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quarta-feira, 25 de março de 2015

Envelheço com as horas


Em dias assim
em que não sei o que te dizer,
estendo as mãos.
E no vento que delas se desprende
procuro palavras em estado translúcido.
Mergulho em rios que não são rios
e busco intensamente metáforas
que também não são metáforas…
procuro nas raízes das pedras uma silhueta,
uma penumbra,
o brilho de uma cor com que esboce a palavra
que não será palavra…
De olhos fechados mudo a direcção do silêncio.
Procuro ouvir para lá das vozes
que acordam o fundo das páginas.
Agito as mãos.
Acordo o gato

e envelheço com as horas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Natais passados (Chaves)

Presépio da Tia Elsa

Rendo-me à reverberação dos dias felizes
e reúno devagarinho lembranças quentes e muitas, e muito boas,
das que deixam um rasto doce de uma saudade morna:

Os natais da minha infância.

E lembro os pais que brilhavam muito
e riam muito e se vestiam de sons vibrantes e doces.
Os irmãos pequeninos, tão pequeninos,
tão precisados de mim!
Os avós, branquinhos, enrugados e felizes
e eu tão precisada deles.
Os tios muito novos e grandes e vivos,
de gargalhadas vermelhas, fortes, excitantes,
quase assustadoras.
E o frio, o cheiro a resina, o pinheiro,
as bolinhas, os anjinhos, as fitas douradas,
a casa enorme,
tudo enorme, tudo mágico.
Os fogões grandes e muito quentes,
o sapatinho, a chaminé, o borralho,
os gatos no borralho, a candura…
E as rabanadas! Tão boas as rabanadas!
A mesa grande e cheia de cores muito doces e muito quentes.
A fava, o brinde, o chocolate quente na manhã de Natal
e as loucinhas de barro, as bonecas de papelão,
as meiinhas, os casaquinhos de tricô, os sapatos novos…
E os sonhos, tantos sonhos, um nunca acabar de sonhos.
Uma história por contar.
E um céu muito negro por onde escorregava o olhar.
E as estrelas, tantas, tantas estrelas.
Tão brilhantes! Tão lá longe!
O sabor bom do espanto…
E a pena que eu tinha, e tenho,
de um pai natal perdido naquele céu,
naquele frio, naquele tempo, naquele sonho…

no meu sortilégio.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Já aqui estive em dias mais claros

Praia do Marreco

Já aqui estive em dias mais claros.

Aqui, no meu bar, da minha praia. Olho o mar que hoje se perde num manto de nevoeiro espesso e viscoso. Lascivo, a coberto da bruma, lambe os rochedos e deixa-os cobertos de uma baba negra onde as gaivotas pousam numa geometria precisa que apenas elas sabem. Pontos brancos na névoa cinzenta. Silenciosas. Sem olhar devido à distância. Melhor. De olhar invisível.

A praia estende-se à minha frente sem brilho, sem o ouro habitual. Mais fria. Menos cúmplice. Hoje vestida de branco e vermelho de barraquinhas lembrando o verão. Mesmo assim mais bonita quando despida. Quando dourada, quando apenas areia e mar e céu e silhuetas de barcos ao fundo.   

Hoje o silêncio é mais pesado. É feito de ruídos surdos e húmidos e de gaivotas de olhar invisível que me assustam. E, apesar do vermelho das barraquinhas, as poucas palavras soam líquidas e escuras, submersas na espessura da névoa, no olhar invisível das gaivotas e perdem-se, esvaziam-se, não são mais palavras.

E eu, que já aqui estive em dias mais claros, imersa no assombro, procuro entalhar o tempo entre os finos grãos de areia e continuar imortal.


Marreco 2014-08-24

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Feliz Aniversário Mamã


Procuro palavras bonitas para ti, hoje.
Daquelas que cabem em poemas e fazem brilhar muito os olhos daqueles a quem se dirigem.
Gostava tanto de te fazer brilhar os olhos!
Procuro as palavras.
Mas há dias em que elas custam a sair. Colam-se à alma e desarrumam-se em silêncios antigos e bons.
Afinal não preciso de palavras.
Estão tão gastas as palavras! São tão pequeninas as palavras!
Nunca significaram muito para nós, as palavras.
Meros muros onde nos refugiamos sempre. Onde vestimos a alma de panos grosseiros e escondemos a seda e o veludo de que é feita.
Por recato? Porque nos assusta o macio?
Onde a cobrimos de vermelhos fortes, de cinzas e de negro escondendo as cores feitas de luz…
Tememos o brilho?
Connosco bastam os silêncios. São sempre mais eloquentes os silêncios.
Hoje, mais uma vez, olha-me nos olhos e lê-me a cor do silêncio.


terça-feira, 10 de junho de 2014

Vida em construção

"Um instante em rosa e cinza" Matosinhos 2014

Juntei um instante a outro instante.
Depois, outro instante ainda, daqueles longos, descoloridos, de textura viscosa, muito iguais, que não nos querem deixar.
Acrescento agora, com mais ligeireza, todos aqueles que encontro.
Mas dos outros, dos fugazes, normalmente muito vermelhos, laranjas, azuis ou verdes e que não conseguimos prender por muito tempo.
Que teimam em nos fugir.
Polvilho profusamente o preparado, de momentos.
Todos os momentos brilhantes de que me lembro.
Muitos momentos. Muito brilhantes.  
Procuro conservar-lhes, aos instantes, a eternidade.
Junto tudo e envolvo com cuidado e muita audácia à mistura,
e pitadas de encantamento, e bocadinhos salgados de candura…


Sopro vagarosamente a nuvem até se dissipar um dia.

sábado, 17 de maio de 2014

Maio


Flores de Maio "Chez moi"
Ainda tão moço este Maio,
Mal sacudiu o aroma dourado das giestas que lhe adoçaram a madrugada e já se adivinha aquele calor feito de cores muito novas e muito frescas e muito macias das flores; de todas as pétalas muito lavadas pelas neblinas fininhas das manhãs.

Tão moço este Maio…
sem sombras, de primaveras maduras, de dias muito definidos, muito grandes, muito bonitos que antecipam entardeceres de perfumes rosados e muito doces, de vozes amolecidas, de cantos cálidos que se dissolvem nas arestas das cores e nos emocionam pelo deslumbre.

Este Maio
gordo de mães, de Marias, de Marias que são também mães, de cerejas túrgidas e macias e muito doces, de raios de sol envaidecidos que tropeçam nas cortinas, que são as folhas muito verdes e muito frescas, e nos roçam como carícias.

Maio
sem remorsos, todo feito de amanhãs urgentes, de vozes paralelas, de passados curtos, quase sem vincos em que se emendem memórias.

E o feitiço dos amanheceres maiores do que o mundo, das horas que se enrolam em sonhos brandos, dos espaços que se confundem, dos silêncios do tamanho de todos os silêncios…

E o sortilégio das palavras que podem ser belas, e são, e que fazem de cada ser
um poeta.


2014-05-11 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

De novo Abril

Fotografia de Maria Manuela Silva

E de novo Abril.
E de novo o céu muito azul, o brilho dos sons, as cores dos silêncios, as madrugadas serenas e os cheiros doces do espanto que apenas o tempo desmedido nos traz.

E de novo Abril.
E os verdes, tantos verdes, verdes fininhos como cordéis de amarrar quimeras, com brilhos de assombro e sopros de memórias desarranjadas pelas brisas.

E de novo Abril
E os restos de restos de sonhos. E muitas ilusões perdidas numa penumbra baça apenas com rascunhos de liberdade. E memórias incómodas que desarrumam o absurdo dos poemas e lhes reorganizam o paradigma. E muitas vontades amarrotadas.

E de novo Abril
E muitos políticos de plástico com gravatas de plástico, sorrisos de plástico e palavras medíocres de chumbo muito negro e muito pesado. Palavras sem som mas com muito frio. E inamovíveis porque cuspidas por lábios muito frios empurradas por dentes muito brancos e muito perfeitos, também eles plásticos. Palavras que doem na alma e embrulham as esperanças em cinzas. E matam as ilusões.

E de novo Abril
Feito quase só de escombros.
Procuro os ténues resíduos de esperança por entre os verdes fininhos e discretos, os sons coloridos, o frescor das antemanhãs serenas, os sons cintilantes dos muitos azuis que pintam a primavera.
E enxergo a dignidade na revolta branda, o absoluto das vontades, o poema sujo de cóleras, o desassossego das metáforas.

É de novo Abril!


2014-04-25

domingo, 16 de março de 2014

Xs

Xs

Decidiste morrer.
E decidiste fazê-lo sozinha, tímida e discretamente como sempre viveste.
Enrolaste-te bem, embrulhaste-te no teu manto de pêlo e escolheste o canto mais esconso do armário mais esconso de todos os armários esconsos que normalmente preferes.
Assim! Desta forma serena e recatada que é a tua.
Assim, sem carícias, sem mimos, sem ronrons, sem cuidados, sem medo?
Envolta em toalhas esperavas pacientemente pela morte. Sem ruído. Apenas tu. E talvez a dor. E, quem sabe, a saudade de um passado mais que perfeito…
Condicionavas o futuro.
Assim, à meia-luz, fechaste com toda a força os olhos até quase não os conseguires abrir. Contiveste o mar que há neles e tentaste engoli-lo afogando-te em águas turvas de pavores, de aflições, de miasmas de morte.
E sangraste.
E suportaste a dor, a sombra (que pedias), os eflúvios que de ti se despenduravam.
E sangraste.
E sentiste a vida desprender-se lenta e implacavelmente de ti.
E esperaste.
Esperaste…


Depois, há aqueles estorvos dos acasos aos quais nem a meia-luz, nem os olhos sustendo o mar com muita força escapam. Inexplicáveis mas mais que presentes.
Chegaram na vontade ilógica de te pegar, de te acariciar, de te ter junto a mim, de escutar o teu ronronar, de sentir a maciez do teu pelo.
E procurei-te.
Busquei, todos os sítios onde eu sabia que gostavas de te esconder e que gostava que julgasses secretos.
Devagarinho. Não queria perturbar-te. Apenas pegar-te, mimar-te, sentir-te.
E cheguei ao canto mais esconso do armário mais esconso de todos os armários esconsos onde gostavas de te esconder.
Toquei-te.
E nem a sombra de um som.
Apenas um roçagar de penumbras. Um frio inusitado em ti. Uma aspereza que não costumas ter. Uma inércia no teu corpo que eu não conheço. Um esboço de sopro. Apenas…
E doeu-me esse sopro. E arrepiou-me esse frio. E crisparam-se sulcos na minha pele. E soltaram-se ondas e ondas de um mar feito da tristeza mais triste que se pode sentir.
Enrolou-se-me a alma.
Desenrolei-te mansamente. Chamei por ti. Abri-te os olhos. Limpei-te o sangue.
Assombrou-se o tempo. Desmanchou-se o dia. Ganharam forma os vazios.

E tu não morreste.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Simplesmente são


Há dias em que as pessoas se sentem verdadeiramente alegres. São dias claros, com brilho. Têm o perfume do rosa, do laranja e do vermelho dos morangos muito maduros. São dias quentes independentemente da temperatura que possa fazer. 

Nesses dias as pessoas estão a distância nenhuma da serendipidade. E eis que surgem, do nada, pessoas encantadoras, coisas encantadoras, acontecimentos encantadores. Enfim, um verdadeiro concurso de encantos. E as pessoas sentem-se encantadas…

Nestes dias as pessoas são sobretudo infâncias e não sentem saudades de futuro nenhum. Por isso esses dias têm também aroma de verde-claro como os rebentos muito tenros das árvores.

Geralmente tende a não haver vazios, nesses dias. Sacode-se a alma, enrola-se a lucidez, desmede-se o tempo, matizam-se os sentidos e inalam-se todos os perfumes de todas as palavras que nunca foram e nunca serão ditas. Há silêncios, portanto, mas são silêncios bons como o silêncio das borboletas, das nuvens, dos sonhos e das palavras que se gritam.

Ah, e são dias em que a água é perdulariamente doce. Não desse doce do açúcar, mas do outro, do das coisas verdadeiramente doces e boas como o orvalho da manhã ou um raio de sol nos joelhos.


Há pessoas que têm dias em que se sentem verdadeiramente alegres e, nesses dias, essas pessoas simplesmente são. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Hoje Não


Não te aproximes hoje,
não te (re)conheço,
não quero mesmo saber o que vejo.
Deixa-me aqui só,
apenas eu e as minhas realidades esdrúxulas,
eu e os meus silêncios de tule,
eu e a minha lentidão de nuvem,
eu e esta sede de mais, de sempre mais,
eu e este desassossego que me ausenta.
Não te aproximes hoje
não saberia o que te dizer,
não saberia como te olhar.
Deixa-me ficar aqui,
só eu e esta escuridão insuportavelmente clara,
eu e a minha insanidade sóbria,
eu e esta imbecilidade gorda,
eu e as minhas confusões bastantes,
e os tules em silêncio…
e as nuvens vagarosas…
e a sede… e a inexistência…
Não te aproximes hoje.
Hoje não.
Não posso.

Hoje quero a lonjura do mar!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Querer



O que eu queria, mas queria mesmo muito
com aquele querer que consome energias, acorda todas as vontades,
acende pressas e abre brechas na alma


aquele querer intenso que desassossega,
que empurra fúrias com um ruído murcho de flores de seda,
que conduz vidas ao comprido do tempo


com aquele querer em tons de rubro,
que incendeia o sangue, dilata veias, varre pudores
e provoca um bafo quase tangível, espesso, que quase dói


o que eu queria mesmo…


Era que parasse a chuva.

Estou farta!!!!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Poema inacabado


Outra noite, outra praia, outro bar, eu, não outra,
e o abismo de um poema inacabado... 
a mesma respiração, o mesmo apelo forte do mar,
o mesmo fragor, mais sereno, talvez, mais prenhe de mistério.
As mesmas cores mais outras, menos outras…
Outras gaivotas, as mesmas, outros sopros,
a lua, o mesmo paradoxo, outros muitos paradoxos,
o suave embalo da noite e o perfume denso das coisas densas de Verão.
As sombras menos sombras, menos tristes, outras sombras, música nas sombras…
e o mesmo abismo do mesmo poema inacabado…

sábado, 3 de agosto de 2013

O Medo



O medo começa num ponto frio no centro da barriga
e cresce em ondas de fogo e gelo
criando côncavos profundos
e esquinas vivas  onde me sento e espero.
Insinua-se nas mais recônditas sinapses e veste-se de cinzas
e roxos e castanhos muito feios e muito baços.
Por vezes, o medo, torna o ar duro, denso e ácido
e fá-lo crescer demais na garganta e impede-me de gritar.
E mastigo-o, mastigo-o sem parar e sem me dar conta que o faço…
O medo faz-me pesar as pálpebras e fecho-as
com muita força porque não posso com elas.
E elas tombam quase até aos pés.
E as lágrimas não têm por onde sair e secam.
Sem lágrimas tenho os olhos baços e secos e redondos e em fogo.
O medo começa num ponto muito frio no centro da barriga
e não termina nunca.

Nem quando se incendeiam os olhos…

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Verões da minha infância

Chaves. Verão de 1958

Recordo os verões da minha infância.

Eram verões em que o tempo era enorme e as brisas nos penteavam sorrisos grandes.

Verões que carregavam muitos perfumes bons e muito maduros. Traziam também as libelinhas, as andorinhas, muitas andorinhas nos beirais com ovinhos e filhos pequenos de bico muito aberto. E eu podia brincar ao ar livre até ao pousar da noite que era muito à noite mesmo. Traziam as papoilas, as talhadas de melancia, os figos e os pêssegos, as abelhas, as cobras, os sardões… O medo que a minha mãe tinha das cobras!!!! E dos sardões. Não tanto mas também tinha. Quando precisava de sair, nas tardes desses verões, chamava-se o caseiro que vinha com uma enxada afugentar as que se estendiam sobre o muro, ao sol. Só depois a minha mãe ia até ao portão.

Havia pintainhos pequeninos, amarelos e às cores, que eu gostava de ver correr com passinhos miudinhos atrás da mãe gorda e de penas tufadas.

Havia muito feno que eu adorava cheirar e palheiros onde ia escorregar e buscar comichões incómodas e persistentes. E ralhos de mãe e banhos e roupa fresquinha. E havia ervas muito verdes que eu colhia para brincar às casinhas, E eram o arroz, os bifes, as saladas… havia ervas e vontades para tudo.

Havia passeios à azenha, ou ao açude, mais raramente, onde tomávamos banho no rio de águas muito frias e muito limpas com maillots que a minha mãe tinha tricotado e que ficavam muito duros e muito tesos. E lanches que comia sentada no liteiro com a pele muito arrepiada e muito fresca depois desses banhos que tentava fazer durar por todos os tempos do mundo.

Havia ainda as longas tardes com o avô. Sentados numa fraga aprendi que o granito era bordado com grandes pontos de quartzo, de feldspato e fios brilhantes de mica. Aprendi a reconhecer o xisto, o calcário, o basalto e a desenhar nas pedras. Aprendi a gostar muito dos malmequeres e de papoilas. A separar as pétalas das sépalas e a passar os dedos nos estames para ficar com eles pintados de pólen.  Aprendi a assobiar em palheiras, a apanhar grilos a reconhecer poupas e cucos e melros e pardais, são lindos os pardais, e ouriços-cacheiros e toupeiras.

À noite adorava esticar muito o pescoço e alargar o olhar para um céu muito grande que costumava haver nesses verões e, ainda com o meu avô, tratar pelo nome a Ursa Maior, a Menor, a Cassiopeia, a Orion… E depois, pendurada nas estrelas, adormecer ao seu colo.


Tenho saudades dos verões da minha infância. É que as noites, agora, não são tão demoradas, o céu é bem mais pequeno e já não encontro estrelas onde
me pendurar.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Por do sol na Foz


Deslizo lentamente para esta varanda emprestada.
Estendo a pele e busco uma sombra de arrepio.
Encontro um ar parado, denso e quieto, enfermo de calor.
E, ao longe uma nesga de mar sem rumores.
Por sobre esse mar estende-se o sol
que resvala langoroso e gordo por sobre as águas
bêbado de sono e de abundâncias de laranja, vermelho, azul…
E, serenamente, quase sem dar conta,
instalam-se as cores da noite, os seus enigmas, os seus cicios,
os seus silêncios que apenas os poetas e as gaivotas
e as andorinhas sabem respirar.
E cobrem então essa nesga de mar
e esta varanda que alguém hoje me emprestou.


"Obviamente ...Gata"




Pois é, há já muito tempo que deveria aqui ter deixado este registo mas as solicitações são muitas e o tempo vai passando...

A verdade é que publiquei o meu novo livro de poesia "Obviamente... Gata"!

O seu lançamento foi no dia 22 do mês de Junho numa festa muito bonita no auditório da Casa do Infante.
Os amigos, os conhecidos, pessoas que de uma forma ou de outra se cruzaram comigo algum dia compunham uma belíssima (e grande) moldura humana.

O João Gesta e o General Loureiro dos Santos juntaram à sua generosidade as suas imensas competências e fizeram intervenções carinhosas e brilhantes na sua acutilância, na sua clareza.

Fiquei comovida facto que ainda hoje me paralisa um pouco as palavras quando falo destes momentos bonitos.

A Ana Celeste Ferreira e a Ana Afonso vestiram os meus poemas de intenções lindas, de subtilezas que eu própria lhes desconhecia.

O Ensemble Minnessang encantou todos com a sua música.

E o resto da noite, bom, o resto da noite foi de festa e de afectos.

Muito obrigada a todos

quinta-feira, 20 de junho de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

Sal nos olhos



Gosto muito dos Domingos.
Os Domingos são, definitivamente, uma coisa boa!
São aqueles dias em que acordamos com uma, mais adivinhada do que presente, sensação de resiliência.
Experimentamos aquela estranha compulsão de sermos mais felizes do que habitualmente, de estarmos mais contentes do que habitualmente, mais soltos do que habitualmente, de fazermos coisas mais divertidas, mais estimulantes, mais relaxantes, mais … do que habitualmente.
De sermos, mais do que habitualmente, aquilo que supomos mais nós.
É o dia em que nos apetece o azul, o amarelo ou até o lilás. Apetece-nos um sol que não seja apenas uma metáfora e que os pássaros, as flores, as borboletas não sejam apenas a métrica de uma saudade.

Mas, às vezes, nos Domingos, vivem-se devagarinho os minutos, um de cada vez, com sabor a horas que sabem a dias, que sabem a anos que, afinal, se esgotaram em meros segundos.
Às vezes, nos Domingos, derivamos assustados e sem pé por entre a escassez das rotinas; por entre o pó de uma fantasia que se esfumou e se perdeu na realidade suja de silêncios, de ausências, de estorvos, de palavras frouxas, ou azedas, ou azedas e frouxas…
Por vezes, nos Domingos, não conseguimos mais do que um cinzento que nos obscurece todas as flores, todas as borboletas, todos os pássaros, os rios, os sonhos… e mesmo as metáforas de todos os sóis e de todas as luas…
E aos Domingos estamos mais atentos e sentimos mais…

Os Domingos, às vezes…

Às vezes nos domingos tenho sal nos olhos e choro.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Abril



Todos deveriam conhecer Abril!
Abril é mesmo bonito sobretudo quando Abril é em Portugal.
Abril cheira ao sal das lágrimas que se penduram pelos bicos, nas pontas das folhas ébrias de verde e brincam ao sabor das diabruras da brisa.
Cheira ao som das cores de todas as borboletas que pousam em todas as flores que cheiram ao seu próprio voo.
Abril sabe bem.
Sabe a chilreios de aves livres que se passeiam livres por céus de um azul muito livre e muito límpido e muito fresco.
Abril tem muitas imagens de guardar memórias.
Imagens lindas como cravos vermelhos, rostos felizes, dedos em “vê”, pessoas na praça, muitas pessoas na praça, olhares de esperança, sorrisos de quem confia…
Mas Abril, às vezes, cada vez mais vezes, também tem chuva, dias tristes, cores de desesperança, cravos de fazer de conta, “grândolas” desafinadas, olhares cinzentos, bocas sem sorrisos, ou se sorrisos, de esguelha, não sorrisos, crispações, mãos erguidas em punhos bem cheios de revolta e dor.
E passeiam na praça eunucos incompetentes, muito bem vestidos, muito bem falantes, de sorrisos resplandecentes que estragam Abril. Que lhe tiram o viço, o cheiro bom das coisas boas. Que calcam as flores no minuto antes de voarem e assustam as aves e matam as borboletas porque, sem o voo das flores, já não vale a pena viver.
E há menos pessoas nessa praça onde sobejam os tais eunucos inábeis, muito menos pessoas na praça e muito mais desalento, muita, mas muita saudade da cor da voz das pessoas que afinavam cantando a “Grândola” quando a Grândola tinha o sabor, a frescura e a limpidez do azul da Liberdade.

sábado, 30 de março de 2013

Chuva



Rodo o copo que ergo da mesa.
Com ele rodam três pedrinhas de gelo
que tilintam em tremuras de virgem
naquele fluido esbranquiçado que as afoga.
Lá fora busco uma sugestão de azul,
de amarelo ou de rosa que me perfumem a alma.
Porém, não azul, não amarelo, não rosa.
Apenas um quadro desbotado,
uma silhueta de angústias que se acinzenta
sob a surdez escarninha do ruído da chuva.
Baixo lentamente as pálpebras
numa tentativa de limitar esse mar
que se avoluma, se pregueia
e finalmente escorre lento
e mergulha no meu corpo,
líquido… 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sons de echarpe




Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda, 
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo  
que me trouxeste não me lembro bem de onde,
lamento…
mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos,
esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,
suspiros que repuxam a alma 
e a silhueta de todas as coisas.

sábado, 9 de março de 2013


Hoje, na baixa do Porto, comemora-se Manuel António Pina.

Também lá estarei.

Entretanto deixo aqui um humilde contributo para que nunca se apague a sua memória

http://dl.dropbox.com/u/62231909/A%20Poesia%20vai%20acabar%20de%20Manuel%20Ant%C3%B3nio%20Pina.m4a


A Poesia Vai Acabar 


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


Manuel António Pina

sábado, 2 de março de 2013

A Ana




A Ana É.
A Ana é exactamente aquilo que é preciso para se Ser.
É a rigorosa medida de tudo o que faz dela…
a Ana.

A Ana tem um aroma macio que sabe bem.

A Ana é um rio de águas revoltas,
de um azul manso porque
se aquieta na doçura das margens,
na brandura dos limos do leito.

Quando a Ana ri a minha alma enche
e abre-se numa sinfonia de cores.

A Ana dá beijos cor de amora
que deliciam e me fazem bem,
que me fazem querer ser pequenina
e neles arrumar todas as memórias boas;
todas as que cabem numa criança.

A Ana é …  apenas a Ana.

2013-03-02 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Coisas de pensar


"...e ajusto os cantos do sentir"

Estou tão triste hoje!

E doí-me sobretudo porque não vislumbro nenhuma razão mais especial para esta pena que se instalou em mim.

Não. São estas coisas apenas de pensar que chegam de mansinho e se arrumam nas nossas cabeças…
São lembranças de cores sombrias que se arrastam até encontrarem o lugar certo na memória. E doem. 

É aquela ponta pequenina de saudade que, como um afiado aguilhão, se me encosta à ilharga da lembrança. 

É aquele fragmento tão minúsculo de um tempo que não vivi mas no qual não me encontrarei mais.

É a sugestão da desilusão, do fim de um ciclo, de uma era que o não foi. Um relógio que parou antes mesmo de ter tempo para o tempo.

Hoje, saio de mansinho com os olhos pela janela, penduro-me na laranjeira do jardim, aconchego-me nas folhas verdes e ajusto apenas cantos de sentir…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma história de amor


"A Love Story" de Louis Wain

Eu acreditava na perenidade do amor.
Não da paixão.
A paixão consome-se no seu próprio ardor.
Mas no amor eu cria.
Eu julgava que ia amar e ser amada
com a mesma intensidade, a mesma força cega,
a mesma entrega despojada dos primeiros tempos.
Eu cuidava que o amor era assim.
Unicamente amar e ser amada.
Serenamente amada.
Seguramente amada.
Sempre.
Amar.
Unicamente.