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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Perguntem a Sara Gross de João Pinto Coelho


 

Um livro excelente!

 



Não conhecia nada do autor antes de ler este livro. 

Decidi comprá-lo porque me agradou a sinopse e porque percebi que era um autor português a escrever sobre algo que, naturalmente, não tinha vivido embora deva estar no ADN de todos. 

Grande desafio! E como gosto de desafios achei que ler este livro seria algo apropriado.

 

Que boa escolha!

Desde já gosto muito do tipo de escrita do autor; uma narrativa descomplicada mas bonita que nos agarra desde logo. 

As personagens são consistentes, bem construídas e parecem ter vida própria. A dada altura parece-nos que aquela pessoa já não está dependente do curso da narrativa ou das vivências das restantes personagens; tem um percurso próprio que nada nem ninguém pode mudar.

A história começa calma (não desinteressante), num colégio de perfil elitista na Nova Inglaterra. É para lá que Kimberly Parker, uma jovem professora nova-iorquina vai leccionar Literatura. É também aí que se encontra Sara Cross a directora carismática desse colégio.

Kimberly cria com Sara uma empatia imediata. E a vida vai fluindo com a ajuda de Miranda e de Clement, o bibliotecário.

 

Contudo as coisas não são o que parecem; as pessoas escondem segredos fatídicos.  

E é então  que tragédia de repente se abate sobre a escola. A partir daí a história passa a ter outros contornos e arrasta-nos para o drama do Holocausto. 


Viajamos, pasme-se (estamos em plena Primeira Grande Guerra com tudo o que implicava para os judeus), de Nova Iorque para Oshpitzin com uma família judia, abastada e prestigiada que, assim, decide honrar os seus antepassados tentando ajudar à libertação da sua terra ancestral. 


E, paulatinamente, sem que nada possamos fazer vamos assistindo  ao evoluir do horror. 

Desde o gueto de Cracóvia a Auschwitz, símbolo de toda a degradação humana vamos sendo mais um a sofrer com o que se desenrola perante nós.

É que a diegese é muito imagética e as imagens são vívidas, fortes e dolorosas.

A narrativa vai-se desenrolando poderosa, sem pieguices, sem recurso a vínculos morais, mostrando as várias perspectivas de um mesmo acontecimento com rigor, com frieza até, deixando-nos a nós, leitores, o ónus de julgarmos.  


Não me vou estender mais pois corro o risco de dizer demais.

 

Adorei o livro e recomendo vivamente; o livro e o autor.

 

2021-05





 

Não me vou estender mais pois corro o risco de dizer demais.

 

Adorei o livro e recomendo vivamente; o livro e o autor.

 

2021-05

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Oração a que faltam joelhos de Jacinto Lucas Pires



 

        Acabei de ler este livro que me deixou com sentimentos, se não contraditórios, pelo menos algo ambíguos. 

        Em primeiro lugar quero dizer desde já que gostei muito do livro. Gosto muito do tipo de escrita e da forma como se vão desenrolando as imagens ora cruas, ora poéticas,  pejadas de metáforas simples mas tremendamente eficazes, que vão povoando o pensamento de Kate Souza e, consequentemente, criando “o livro”.

        Gostei das personagens que achei bastante consistentes se bem que algumas me tenham parecido apenas delineadas. Pareceram-me até alvo de uma certa displicência; apareciam, tinham o seu papel na história, ganhavam consistência e depois eram quase que deixadas à sua sorte. 

         Um pouco paradoxal esta impressão que eu tive. 

Dito isto, a verdade é que, provavelmente, irei lê-lo outra vez. 

Não posso dizer que não o tenha compreendido e apreciado. Mas, sendo um livro de escrita não linear, exigente, em que o pensamento aparentemente desordenado da protagonista/ narradora se desenrola misturando tempos e locais embora sem perder a profundidade do que diz, fiquei com a sensação que poderei tirar mais do livro; poderei compreendê-lo melhor.

       Considero este livro uma boa estreia do autor. Nunca havia lido nada de Jacinto Lucas Pires e, talvez por isso não estivesse à espera de uma escrita tão elaborada e tão exigente, mas, seguramente, irei reincidir.

Gostei.

 

2021-08

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

“Claraboia” de José Saramago



Estava na pilha de livros alinhados, por ordem, para eu ler mas há já muito que ia sendo sistematicamente preterido por outros que iam chegando. Vá-se lá entender os desígnios da vontade…
Bem, mas finalmente lá chegou a sua vez.
É sempre interessante, se bem que também possa ser traiçoeiro, ler um dos primeiros romances de um autor (o primeiro mesmo, sob pseudónimo, segundo parece) de quem se conhece a maior parte da obra. Talvez tenha sido essa a razão que me levou a postergá-lo tantas vezes.
As expectativas são grandes e daí haver algum receio de desapontamento. Parvoíce, eu sei. Cada livro vale o que vale de per si.

E este vale a pena ler.
Passado em meados do século passado (XX), numa rua esconsa de Lisboa, leva-nos, por um período de tempo, a viver as vidas de um grupo de pessoas que constituem as famílias que habitam um determinado prédio.
São pessoas diversas, com vidas diversas as quais, por vezes, ocultam sob de um véu de dignidade, pensamentos, anseios e atitudes menos dizíeis. É sempre assim.

E temos o sapateiro e a sua mulher, que decidem admitir um hóspede, para equilibrar o orçamento. Caetano e Justina, casal improvável que perdeu uma filha. Emílio Fonseca, casado com D. Carmen uma galega saudosa e inconformada, com o seu filho Henriquinho. D. Lídia, a que “está por conta”… Anselmo, Rosália e Maria Cláudia uma moça bonita, no viço dos seus dezanove anos. E as irmãs Adriana e Isaura, solteiras desesperançadas que vivem com a mãe, Cândida e a irmã desta, a Tia Amélia ambas viúvas.

E de casa em casa, de sobrado em sobrado, vamos sendo levados a viver todas as tramas, as esperanças, os desgostos, os pensamentos mais profundos, as estratégias mais duvidosas. Vamos conhecendo os segredos que se querem esconder, os sonhos que não se ousam ter, as verdades que não se ousam enfrentar, enfim, a vida de todos e de cada um desta pequena comunidade bem como o entrosamento possível das várias vidas.

É um livro de leitura agradável, simples, denotando até, a meu ver, uma certa ingenuidade.
Não contém ainda a sofisticação literária de futuros romances do autor mas é genuíno e bem escrito.
Contudo, encontro já aqui, nos diálogos entre Silvestre e Abel Nogueira (o sapateiro e o seu hóspede que escolheu nada fazer da vida, sobreviver, apenas), o nascer do que serão as diatribes filosóficas, os embriões das elucubrações que pejarão, por exemplo, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A ler sim. Até pela curiosidade da percepção da evolução.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“Se eu Fechar os Olhos Agora” de Edney Silvestre



Este foi dos que entrou directo, não passou pela fila de espera. É, uma das muitas aldrabices com que vou mimoseando os livros que, ordeiramente, aguardam perfilados na minha pilha de próximas leituras.
Este foi-me sugerido pela minha filha. É dela e tinha-o acabado de ler.

 É Abril de 1961 e tudo se passa numa velha cidade outrora importante devido ao cultivo do café.

Tudo começa com um menino comprido, magro e claro e um menino moreno, ambos de doze anos que escapam de um castigo da escola e aproveitam para ir nadar num lago que era o seu paraíso escondido.
Nesse dia farão uma descoberta macabra que terá como consequência o fim abrupto da sua infância.
Descobrem o cadáver de uma linda mulher, jovem, barbaramente assassinada e mutilada.

Insatisfeitos com as explicações ilógicas das autoridades quanto ao confesso assassino bem como com o desinteresse das mesmas em clarificar o assunto, lançam-se, eles próprios, em investigações furtivas com vista a darem soluções cabais ao imenso monte de questões a que não conseguiam responder.
A este duo vem a juntar-se um velho residente no asilo que tinha por hábito saltar o muro e deambular, de noite, pela cidade. É um ex-preso político da ditadura de Getúlio Vargas.

Reúnem esforços e valências e, de descoberta em descoberta, vão-se embrenhando num vórtice de mistérios em que nada nem ninguém é exactamente o que parece ser.
São confrontados com a força do poder e com a hipocrisia da sociedade local que encobre e branqueia os crimes mais hediondos envolvendo violência sexual, violação, corrupção e racismo, entre outros.

É o fim da sua infância. É o desenvolvimento emocional acelerado destas duas crianças que nunca mais o serão.  É uma forma difícil e abrupta de entrarem na vida adulta. Será inconsequente?

Gostei também muito da escrita do autor. Com o pretexto de um policial, desenvolve uma diegese coerente que vai muito além disso. É um retrato de época, uma época conturbada da história recente do Brasil em que a prepotência e o caciquismo locais eram uma constante. O velho poderio dos coronéis. A narrativa é agradável e surpreendente. Gostei particularmente dos diálogos vivíssimos com que o autor salpica o texto tornando-o ainda mais interessante.

Um primeiro romance que deixa muitas expectativas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

“Os teclados e Três histórias com anjos” de Teolinda Gersão



Um livro que reúne em si dois dos mais louvados livros da autora. Uma novela, “Os teclados” e “O mensageiro e outras histórias com anjos”.

O primeiro, “Os teclados” conta-nos uma história em que estão patentes duas visões bem diferentes do mundo. A de uma escritora, de meia-idade, de certa maneira já desencantada com a vida e a de uma jovem pianista ainda cheia de esperanças. Têm em comum os teclados do computador ou da máquina de escrever e o do piano mas, acima de tudo a arte; a escrita e a música em que ambas, se bem que de formas diferentes, encontram justificação para serem.

Em “O mensageiro” encontrei uma versão bastante diferente da “anunciação”. Toda ela centrada na mulher. Uma perspectiva, no mínimo, interessante.
Quer neste quer nos outros dois outros contos o que podemos encontrar são situações que, julgo poder considerar, se situam no limite para a transcendência, para a descoberta de outros mundos, mas sem o ultrapassar.

Os anjos são belíssimas metáforas para a vida, o amor, a morte. Muitas vezes as pessoas não se dão conta desses “anjos”, não os interpretam na sua dimensão real, não os entendem, não os valorizam e não os encontram nas suas vidas. E porquê? Pela incapacidade que advém da pouca idade, pela ignorância, pela cegueira ou apenas porque não querem sair do conforto do real, do conhecido.

A ler, sem dúvida a ler.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

“Sangue Vermelho Em Campo De Neve” de Mons Kallentoft



Cada vez me agradam mais os policiais ou thrillers suecos.

Há já muitos anos que leio Henning Mankell e o seu incontornável inspector Kurt Wallander que, aliás, deu já origem a uma série televisiva aparentemente com muito boa qualidade.
Contudo, ultimamente, despertada talvez pelo estrondoso sucesso da trilogia Millennium de Stieg Larson, tenho experimentado outros autores que, uns mais outros menos, satisfazem o meu gosto por este género literário muitas vezes tão maltratado. E quando me refiro a maltratado tenho em conta dois aspectos. Por um lado acontece ser considerado por alguns um género literário menor quando, a meu ver, há policiais literariamente excelentes. Por outro há, de facto, muita coisa editada (como certamente de outros géneros) que dificilmente poderá merecer o nome de literatura. Alguns até têm história, outros têm personagens consistentes mas falta-lhes a qualidade da escrita. Outros ainda não têm absolutamente nada.

Mas vamos ao que aqui interessa. A verdade é que uma mão-cheia de autores nórdicos (conheço mais suecos) desenvolveu um estilo próprio de criar histórias. Muito do género do policial negro. Baseia-se em narrativas interessantes, complexas sem serem exageradamente complicadas ao ponto de se tornarem incompreensíveis ou ilógicas, bem estruturadas, com personagens comuns mas fortes, consistentes, possíveis. Além disso conseguem manter um interesse narrativo quase constante.

Foi isto que encontrei noutros autores e foi também isto que me agradou em “Sangue Vermelho Em Campo De Neve”
A inspectora Malin Fors vê-se a braços com a investigação de um crime hediondo, numa pequena comunidade de província que a vai abalar. A par das investigações e do frio intenso, e à medida que vão desfilando as personagens mais estranhas e se vão revelando os segredos mais sórdidos, vai tendo, naturalmente, que gerir a sua vida pessoal; a sua relação com a filha recém-chegada à adolescência, as recordações que mantém dos seus pais actualmente a viverem em Tenerife mas com os quais sempre teve um relacionamento pouco caloroso, o tipo de ligação que mantém com o seu ex-marido, etc, etc, etc. Enfim, uma pessoa normal.
O processo de escrita é curioso pois surgem de onde em onde pequenos trechos assim numa espécie de voz-off que ajudam não só a situar o leitor bem como conferem alguma originalidade à escrita.

Sem ser o meu autor favorito, devo dizer que gostei e estou pronta para dar oportunidade a um segundo livro.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Não É Meia Noite Quem Quer” de António Lobo Antunes



Há já tanto tempo que não escrevo uma opinião acerca de um livro que, francamente, nem sei bem por onde começar. Ainda por cima um livro de ALA… Convenhamos que não é a coisa mais simples de fazer.

Confesso que, genericamente, gosto dos livros de ALA. Mais de uns, menos de outros, mas sempre me dão um prazer imenso ler. Pela qualidade da escrita e pelo desafio que, normalmente, comportam.

E, mais uma vez, assim aconteceu. Li-o há já uns tempos e foi daqueles livros que não me apetecia pousar. Não me importava até de o ler de novo, mesmo imediatamente a seguir (o que, regra geral, considero uma parvoíce tendo em conta a imensa multidão de livros bons que nunca terei tempo de ler). Além disso, desde logo cresceu em mim uma grande vontade de falar sobre ele, dizer o quanto me tinha agradado, o quão refrescante é ler um livro que nos preenche.

Pois bem, foi um caso de identificação desde o início. Em primeiro lugar talvez porque, em determinados aspectos, me seja fácil identificar-me com a personagem principal e compreendê-la. Temos idades parecidas e, também eu, em criança, ia passar férias numa casa, junto ao mar, à qual já não tenho acesso. Também eu teria gostado de me ter despedido dela, de relembrar tempos, de ressuscitar memórias…Mas, na verdade, termina aí mesmo o paralelismo das nossas vidas.

O livro, como outros de ALA, decorre num período de tempo muito curto; três dias. A narrativa inicia-se na sexta-feira e termina no domingo.
São apenas três dias na vida de uma mulher mas neles convergem cinquenta e dois anos de lembranças nas quais cabem alegrias, entusiasmos, sonhos, expectativas e desapontamentos.

Naquele rendilhado sublime de tempos e espaços que são, seguramente, marca incontestável do autor e que aqui atinge uma mestria desconcertante, vão desfilando as tardes de Verão passadas na praia com a mãe. As imagens do relacionamento patético dos seus pais. A sua amiga que vive na casa do lado e que, mais tarde, nem a reconhece nem lhe aceita a relembrança. Mas também a perda do seu filho que nunca foi. A sua vida de desesperança. A sua procura de conforto nos braços de duas colegas, que não deseja. A doença. A mutilação. O medo… 
Revive as viagens sentada no quadro da bicicleta do irmão mais velho, o mesmo que salta da falésia como o burro escanzelado que também dela resvalou. O balbuciar desajeitado do seu irmão surdo-mudo. A embriaguez do pai. O remorso da mãe. A loucura do outro irmão resultante das suas experiências em África, na guerra… 
A saudade de ser amada pelo marido. A frustração de ser professora numa escola, por aí. Os segredos que escrevia e que escondia no muro do jardim. A despedida. O fascínio pela falésia com os burros e as cabras de patas finas. Os melros, os muitos melros da casa, E, quem sabe, o fim.

Um livro fabuloso. Um livro a não perder sob pretexto algum.

Mais uma vez um momento alto do escritor António Lobo Antunes. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"O Teu Rosto Será o Último" de João Ricardo Pedro


Muito, muito bom.

Uma agradabilíssima surpresa vinda de um autor estreante mas que, seguramente, virá a dar muito que falar.

Comecei por gostar muito da forma de escrita de João Ricardo; forte, se bem que bonita, e com muito carácter. É uma escrita com identidade própria. Utiliza recursos e vocábulos que, esgrimidos de outra forma ou em contextos diferentes poderiam ser vulgares ou maçadores mas que, no seu caso, enriquecem e dão cunho próprio à escrita.

Depois, gostei da estrutura do romance porque nos conta, de facto, uma história mas nos permite ter uma parte activa na sua construção. Pelo menos deixa-nos com essa ilusão.

A narrativa é composta por um conjunto de episódios aparentemente soltos, autónomos, mas que se vão encaixando de modo a criar para nós uma história coesa.

Uma história sem pontas? Não creio. Julgo que nos compete a nós atar algumas. Mas, mesmo assim, uma boa história impregnada de momentos alegres, disparatados, tristes, de grande dor, enigmáticos, e aqueles absolutamente corriqueiros, do quotidiano de qualquer um. Uma história complexa acerca de um conjunto de pessoas que constituem uma família, mas também a história de cada um em particular sem, contudo, se perder o sentido do todo.

Eu vejo como personagem fulcral desta narrativa Duarte. Não sei se é a personagem que suscita sentimentos mais fortes, a que nos fica a martelar na memória. Porém é aquela que vai atravessando todo o livro; aquela com quem vamos crescendo e tendo experiências de todo o tipo; vivendo. É através dela que vamos conhecendo três gerações de uma família bem como de mais umas tantas pessoas que a rodeiam.

Todavia, e poderá parecer paradoxal, Duarte é uma personagem enigmática. Dotada de grande talento musical (que rejeita), vai vivendo em quase constante interrogação e por isso vai-se descobrindo também (sobretudo?) através do que as outras personagens vão desvendando sobre ele.

O livro inicia-se no dia vinte e cinco de Abril de 1974 mas começa muito antes, ainda no período da ditadura, quando Policarpo vende a propriedade, numa aldeia no sopé da Serra da Gardunha, ao seu amigo e médico Augusto Mendes, para sair do país.

Parte muito importante na narrativa são as cartas que Policarpo envia todos os anos ao seu amigo, aliás como havia prometido, até ao fim da sua vida.

Continua por Queluz onde António, filho de Augusto Mendes, vive com a sua mulher que havia conhecido antes de sair para uma das suas comissões na guerra do ultramar e tinha aceitado ser sua “madrinha de guerra” (quem é que actualmente sabe bem o que é isso???) e o seu filho Duarte.

E é assim, entre as faldas da Gardunha, Queluz, e todos os locais que as cartas de Policarpo nos deixam vislumbrar, que se vai apresentando perante o leitor um puzzle subtil onde as mais insignificantes peças (os episódios mais banais) se vão revelar fulcrais para o desenrolar da narrativa.

A não perder mesmo!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"The Sense of an Ending" Julian Barnes


Acabei ontem de ler este livro e, se bem que o considere um livro bom, ficou um pouco aquém das minhas expectativas motivadas, obviamente, por críticas que a ele se referiam de forma muito abonatória.

Li-o na sua versão original (em inglês) pelo que nem sequer poderei justificar essa pequena desilusão por perdas na tradução. Pelo contrário, poderá talvez, é dar-se o caso de não conseguir apreender algumas subtilezas da língua dado que a não utilizo comummente.

É um livro reflexivo e interessante, claro. Foi “Man Booker Prize 2011”…

Contudo não foi um daqueles livros que me agarrou de uma forma apaixonada. A verdade é que também não tive vontade de o largar…

Conta-nos uma história de vidas aparentemente normais, mornas e prosaicas. Até que, com a continuação da leitura se vai percebendo que, afinal, não são nem mornas, nem prosaicas e, seguramente, nada comuns.

Todo o livro está eivado de considerações filosóficas e de reflexões de vida mas que se inserem perfeitamente no contexto narrativo, sem que apareçam como conceitos filosóficos de pacotilha, inseridos a martelo, para eruditizar a coisa.

Aliás, creio ser exactamente a pertinência destes que faz com que o livro não seja uma história mais ou menos vulgar (em termos de enredo literário) contada de forma assaz ”soft”.

Temos Tony Webster, o narrador, que, agora em plena meia-idade, nos começa a contar a sua história e dos seus três amigos mais chegados, em plenos anos 60 quando eram um grupo de adolescentes.

Estamos na primeira de duas partes que constituem o livro. Dos outros dois amigos quase não reza a história, são quase totalmente irrelevantes, meros adereços, mas com Adrian Finn tudo é diferente.

Adrian é aquele amigo que se destaca por uma miríade de razões. Todos tivemos ou conhecemos alguém assim; alguém que todos disputávamos para “melhor amigo” e que nos custava ter de partilhar. Era mais, sério, mais inteligente, mais à vontade na exposição das suas ideias perante professores e colegas, aquele cujas reflexões e conclusões eram admiradas e, enfim, incontestadas. Era também o que parecia ter mais certezas e, além disso, um aluno exemplar.

Contudo era um grupo de adolescentes comuns, sedentos de vida, de sonhos, de sexo, de fantasia.

Chega a altura de irem para a faculdade e, enquanto Anthony a frequenta em Bristol, Adrian vai para Cambridge e vai-se, paulatinamente, perdendo o contacto que todos haviam jurado manter para o resto das suas vidas.

Tony mantém uma relação com Verónica até ao final do seu tempo de faculdade. Não dá certo e dá-se a ruptura. Acontecem alguns episódios insólitos nesta relação, mas sem grande interesse (pelo menos em aparência).

Entretanto é informado por Adrian que é agora ele quem mantém uma ligação com Verónica. Responde a Adrian sem dar muita importância ao assunto e, tempos mais tarde recebe a notícia do suicídio do seu amigo.

Estranha-o, reflecte muito em torno deste acontecimento, mas acaba a primeira parte contando, muito brevemente como se desenrolou depois a sua vida até chegar ao que é hoje; uma pessoa de meia-idade, divorciado, se bem que mantendo relações cordiais com a sua ex-mulher, com uma filha, afastado já das suas obrigações profissionais mas mantendo uma rotina de ocupações.

Como dá para perceber nada de especial, nenhuma novidade, nada que certamente não tenha acontecido a todos nós, os de meia idade (com suicídio ou sem suicídio à mistura) … Que é feito dos sonhos da adolescência? Da certeza de que íamos ser donos do Mundo?

E então entramos na segunda parte do livro em que Tony recebe uma comunicação de uma advogada que o informa que é o herdeiro da recém-falecida mãe de Verónica. Essa herança consiste numa importância em dinheiro e no diário de… Adrian.

É então a partir daqui que, no meu ponto de vista, o livro começa verdadeiramente a ter interesse. É a partir daqui que Anthony vai pôr em causa a “exactidão” das suas memórias. É aqui que elas são colocadas numa outra perspectiva, a do futuro. É aqui que já não sabe o que realmente se passou e o que a sua memória seleccionou para manter. É aqui que se surpreende…

Foi aqui que, também eu, fiquei com algum receio de reperspectivar as minhas memórias…

A ler.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"O Rastro do Jaguar" de Murilo de Carvalho


Um livro que há já uns tempos tinha intenção de ler.

Foi prémio Leya 2008 o que, à partida, lhe confere algum interesse.

Acabei por lê-lo emprestado e, por isso, teve prioridade em relação a uma extensa pilha que se vai acumulando à minha volta.

Foi-me emprestado como sendo um livro extraordinário daí a sua leitura imediata.

Pois bem. Eu não o catalogaria no rol daqueles livros que considero verdadeiramente extraordinários mas é, sem dúvida, um bom livro.

Estamos em Congonhas do Campo algures em Minas Gerais no virar do século XIX. Aí, o nosso narrador, Pereira, contemplando as estátuas dos “profetas” esculpidas em pedra sabão, no adro da igreja pelo “Aleijadinho” (António Francisco Lisboa), e saudoso da sua amada Francisca, propõe-se narrar a vida de seu amigo Pierre, dele próprio e de algumas pessoas cujas vidas tocaram ou que vieram a fazer parte deste riquíssimo percurso que foram as existências de ambos.

E aí vamos sendo transportados desde Paris onde ambos eram elementos do exército até ao Brasil (depois Argentina, Paraguai…) onde aportamos exactamente num período histórico conturbado em que se desenrola uma guerra contra o Paraguai (guerra da “Tríplice Aliança” uma vez que se haviam aliado a Argentina, o Uruguai e o Brasil para combater o Paraguai que tinha invadido a província brasileira do “Mato Grosso”).

É um livro baseado em factos reais, muito bem documentado e que nos conta bastante pormenorizadamente o já referido conflito e nós dá, em imagens muito vívidas, conhecimento dos momentos duros de uma guerra que foi, em muitos momentos, sangrenta, desumana até ao limite do concebível. Menciono, por exemplo, no final, o massacre das crianças-soldados…

Mas, quanto a mim, esta não será a perspectiva mais importante do livro. Pelo menos não foi aquela que mais me impressionou, se bem que tenha apreciado saber mais acerca deste momento histórico. No meu ponto de vista o que aqui ressalta é a situação dos povos autóctones da região; a perda inexorável dos seus espaços, das suas raízes e, consequentemente, da sua identidade enquanto povos. Alguns deles preferindo o extermínio à aculturação.

É o caso dos Aimoré (Botocudos) que vamos seguindo, com Pierre tentando encontrar o povo de Firmiano que havia sido levado daquela zona, anos antes, por Saint’ Hilaire, mas também buscando as suas origens, a sua identidade.

Essas vão ser mais tarde encontradas junto do povo Guarani com quem Pierre se identifica e vem a ser por ele considerado um dos “adornados”, o mais importante profeta, aquele que o povo aguardava, tal como profetizara Ñamandu, o seu deus, para os conduzir em glória `à”Terra Sem Males”: o Jaguar

Pereira vai-nos narrando todo este passado recorrendo à sua memória, é certo, mas sobretudo a cartas e documentos escritos por Pierre, por Firmiano e por ele, dado que passou todo esse tempo como repórter de guerra a soldo do “Le Figaro”.

Ao mesmo tempo vai-nos deixando momentos de um presente nostálgico, ora contemplando os seus profetas, ora abraçando o “fantasma” da sua adorada Francisca. Presente que o leva a reencontros com personagens como Mateus e Benedito.

Presente que o vai levar a protagonizar, a ele próprio, uma demanda improvável.

De realçar a importância que aqui toma a alusão à peça de Wagner “Tanhauser Ouverture” que Pierre adorava, que tocou na Ópera de Paris e que, para mim, funciona quase como uma metáfora em relação à sua vida.

Um livro muito bom, sem dúvida, muito preciso, precioso no que concerne a documento histórico, bem escrito, numa linguagem fluida e agradável.

A ler, sem dúvida.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

"Explicação dos Pássaros" de António Lobo Antunes


E pronto. Lá terminei outro livro de António Lobo Antunes que, tal como todos os que já li, me provocou um prazer enorme.

Este, “Explicação dos Pássaros”, é já de 1981, um dos seus primeiros mas que, por qualquer razão, não havia ainda lido.

Adoro ler.
É enorme o prazer que tiro da leitura de um bom livro. E depois há o acto de ler ALA e o gozo incomensuravelmente maior que, numa grande parte das vezes, me dá lê-lo.

Será o desafio que a sua forma de escrita propicia? Será a poesia que lhe está intrínseca? Serão as personagens tão físicas, tão reais, tão consistentes que quase as podemos sentir?
Não sei. Apenas posso dizer que já lhe sinto a saudade.

Em “Explicação dos Pássaros”, somos levados a acompanhar Rui S. naqueles que irão ser os últimos quatro dias da sua vida. Quatro dias que nos levam a perceber uma existência pejada de rupturas, de perdas, de frustrações, de buscas do seu espaço social, da procura de si próprio.

Rui é alguém que sente não pertencer a lugar nenhum quer social quer familiar.
Não pertence à Lapa, casa de família onde o seu pai pontifica e o assombra (?). Não pertence ao mundo de Marília nem nunca pertenceu ao de Tucha ou mesmo ao dos filhos, distantes. Não pertence ao mundo da casa da D. Sara onde tem por vizinho, entre outros, o Sr. Esperança, “barítono de craveira internacional” que trabalhava num circo e havia sido casado com uma amestradora de rolas…
Enfim, alguém que não tem lugar, nem mesmo (sobretudo) em si próprio.

Rui tem uma grande obsessão pelos pássaros, pela sua explicação… Talvez seja o resultado do único momento em que se sentiu bem no seu espaço, que se sentiu parte integrante de algo; quando em miúdo, na quinta onde passavam as férias e onde ainda eram uma família feliz, sentado nos joelhos do pai, lhe havia pedido para lhe explicar os pássaros.
Verdade? Fantasia? Necessidade de em algum tempo em algum lugar ser ele mesmo? A verdade é que este momento é evocado recorrentemente ao longo da narrativa.

Rui era professor de História, não porque fosse esse o seu “lugar”, mas apenas porque não tinha (não queria ter) espaço no que eram os negócios do pai.


E assim, presos a um estilo a que ALA já nos habituou (e que noutros livros posteriores tem levado a limites aqui ainda insuspeitados), fragmentando e entrelaçando tempos, personagens, acções e reflexões que por sua vez se vão entrosando num universo de metáforas, num mundo por vezes até irreal, onírico, vamos repensando toda uma vida enquanto viajamos com Rui e Marília para Aveiro, em vez de para Tomar, e com eles contemplamos, em silêncio, as águas oleosas da ria e, sobretudo, as gaivotas que a sobrevoam.

Aí assistiremos às últimas rupturas.
A que advém do próprio facto de desistir do congresso a que deveria ir em Tomar, a que acontece com Marília, e a consciencialização da sua vida que o leva a não ter outra saída que não a ruptura com ela própria.


Há uma metáfora particularmente importante que atravessa toda a narrativa: o circo. O circo que, a meu ver, simboliza a crueza da vida, as concessões que nela fazemos, a crueldade, tudo o que é deprimente e não o circo maravilhoso das luzes. Efectivamente é tudo aquilo que se esconde por detrás delas, o que é amargo, deprimente.
O circo que vai ganhando importância à medida que nos vamos aproximando do final. O local em que o protagonista é personagem e espectador atento e, às vezes, até surpreendido. O circo onde se cruzam todas as vozes, de forma quase feérica no final, e nos são dados a conhecer os múltiplos pontos de vista acerca de tudo o que foi acontecendo em torno de Rui.

Enfim, uma narrativa extremamente rica que me deixou, uma vez mais, de água na boca.
A não perder.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

“O Prisioneiro do Céu” de Carlos Ruiz Zafón



Claro que estava curiosíssima acerca deste novo livro de Zafón que me permitiria revisitar o “cemitério dos livros esquecidos” bem como personagens maravilhosas que conheci pela primeira vez em “A Sombra do Vento”.
Estava tão curiosa e tão ansiosa que nem esperei pela edição portuguesa. Li-o mesmo em castelhano que, diga-se de passagem, me dá menos trabalho do que ler traduções que obedecem ao AO (pelo menos para já, será uma questão de hábito, espero).
Pois bem, considero que li mais um excelente livro escrito por um autor de eleição.
Contudo desviou-se um pouco daquilo que eu estava à espera.
Não pretendo com isto dizer que tenha gostado menos do livro pelo facto de estar escrito num registo visivelmente diferente dos dois anteriores que compõem, para já, esta trilogia.
Neste romance Zafón forçou muito menos a parte emotiva. Ao leitor é dada a possibilidade de esmorecer um pouco a tensão com que encara a leitura. Por outro lado é menos evidente o pendor gótico que tem caracterizado os outros livros do autor. É muito visível quer nas simbologias utilizadas quer até na verosimilhança do que escreve.
É um livro em que o presente se reveste de uma importância menor do que aquilo que nos é contado pelo fabuloso personagem Fermin Romero de Torres e que diz respeito à sua vivência na prisão no “castillo de Montjuic” antes de surgir como mendigo em Barcelona. É essa narrativa que nos prende e que nos leva a compreender melhor alguns aspectos um pouco mais obscuros quer de “A Sombra do Vento” quer (e sobretudo) de “O Jogo do Anjo”.
O presente, contudo, creio que será um importante factor para a continuação desta saga. Tudo está em aberto. As personagens ainda mexem…  Além disso, este presente ligeiro, até bem-humorado, é a “almofada” que atenua o exagero emotivo, o tal pormenor literário que dá algum descanso ao leitor.
Pode-se pensar que, pelo facto de os três livros que refiro estarem interligados pelos seus personagens, pelas suas vidas, pela enorme influência dos livros, por vezes estranha, pelo “cemitério dos livros esquecidos”, só farão sentido lidos na sequência certa.
 Ou que não se entendem lidos em separado.
Nada disso.
Se bem que haja esse entrosamento de vidas e essa continuidade (e até pormenores que só se vêm a descobrir mais tarde) e que para todos haja um leit motiv “o cemitério dos livros esquecidos”, cada um é um romance por si só. Contém uma unidade narrativa com todo o sentido. Podem ser lidos pela ordem que muito bem entendermos pois estamos sempre a ler muito boa literatura plasmada em interessantíssimos romances.
Não sei o que esperar do próximo… A verdade é que noto neste um ponto de viragem. Será para valer???
Mais um que recomendo.

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Uma Mentira Mil Vezes Repetida" de Manuel Jorge Marmelo



- “Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.”

Assim começa, desta forma prontamente cativante, o último livro de Manuel Jorge Marmelo lançado no início do último mês de Outubro pela Quetzal.
E é assim que os companheiros de autocarro do nosso contador da história vão conhecendo e entrando, com os personagens, nas muitas histórias que por aqui se vão desdobrando.
O criador de algumas destas é Óscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cidade Conquistada” com que o nosso narrador se passeia ostensivamente pelos transportes públicos da cidade do Porto.
 Apenas um senão, o livro é falso e o autor uma invenção deste outro, do nosso narrador. Se é verdade que existe o objecto/livro, devidamente montado com um milhar e qualquer coisa de páginas, bem encadernado e vistoso, é também verdade que este não passa de um molho de páginas copiadas de trabalhos diversos de outros autores, organizadas aleatoriamente sem qualquer tipo de continuidade. E o autor, Schidinski, não passa de uma personagem que o nosso narrador vai compondo ao sabor da sua vontade bem como da necessidade de alguma coerência por respeito para com os seus companheiros/ouvintes de viagem.

É o primeiro livro que leio de Manuel Jorge Marmelo e confesso que fiquei absolutamente rendida.
Encontrei um romance que desafia a estrutura do romance tradicional o qual, como sabemos, reclama a existência de uma história como suporte, uma história pré-definida. Em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” o enredo é a construção do próprio romance. Este surge perante os nossos olhos sem qualquer pré-concepção (pelo menos aparente).
No meu ponto de vista deparei-me com um texto auto-reflexivo brilhante. Um texto que ironiza a sua própria condição de texto escrito numa linguagem literariamente muito cuidada, se bem que descomplicada .

Bom, voltemos ao que interessa, o livro. Temos um narrador que, com o intuito de escapar a uma vida de anonimato inventa um livro porque inventá-lo é, para ele, muito melhor do que escrevê-lo. Inventa um escritor e um universo de histórias passadas um pouco por todo o mundo que vai contando aos seus companheiros de jornada. Mais atentos uns, mais alheios outros, em todos julga o nosso narrador deixar a semente do inesquecimento.
Assim vamos partilhando o autocarro com ele e com Marcos Sacatepequez, escritor de Belize cujo corpo, após a sua morte, acaba por ficar insepulto e à deriva por esses mares; com o homem-zebra produto do imaginário literário do personagem anterior; com Albrecht marinheiro amaldiçoado para sempre por se ter cruzado com o cadáver de Marcos; com o carteiro de Granada que troca a correspondência toda; com Yvan Hache pintor expressionista com uma mania incomum; com Afonso Cão; com Cassiano Consciência; com Oscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cida…

Enfim, como podemos imaginar um nunca acabar de histórias que se entrelaçam umas nas outras ao sabor da vontade do nosso narrador até que a vontade se consome e a história se solta e se prende a uns olhos rasgados como os de uma mulher persa…
Não menos interessantes e, consequentemente, inultrapassáveis são as reflexões do nosso narrador que fazem a ponte entre a divagação literária e o real; entre o que pode ou não ser invenção e aquilo que nunca o é, as nossas vivências, os nossos anseios, os paradoxos do nosso quotidiano.

Mais um livro a não perder, mais um jovem valor que se confirma no panorama literário nacional.

Também publicada na Revista-Me # 5

sábado, 19 de maio de 2012

"Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar


Nunca havia lido nada de Yourcenar o que considero, de certa forma, uma falha na minha cultura literária. Assim, a conselho de um primo decidi iniciar-me na autora com as “Memórias de Adriano”.

Pois, muito obrigada Zé Paulo pelo excelente conselho. É, na minha opinião, um daqueles livros que não devemos deixar de ler.

Já se percebeu, naturalmente, que adorei o livro.

Este romance pretende ser a biografia de Adriano, imperador dos territórios romanos entre 117 e 138 DC, contada na primeira pessoa.
Através de uma extensa carta que envia ao sucessor por ele escolhido, Marco Aurélio, Adriano vai fazendo desfilar toda a sua vida; as suas façanhas heróicas, a sua postura perante as lides da governação, as suas viagens, o seu gosto pelo mundo helénico, o carinho e o entendimento conseguido com Plotínia esposa de Trajano mas, sobretudo, os seus afectos.
Aliás mesmo os aspectos mais prosaicos da sua vida de imperador são aqui referidos de uma forma extraordinariamente apaixonada dando aquele vislumbre dos pressentimentos, das sensações, das impressões, das incertezas que se alojam por trás das grandes decisões que, geralmente, nos são apresentadas de forma fria, exageradamente pragmática.

Yourcenar consegue aliar de forma magistral (se calhar já o deveria saber…) o que o documento histórico e a ficção têm de melhor.
Se bem que não deixe de ser um romance com tudo o que lhe é permitido em termos de ficção de forma a torná-lo excelente sob o ponto de vista estritamente literário, não deixa de ser um testemunho histórico de rara fidelidade que nos põe a nu a vida deste príncipe que foi um dos imperadores de excelência do período do Império Romano.

Satisfaz inteiramente duas das minhas paixões:
a literatura, o prazer de ler um livro bem escrito que nos prende pelo simples prazer de o ler e
a história se tivermos em conta a forma mais humana, com já referi, de nos apresentar uma época sem, no entanto, se desviar do rigor histórico em relação ao qual Yourcenar foi extremamente exigente.

Atestam-no os cerca de trinta anos que a autora levou a decidir-se pela escrita do livro bem como a minuciosa investigação a que se dedicou durante todo esse tempo para o vir a concluir. A edição que li possui um anexo de cerca de quarenta páginas em que a autora nos explica os vários processos por que passou a escrita deste livro bem como cita todas as fontes utilizadas para o fazer. E são muitas, algumas raras e todas de grande fiabilidade.

Se o não tivesse lido, efectivamente, seria uma mulher intelectualmente mais pobre.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

“Ilha Teresa” de Richard Zimler



Mais um livro deste autor que li quase de um fôlego só.
Completamente diferente dos seus livros de pendor histórico, como é o caso de todos os que descrevem a saga da família Zarco, dos quais, aliás, sou apreciadora indefectível, surpreende-nos exactamente por essa diferença e pela forma excelente como Zimler se movimenta num registo bastante distinto. Interessantíssimo!
Não lhe encontrei também semelhanças substantivas com “Trevas de Luz”, “À Procura de Sana” ou “Confundir a Cidade com o Mar”.

Neste livro o autor aborda temas actuais, difíceis, penosos e delicados, com leveza e sensibilidade, sem contudo deixar transparecer qualquer laivo de superficialidade no seu tratamento.
É, por exemplo, o caso da inadaptação social devida ao facto de se ser diferente numa escola, numa sociedade, num país. E todos nós sabemos quanto essa diferença é difícil de gerir e quão esmagadores podem ser o sofrimento e a exclusão que essa inadaptação acarreta, sobretudo se tivermos em conta que estamos a falar de jovens.

Teresa é uma adolescente de quinze anos, portuguesa, de Lisboa, que se vê de um momento para o outro a viver nos subúrbios de Nova Iorque com o seu pai, a sua mãe e um irmão. É uma rapariga inteligente, sensível e, certamente também muito devido a essas características, desajustada e presa num mundo só seu, na sua “ilha”.
E sofre. Sofre por ela, pelo irmão, pelo desmazelo da mãe, pela perda do pai e.. por amor.
Tem um único amigo, Angel, um brasileiro de dezasseis anos, também ele diferente, também ele vítima de preconceitos, também ele marginalizado e excluído.
Ambos gostam de John Lennon que é para Angel um ícone incontornável. Ambos decidem ir “em peregrinação” ao Memorial Strawberry Fields Forever, em Central Park, no dia em que se recorda o assassinato do ex- Beatle, 8 de Dezembro (de 2008). E será este o dia que determinará a grande mudança nas suas vidas.

Zimler adopta um tipo de linguagem peculiar mas inteiramente adequado à sua personagem narradora. Fluente, claro, ligeiro, jovem e muito, muito irónico. Teresa é possuidora de um sentido de humor inteligente e cáustico. Dá a ideia, às vezes, de ironizar para tapar as lágrimas. Quem sabe?
Quem, como eu, está familiarizado com a escrita de Zimler encontrará aqui uma outra forma de expressão literária que não desmerece em nada a habitual, É sim um exemplo da sua capacidade de ajustar o discurso escrito às necessidades mantendo a sua individualidade e as características específicas da sua escrita. Em suma, o seu estilo.

O enredo é desenvolvido de forma descomplicada e agradável. Não é exageradamente directo, o que poderia retirar ao leitor a sua participação na construção da história, sem contudo ser exaustivo e redundante nas explicações que dá não correndo assim o risco de ser enfadonho. Está, na minha opinião, na medida certa.
Prende irremediavelmente o leitor desde o início. Aliás, este é levado, pela mão de Teresa, a percorrer anseios, inquietações, a sofrer, a amar, a perder, a caminhar nas dúvidas, a afundar-se e a regressar à superfície tal como sucede com a personagem (as personagens). 
Teresa uma adolescente isolada, em ruptura com o mundo mas que é, no fundo, uma mulher forte, de garra, como tantas outras personagens mulheres que Richard Zimler tem construído.

Mais um livro a não perder. Se ainda não o leram, não tardem. Vale a pena. 

A ler também aqui, no número 3 da Revista-Me, com uma breve entrevista ao autor.

domingo, 21 de agosto de 2011

“A Morte de Carlos Gardel” de António Lobo Antunes


Decidi ler agora (Fevereiro deste ano) este livro de Lobo Antunes, um dos muitos que ainda não li, pelo facto de ter sabido, há já uns tempos atrás, estava o argumento ainda em fase de preparação, que a realizadora sueca Solveig Nordlund iria realizar um filme não só homónimo do livro como tendo por base a sua história.

Ora, sem dúvida, tal conhecimento espicaçou-me a curiosidade em relação ao livro. E agora, confesso, tenho a curiosidade ainda mais encarniçada para ver o resultado final. Neste caso, do filme.

E então o livro:

É mais um livro com a marca inconfundível de António Lobo Antunes. Um livro em que a narrativa se encontra fraccionada, surgindo sem sequência temporal ou espacial, intercalando tempos, espaços, acontecimentos (reais ou do mundo imaginário), e personagens.

Encontra-se dividido em cinco partes sendo que cada uma delas tem por título um tango de Carlos Gardel. Começa com “por una cabeza”, vai seguindo com a “milonga sentimental”, passa para a “lejana terra mia”, até “el dia que me quieras” para terminar com a belíssima “melodia de arrabal”.

Devo dizer que fui ouvir estes tangos (um prazer, gosto de tango, confesso) procurando ver se havia alguma ligação entre as suas letras e o que ocorria naquelas, também cinco, falas. E, realmente, penso que posso com facilidade estabelecer algumas ligações entre os sentidos dos textos. Ou então será mera vontade minha de o fazer. Deixo ao critério, ou à imaginação de cada leitor encontrar, ou não, essa intertextualidade, essa coincidência de sentidos.

Cada uma dessas partes está dividida em, chamemos-lhe capítulos, em que é dada voz a uma personagem. Uma estrutura também já habitual em alguns dos livros de ALA.

E é ao seguirmos essas vozes de cada um que se vai desenrolando perante nós uma história que é, no fundo, o somatório de muitas e, todas elas, gestas tristes onde a desesperança, o isolamento, a insegurança, o desamor, um passado de desilusões são denominadores comuns a todas as personagens.

Nuno, o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia, encontra-se internado em estado terminal (acabando por morrer). À sua volta vamos encontrando os familiares e relativos que vão soltando as suas existências, os seus pensamentos, as suas fantasias traçando-nos, com elas, um quadro tremendamente deprimente em que a iminente morte do Nuno acaba por se ir diluindo no dramatismo acabrunhante de todas aquelas vidas.

Temos a Cláudia, mãe do Nuno, abandonada por Álvaro que lhe diz que não gosta dela, que nunca gostou, e que, depois de outras, acaba por manter uma relação com um indivíduo da idade do filho.

Graça, tia de Nuno, irmã de Álvaro, com uma relação homossexual assumida com Cristiana, que apenas suporta, pois, na verdade, por quem sempre esteve apaixonada foi pelo irmão.

Cristiana, insegura e exigente. Tremendamente infeliz.

Raquel, a actual esposa de Álvaro, socialmente muito diferente deste, a qual ele não aguenta e não se coíbe de o demonstrar…

E Nuno que, de facto, nunca esteve verdadeiramente ligado a ninguém.

Álvaro é apaixonado pela música de Carlos Gardel que ouve repetidamente. Esta obsessão vai piorar e entrar num caminho sem retorno no dia em que encontra o Sr. Seixas, um velho que, com a sua mulher (agora imobilizada por uma trombose), se apresentava em bares de categoria cada vez mais duvidosa, imitando a imagem e o cantar de Carlos Gardel e dançando os seus tangos. E seguindo-o, lidando com ele como se do verdadeiro Gardel se tratasse, negando a morte deste, Álvaro procura prolongar o mito. Quiçá o único ao qual se sente ainda ligado, o único fio de ilusão que ainda lhe resta.

Mas, na verdade, nem isso ele consegue…

Como sempre a escrita de ALA encanta-me pela perfeição que nela se acha. Todas as palavras estão ali mesmo, onde deviam estar.

E a poesia que dela emana!!!!


Nota:

Não sei por que raios é que não consigo colocar este post sem retirar a cor de fundo da página. Mas desisto. Depois de 1900 tentativas vai mesmo assim. Pronto.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

“Quantas Madrugadas tem a Noite” de Ondjaki

Este foi outro dos livros que ainda li em Nova Iorque. Este não foi propriamente um lenitivo. Foi, sem dúvida, um desafio.

Livro muito interessante mas apenas depois de lhe conseguir encontrar o ritmo. E este é um caso que constitui um verdadeiro desafio.

Escrito numa linguagem muito oral, completamente coloquial utiliza, além de palavras mal pronunciadas, léxico muito específico, com uma enorme profusão de termos próprios de uma linguagem africana, o que, para quem não está familiarizado com esse tipo de linguagem (como é o meu caso), torna algumas partes da narrativa quase ininteligíveis ou, pelo menos, muito maçadoras de ler dada a quantidade de consultas ao glossário que é necessário fazer.

Ultrapassado este primeiro obstáculo (para quem tiver vontade de o fazer), um pouco mais familiarizados com alguns termos que se repetem e adivinhando o sentido de outros, acabamos por encontrar uma história magnífica recheada de personagens que têm tanto de ricas e genuínas como de pitorescas e até caricatas.

Aqui podemos encontrar o anão BurkinaFaçam, um homem bom, que vive de expedientes vários e que tem a permanente companhia de duas prostitutas. O Jaí, albino de condição, professor e honesto até à medula de vocação. O AdolFodido, o defunto, herói de uma guerra que nunca poderia ter protagonizado. As suas duas viúvas. A KotadasAbelhas que se substituiu à abelha-mestra de uma colmeia depois de a matar. E o cão, o enigmático cão…

À medida que o narrador, em troca de umas cervejas (birras) vai desenrolando as fascinantes peripécias em que estas (e outras) personagens se vêem envolvidas, temos que admitir que estamos perante, não só uma capacidade imaginativa invulgar como também de uma, não menos invulgar, capacidade de escrita. É muito difícil escrever num registo coloquial sem que o resultado se ressinta no que diz respeito à qualidade literária. Tal não acontece neste caso.

Confesso que tiro muito mais prazer da leitura do, chamemos-lhe, português padrão quando bem escrito. Dado que não exige de mim nenhum esforço adicional permite-me, sem ruídos de qualquer espécie, concentrar-me no enredo e degustá-lo desde o início.

Contudo, e para ser completamente honesta, apesar das dificuldades iniciais, acabei por gostar muito do que li.

Recomendo. A leitura bem como a paciência para ultrapassar os primeiros desânimos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

“A Varanda do Frangipani” de Mia Couto

Um dos poucos livros que levei na minha curta viagem a Nova Iorque e um verdadeiro lenitivo para os momentos menos agradáveis que lá passei.

Pois bem. É um livro lindíssimo. E quando digo lindíssimo não exagero nem um pouco. A sua escrita é um verdadeiro poema pela sua beleza, pela sua singeleza, pela sua candura.

Com um toque de policial, com muito de despojo físico e moral de uma guerra terminada há tão pouco tempo, é uma história repleta de histórias magníficas extraordinariamente bem contadas.

Ermelindo Mucanga, falecido mas sem ter tido um enterro condigno, de acordo com os costumes do seu povo, para fugir à “maldição” de ser considerado herói, dispõe-se a reencarnar para voltar a morrer. A sua alma volta à vida no corpo de Izidine Naíta o inspector que vai à Fortaleza de S. Nicolau (actualmente um asilo) com o objectivo de desvendar o mistério da morte de Vasco Excelência director do referido asilo.

Aí, Izidine Naíta é confrontado com as narrativas mais incríveis dos velhos residentes. Narrativas fantásticas em que o folclore moçambicano, as diversas crenças, os mitos, revivem e adquirem corpo em cada página de uma forma muito vívida se bem que também muito natural.

Por norma gosto da escrita de Mia Couto. Mas este livro, confesso, arrebatou-me pela sua beleza e pela ternura com que se lê.

Aconselho vivamente

quinta-feira, 14 de julho de 2011

“A Biblioteca das Sombras” de Mikkel Birkegaard

Como já disse diversas vezes sou uma leitora bastante compulsiva de todos os géneros literários. Contudo, como é natural, há géneros que me suscitam mais curiosidade do que outros. Pois bem, gosto de ler um bom policial.

Quando li a sinopse deste”Biblioteca das Sombras” fiquei logo entusiasmadíssima.

Senão vejamos; Um livro inteiro sobre livros, livrarias, bibliotecas e bibliófilos (já promete!). Tudo isto embrulhando uma morte que se verifica ter sido um assassinato peculiar e que leva o filho do assassinado a encetar uma investigação que o arrastará por caminhos misteriosos…

Pois, não podia deixar de ler.

O livro começou a interessar-me logo às primeiras páginas. Luca Campelli o dono da prestigiada livraria “Libri di Luca” em pleno centro de Copenhaga, chega de uma viagem que o manteve ausente da sua adorada livraria por mais de uma semana.

Ao chegar, inala o odor dos seus adorados livros, serve-se de um cognac e dirige-se ao mezanino, local onde se encontram os exemplares mais ricos e mais invulgares da sua livraria a que muito poucos têm acesso dado o seu valor. Aí repara num exemplar que estranha e começa a lê-lo. À medida que se embrenha na leitura vamos acompanhando estranhos fenómenos ligados ao comportamento de Luca que culminam com o derrube da balaustrada do mezanino e consequente queda que lhe provoca a morte. Este processo de leitura e seus efeitos, embora não totalmente compreensível, ainda, para o leitor, está muito bem descrito e é deveras envolvente.

É que Luca, sabê-lo-emos entretanto, fazia parte de uma sociedade secreta, os Lectores, possuidores de dons excepcionais de leitura que lhes permitiam arrebatar o leitor levando-o a ler o que quisessem que lesse. Mais propriamente a enfatizar os aspectos da leitura que quisessem. Ora esse poder, como facilmente inferiremos, tem tanto de admirável como de perigoso.

Jon, filho de Luca e proeminente advogado, é, no rescaldo da morte do pai, apanhado no meio de todos estes mistérios e perigos que desconhecia completamente mas que tem de enfrentar para salvar a própria vida.

Claro que há espaço para o romance o qual acontece entre Katherina e Jon.

Com todos estes ingredientes e um começo interessante é certo que criei as minhas próprias expectativas que, infelizmente, acabaram por não corresponder à realidade.

O que acabei por ler foi um romance ao estilo Dan Brown, com muito ritmo mas pouca história. E, sobretudo, pouca consistência. Tudo, na minha opinião, é aflorado um tanto superficialmente. As personagens são pouco sólidas à excepção de Katherina que achei bem trabalhada e credível.

Também os sucessivos desfechos do enredo foram, para mim, demasiado previsíveis. Quase desde o início que foi evidente quem eram os “maus” e os “bons” da fita; quase desde início que soube quem eram os traidores e as consequentes vítimas. Enfim, quase desde o início que pude construir a história sem grandes desvios em relação ao que realmente aconteceu.

E para terminar… o fim. Pois, o fim , boring…. Um verdadeiro desconsolo.

Com tudo o que acabei de vos dizer e vale o que vale, é apenas a minha opinião, estamos em presença de um best seller…

Dizer que perdi tempo com a leitura do livro? Não posso, nunca considero uma leitura uma verdadeira perda de tempo. Além disso estamos em presença de uma escrita fluida, agradável, sem grandes pretensões literárias mas agradável mesmo assim.

Um livro a ler para quem gosta do género mas, continuo a achar, com muito pouca substância…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

“Jesusalém” de Mia Couto

Finalmente chegou a vez de ler este livro que há já algum tempo se perfilava num dos vários “montinhos” que tenho por ler(des)organizados à minha maneira. É certo, também, que embora tenham um lugar nessas “listas de espera” físicas (espalhadas por prateleiras, cestos, malas ou apenas empilhados no chão do escritório), a batota que faço é mais do que muita…

Enfim, em detrimento de outros que esperavam há mais tempo, acabou por ser este o seleccionado para ler pois era grande a curiosidade. É que embora não seja uma leitora muito assídua do autor, a verdade é que tenho gostado bastante daquilo que li. É o caso de “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, “A varanda do Frangipani” e, julgo que apenas mais o “Último Voo do Flamingo” e primeiro que li do autor.

Mas regressemos a este “Jesusalém”.

Jesusalém é uma terra há muito esquecida que vai ser agora reabitada e renomada por Silvestre Vitalício. Este, com os seus dois filhos, o seu cunhado, o Tio Aproximado e Zacaria Kalash, o guerreiro que sempre militou nas causas erradas, escolhe-a para se instalar quando foge da cidade exactamente pelo seu isolamento e esquecimento.

É lá, construindo um mundo apenas seu, que Silvestre Vitalício se esconde da vida com o intuito de fugir às recordações da morte. É também lá que Ntunzi sofre a ausência do mundo que era o seu e de onde foi arrancado e que Mwanito, o nosso narrador, se converte no afinador de silêncios.

Do Lado-de-Lá tudo se havia extinguido, até as almas penadas. Em Jesusalém tudo eram vivos. Sem saudade ou esperança mas vivos.

É uma história de homens em que a mulher é o detonador e a razão de todos os acontecimentos.

É uma subtil (ou não) história de amor e de amores. Mas também uma história de dor, de rumorosos silêncios, das muitas mortes de uma vida.

Se a história é lindíssima e nos transporta a uma terra sem passado e em que o presente e o futuro se desenham em torno da vontade de um, terra onde um dia Deus virá pedir desculpa, e Jesus se descrucificará, a linguagem que a desenvolve é belíssima. Mia Couto consegue juntar à candura da narrativa de uma criança, ou das falas das gentes do interior moçambicano, a poesia complexa das coisas simples.

O resultado é muito bom.

Nota: Só para que conste; o livro é bom. Tão bom que despertou a cobiça de alguém que se apropriou indevidamente dele e o levou de cima de uma arca frigorífica de um pequeno mercadinho onde o havia pousado enquanto escolhia umas cerejas brilhantes e carnudas que, da montra, chamaram por mim.

Realmente eram boas, as cerejas, mas lá que ficaram caras, também é um facto. É que me custaram o preço delas mais o de outro exemplar do livro pois fiquei irritada e impaciente a escassas 17 páginas do final.

Ao menos que quem o levou se console com a sua leitura…. Eu consolei-me, com ele e com as cerejas.