sábado, 3 de outubro de 2009

“Descascando a cebola” de Gunter Grass



Há já algum tempo que tinha uma certa curiosidade de ler algo deste autor, Prémio Nobel da literatura em 1999. Inclinava-me para “O Tambor” por ser, talvez, a sua obra de maior impacto de acordo com o que tenho lido sobre o assunto.
Contudo, desde a publicação de “Descascando a cebola”, obra auto-biográfica do autor a qual gerou uma grande polémica em seu torno havendo até facções, no meio literário, que contestam a pertinência da manutenção do Nobel, que esmoreci também um pouco nessa minha vontade.
Afinal, aquela pessoa carismática, polémica, que escrevia textos (teatro, poesia…) irónicos, cáusticos até, rondando até o absurdo, que contestava o nazismo, de forma veemente, veio a confessar a sua participação na guerra como nazi convicto…
A verdade é que ultrapassado essa primeira atitude, de reacção mais do que de uma postura reflectida, decidi começar exactamente pelo “pomo da discórdia”. Ou seja, acabei de ler “Descascando a cebola”.

Como já disse, não conheço outras obras do autor. Mas este é um livro que se baseia numa metáfora para nos ir contando a sua vida. Tal como na cebola se vão podendo arrancar as diversas camadas dando sempre lugar a outras, mais profundas, mais escondidas que se lhe seguem, também as recordações humanas são assim. Ao levantar o véu de uma lembrança, é certo que esta vai arrastar consigo outras e outras e ainda outras cada vez mais íntimas, mais escondidas, quiçá esquecidas mesmo até ao momento.

O autor expõe-se inteira e despudoradamente em todos os aspectos do que foi a sua vida.
As tão polémicas revelações de aos 15 anos se ter oferecido como voluntário para as tropas dos submarinos (não foi aceite) e aos 17 ter ingressado nas Waffen- SS tropa de elite do exército do Reich, penso serem apenas meros episódios de uma vida, igual à de tantos jovens alemães dessa época mais ou menos ignorantes de tudo o que de horrendo se ia passando. Curiosa é a percepção que se tem do seu desconhecimento em relação a tudo o que dizia respeito ao holocausto. E, embora estranhasse alguns acontecimentos, nunca os questionou. Aqui, penaliza-se por nunca o ter feito. Só muito mais tarde teve deles inteiro conhecimento, já prisioneiro, também ele, e, mesmo assim, teve dificuldade em acreditar na veracidade do que lhe era dito.
Na minha opinião, nem sequer são estes os episódios mais relevantes para a obra do autor ou para aquilo em que ele se tornou.
Não é algo que possamos esquecer, é certo, assim como também não o podemos fazer em relação a muitas outras confissões que o autor faz revelando-se nos seus mais íntimos desejos, ambições, paixões, grandes sofrimentos, fome pungente, o cativeiro no pós-guerra, dúvidas que lhe surgem mas que também não procura esclarecer.
São tudo momentos que fazem parte da sua vida e que fizeram dele o homem crítico, polémico, interventivo em termos políticos que conhecemos depois. E, ainda no meu ponto de vista, foi este certamente o merecedor do Nobel e não o jovem de 17 anos que foi para a frente de batalha numa atitude de heroísmo e de bem querer servir a pátria comum a tantos jovens.
À medida que vai desenrolando a sua vida misturando, por vezes, planos temporais, vai-nos também desvendando quais os acontecimentos que estiveram na base das suas futuras (passadas) obras quer poéticas, quer pictóricas, escultóricas ou de romance e teatro. Vamos ficando também a saber quais as pessoas que o foram influenciando e o marcaram no sentido de ir moldando o seu carácter.

Não é um artista privilegiado. Entra para a arte através do trabalho braçal duro, industrial que, mais tarde, o levará a outros cada vez mais próximos do desejado, até culminar na escrita o que acontece já em Paris.

Este livro que apesar de ser uma biografia se lê com a vontade de um romance, dá-nos também uma perspectiva do que foi viver na Alemanha entre 1939 e 1959, através das palavras despidas do autor que se dá a conhecer até aos mais íntimos pormenores.

Agora lerei “O Tambor”

2 comentários:

wallper.lima disse...

É engraçado como não podemos nos deixar levar por títulos não é?! -Descascando Cebolas - não imaginei Tudo que foi relato em sua postagem...fiquei até curiosa em ler, aliás a leitura tem um q/de fascínio, onde nos pega de jeito, e nos vemos envolvidas...gostei mto quando vc diz:" tal como na cebola se vão podendo arrancar as diversas camadas dando sempre lugar a outras, mais profundas, mais escondidas que se lhe seguem, também as recordações humanas são assim"... lembranças, guardadas, muitas adormecidas, outras esquecidas...adorei!!! Gosto mto quando vc se mostra.
Bjos daqui...
Waleria Lima.

Donagata disse...

Eu é que agradeço o elogio. Não é difícil comentar o que já está escrito e, ainda por cima, por quem sabe.

Embora tudo o que escrevo seja da minha lavra. Quando refiro palavras do autor, coloco-as entre aspas ou digo que estou a citar.

Um beijo.