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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Descaradamente, como uma criança


Há quarenta e três anos eu tive um filho.
E era lindo esse filho.
Julgo que era lindo
como todos os filhos que nascem de nós.
Há quarenta e três anos
eu soube o que era submergir no torvelinho do assombro.
Soube que os sonhos
podem vencer a essência dos impossíveis
e tornarem-se realidades lindas
concretas e suaves como a pele das flores.
Soube que daí para a frente nada seria igual,
acabar-se-iam as horas vazias,
os espaços em branco
e tudo se concentraria nessa espécie de prodígio,
nessa vida pequenina que eu segurava nos braços
e que, quase inexplicavelmente, amava até ao infinito.
Sorvi-lhe até à exaustão a doçura do olhar,
a macieza da pele e a candura dos cheiros.
Passei a saborear-lhe o trajecto
ao mesmo tempo que surgiam medos insuspeitados
- mas inequívocos -
que me enchiam o ventre de ecos
e me concediam a ferocidade do vento.
Foi há quarenta e três anos que,
descaradamente,
como uma criança, abracei uma nova primavera.
Parabéns
Miguel!
2022-08-10

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Com o sol colado na pele


Não te escrevi nada anteontem mamã,
dia em que completaste uns maravilhosos noventa e cinco anos,
não deu tempo.
Mas consegui estar contigo os minutos precisos para cantar
parabéns
e te dar
um abraço
pleno de sussurros inaudíveis,
daqueles que só o coração entende.
Estavas bem, alegre e conversadora no teu falar de agora.
Acho que gostaste que estivéssemos contigo
embora nessa nesga de compreensão que ainda te resta.
Quase apagaste aqueles últimos tempos imperfeitos
em que te retiraste para dentro de ti,
te escondeste da vida
e nos deixaste a respirar ventos filtrados de geada
que nos enchiam de silêncios um tanto humilhados.
Anteontem estiveste connosco.
Não contiveste as palavras
que falaste cheia de convicção e urgência
– embora pudessem não querer dizer o que querias
ou serem inteiramente perceptíveis –
nem os sorrisos com que nos encantaste.
Gostei de ti assim mamã.
Fiquei com o sol colado na pele
e ainda hoje lhe sinto o paladar.
2022-08-08

quarta-feira, 2 de março de 2022

Parabéns Ana



Primeiro foi o sonho
que pintei com a cor dos teus olhos
nessa memória que era ainda futuro.
Depois foram dias vagarosos
a olhar esse sonho muito limpo
que se insinuava de mansinho
por trás de cada pensamento,
de cada inquietude, de cada sobressalto.
Por fim foste tu que chegaste
fintando a curva do tempo
e acordando todos os poemas
de palavras azuis.
E eram tantas e tão belas
que eu não conseguia sair do espanto.
Eram torrentes de palavras lindas
que iam ganhando o meio-dia
e acordavam todos os poetas.
E o poema eras sempre tu,
já tão intima dos mistérios do futuro.
E eu, sempre presa a um enorme fascínio,
ia desalinhando as horas em trocos pequeninos
e encostava-me a ti sorvendo-te o hálito de anjo.
Passei a navegar à tona do assombro.
Ainda hoje navego afagando esse sortilégio
de seres tu
um dos meus mais belos poemas.
2022-03-02
Celeste Pereira

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Miguel


Sabes Miguel, estou um pouco aflita.
É que não encontro luz que me acenda as palavras
que gostaria de ter para ti hoje.
Mas, como sempre, vou tentar.
Traçaste uma linha na minha vida que nunca mais pude ultrapassar.
Dotaste-a,
à vida,
de uma legitimidade que até então não havia sentido;
a legitimidade das coisas concretas.
Acho que até aí tinha sido assim como que um sono ainda por acordar,
encostado apenas ao de leve às razões que nos constroem.
Era um pouco como a ambiguidade das palavras
quando compõem metáforas muito batidas;
parecia bonita,
parecia boa,
mas não era inteira.
Passada essa linha tudo fez um novo sentido.
Era radiante a sombra que projectava para trás
e o futuro passou a ter mais caminhos.
Os dias deixaram-se de momentos hesitantes,
de nevoeiros pegajosos
e adquiriram uma autenticidade que desconhecia.
Passaram a ter respirações ávidas, sonhos urgentes
e novos versos que desaguavam sempre em ti.
Passei a saborear o teu cheiro
e a fazer do teu toque o meu amanhecer.
Também acordei novos medos, é verdade,
mas esses desvaneciam-se na curva do teu sorriso,
no brilho do teu olhar.
E hoje, que o futuro contigo é já longo,
que também já desvendaste os segredos de ser pai,
com todas as intemperanças que nos traz à alma,
continuas a ser um dos meus sonhos mais realizado.
Parabéns
Meu Filho
2021-08-10
Celeste Pereira

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Parabéns Miguel



Estreei-me contigo nessa difícil arte de ser mãe.
Eras apenas uma pequenina gota de delírio,
uma promessa de futuro, 
um rosário de horas molhadas de luz.
Estreei-me contigo nesse jogo de incertezas
que se penduram no tempo
e nos fazem sentir saudades
de um futuro sonhado
e exacto      e bom.
Construímos juntos pedaços de mundo
que colorimos de risos,
de cabelos pouquinhos e loiros
e de outras pequenas felicidades
que mantêm ainda o cheiro do espanto.
Inauguraste em mim esse amor ferino
que repuxa a alma, que fere
e, todavia,
acaricia como o calor de um sopro,
abriga como abriga a casa que é minha
e está cheia de sonhos muito antigos. 
Cresceu então em mim uma lucidez nova,
um romper de receios,
uma inquietação de folhas,
um tropeçar no assombro de ti,
uma mão cheia de caminhos por andar
com contornos de ternura e cheiro a mar
E os amanheceres nascem limpos
2016-08-10

quarta-feira, 2 de março de 2016

Florir





É em dias como o de hoje
que o tempo se arredonda muito
e me sopra memórias.
O passado
caminha brando à minha frente.
Desarruma lembranças
e pinta-as de palavras leves e frescas.
Daquelas que enfeitiçam o poema
e aperfeiçoam as esquinas.

Dilui-se a lonjura dos sonhos
que se fazem realidade
com consistência de flor.

E sinto-te outra vez em mim.

E és novamente
a flor pequenina que seguro nos braços.

Estou incrédula, assustada e feliz.
E, tal como antes, cabes toda inteira em mim.

Menina e mulher.

Tu.

A flor mais doce que algum dia beijei.

Parabéns.

terça-feira, 2 de março de 2010

Dia 2 de Março de 2010 - 27 anos...



Hoje, nada vou acrescentar!

Não porque não o queira fazer,

mas foram tantas as coisas que este ano viveste,

tanto o que tiveste que crescer,

que não caberia em todas as folhas de papel,

tudo quanto teria para te dizer.


Hoje, apenas os teus olhos vou fixar

esses que mesmo sem me fitar já me olham

e falar-te num silêncio circular:

nas lágrimas que o teu rosto já não molham,

nos sonhos que reaprendeste a sonhar,

no renovado brilho do teu olhar,

que então, sobre si próprio se volta

e se fixa em mim para me continuar.

E eu, tua mãe, sentir-me-ei solta,

pois nessa luz azul que tanto encanta

sei que viverei em um tempo em que já não irei estar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Parabéns Susana!!!!!!!


O p'ra isto! O pessoal a sofrer! Mas há pior, que há!


Por razões que não vêm agora ao caso ando a reler alguns dos poetas do século XVIII. De entre eles, destaca-se, na sátira, o Nicolau Tolentino.
Pois decidi (ainda estamos suficientemente próximos do Carnaval para o fazer) disfarçar-me de Tolentina de 3ª categoria e satirizar a Susana à má maneira oitocentista. Perdoe-me Susana mas, a verdade, tenho que o confessar, é que não sei o que faço!!!!

Ah! A Carlota é, naturalmente, a minha musa...


As Susanas *

Carlota, pois cuidas que é mal

A sanha de alguns professores
Só porque lês no jornal

Uma panóplia de horrores

Dignos de um Juvenal???


Mas tu, de minar não cessas,

Qual é a tua intenção?

Impossíveis, não me peças,

Pois que queres que faça então,

Se a Susana é mesmo dessas?!


Dizes que uma aula da Susana

Te faz esconjurar piedade

Seja qual for a alma humana

Que caia em tal iniquidade

Por descuido, ou por insana…


Dizes tu, como animal,

Que o instinto proíbe a dor

E que surda a esse mal

A Susana é um terror

Para com o seu igual.

Carlota, não discorres bem:
É que em vós, os animais,

O instinto intervém!

E nós, humanos, mortais,
Desprovidos desse bem

Somos mauzinhos, viscerais.


As Susanas precisas são!
São boas para nos moer!

Até têm a consideração

De não nos deixarem morrer

No decurso da lição!


É também uma, a verdade:

Ficavam as águas vazias!

E a Susana, ao fluir a idade,
Iria contar os seus dias

Consumida de saudade…


Com um beijo GRANDE e desejos de um dia muito bem passado, aquela que, como sabe, a estima muito e não a considera de todo “the ogress” que aqui descreve:

Donagata

* plural majestático, hã!!!

"O nosso amor é verde"

Embora não se insira nem um pouco na linha editorial que norteia este blogue, não posso deixar de partilhar convosco este "mimo" musical. Sem o conhecermos ficamos, seguramente, muito empobrecidos.

Aproveito para o dedicar, como primeiro presente, à minha amiga Susana que faz hoje anos.

Parabéns!!!

(É só o primeiro....)


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Trinta Anos!!!!!! Nhééé…


O colinho! Que saudades!


Foi há tinta anos? Já?

Como posso acreditar?

Já não és o meu bebé,

aquele bebé tão lindo,

tão mimoso de abraçar?

Para onde foi então

aquele lindo menino,

tão pequenino e chorão,

que fazia desesperar?

E que é daquele outro tal,

que não tinha nem um pelo,

tão carequinha que afinal,

esta mãe era gozada,

por, muito compenetrada,

usar um belo champô

para lavar o seu “cabelo”?

Esse bebé está aí,

sob essas barbas espessas.

Não disfarças, és tu mesmo.

Se bem que um pouco maior,

com mais cabelo e já não choras.

Já não te acolho no meu colo,

embora aqui, eu confesse,

que em alguns dias, em certas horas,

bem o faria, se pudesse!

Donagata em 2009-08-10

Bisavó e bisneto com um mês...

Nota: por razões pessoais só hoje publico esta pequena graça em "homenagem" aos 30 anos do meu filho. Deveria ter sido dia 10, dia do seu aniversário.