quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Humana Tragédia

(Imagem: Diabo no nono círculo do Inferno de Gustave Doré)

Houvera eu ter tido a ventura de ter sido contemplada com estro equivalente ao de Dante Alighieri e os meus fieis, bem como os incautos, leitores ver-se-iam a braços com uma obra literária não menos infernal do que o seu próprio Inferno. O tal da comédia que o Divino inspirou.

É que anteontem passei grande parte da tarde e início da noite no Inferno!

Não. Acreditem que não estou a inventar nem tampouco a agigantar as palavras . Não alcanço designar de outra forma o ambiente que é vivido nas entranhas de uma unidade de urgência de um hospital público nestes dias em que vivemos.

Nem quero mesmo imaginar que aquilo a que eu assisti se passe em todos os serviços de urgência de todos os hospitais.

Mas, mesmo que assim não seja e apenas alguns sejam contemplados com tal horror, mesmo se assim for, só posso louvar a resignação, a paixão o arrojo, em suma, o espírito de missão de quem tem que labutar (com responsabilidades aditadas, dado que são vidas de pessoas que estão em causa, as quais nada têm de mais precioso), em semelhante babel.

É, de facto, uma verdadeira epopeia da qual o comum dos mortais, aquele que ainda não teve a necessidade e, por isso, a oportunidade de utilizar estes serviços, não tem nem a mais pequena consciência.

Eu atrever-me-ia a opinar que a entrada desses locais, ostentasse em espaço bem visível, algo onde se pudesse ler:

“Deixai toda a esperança, ó vós que entrais!”, tal como escreveu Dante no Portal do seu Inferno…

Direis que exagero! Respondo-vos que não.

Senão, cogitai comigo:

Corredores longos e estreitos onde se amontoam macas nas quais jazem corpos, sobretudo de anciãos, de olhos perdidos, esquecidos, na sua maioria sós, que nos olham sem nos ver. Uns, ligeiramente gemebundos, outros gritando alto a sua dor. Uns tartamudeando palavras ininteligíveis, outros, em silêncio, parecendo ter desistido da peleja.

A todo o momento as macas são puxadas, empurradas, desviadas, encostadas, afastadas a fim de que outras possam circular. Também essas com olhos de aflição, de dor, de abandono, de: socorro!!!!

A par, cadeiras de rodas, onde se encontram, também prostrados, corpos menos renunciantes, mais esperançosos, menos resignados com o infortúnio, ainda…

Os odores que as macas emanam, provenientes dos fluidos corporais e, não só, que esses olhos sofridos, envergonhados, pesarosos não conseguem reter são, apesar dos empenhos possíveis dos funcionários, nauseabundos.

São ainda aqueles que, embora padecentes, se aguentam em pé, encostados às paredes, ou sentados nas parcas cadeiras que se encontram em recantos que formam pequenas ilhas cujas pessoas são o que podemos encontrar mais próximo da normalidade, que vão ajudando com uma palavra de conforto aqui, um ajuste das costas da maca ali, um pedido de ajuda para aquela cama, se faz favor, o senhor está a esvair-se em sangue!!!

Exagero? Achais que sim?

E no meio de todo este inferno, repito, onde o ser humano se encontra despojado do seu decoro, da sua dignidade, carente, perdido, revoltado, intratável, belicoso… os profissionais de saúde, por vezes sem local recatado para observar as partes mais recônditas do doente, exercem, com grande dignidade a sua missão, quase sempre mal compreendida.

São médicos, não são deus. Tratam doentes, não fazem milagres!!!!

Fora eu um Botticelli, um Gustave Doré ou até mesmo um Dali, porque não, e teria adquirido inspiração para as mais negras, mas também as mais marcantes imagens da minha vida…

6 comentários:

Mar Arável disse...

Como a compreendo

São muros senhora

Donagata disse...

E tão altos a obliterar a dignidade de todos nós...

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Donagata, ninguém deveria ter que conviver com essas condições desumanas, nem doentes, nem acompanhantes, nem profissionais de saúde.

Donagata disse...

Pois não, mas é o que temos... E é aí que me dou conta do quão frágil é o fio que faz de nós humanos, gente com dignidade...

Chatwinesque disse...

Bem, resta-me agradecer pela parte que me toca como médico... Infelizmente as pessoas nem sempre percebem que não somos os responsáveis por esse ambiente.

Donagata disse...

Só quem estiver muito distraído ou então, tão revoltado que nem dê para discorrer. Embora, provavelmente, haja as excepções...