É a sua opinião que não me suscita grande respeito por não fazer a mínima ideia de que modo a formou, em que se baseou para tal. Numa recensão de um livro com a qual não concorda? Não se terá precipitado um pouco?
Enfim é que as minhas habilitações académicas, sobretudo as que dizem respeito a esta área, apontam exactamente no sentido contrário...
Contudo, dado que não tenho rigorosamente nada a provar a ninguém (e muito menos a si que nem a conheço), dou aqui por encerrada tão pouco profícua troca de "opiniões".

José Alexandre Ramos disse...

isto já foi em junho... bom, mas não vou deixar de dizer o que penso: isso das regras da língua, em arte, pelo menos na literatura contemporânea são argumentos inválidos. todos os grandes escritores, mortos e vivos, foram contra as regras e isso é o que faz evoluir a língua e a arte da literatura. mas enfim, são opiniões.
só queria corrigir aqui algo: é que seja em maiúsculas ou minúsculas, o nome do valter é que não deve ser mudado. Nunca Walter, mas Valter, ou valter como ele prefere que assim se escreva. Com V, v... não W.

José Alexandre Ramos disse...

outra coisa que me deu "comichão":

«Aliás como faço com o António Lobo Antunes, não porque não gosto do que leio mas pela sua vaidade e mania de que é o maior escritor português.»

ò Dona Gata isto já é menos verdade para si, ou ainda pensa assim, a esta altura do "nosso" campeonato??? ALA pode ter a mania, mas é verdade: é o maior escritor português, ou vai dizer-me que não concorda?

Donagata disse...

Olá, José Alexandre, por aqui!!!
Pois é verdade que se criou aqui, nesta altura, um pequeno quid pro quo em torno das regras da língua que eu, embora respeite as "liberdades" exigidas pela arte, prezo muito e tenho alguma dificuldade em ver trucidadas por alguns ditos escritores.
Não é, seguramente, como aliás julgo deixar claro, o caso de Valter Hugo Mãe o qual considero um dos novos reais valores da nossa literatura. É certo que a minha opinião vale o que vale mas é das opiniões dos leitores que vivem os escritores... Ou não?


Em relação a A. L. A. Confesso, sem qualquer problema, que mudei bastante a opinião que tinha acerca dele enquanto pessoa. Aquilo que considerava pedantismo e vaidade e que tantas vezes fez com que adiasse a leitura dos seus livros, hoje considero, sei lá!? talvez uma forma sincera e despudorada de dizer as coisas... Talvez até um pouco inconsequente, não sei. O que sei é que é, de facto, um escritor genial.E, neste momento é tudo o que me interessa.

Agora um reparo apenas. A.L.A. não desvirtua nunca a linguagem. É correctíssimo no que diz respeito às tão polémicas regras da boa escrita. Isso agrada-me, devo dizer...

José Alexandre Ramos disse...

ahhhhh! assustou-me! :)