segunda-feira, 29 de março de 2010

“Amor; Città Aperta” de Danyel Guerra


Foi com imensa curiosidade acompanhada de uma grande expectativa (que muitas vezes se torna nefasta dado o nível a que colocamos a fasquia) que li, num ápice, o livro “Amor; Città Aperta” que o próprio Danyel Guerra me havia gentilmente oferecido.

Pois é, foi-me presenteado pelo próprio por quem nutro uma elevada estima e grande consideração, se bem que o nosso conhecimento não seja muito extenso no tempo.

Está assim, pode-se dizer, comprometida a isenção da análise que possa fazer. E, naturalmente até haverá alguma verdade nisso. Contudo, não é a primeira vez que o faço e tento sempre distanciar-me, tanto quanto possível, da relação de conhecimento, amizade ou vínculo familiar que tenho com o autor do que leio.

Mas vamos passar ao que interessa e, na verdade, também ninguém é obrigado a concordar com a minha opinião. É isso mesmo: apenas a minha opinião.

O livro é composto por um conjunto de crónicas, muitas delas já publicadas no Jornal de Notícias (que desperdício) ou em outras brochuras como catálogos de exposições.

Todas elas se iniciam com uma saudação a uma das muitas musas que inspiram o Danyel. Neste caso, se nada me escapou, não as musas do panteão clássico mas as outras, as mais actuais, as mais palpáveis nem que apenas no celulóide da película do cinema, ou nas palavras impressas de um poema…

Todas elas também apresentam, um tanto à laia de subtítulo, excertos de poemas, ditos de cineastas ou de artistas de outras artes, referências aos clássicos, emprestando-lhes, logo aí, uma conotação com o erudito, com a prosa rebuscada que é seu apanágio.

Ao percorrer estas dezanove crónicas deparei-me com a evidência (já esperada, aliás) de um sentido de humor finíssimo que se estampa em todas elas.

Divinos, para quem, como eu aprecia, uma boa facécia, o recurso a jogos de fonética em palavras, bem como jogos de significância das mesmas que ajudam a abrir uma ampla porta ao chiste e à crítica refinada.

Deparei-me com uma escrita riquíssima, daí o meu comentário: “que desperdício”, feito uns parágrafos acima.

É que, sem desprestígio para a escrita jornalística que pode e deve, se me permitem, ser boa, não denota este excepcional registo literário. Até porque, ao destinar-se a um determinado público, não seria, de todo, apreciada ou até, inteiramente compreendida.

À medida que ia progredindo na leitura do livro mais se consolidava em mim a ideia, preconcebida, assumo, de vastíssima cultura que o Danyel possui e que derrama em catadupas imparáveis com o fluir da sua escrita.

Ao longo do que parece ser uma “simples” crónica relativa a uma cidade, um transporte, uma viagem, uma cena de um filme, perpassa todo um mundo de aprofundado conhecimento em áreas como a música, o cinema, a pintura, a história, a literatura e a sua estilística, que são inequivocamente transversais a toda a sua escrita.

Por tudo isto, devo dizer que transformou uma tarde de domingo que prometia ser cinzenta (não tanto por fora, mas na alma) numas horas muito bem passadas.

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