sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

"Exortação aos crocodilos" de António Lobo Antunes


Havia já lido este livro há já alguns anos (talvez oito) quando, num Natal, foi oferecido à minha filha. Confesso que, na altura, tive alguma dificuldade em me aplicar o suficiente na leitura para o apreciar de forma conveniente. Tinha o tempo muitíssimo ocupado, com actividades diversificadas, o que não me deixava grande margem para uma leitura atenta e seguida como é exigência de um livro como este.

Assim, após terminado um livro de um dos irmãos, o mais novo (Nuno Lobo Antunes), completamente diferente no seu estilo, achei que estaria preparada, neste momento em que disponho do tempo da maneira que me apraz, para o reler com a expectativa de melhor apreciar quaisquer subtilezas de estilo, e não só, que me tivessem escapado na primeira leitura.

Pois bem, mais uma vez me levou muito mais tempo do que é normal para ler um livro de dimensão semelhante.

Mais uma vez me vi atrapalhada para acompanhar as personagens sem me perder nos meandros das suas vidas e, sobretudo, sem fazer confusões que tornariam o argumento ininteligível.

Mais uma vez, embora reconheça a imensa mestria necessária para organizar prosa nestes moldes, dava por mim a perguntar-me (sobretudo quando tinha necessidade de voltar uma ou duas páginas atrás para ver o que me tinha escapado para que o resto fizesse algum sentido) se haveria necessidade desta excessiva fragmentação narrativa que pode, e não é difícil que aconteça, desmotivar o leitor menos tenaz.

Será que para se escrever bem é necessário escrever difícil? E reparem, eu até aprecio Lobo Antunes…

Neste livro a narrativa cabe inteiramente a quatro mulheres que partilham segredos comuns por se encontrarem ligadas a um determinado conjunto de homens.

Estes, um grupo de “saudosistas” do anterior regime, oriundos, aparentemente, de diversos meios: burguês, clero e antigos elementos da PIDE, desenvolvem, clandestinamente, perseguições e atentados contra os “comunistas”.

É apenas através do que elas vão desenrolando das suas próprias vidas, desde a infância até à actualidade, que nós vamos decifrando o enredo do livro.

Mimi, Celina, Fátima e Simone, todas elas revelando marcas profundas ao nível da sua estrutura psíquica, devidas a vários factores, todos traumáticos (uma é surda, outra é obrigada a casar muito nova com um homem muito mais velho, outra é sobrinha do bispo, um dos conspiradores e, finalmente a outra sofre de obesidade mórbida tendo encontrado no seu companheiro, o motorista, o seu reduto) vão-nos encaminhando quer de forma inquieta e até brusca, quer de forma surpreendentemente afectuosa, inacreditavelmente terna, através dos acontecimentos que dão corpo ao livro. Embora, a meu ver, o corpo do livro é, na verdade, o próprio imaginário das personagens femininas que o compõem.

Para finalizar. É inegável a mestria literária do autor que faz recurso de técnicas expositivas terrivelmente difíceis. É, sem dúvida, um excelente exemplo de um tipo de literatura contemporânea portuguesa que tem angariado alguns e bons seguidores bem mais recentes.

Contudo, é com algum pudor que o digo: penso que me foi tão difícil ler o livro hoje como já tinha sido há sete ou oito anos atrás.

É muito bom se entretanto conseguirmos não desmotivar e ir lendo até encontrar aquele fiozinho que já não nos deixa largá-lo.

Quando aí chegamos, se chegamos, é fantástico.

4 comentários:

A.Teixeira disse...

Já conhecia a correlação entre o aumento da quantidade das tuas recensões de livros e o teu estado de saúde.

Registo agora como, para além da quantidade, há nessas tuas fases de convalescença também aquilo que me parece um incremento de qualidade: dar a ler António Lobo Antunes a leitores em tal estado é qualquer coisa de POTENTE...

Embora atrasados, aí vão os meus admiradores votos de melhoras.

Donagata disse...

Eu diria que é mais coisa de tola. Só que, quando o comecei a ler, estava de perfeita saúde. Depois, teve de ser.

Obrigada pelos desejos de melhoras, mas está um pouco complicado e eu estou a ficar impaciente.

Anónimo disse...

melhoras!!!claro!O Lobo Antunes tem destas coisas,mas escreve muito bem,por vezes é dificil seguir o raciocinio.é como se diz na giria "stop in,and go",mas muito bom!! O unico livro que ainda não consegui ler,foi "O homem em duplicado"do Saramago que adoro.Já agora aconselho o Viagem de elefante..
Melhoras
Segundo Anónimo:))

Donagata disse...

Segundo Anónimo, agradeço, em primeiro lugar,os seus votos de melhoras. É que isto é mesmo desagradável e para quem, como eu, tem medo que o telhado lhe caia em cima....
Também gosto de Lobo Antunes, mas não posso dizer que seja uma leitura simples e, muito menos numa ocasião como esta em que tenho, de facto, tempo mas as capacidades um pouco embotadas.
Já li a Viagem do Elefante, aliás encontrará aqui o habitual comentário, como a grande maioria dos livros do Saramago, incluindo "O homem Duplicado" de quem sou fã incondicional (quase). Tenho andado à procura dos livros dele de poesia, julgo que tem dois, mas têm sido difícil de encontrar.
Até breve.