sexta-feira, 23 de outubro de 2009

“Os Anagramas de Varsóvia” de Richard Zimler


Finalmente terminei, há já uns dias, o livro que estava a ler; “Os Anagramas de Varsóvia” de Richard Zimler.

E quando digo finalmente é apenas porque não me lembro de ter demorado tanto tempo a ler um livro que, ainda por cima, me estava a dar um grande prazer ler. O tempo é que era limitado e, além disso, muito fragmentado. Quando pegava um pouquinho no livro era quase como quem estava a roubar algo a alguém…

Bom. Mas apesar de todas essas vicissitudes que só indicam que sou uma gata deveras ocupada, já o terminei.

Ora, o livro, está classificado como um romance policial. Confesso que me Foi um tanto estranho, de início, considerar aquele registo literário bem como aquele argumento, como organizando um romance policial.

Contudo, à medida que ia progredindo, entendi a razão dessa designação e, embora um tanto fora dos cânones tradicionais de um policial (ou então, estando eu de mente um tanto fechada para este modelo), o enredo foi-se desenrolando tendo em vista a busca do ou dos responsáveis pelo assassinato de três crianças residentes no gueto de Varsóvia.

Porém, devo dizer que rapidamente concluí que, ser policial ou não ser policial, no meio de tudo, era o que menos importava. O proveito que o autor terá tirado desse formato (quiçá a sua intenção), terá sido aligeirar um tema muito duro de tratar: a vida dos judeus nos guetos de Varsóvia, situação imposta pelos nazis durante a II Guerra.

Mais do que um romance excelente com a qualidade que, aliás, o autor já nos habituou este livro, narrado por alguém que supostamente está morto e de quem nem é certa a identidade que assume uma vez que era comum, nos guetos, não só utilizarem falsas identidades como usarem anagramas dos seus próprios nomes, é sem qualquer dúvida, um testemunho fundamental para que melhor possamos compreender o que foi a vida dessas pessoas nesses guetos.

Não vou dizer que o enredo tenha a força e o colorido de imaginação que já encontrei em outros livros do mesmo autor. Não achei que tivesse, é um facto. Todavia tem a força da verdade. Narra acontecimentos verídicos que sucederam, de facto com pessoas; estas ou/e outras. Muitas…

Obriga-nos a ler o livro com a nossa capacidade de reflexão sempre em alerta. Isto tudo aconteceu, com pessoas que, como nós, apenas queriam uma vida normal e digna e cometeram o hediondo crime de serem judeus!!! Vejam só!!!

Obriga-nos a reflectir um pouco sobre o legado que a História nos deixou e a capacidade que temos de ir passando uma patine sobre os acontecimentos mais dolorosos. Aqueles que, além do mais, também nos devem envergonhar, e suavizá-los. Se possível, de acordo com a vontade de alguns, apagá-los definitivamente.

É , portanto, um documento fundamental para não deixar cair no esquecimento de ninguém o que foi , neste caso a vida dos judeus na Polónia, neste momento tão obscuro da História da Humanidade, nem branquear responsabilidades de ninguém como está tão em voga. Não há como.

Este livro tem ainda uma particularidade interessante. Abordando um tema de extrema dureza, o autor consegue que os seus dois personagens principais vão pintalgando as suas falas e as suas acções com laivos de humor, por vezes um tanto negro, é certo, mas que consegue converter a obra em algo que se lê sem se chegar ao fim com uma depressão profunda.

Para terminar quero apenas referir que tive o privilégio de assistir a uma apresentação do livro feita pelo autor no Labirintho, no Porto.

Eu ainda não tinha conseguido acabar o livro, com pena minha pois, se já o tivesse feito, provavelmente haveria alguns aspectos que gostaria de ter aprofundado um pouco mais.

O que foi deveras interessante constatar foi a simplicidade e a simpatia que Richard Zimler irradia, criando um ambiente ameno, até algo intimista, familiar, em seu redor.

Depois, e à medida que ia falando sobre o livro, mas não só, ficou evidente (pelo menos para mim) que este foi muito mais do que outro romance que ele quis escrever. Pareceu-me revelar mesmo uma necessidade, quase uma inevitabilidade na sua vida. Ele referiu-se a uma “vontade muito grande”…

É que, ao escrever estas palavras, estava a relatar momentos medonhos que se passaram, seguramente, com familiares seus que viveram nestes guetos.

Uns terão sobrevivido a todo o horror. Outros, seguramente, não.

1 comentário:

cris disse...

coloquei um link des teu post no meu blog. Vai la ver, espero que nao te importes.
Boas leituras!
cris de o tempo entre os meus livros