quinta-feira, 15 de julho de 2010

“Comboio nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier


Não conhecia o autor, nunca tinha manuseado o livro numa das minhas frequentes e intermináveis visitas às livrarias nem tampouco tinha ouvido falar dele.

Foi-me oferecido por um amigo muito querido que, aparentemente, lê muito bem os meus gostos, os meus interesses e necessidades intelectuais. Em boa hora, diga-se, pois constituiu para mim uma muito agradável surpresa.

O livro é um tratado de argumentos de cariz filosófico que nos vão obrigando, através das razões de outros, a completar as nossas próprias reflexões acerca da vida, da sua lógica, dos seus paradoxos, dos seus constrangimentos (impostos por nós na maioria das vezes).

Na forma de romance, temos um professor suíço, de línguas mortas (latim e grego) que, de um dia para o outro, decide dar uma volta de 180º à sua vida.
Tudo é despoletado pelo seu encontro numa ponte de Berna, onde ele passa, como habitualmente, todos os dia àquela hora, com uma mulher que, aparentemente vai tentar o suicídio. A mulher é portuguesa e ele entabula uma “conversa” com ela a qual acaba por vir a segui-lo até à faculdade, até à sua aula.

Gregorius encanta-se com a sonoridade da língua dessa estranha pedindo-lhe até para repetir a palavra “Português” vezes sem conta apenas para que lhe pudesse saborear o som:
o ó que ela surpreendentemente pronunciara como um u, a claridade crescente e estranhamente abafada do ê e o suave che final soaram-lhe como uma melodia que aos seus ouvidos perdurou muito mais tempo do que na realidade e que ele simplesmente gostaria de ter escutado durante todo o resto do dia”

Nesse mesmo dia, Raimund Gregorius depara-se com um livro de um escritor português (Amadeu do Prado, ficcionado), médico que é a gota que determina toda a mudança de rumo na sua vida. A quebra da sua rotina de tantos anos e o salto para o absoluto desconhecido.

Decide partir para Lisboa, local de origem do autor português e seguir-lhe o rasto encontrando-se com as personagens que o seu livro refere.

E assim nos vamos deixando transportar.
Entre excertos do “livro “ de Prado, autênticos mimos de cariz poético-filosófico, impressionantes na sua urgência, coragem e sinceridade e as palavras de Raimund, vamos percorrendo toda a vida de um e, talvez o período mais importante da vida do outro, tendo como pano de fundo uma Lisboa maravilhosa, de uma luminosidade única, beijada pelo Tejo com ternura. Porém, apesar da sua impressionante beleza, podem-se notar ainda as marcas, quiçá indeléveis, da sua herança fascista.

Recomendo vivamente.

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