sexta-feira, 29 de maio de 2009

“O Arquipélago da Insónia” de António Lobo Antunes


Finalmente respirei fundo e lá tomei alento para ler “O Arquipélago da insónia” de António Lobo Antunes que, há já uns tempos, aguardava a minha leitura.

Começo já por dizer que, embora não aprecie particularmente a imodéstia, a presunção conscientemente assumida do autor, não posso, confundir essa sua característica com a sua qualidade como escritor.

Pois bem, devo dizer que gostei bastante do romance (se de romance se trata e não quero nem tenho condições para entrar nessa polémica. Nem tampouco acho que tenha qualquer importância. É uma mera questão formal).

Lobo Antunes centra-se numa personagem, um autista, e através de um discurso narrativo permanentemente fragmentado, sem atender a sequencialidades temporais ou semânticas, a relações de causa/efeito, misturando o real com a ilusão, o presente com o passado, colocando os vivos a dialogar com os já mortos, vai-nos desfiando a história de três gerações de uma família rural, provavelmente ribatejana, desde a sua ascensão (com o avô como o patrão prepotente e poderoso) até à sua queda total. O nada que o neto recebe.

Este é o registo da maior parte do livro.

A parte final muda um pouco e é então aí que o autor coloca as outras personagens a transmitir a sua visão dos acontecimentos.

É também quando tudo acaba por se encaixar e se abrir na nossa frente um exercício profundo de linguagem em que o enredo (pois subsiste uma história) serve apenas como pretexto para a recreação com as palavras que parecem ter vida própria e se escapam, irreverentes, às leis da linearidade.

Como se infere do que acabo de escrever não é um livro fácil. A intenção, no meu ponto de vista, também não é sê-lo. Por vezes é necessário reler trechos ou até capítulos para conseguirmos apanhar, sobretudo, a totalidade da magia das palavras bem como possíveis sentidos que nos escapem numa leitura mais desatenta.

Contudo, devo dizê-lo, é algo que se faz com imenso prazer. Aliás uma segunda leitura não está fora de questão.

Recomendo vivamente para quem tiver paciência para fazer da leitura um exercício de atenção.

5 comentários:

José Alexandre Ramos disse...

Olá. Gostei muito do seu comentário ao livro e acho que ficaria muito bem entre outras opiniões em espaço próprio no site do escritor - www.alanletras.com. É um comentário conciso e acertado, e é deste tipo de opiniões que procuramos para o nosso site. Caso de oponha à publicação integral do seu artigo no site por favor responda para alawebpage@gmail.com. O artigo será citado com link para este blogue e, obviamente, com a identificação do seu autor. Obrigado.

Donagata disse...

Não tenho qualquer problema em que esta minha opinião seja publicada no referido site desde que, como especifica, seja feito o link para este blog. Fico até muito satisfeita por entenderem que a minha opinião está minimamente aceitável e capaz de figurar a par de outras naturalmente mais avalizadas.

Muito obrigada.

Homem de Ferro disse...

O quanto eu adoro estas suas respostas ... sempre tao cirurgicamente acertivas !... :)

Beijo .

susana disse...

cirugicamente acertivas... não se o que hei-de pensar disto.
Parabéns dona gatita. Apesar de não preceber nada da litratura, ah pois!

Donagata disse...

É verdade. veja só quanto estes senhores andam distraídos!