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domingo, 16 de março de 2014

Xs

Xs

Decidiste morrer.
E decidiste fazê-lo sozinha, tímida e discretamente como sempre viveste.
Enrolaste-te bem, embrulhaste-te no teu manto de pêlo e escolheste o canto mais esconso do armário mais esconso de todos os armários esconsos que normalmente preferes.
Assim! Desta forma serena e recatada que é a tua.
Assim, sem carícias, sem mimos, sem ronrons, sem cuidados, sem medo?
Envolta em toalhas esperavas pacientemente pela morte. Sem ruído. Apenas tu. E talvez a dor. E, quem sabe, a saudade de um passado mais que perfeito…
Condicionavas o futuro.
Assim, à meia-luz, fechaste com toda a força os olhos até quase não os conseguires abrir. Contiveste o mar que há neles e tentaste engoli-lo afogando-te em águas turvas de pavores, de aflições, de miasmas de morte.
E sangraste.
E suportaste a dor, a sombra (que pedias), os eflúvios que de ti se despenduravam.
E sangraste.
E sentiste a vida desprender-se lenta e implacavelmente de ti.
E esperaste.
Esperaste…


Depois, há aqueles estorvos dos acasos aos quais nem a meia-luz, nem os olhos sustendo o mar com muita força escapam. Inexplicáveis mas mais que presentes.
Chegaram na vontade ilógica de te pegar, de te acariciar, de te ter junto a mim, de escutar o teu ronronar, de sentir a maciez do teu pelo.
E procurei-te.
Busquei, todos os sítios onde eu sabia que gostavas de te esconder e que gostava que julgasses secretos.
Devagarinho. Não queria perturbar-te. Apenas pegar-te, mimar-te, sentir-te.
E cheguei ao canto mais esconso do armário mais esconso de todos os armários esconsos onde gostavas de te esconder.
Toquei-te.
E nem a sombra de um som.
Apenas um roçagar de penumbras. Um frio inusitado em ti. Uma aspereza que não costumas ter. Uma inércia no teu corpo que eu não conheço. Um esboço de sopro. Apenas…
E doeu-me esse sopro. E arrepiou-me esse frio. E crisparam-se sulcos na minha pele. E soltaram-se ondas e ondas de um mar feito da tristeza mais triste que se pode sentir.
Enrolou-se-me a alma.
Desenrolei-te mansamente. Chamei por ti. Abri-te os olhos. Limpei-te o sangue.
Assombrou-se o tempo. Desmanchou-se o dia. Ganharam forma os vazios.

E tu não morreste.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Lembras-te?


A Carlota e o Calvin há tanto tempo...

Lembras-te Carlota?

Claro que lembras. Como o poderias esquecer!? Daquele dia em que, pela primeira vez vos trouxe um daqueles brinquedos que se penduram em algum lado e exibem, na ponta, algo muito apelativo para vocês brincarem?

Era um passarinho muito colorido, de fartas penas, que saltitava no fundo de um elástico o qual prendi no puxador da porta da cozinha.

E que desconsolada que eu fiquei!

Foi sempre um dos brinquedos preferidos de todos os bebés felinos cá de casa e tu, chegaste-te próximo, cheiraste-o, olhaste-o com algum desprezo (foi o que me pareceu…) e viraste costas com toda aquela pose que te caracterizava já nessa altura.

O teu irmão, porém, mal viu aquele objecto ali ao dependuro, entregou-se afanosamente à árdua tarefa de o resgatar.
E abocanhava, e puxava, e esticava o elástico até não dar mais de si. Até que, não aguentando a força que tinha de fazer (era tão pequenito, ele!) o largava e retomava tudo desde o início.
Tu, esperavas sentada uns bons passos atrás e mirava-lo desdenhosamente, com pena até. Pelo menos era o que me parecia…

De repente levantaste-te, caminhaste decididamente até ao brinquedo, mantiveste-o parado com as unhas de uma patinha e, calma e eficientemente, com os dentes, cortaste o elástico e depositaste o “passarinho” em frente ao teu irmão que assistia atónito e sem coragem de interferir.
Retiraste-te depois, altaneira e indiferente e, tenho quase a certeza que apenas não abanaste a cabeça de incredulidade e algum desdém, creio, por mero pudor e educação.

Lembras-te? Como podias ter esquecido!

O Calvin (o teu irmão), esse, ficou estupefacto, absolutamente desolado e com ar de quem não entendeu coisa nenhuma. É certo que tinha o brinquedo ali mesmo à mão, perdão, patinha de semear mas a verdade é que este não tinha já metade da piada.
Ainda lhe deu uns empurrõezitos, umas cheiradelas, para te fazer o jeito julguei eu, mas rapidamente perdeu o interesse.

Tive pena dele. Tão pequenino que ele era. Lembras-te Carlota? Como ele dependia de ti para tanta coisa!

Querias ensiná-lo porém ele não estava preparado para aprender o que tu já tão bem sabias.

Amarrei as duas pontas do elástico com um nozito e lá refiz o brinquedo quase com a perfeição original embora um pouco mais curto.

E como ficou contente o Calvin!

Não tardaram dois minutos já ele se agarrava de unhas e dentes ao “passarito”, de penas amolecidas de tanta dentada, esticando o elástico até o perder... para de novo o ir buscar.

Mais uma vez chegaste à cozinha, apreciaste a cena durante uns breves minutos até que, com ar complacente mas professoral, voltaste a cortar o elástico com os dentes e depositaste o brinquedo junto do Calvin.

E eu, Carlota, lembras-te? fartei-me de rir e atrasei o jantar indefinidamente nesse dia . E que orgulhosa estava. Como eras esperta!

O Calvin voltou a não achar piada nenhuma, pareceu-me e, mais uma vez se desinteressou.

E a brincadeira repetiu-se várias vezes, que paciência!!!! até que já não tinha mais elástico para dar nó.

Ainda te lembrarias Carlota? Eu não pude nunca esquecer…

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Apenas para pensar



"Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí..."

Mario Quintana

sábado, 16 de maio de 2009

Porque as pessoas também podem ser educadas...



Aproxima-se o período das férias e vai aumentando exponencialmente o número de animais abandonados.

Em boa verdade, não são apenas as férias. É que um cachorro pequenino ou um gatinho bebé são tão encantadores!!!! São tão giros para ter lá em casa! Ui, tão fofinhos!

O problema, e se é um problema, é que não ficam sempre pequeninos, requerem atenção e trabalhos adicionais, um espaço adequado, cuidados de saúde e, o pior de tudo, é que não têm um botãozinho para desligar.

Ninguém é obrigado a gostar de ter animais em casa.
Agora, a partir do momento em que se opta pela adopção de um animal, aí sim. Aí assumimos obrigações que como cidadãos bem formados e sensíveis, temos o dever de cumprir.

Infelizmente, uma grande parte da nossa população não está mentalizada para este tipo de situações e, é com a maior dos à vontades que, uma família vai, por vezes com os filhos pequenos, levar o animal "de estimação"(?), que viveu consigo algum tempo, entregá-lo ao canil (e já todos sabemos o fim que o espera), pois deixou de caber lá em casa; dá muita despesa; faz muito barulho; arranha os sofás, trepa pelos cortinados, enche tudo de pelo, às vezes distrai-se e faz xixi no chão, vamos de férias.....
Tudo considerações a ter em conta ANTES da adopção. Nada disto é surpresa. São mesmo assim os animais. E é nessas pequenas coisas que reside também uma boa parte do seu encanto.

Não consigo entender a insensibilidade de quem, depois de conviver, um dia que seja, com um animal tem a coragem de o largar à sua (pouca) sorte. Aliás, o seu maior azar, foi certamente o dono que lhe calhou em sorte...

No meio de tudo isto, falta-me ainda falar da total inacção das autarquias a quem, na minha opinião deveriam competir as obrigações de acolher, castrar e procurar donos adequados a essas pobres criaturas que sofrem horrores por serem mais susceptíveis à dedicação e a confiar do que nós.

Contudo, na grande maioria dos casos, a autarquia (concelho) limita-se a ter um canil (já tive a infelicidade de visitar alguns e são espaços que apenas posso descrever como dantescos), onde os animais permanecem por alguns dias, em condições indescritíveis, até serem abatidos.

Não posso acabar sem deixar aqui um BEM_HAJAM para todas as associações que se dedicam a recolher, tratar, alojar e colocar animais que lhes vão ter às mãos. Na maior parte das vezes quase sem apoios nenhuns, usam o seu tempo, o seu dinheiro e a boa-vontade de alguns colaboradores para minimizar este problema.

Fazem aquilo que competiria às Câmaras Municipais fazer se mais não fosse por uma questão de higiene e saúde pública

Alinhar ao centro

Eles não nos abandonam!... porque o fazemos nós?

Vamos tentar dar uma volta a uma situação revoltante e que nos coloca num nível de civismo só comparável ao do 3ºmundo...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"Aqui e Agora"

Como várias vezes já referi não sou fã de televisão procurando apenas assistir ao Telejornal do Canal 1, a algumas entrevistas ou debates acerca de assuntos ou com pessoas que me suscitem algum interesse e, mesmo assim, fico normalmente defraudada.

Foi também o caso de hoje. Sabia que, num programa que é habitual às quintas-feiras, na SIC, após o Noticiário “Aqui e Agora” iria ser discutido um tema que muito me interessa: Direitos dos animais.

De entre os assuntos que compõem tão vasto tema iriam ser discutidos, sobretudo dois: as touradas e os animais usados no circo.

Os intervenientes eram João Palha Ribeiro Telles, cavaleiro tauromáquico, Victor Hugo Cardinalli, empresário circense, Miguel Moutinho, julgo que presidente da Associação Animal e Nuno Paixão veterinário especializado nos Estados Unidos em comportamento animal.

Enfim, na minha opinião foi confrangedora a participação dos elementos que defendiam quer as touradas quer a presença dos animais nos circos (para mim, devo dizer, ainda bem). Neste caso, defendia Victor Hugo Cardinalli que os animais eram muito bem tratados embora o espaço fosse sempre muito restrito (impróprio para as suas dimensões) salvo dois meses no ano, mas a manter porque há pessoas que gostam de animais no circo e se os não tiver as pessoas vão lá menos (inviabilizando financeiramente o circo. Ora aqui está o busílis da questão).

Em relação à tourada, os seus defensores inclusivamente assumiam que o touro sofria, de várias formas, nas lides Era criado com todas as mordomias, com muito amor e carinho apenas para ser toureado. Ou seja, criado para abater, ou pelo menos sofrer. O homem inflige dor no animal voluntariamente o que, espante-se é assumido como uma relação normal.


(Está-se mesmo a ver que não sofrem!)

Tudo isto defendendo a manutenção da tradição.

Então, mantenham-se as fogueiras como meio de castigo humano! Porque não? Era tradicional!

Os outros dois elementos revelaram, quanto a mim, muito mais nível. Contudo o debate foi morno dado que os seua opositores não tinham nível para refutar. Opinavam com muito fracos argumentos (não existem) e como se estivessem numa séria disputa…

Como sempre fiquei com um gosto amargo na boca. Não sou fundamentalista, mas há coisas que considero injustificáveis e inqualificáveis numa sociedade que eu gostaria de julgar evoluída.