terça-feira, 18 de agosto de 2009

“Os passos da cruz” de Nuno Júdice

Sou apreciadora de Nuno Júdice enquanto poeta. Como tal, vou lendo também a sua prosa pois entendo que quem escreve poesia da forma que ele o faz só pode escrever bem.

E escreve. Em relação a isso não restam dúvidas de espécie alguma. Uma escrita excelente, que foge aos cânones tradicionais (não é de leitura à tout cours) e nos transmite a sua sensibilidade através da beleza das palavras e da sua utilização precisa.

Nuno Júdice faz-nos, acompanhando o seu personagem, na actualidade, seguir os passos de uma figura histórica, se bem que bastante obscura e remota em termos de consideração, que terá existido e tido algo para nos contar aí para os finais do século XVII.

Esta mulher, pois de uma mulher se trata, teve uma vida atribulada depois de entregue em casamento a um fidalgo arruinado que mais não pretendia do que o seu chorudo dote. Mal tratada pelo marido, obrigada a actos que a revoltavam e repugnavam, acabou por fugir para um convento onde terminou a sua vida como religiosa.

Nesse convento, em Santos (Lisboa), terá deixado uma auto-biografia. Esse documento é precioso como objecto de análise dos costumes, dos modos, revelados por uma sociedade em grande conturbação em que a própria Corte era o paradigma dos maus exemplos.

Ora, acompanhando o personagem nesta demanda, acabamos por ir ter a uma aldeia esconsa onde terá vivido Antónia Margarida (a tal dama que, depois de se soltar de um casamento tormentoso se recolheu ao convento de Santos).

É aí que começa verdadeiramente a novela. Tudo se entrecruza no tempo. É o passado que já não é passado e está a ser vivido no presente, é o presente que afinal está a ser vivido ainda num terceiro tempo….

É um entrelaçar tão estreito de três tempos históricos diferentes que, por vezes, é difícil separá-los. O próprio personagem com quem vamos acaba por se desencontrar duvidando mesmo da sua identidade.

É uma novela que, a meu ver, tem como tema fulcral a meditação sobre o Tempo e o seu desenrolar. Aliás tema já não novo para Nuno Júdice este entrecruzar de vários Tempos. Podemos encontrá-lo desenvolvido com notável mestria no seu livro “O Anjo da tempestade”.

É um livro bom, bonito, agradável de ler. Contudo, confesso que continuo a preferir o Nuno Júdice poeta…

1 comentário:

Alien Taco disse...

eu preferia-o como escanção.ou bombeiro.ou ortopedista.mas quiz o destino que as palavras ditassem o seu futuro.NA MINHA OPINIÃO FALOU O SEU VERDAdEIRO TALENTO:escriturário.