quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Manhã insólita


Uma vez que, ultimamente, só aqui tenho colocado textos bastante tristes, escritos em momentos de grande fragilidade emocional seja por uma razão ou por outra, achei por bem contar-vos um episódio que revela apenas uma pontinha dos momentos fantásticos que estão reservados aos donos (ou súbditos, como queiram) de animais.
São momentos como este (e são tantos) que nos fazem suportar melhor um momento de perda e conseguir encarar a recordação com um sorriso nos lábios.

(Maicat's Carlota Joaquina de Sua Graça)

Foi numa manhã em que, como em muita outras me encontrava sozinha em casa e, com grande esforço e pouca vontade, tentava dedicar-me a detestadas tarefas domésticas, que algo insólito me aconteceu.

Claro está que dizer que me encontrava sozinha é, sem margem para dúvida, um eufemismo da minha parte quando, até para as mais básicas necessidades fisiológicas, sou acompanhada e supervisionada por alguns pares de olhos atentos não vá a coisa correr mal (o que aliás não seria caso inédito!)….

Obviamente que, dizer que me aconteceu algo de insólito, não é também nada de novo dado que sou a rainha das situações estranhas, raras, esquisitas, insólitas, chamem-lhe o que quiserem, mas julgo não acontecerem à grande maioria das pessoas.

Pois bem, estava eu, como já disse a arrumar a sala quando me pareceu ouvir vozes vindas de cima, não do além, desiludam-se, não, era mesmo do andar de cima.

Um tanto intrigada, subo as escadas e paro no hall dos quartos para ver se entendia de onde provinha o som que se tornava mais nítido à medida que ia subindo.

Percebi então que vinha do andar ainda mais acima (mesmo assim ainda não do além), onde tenho um grande escritório e guardo a maioria dos meus livros.

Subo novo lance de escadas e deparo-me com o televisor ligado. Estranhei, de facto, pois tinha andado ali por baixo a arrumar os quartos e não tinha ouvido nada até àquela ocasião. Bem, como contra factos não há argumentos, peguei no comando, desliguei a televisão e mimoseei os meus filhos, lá onde estivessem, com epítetos não muito abonatórios em função do seu descuido. Ponderei até a hipótese de serem accionistas maioritários da EDP sem que eu o soubesse.

Regressei ao que estava a fazer, já completamente alheada do sucedido. Depois de mais algumas tarefas concluídas e outras aldrabadas, pareceu-me que ouvia novamente barulho de vozes ou algo semelhante.

Aí, já sem delongas mas com maior estranheza, fui rápida e directamente ao escritório onde me confrontei com algo inacreditável; o televisor estava novamente ligado debitando um programa muito fraquinho que dava durante a manhã em que a estridência das vozes me parecia ser o factor mais destacável.

Parei, de comando na mão, começando mesmo a duvidar das minhas faculdades mentais. Então eu não tinha ido, talvez há 20, 30 minutos, desligar o televisor? Seria que o tinha desligado mesmo? O comando estaria a funcionar?

Da forma mais pragmática possível perante a situação há que testar o comando várias vezes, ligando e desligando o televisor, constatando que funcionava na perfeição. Pronto, pensei, julguei que desliguei mas distraí-me.

Regressei para baixo não sem antes verificar que, efectivamente, desta vez, ficava desligado.

Contudo algo me ficou a azucrinar o juízo pois eu tinha quase, quase a certeza de o haver desligado da primeira vez. Assim, fui-me mantendo ali pelos quartos a inventar coisas para não fazer, nem sei muito bem à espera de quê, diga-se.

Como nada aconteceu e já estava farta de andar a fazer que fazia, lá fui, desta feita à lavandaria que é no fundo do quintal, levar uma roupa para meter na máquina.

Logo que regressei não tive dúvidas. A televisão estava ligada e no auge da sua estridência!

Aí, confesso que comecei a não achar piada nenhuma. Mas, ainda deitando mão ao pragmatismo que me é inerente, subo os dois lances de escadas a correr pois, cá para mim, só podia ser alguém (algum dos meus filhos) que estivesse a gozar com a minha cara e, podem crer apanhá-lo-ia.

Chego lá cima esbaforida e, na verdade, além do televisor ligado e com o som em decibéis insuportáveis, das estantes com os livros, dos computadores, dos sofás, da aparelhagem de som, tudo objectos inanimados e que com muita dificuldade poderiam ligar o aparelho em causa, apenas se encontrava a Carlota confortavelmente esticada a dormir no sofá.

Já bastante apoquentada com a minha sanidade mental, desligo a coisa e desço bastante intrigada. Que raio de avaria seria essa que só se manifestava se não estivesse presente? Sim, porque me mantive lá um bom bocado para confirmar que aquilo ficava desligado.

Reconheço que estava deveras preocupada comigo mas, contudo, não inteiramente convencida. Deixei-me ficar algum tempo, em silêncio, no fundinho das escadas que são daquelas em caracol, portanto bem abertas, para ver se percebia o que se passava, se é que era para perceber…

Às tantas, já cansada de estar ali e julgando aperceber-me de um ténue ruído, subo o mais silenciosamente possível e, logo que, ainda a meio das escadas, tenho uma perspectiva do local dos acontecimentos, vejo a cena mais caricata, mais estranha e mais cómica que poderia imaginar:

A Carlota (que gosta pouco de silêncio, é verdade,) caminhava diligentemente para lá e para cá sobre o comando que havia sempre ficado no sofá (local onde habitualmente está) ao mesmo tempo que ia olhando para o televisor esperando o desejado efeito. Eu, de queixo caído até ao umbigo, quedei-me no lugar onde estava prevendo já o que iria acontecer.

E não foram goradas as minhas expectativas. Tanto se passeou sobre o comando, ora para lá, ora para cá que, finalmente, lá conseguiu acertar com as patas no botão ou botões necessários para ligar o tão pretendido barulho tendo, de seguida, voltado a estender-se na posição em que sempre a havia encontrado.

Acabei de subir a escada dizendo em voz autoritária: Carlota! Que raio de coisa te deu agora para fazer que quase me dava uma coisinha má?! Parece impossível!

Ela olhou-me do alto da sua indiferença de felina e também da superioridade, sobranceria até, que o próprio nome lhe confere (Carlota Joaquina) e pouco mais fez do que “arrulhar” mansamente voltando a fechar os olhos como quem diz : deixa-me em paz. Já que hoje não paras, deixa-me cá com a companhia que arranjei.

E a verdade, se querem saber, é que me rendi à sua vontade. Não só a deixei com o programa que havia escolhido como me sentei ao seu lado a ler e a fazer-lhe companhia. Bom pretexto, diga-se, para me eximir dos tão aborrecidos afazeres domésticos.

Afinal a Carlota é que estava certa…


7 comentários:

Ti Coelha disse...

Gatinha esperta :) E assim quase se mata alguém do coração!

Bj

susana disse...

Fantástico. Eu às vezes chamo à XX Carlota Joaquina... ui.

Donagata disse...

São seres de temperamento forte... Isso é bom.

maria disse...

os gatos são no mínimo diabólicos... sempre tive e e tenho gatos e eles continuam a surpreender-me com as cenas que fazem... também tive uma Carlota herdada da actriz Zita Duarte e era um espanto de gatinha :)
parabéns pelos teus gatinhos que valem mais que muita gente que por aí anda!
xi
maria de são pedro

Donagata disse...

Não tenho a menor dúvida a esse respeito, maria de são pedro. Infelizmente para nós, humanos, os animais têm muito mais poder de entrega e de generosidade do que nós.
Tenho muitos animais e esta opinião é fruto da mera observação.

Um beijo

Chatwinesque disse...

Wherever they are, cats rule!

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Não há dúvida que ela tem pose de rainha lolol

Que gira!

Beijinhos :))