quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

"Crónica do Pássaro de Corda" de Haruki Murakami

Acabei hoje de ler “Crónica do Pássaro de Corda” de Haruki Murakami e, mais uma vez me rendi, completamente seduzida, a este incrível romance.

Como já nos habituou, em romances anteriores Haruki Murakami pega numa personagem principal, no caso Toru Okada e, sob o calmo desenrolar de um quotidiano de aparência absolutamente trivial, leva-nos ao longo de 632 páginas, a percorrer um mundo de acontecimentos em que o real e o imaginário se confundem e interligam num nunca acabar de situações inesperadas, absolutamente mágicas. Essa ligação é de tal modo prodigiosa que se torna difícil destrinçar onde acaba a realidade e começa o sonho, o mito.

Toru Okada é o elemento central, aquele que se vai tentando descobrir à medida que enfrenta um intrincado de situações reais e/ou imaginárias. Todavia, encontra-se rodeado de um conjunto de outras personagens tão enigmáticas, tão fantásticas e, contudo, tão banais quanto ele. De grande consistência, não se destinam apenas a dar-lhe “suporte”, existem por si próprias.

O romance toca vários “tempos”, vários locais e várias situações. Apresenta porém um fio condutor: em todas as épocas, em todos os sonhos em todas as camadas da realidade, um “pássaro” que não se vê, apenas se ouve cantar, continua infatigavelmente a dar corda ao mundo.

Não posso deixar de referir as absolutamente incríveis descrições de atrocidades cometidas no fragor da guerra (II guerra mundial). Impressionaram-me sobretudo duas delas: a do massacre dos animais do Zoo na cidade de Hsin-Ching, na Manchúria, e a do dia seguinte no mesmo local. Episódios escritos com extraordinária mestria, transportam-nos ao local provocando-nos sentimentos muito reais, muito vívidos, de asco, de revolta, de horror..

Também como é já hábito, Murakami recorre profusamente à metáfora tornando a sua escrita muito mais subtil. Quanto a mim, talvez seja a do “poço” a mais significativa neste livro.

Não me vou alongar mais neste comentário, embora a vontade seja muita, ou corro o risco de desvendar mais do que o desejável (se não o fiz já).
Recomendo.

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