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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Mais um Natal



Mais um Natal. 

Adoro o Natal 

mas há sempre uma gota de melancolia 

pendurada no cós das luzes, 

das cores, dos cheiros, dos sons. 

É que são essas luzes, 

essas cores, esses cheiros, esses sons 

que me levam pelos sulcos do tempo 

a espreitar outros natais.

Os natais das tranças feitas pela mãe, 

das pinhas a abrir na lareira,

do chocolate quente pela manhã 

adoçado pela alegria dos tios, 

dos avós, dos pais

todos tão lindos e tão eternos.

E então inquietam-se as palavras 

que ficam pequeninas e se prendem nos olhos

- assim como que a espreitar segredos.

São os segredos dos natais de hoje. 

Os natais das árvores que já não cheiram a pinho 

mas se erguem majestosas 

em autênticas explosões de luz e cor, 

os natais dos irmãos, dos cunhados, 

dos sobrinhos de risos alegres e cheios de futuro, 

da mãe que já não faz tranças 

e que foi, 

paulatinamente, 

perdendo a sua eternidade, 

dos amigos cada vez mais presentes na lembrança, 

como na vida 

mas, sobretudo, 

os natais que vislumbro no olhar limpo do neto 

quando, já tranquila, 

lhe afago os caracóis 

e lhe vou sussurrando promessas de 

“para sempre”.

 

 

Celeste Pereira

2022-12-22

 

 

 

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Natal cá de casa


Tudo está igual no Natal cá de casa:
O pinheiro, grande, cuidado e enfeitado de gatos.
O presépio maior do que nunca: cascatas que jorram água,
moinhos que rodam velas,
fontes onde pastores bebem água, 
os três reis magos
seguindo caminho
pelos montes de musgo embranquecido de neve.
O Menino Jesus
à entrada,
de braços bem abertos, recebendo todos.
Os cheiros quentes e doces.
As panelas enormes.
O crepitar da lenha na lareira.
Os arranjos de pinheiro e azevinho.
As coroas nas portas. As luzes nas varandas.
As árvores do jardim que brilham muito.
Tudo está igual.
Mas é um igual tão diferente!
Em cada novo natal
parece instalar-se nas estrelas
um odor ocre aos natais passados que as apagam um pouco.
Talvez também elas tenham já gasto um tanto do seu fulgor.
Os lugares cá em casa vão ficando maiores,
as luzes mais opacas,
os fogos mais apagados, embora bem acesos,
e o frio cada vez mais azul e mais frio.
As paixões parecem mais acanhadas
e perderam as cores vibrantes de que vivem.
Talvez lhes sobrem memórias
e tenham dificuldade em adormecer os medos,
ou os risos não sejam os suficientes
nem brilhem como costumavam brilhar.
Talvez se tenham quebrado algumas hastes
das que seguram os sonhos.
São frágeis os sonhos, escapam-se com facilidade.
Escorrem pelas paredes
junto com os silêncios que nos segredam aos ouvidos
e nos desentendem com o mundo.
Tudo está igual no Natal cá de casa.
E eu continuo a ouvir o crepitar da lenha na lareira.
Celeste Pereira 26-12-2015

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Natais passados (Chaves)

Presépio da Tia Elsa

Rendo-me à reverberação dos dias felizes
e reúno devagarinho lembranças quentes e muitas, e muito boas,
das que deixam um rasto doce de uma saudade morna:

Os natais da minha infância.

E lembro os pais que brilhavam muito
e riam muito e se vestiam de sons vibrantes e doces.
Os irmãos pequeninos, tão pequeninos,
tão precisados de mim!
Os avós, branquinhos, enrugados e felizes
e eu tão precisada deles.
Os tios muito novos e grandes e vivos,
de gargalhadas vermelhas, fortes, excitantes,
quase assustadoras.
E o frio, o cheiro a resina, o pinheiro,
as bolinhas, os anjinhos, as fitas douradas,
a casa enorme,
tudo enorme, tudo mágico.
Os fogões grandes e muito quentes,
o sapatinho, a chaminé, o borralho,
os gatos no borralho, a candura…
E as rabanadas! Tão boas as rabanadas!
A mesa grande e cheia de cores muito doces e muito quentes.
A fava, o brinde, o chocolate quente na manhã de Natal
e as loucinhas de barro, as bonecas de papelão,
as meiinhas, os casaquinhos de tricô, os sapatos novos…
E os sonhos, tantos sonhos, um nunca acabar de sonhos.
Uma história por contar.
E um céu muito negro por onde escorregava o olhar.
E as estrelas, tantas, tantas estrelas.
Tão brilhantes! Tão lá longe!
O sabor bom do espanto…
E a pena que eu tinha, e tenho,
de um pai natal perdido naquele céu,
naquele frio, naquele tempo, naquele sonho…

no meu sortilégio.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Foi mesmo difícil!


Bom. Tinha mesmo de ser.

Está a chegar o Natal e não tinha ainda nada alusivo à quadra que é, queiramos ou não, para todos, crentes, agnósticos, ateus mesmo, uma quadra festiva.

Se o não for por outra razão, é-o, sem dúvida, pelo avivar quase generalizado do sentimento de família e, consequentemente, pela maior tendência para apertar esses laços.

Como habitualmente o Natal será passado cá em casa onde junto toda a família. Neste momento, quatro gerações muito bem representadas.

Portanto, como já disse, tinha mesmo de ser.

Atirar para longe as tristezas, as indolências, as preguiças, as hipersensibilidades de senhora de idade e… enfeitar a casa para a tornar um local acolhedor a todos quantos virão para partilhar comigo esta festa.

Tudo isto, antes do Natal, claro.

Consegui!

E é com orgulho que vos mostro a minha árvore de Natal.

Atrevam-se lá a dizer que não está linda!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Boas Festas

Pois bem. Estamos a chegar àquele limite em que já parece mal não ter ainda abordado sequer o Natal. Quadra, na minha opinião, sobrevalorizada e que, também de acordo com a minha opinião, vai perdendo cada vez mais o seu sentido.

Contudo, dado que ninguém tem culpa deste meu cepticismo em curva manifestamente ascendente, decidi corrigir hoje essa minha imperdoável falta e, embora de forma pouco convencional, desejar a todos quantos por aqui vão passando e me vão acompanhando ao longo dos dias (e, inexplicavelmente, devo dizer que ainda são uns quantinhos) um Felicíssimo Natal gozado na companhia daqueles que vos são mais queridos e que o ano vindouro traga todas aquelas coisas boas que almejam.

Bom, essas e já agora mais umas quantinhas de surpresa. São tão boas as surpresas!

O que já não será surpresa para todos os que aqui vêm é a minha falta de habilidade. Portanto, refreiem aí as vossas expectativas.
Perceberão o que quero dizer depois de verem e ouvirem o meu postal.

Paciência. Não se pode ser bom em tudo!

É claro que deveria ser também proibido não ser bom em absolutamente nada. mas uma vez que não é...


Send your own ElfYourself eCards

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

História antiga

(Imagem: Fuga para o Egipto de Paula Rego)
Era uma vez, lá na Judeia, um rei,
Feio bicho, de resto:
Um cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E na verdade, assim acontecia,
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Ou não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga, Antologia Poética

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Este já passou!

(Imagem: Tudo pronto para receber a família.)
(Imagem: Pormenor do centro de mesa)

Finalmente acabou o Natal!
Desiluda-se quem possa pensar que tenho alguma coisa contra o nascimento do tal Menino (ou de outro qualquer). Não, não tenho.
Simplesmente, uma vez que não vivo a quadra com o espírito religioso que ela pressupõe e, precisamente por ser supostamente esse o espírito que deveria estar subjacente a tudo o resto e, na maioria das vezes não está, desagrada-me profundamente o carácter absurdamente consumista que tomou e com que eu inevitavelmente pactuo embora contrariada. A verdade, porém, é que não consigo deixar de o fazer; a tradição é um forte poder!

Todavia, devo dizer, que hoje, dia 27, um pouco mais relaxada, até já nem acho a quadra assim tão deprimente!
Consegui juntar cá em casa toda a família. Éramos 21. Consegui o ânimo necessário para a alindar de modo a que todos sentissemos a festa e, mais importante (não é certamente o mais importante, mas sim o que mais me preocupava), consegui cozinhar aceitavelmente para esta gente toda de modo a ficarem razoavelmente satisfeitos. Enfim, pelo menos ninguém aparentou um ar suficientemente nauseado para me criar traumatismos psicológicos relativos ao meu desempenho culinário. Mas também são todos tão queridos....

A mesa era grande e reinou a animação própria das reuniões familiares. Estavam presentes quatro gerações! É que eu já tenho uma sobrinha neta...
As Avós encabeçavam a mesa mas, os mais animados, eram os seis sobrinhos adolescentes com quem fui entabulando conversas, tipo, refrescantes, tipo acerca de cenas totil fixes, ou então, tipo aquelas cenas das notas, tipo assim muito injustas, até porque, tipo a prof. era totil chata, pá.
Á meia-noite abriram-se os presentes com a confusão habitual de papéis rasgados, fitas arrancadas, embrulhos trocados e exclamações mais ou menos entusiasmadas.
Os mais novos foram novamente os mais animados até porque são os únicos alvoroçados quanto aos presentes de Natal.

Por fim, regressaram às suas casas, deixando para trás os despojos da festa. E nós, os da casa, depois de recompormos a sala e concluirmos os preparativos necessários para voltar a receber as mesmas pessoas no dia seguinte para o almoço do Dia de Natal, colocámos os nossos sapatos (já/ainda não há sapatinhos) junto à árvore e fomos dormir sonhando, se calhar, com as surpresas que lá iríamos encontrar de manhã.

É que para nós, cá os da casa, o Pai Natal ainda existe...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Boas Festas

(Imagem: Cat's corous by Louis Wain)
Apenas umas palavrinhas que pretendem ser assim uma espécie de mensagem de Natal.

Desejo a todos os que por aqui costumam passar um excelente Natal, com tudo aquilo a que cada um considerar ter direito.

Desejo que tenham animadas reuniões de família e, sobretudo, reuniões em que o mais importante não sejam os presentes que se recebem ou se dão mas sim o prazer de estarem juntos.

Consigamos todos usufruir da alegria que é termos uma família que amamos, pequena ou grande, de alguns amigos com quem possamos realmente contar e da tranquilidade de vivermos em paz.

Sejam felizes!!!

domingo, 23 de dezembro de 2007

NATAL

(Imagem: Loneliness de Chagal)
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?
Sidónio Muralha
Obras Completas do Poeta
Lisboa, Universitária Editora, 2002

Recordar

sábado, 22 de dezembro de 2007

Poemas de Natal


NATAL

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.


E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.


Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.


A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

Poemas de Natal


(Imagem: Aldeia de Natal, da net)
Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor
Há neve que faz mal
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar
Chove no Natal presente
Antes isso que
nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Poemas de Natal

(Imagem da net)

Este é seguramente um dos meus preferidos. Apreciem-no! Vale a pena!

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta

De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinhamesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinhodo Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Árvore de Natal

(Imagem: a dita- cuja árvore de Natal. A gatinha que se vê (mal) à direita, na imagem, não é adereço, é a Utopia, um doce de gata que, obviamente, ajudou nas decorações e agora está a descansar.)

Finalmente lá me consegui deixar de “panunfices” (desculpem, mas aprendi esta palavra com um amigo e andava à procura de pretexto para a utilizar. É encantadora...), dei um pontapé no desinteresse e outro na inércia, deitei mãos à obra e dei início às decorações de Natal cá de casa.

Não julguem que é tarefa fácil! A casa é grandinha e, a verdade, é que sou bastante esquisitinha nestas coisas. É que, tenho para mim que as pessoas que comigo irão partilhar esta festa, merecem muito mais que a simples refeição tradicional. Merecem que tente proporcionar-lhes um ambiente festivo, acolhedor e, se possível, de bom gosto.

A decoração natalícia é uma tarefa que considero de família, portanto escolhemos, sempre que possível, um dia em que estejamos todos em casa para dar início ao processo.
Então lá fomos ao sótão buscar as caixas (cinco e grandes) que contêm os enfeites acumulados ao longo dos anos. Há que tirar tudo cá para fora, escolher o que vai ser utilizado este ano e rearrumar o que resta.

Depois foi só ir colocando os enfeites de acordo com o plano previamente estabelecido o qual havia já sido acordado de forma consensual. Normalmente tenho direito a voto de desempate (embora as más línguas lhe chamem “veto” mas eu nem sei o que isso é).

E com tudo isto lá deixámos a árvore de Natal feita assim como alguns, poucos, arranjos.
Agora é só ir continuando...