quarta-feira, 22 de julho de 2009

A propósito do Ano Internacional da Astronomia

Fotografia tirada pela sonda "Mars Express" à região de Cydónia conhecida como "A face de Marte" (ver mais).

Comemoraram-se ontem os quarenta anos da chegada do Homem à lua! Que feito prodigioso! Lembro-me de estar no liceu e, professores e alunas, seguirem de forma compulsiva, as notícias a que íamos tendo acesso.

Há quarenta anos, todos vimos Armstrong descer do Eagle, dar uns quantos passos, “saltitantes” no impoluto solo lunar e, num momento emocionante, colocar a sua bandeira, na lua, deixando assim, para a posteridade, a marca humana.

Como estamos no Ano Internacional da Astronomia entendi oportuno deixar-vos aqui um dos muitos links, onde podem informar-se sobre as afirmações proferidas pelos pioneiros da Lua, em Washington, numa conferência comemorativa do feito.

E que tal seguirmos agora para Marte?

Eu, para já, sigo e levo-vos comigo, para este belíssimo poema de António Gedeão que tão bem espelha esse dia.

“Poema do Homem Novo”

Neil Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até os pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um invólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.
Num sobre humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

António Gedeão; 1970

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