segunda-feira, 19 de abril de 2010

Antígona


(Imagem: Alexandra Lucas Coelho e Sr. General Loureiro dos Santos, os conferencistas)

Hoje apetece-me falar da Antígona. Porquê? Podereis perguntar-vos até algo aflitos, quem sabe.
Mas haverá alguma coisa a dizer sobre a Antígona que ainda não tenha sido dito?
Tendo Sófocles escrito esta tragédia há cerca de 2500 anos é muito improvável, pensareis, que haja ainda algo de novo a extrair do seu conteúdo, do seu significado.
Eu também pensava assim.
Contudo, na passada sexta-feira, tive o raro privilégio de ter sido convidada, não só para assistir à representação da citada peça no Teatro Nacional de S. João (na mais prestigiante das companhias, não posso deixar de o referir), como de poder ter acompanhado a Conferência que , tal como outras, antecederão e antecederam a referida representação e têm por tema “Análises ao Fado e ao Sangue”.

Confesso que quando vi o tema fiquei bastante curiosa de saber a forma que os dois conferencistas iriam utilizar para “descalçar esta bota”. É que, assim à primeira vista e sem lhe dedicar muito tempo de atenção parecia algo pouco relacionado com a peça…
Mas, com um pouco de reflexão, entendi que não era assim tão distante como me parecera à primeira vista. Porém, embora tenha vislumbrado um elo de ligação não deixava de considerar um tema difícil de abordar sem se tornar maçador, ou então, repetitivo.

Os conferencistas em causa eram:
Alexandra Lucas Coelho e o General Loureiro dos Santos moderados por Amílcar Correia

Dispensam ambos apresentações. A primeira pelo seu brilhante percurso enquanto jornalista (actualmente, colaboradora do Público), bem como pelo seu conhecimento acerca dos assuntos do Médio Oriente em relação aos quais é uma verdadeira especialista com aquele saber de experiência feito.

O General Loureiro dos Santos porque, além de ter sido Ministro da Defesa nos IV e V Governos Constitucionais, foi actor de uma carreira militar brilhante, autor de inúmeros livros sobre estratégia, artigos em diversas publicações, professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas é, neste momento um conferencista requisitado bem como o analista de assuntos militares (nacionais ou internacionais) por excelência. Não é incomum vê-lo num qualquer canal televisivo a comentar acontecimentos do foro do seu vasto conhecimento.

Feitas, como convinha, estas brevíssimas apresentações, passarei a dizer o que a conferência me suscitou.

Alexandra Lucas Coelho deu por título à sua intervenção “As Guerras da Honra”. Abordou o tema de forma brilhante tendo-o ilustrado profusamente com casos verídicos com que ela se deparou em países vários do Médio Oriente, em que a “honra” do homem ainda se lava com sangue ainda que, muitas vezes, com o da mulher…
Falou-nos da honra colectiva: de uma casta, de uma aldeia, de uma religião. E falou-nos dessa “honra” e da sua defesa de uma forma que poderíamos perfeitamente, num momento de distracção, julgarmo-nos ainda a viver o tempo de Antígona . Não o estaremos?
Aliás, parafraseando A.L.C. que por sua vez parafraseia Antígona, temos que “não há pior sofrimento do que viver sem honra”.

É dona de uma escrita (a sua intervenção foi lida), interessantíssima, apaixonada e apaixonante que não nos deixa perder um som de tudo quanto diz.
Francamente muito boa a sua intervenção a qual instigou em mim a vontade de ler os seus livros.

Depois desta intervenção de tão alto gabarito seguiu-se então a do Sr. General que tinha por tema “O Tempo de Sófocles: Os Conflitos (Internos ou Externos) na Antiguidade e no nosso tempo.

Numa perspectiva diferente, dentro do que é a sua área de conhecimento, mimoseou-nos (pelo menos a mim fê-lo) com uma espantosa lição de história em que esteve sempre presente, também, o conceito de “honra” como geradora, moderadora, ou causa de desfecho de conflitos.

Falou-nos, naquele seu tom coloquial de quem está a dizer coisas banais(!), da ordem internacional, dos sistemas militares e da forma de fazer guerra há dois mil e tal anos em plena fase de hegemonia do sistema das cidades-estado. Relembrei as guerras do Peloponeso, relembrei os sistemas autocrático e democrático de Esparta e Atenas. Aprendi algumas das características que diferençavam os exércitos apeados dos que usavam cavalos ou carros que os tornavam tão mais eficazes….
Estabeleceu também um paralelo, se assim pode ser considerado, entre os conflitos na Antiguidade e os do Nosso Tempo. E, espantem-se! Não é que nada mudou?
Nem as causas, nem as diversas formas de exercer o poder ou de a ele reagir nem, tampouco, os diversos tipos de comando ou direcção.
Pelo menos assim o entendi. Mais uma vez, em quase tudo, nos poderíamos reportar a Antígona, ao seu tempo histórico…

É mesmo caso para dizer, e vou tentar parafrasear João Luís Pereira o comissário para a organização deste evento que, ao jantar dizia:
“Mas afinal o que é que temos andado a fazer durante estes dois mil e quatrocentos anos? Sófocles já dizia tudo. Era perfeitamente actual”

4 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Deve ter sido mesmo muito interessante!

Donagata disse...

Se foi! Deverias gostar...

redonda disse...

A Alexandra Lucas Coelho vai estar um destes dias na Comunidade de Leitores da Almedina no Arrábida.

Donagata disse...

Agradeço a informação. Vou tentar ir.