segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Momento






É Agosto. O dia está quente, sufocante, o ar pesado dificulta cada inspiração.
Estou no bar da praia. Peço um café (um cimbalino, claro) e abro o “Cemitério de pianos”, livro que escolhi para me fazer companhia esta tarde.
Distraidamente vou tomando o café intenso, aromático, viciante e curto e vou-me alheando, deixando a mente vogar enquanto o meu olhar abandona lentamente as páginas do livro e se vai perdendo cada vez mais longe. Pousa nas águas inquietas deste nosso mar. Observo as ondas que se erguem, bordadas de fina espuma branca, e abraçam com ardor as rochas escuras da orla da praia para, imediatamente, se retirarem envergonhadas do seu devaneio apaixonado.
No areal, pouca gente resiste ainda ao vento forte que fustiga os corpos e à mole de nuvens negras que se adensa e se vai aproximando, emprestando a tudo uma patina de sépia, dando a ilusão de sermos figuras de um antigo retrato.
Bem ao longe, parece-me distinguir o súbito clarão de um relâmpago tão fugaz quanto inaudível ainda.
De súbito, grossas pingas caem pesadamente à minha volta. Pingas redondas, espessas, urgentes embora esparsas. Incapazes ainda de suavizarem a opacidade do ar que mantém uma densidade quase palpável.
Guardo o livro e recosto-me na cadeira da esplanada, o mais confortavelmente possível e olho a praia que se estende à minha frente (agora completamente deserta); o mar no seu interminável romance e as gaivotas, suas cúmplices de sempre, que deambulam pela areia salpicada de pingas.
Fecho os olhos e deixo que as gotas redondas me acariciem, me invadam o rosto e se confundam com as lágrimas que teimam em deslizar.
Inspiro lenta e profundamente e entrego-me sem pudores nem culpas à volúpia, à doce lassidão, à tensa emoção de uma trovoada de verão. À eternidade do momento.